« Cuidado com as manif's | Entrada | Boa noite. »

junho 28, 2004

O (des) prestígio.

Passei o fim-de-semana todo em estado de sítio, como todos vocês aí, suponho.
Confirma-se a loucura. Aquilo com que ironizei há duas semanas torna-se a realidade.
O Durão Barroso foi convidado para presidente da Comissão Europeia. Não restam muitas dúvidas de que vai aceitar. A sua sucessão levanta a polémica. Como não podia deixar de ser, nada é normal em Portugal!
Já percebi que por ai estão todos muito mais preocupados com a hipótese de o Pedro Santana Lopes chegar a Primeiro-Ministro do que com o que está a acontecer ao Durão. Até já ouvi muitas pessoas dizerem que não querem saber para onde ele vai, desde que vá, e que até esperam que faça um bom trabalho. Até já ouvi dizer que isto é excelente para Portugal, que nos dá prestígio, etc. e tal.
Não podia concordar menos.
Primeiro, isto não dá prestígio a Portugal.

Desde logo, pela maneira como o convite foi feito, e pela razão por que o foi.
Basta ler a imprensa estrangeira, onde Durão Barroso é várias vezes qualificado como o “menor denominador comum”, para perceber que o homem não está a ser escolhido pela sua competência, muito pelo contrário: está a ser escolhido porque não incomoda ninguém, é indiferente a todos. Não desperta ódios nem amores, e um líder fraco no seu próprio país, de quem se espera que não venha levantar muitas ondas por estes lados. A importância que lhe dão pode ver-se desde logo pelo facto de o eixo franco-alemão apoiar a sua candidatura, apesar de Durão sempre ter apoiado Bush na questão do Iraque. Enquanto a França e a Alemanha dirigiam as mais duras palavras ao Reino Unido e a Espanha, Portugal sempre ficou de fora – sem importância sequer para ser criticado. Ainda no outro dia, a falar com um colega de trabalho sobre isto, deu para perceber que, aqui, Durão foi apenas o anfitrião das Lajes, e ninguém sabe que Portugal tem GNR no Iraque. Acho que isto já quer dizer alguma coisa.
O nome de Durão Barroso surge num cenário de última alternativa, depois do ultimato do PPE, de que a maioria no Parlamento Europeu nunca aceitaria um candidato que não fosse da sua “cor” politica. E só fazer as contas, olhar para as pessoas que recusaram desde logo, e chegamos ao nome do Durão. Ė o fim da lista, o último nome que não incomoda ninguém.
Depois, porque Durão o vai aceitar, apesar de ter de estar consciente dos factos relatados acima. Nunca tomaria a mesma decisão que o Primeiro-Ministro do Luxemburgo, por exemplo, que foi convidado primeiro, mas recusou, dizendo estar a meio do seu mandato e ter um compromisso com os seus eleitores. Durão Barroso mostra bem a matéria de que é feito aqui, pondo os seus interesses pessoais à frente dos interesses do seu Governo, do seu partido e do seu País.
Aliás, este convite vem como leite no mel para Durão, depois das eleições europeias terem deixado bastante claro que os portugueses já não acreditam nele, nem no seu programa, nem no seu Governo. Este convite dá-lhe a hipótese de fazer uma saída pela porta da frente, quando já se preparava para ter de fazer uma saída de fininho, pela porta dos fundos – se não agora, no máximo daqui a dois anos. Só um homem com convicções profundas na rectidão das suas opções, com um forte sentido de compromisso e de missão recusaria este convite – e esse não é definitivamente o Primeiro-Ministro que temos.
Finalmente, porque o presidente da Comissão Europeia tem mais funções protocolares do que outra coisa. O que ele faz é distribuir pastas pelos Comissários, abrir sessões, apertar mãos e viajar de um lado para o outro a representar a Comissão. Ou pelo menos é o que tem acontecido com os últimos presidentes, desde que deixaram de ser escolhidos por razões de competência mas por meras conveniências políticas.
Ou seja, Portugal não vai retirar nenhuma vantagem disto a não ser, talvez, um bocadinho mais de notoriedade, o facto de ser mais fácil de identificar no mapa. Mas claro, estas coisas tem sempre dois lados, há sempre um reverso da medalha: é que a actuação de Durão vai reflectir-se no país, e estas coisas já se sabe como são: se ele fizer um bom trabalho reflecte-se pouco - é o seu mérito pessoal -, e se ele meter água – bem, claro, os portugueses são mesmo assim…
Aliás, estou convencida que esta situação já se está a reflectir negativamente na imagem de Portugal.
Falemos sinceramente: mas cabe na cabeça de alguém que o Primeiro-Ministro de um país abandone o cargo para o qual foi escolhido pelos eleitores (indirectamente, é certo, vota-se para escolher os deputados da Assembleia da República e não o Governo… mas enfim, toda a gente sabe que isto é mais teoria do que outra coisa – quando lá vamos pôr a cruzinha, estamos a pensar no próximo Governo… e somos induzidos a isso pela própria campanha eleitoral) para ir aceitar um outro que lhe é oferecido e no qual não se vislumbra como poderá servir o interesse dos que nele votaram – alias, não o pode mesmo fazer… passará a ter de proteger os interesses da Comissão e não de Portugal -? Ė que não cabe mesmo na cabeça de ninguém…
Mais uma vez estamos a fazer a figura de desgraçadinhos, de país para o qual é mais importante o presidente da Comissão Europeia do que o próprio Primeiro-Ministro.
Continuamos a ser o país invisível, até para os nossos líderes.
Por isto, não consigo regozijar-me, como algumas pessoas, com o convite feito a Durão. Vejo-o mais como uma humilhação do que como um sinal de prestigio. Mais como um sinal de perigo do que outra coisa – quando os líderes começam a ser escolhidos desta forma, eu, pelo menos, fico preocupada…
Por outro lado, não me parece que retiremos alguma vantagem disto no plano interno, muito pelo contrário – não acredito que o Presidente da República marque eleições antecipadas, por isso, tudo o que vamos conseguir é a continuação deste Governo e da sua política, com outras pessoas a dar a cara. Sinceramente, olho para a alternativa, e nenhuma me parece muito promissora – não existe ninguém no PSD, neste momento, que eu gostasse de ver à frente dos destinos do país…
Mas disso falarei talvez amanhã, se ainda conseguir falar deste assunto.
Estou demasiado cansada hoje…

