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agosto 31, 2004
Sobre a gnose cristã...
Antes de principiar, queria deixar aqui um agradecimento profundo ao meu amigo Rama Coomaraswamy, sem a ajuda do qual eu nunca teria tido acesso ao texto que abaixo transcrevo.
Queria deixar umas breves linhas sobre a questão da gnose cristã, ou seja, do facto do Cristianismo ser uma via de Conhecimento, sem que isso implique qualquer tipo de nuance herética (vulgo "gnosticismo"). Obviamente, tratar correctamente este tema complexo exigiria conhecimentos que não possuo e um espaço que não se adequa à natureza de um blogue.
René Guénon é o intérprete ocidental moderno mais competente em matérias
de rigor doutrinal (qualquer que seja a doutrina tradicional) e de simbolismo tradicional. Contudo, René Guénon não era perfeito (nenhum homem o é), e a sua obra, nalguns aspectos, deixa transparecer esta imperfeição.
A sua maior falha, para aqueles que conhecem a sua obra, é relativa ao Cristianismo, mais concretamente ao Catolicismo. Segundo Guénon, o Catolicismo, pelo menos desde a Idade Média, deixou de oferecer vias autênticas de iniciação. Guénon afirma mesmo que a Metafísica total está practicamente ausente do pensamento católico, e se os escolásticos recuperaram alguma da Metafísica de Aristóteles no auge da intelectualidade medieva, Guénon não deixa de afirmar que a Metafísica exposta pelo próprio estagirita estava já eivada de limitações, sobretudo no que diz respeito ao facto de Aristóteles não considerar o Não-Ser (Guénon afirma isto num contexto doutrinal hindu, mais concretamente do ponto de vista shivaíta do "Advaita Vedanta", ou seja, "Vedanta da Não-Dualidade"), ficando-se então por uma Metafísica fundada apenas no Ser, que segundo Guénon, não diverge muito de uma simples ontologia. Segundo Guénon, esta limitação no que toca a temas metafísicos, que segundo ele é uma limitação da própria cultura ocidental, faz com que a Teologia católica fique fortemente limitada a um domínio ontológico, não alcançando a transcendência metafísica total (por exemplo, a presente