Afixado por M. Butterfly em 28 de junho de 2004, às 20:00

Afixadelas

Olha M. não o ouviste, com certeza, mas olha que o Marcelo disse mais ou menos isso, ontem no comentário semanal. Referiu que a Comissão não era assim uma honra taão grande, que o Luxemburgo tinha dito Não, obrigada! e o Durão estava a defender a sua vida pessoal em detrimento da partidária.
E de facto qualquer das hipóteses perfiladas não são famosas.

Afixado por Emiéle em 28 de junho de 2004, às 20:36

o que tu disseste ando eu a dizer há uns dias aos amigos e conhecidos.mas o mais espantoso é que tendo falado com pessoas titulares de cargos politicos logo qd. a coisa estalou,tenha ouvido comentários do género"Há pessoas com muita sorte"E não era nanhuma ironia nem nenhuma apreciação a uma solução para o desgaste politico de Barroso.Agora tu que estás em bruxelas e sabes de certeza como ascoisas se processam,como achas tu que aqui se vai falar de Constituição europeia,por exemplo?A.B.

Afixado por A.B. em 28 de junho de 2004, às 20:58

o que tu disseste ando eu a dizer há uns dias aos amigos e conhecidos.mas o mais espantoso é que tendo falado com pessoas titulares de cargos politicos logo qd. a coisa estalou,tenha ouvido comentários do género"Há pessoas com muita sorte"E não era nanhuma ironia nem nenhuma apreciação a uma solução para o desgaste politico de Barroso.Agora tu que estás em bruxelas e sabes de certeza como ascoisas se processam,como achas tu que aqui se vai falar de Constituição europeia,por exemplo?A.B.

Afixado por A.B. em 28 de junho de 2004, às 20:59

Emiele, acho piada a que o Marcelo tenha dito a mesma coisa. Infelizmente, aqui nao posso ouvir o comentario semanal dele (nao temos TVI) mas era algo que em Portugal nao perdia... Nem que fosse so para apreciar a tecnica do homem de dar a volta ao texto quando lhe convem... O que e que ele diz em relacao ao PSL e a sucessao do Durao? Tenho uma certa curiosidade em saber se se esta a "por em bicos de pes"...

Quanto ao que tu dizes, AB, realmente, ha um certo fio condutor para os comentarios que os portugueses fazem em situacoes destas... Mas nao deixam de ter razao, bolas! Para ele e mesmo a sorte grande! E o que mais me embrulha o estomago no meio disto tudo e que o homem deixa o pais de pantanas, e vem para aqui para um cargo de grande visibilidade e de pouca dificuldade, onde, a nao ser que faca a mesma porcaria do costume, so vai colher louros - basta que se contenha um bocadinho, mantenha o low profile, e esta safo! Entretanto, o Vitorino volta para portugal, para o desemprego. A injustica latente nisto tudo tira-me do serio! E sobretudo tira-me do serio que os lideres sejam escolhidos desta maneira! Mas que mundo e este??

Afixado por M. em 29 de junho de 2004, às 09:18

Quanto a Constituicao europeia e ao debate sobre ela, estou convencida que vai ser a boa velha maneira portuguesa: tricas, intrigas e muito pouca informacao. Todas as grandes questoes serao diluidas por questoes de popularidade pessoal e partidaria...

Afixado por M. em 29 de junho de 2004, às 09:19

M- Não, desta vez não há "bicos de pés". Deu a tal volta com muita classe. Sem dizer mal do outro, insistiu que apenas o Congresso do Partido tinha legitimidade para se pronunciar. E reforçou muito o papel do Sampaio, um pouco no sentido de "deixem-no trabalhar", dizendo que se há um PR é mesmo para estes casos. Claro que nas entrelinhas se via que não suporta o PSL, mas isso é conhecido. Por palavras, não fez a menor crítica.

Afixado por Emiéle em 29 de junho de 2004, às 09:56

Bem,o Vitorino para o desemprego não será bem assim.O que talvez aconteça é ele não querer os possiveis empregos que estejam na cabeça deste PS.E fará bem .Quanto ao "Eldorado" bruxelense para Durão a razão do meu comentário é que existe uma casta de "politicos"para quem a politica é só um meio de ascenção pessoal.O que me assusta é caucionar isso através do voto.A.B.
P.S.Não sei há quanto tempo trabalhas aí mas se é este o primeiro ano aconselho-te vivamente um desporto quando recomeçar o Parlamento.Vai para a Av.Louise ver os "tugas"a enfiar nas lojas que nem loucos para mobilar as casinhas.è digno de ser visto.A.B.

Afixado por A.B. em 29 de junho de 2004, às 10:34

Imagino o espectaculo, AB... Sim, e o primeiro ano, e vou seguir o teu conselho desportivo... Ja agora, mais esta deixou-me ainda mais curiosa: viveste muito tempo em Bruxelas? E que pelos teus comentarios parece mesmo que assim foi...

Afixado por M. em 29 de junho de 2004, às 10:41

Só um àparte: não há TVI em Bruxelas?
Here I go...

Afixado por Rogério da Costa Pereira em 29 de junho de 2004, às 11:58

Não vivi mas estive muitas vezes.As suficientes para ver perceber e tirar conclusôes.A.B.

Afixado por A.B. em 29 de junho de 2004, às 12:24

Agora em relação ao post: muito bom. Parabéns!

Afixado por Rogério da Costa Pereira em 29 de junho de 2004, às 12:24

Ja agora, AB, so para acrescentar... falas de uma casta de politicos para quem a politica e so uma forma de ascensao pessoal... Olha que ha muitos anos que nao vejo politicos diferentes, e esta cada vez pior...
Mas e o proprio sistema que propicia isto, que exista uma "carreira" de politico... Basta olhar para a quantidade de deputados que vao para o parlamento directamente saidos, ainda fresquinhos, dos bancos da Universidade, onde se andaram a espojar apenas como pretexto para, atraves das associacoes de estudantes, se tornarem alguem numa qualquer juventude partidaria...

Afixado por M. em 29 de junho de 2004, às 14:32

Rogerio, obrigada...
So nao comeces ja a fazer as malas... Nao e que eu nao te queira ca, mas olha que, se nao temos TVI, temos igual ou pior... A unica vantagem e que falam flamengo, e por isso nao percebes o que eles dizem... Mas pela imagem, o teor dos programas deve ser equivalente...

Afixado por M. em 29 de junho de 2004, às 14:37

Pois é, a nossa A.B. é das mulheres mais viajadas que conheço. Para além disso é de longe a mais observadora ! Tem um espírito aguçado como poucas. Mas quanto a Bruxelas tem uma relação especial e conhece-a particularmente bem, assim como Paris. Podes aconselhar-te com ela, M., que é de confiança.

Afixado por Emiéle em 29 de junho de 2004, às 15:26

Que maravilha!!
Vou com certeza aproveitar o conhecimento! Logo Paris e Bruxelas - que coincidencia!

Afixado por M. em 29 de junho de 2004, às 16:20

BlogRating online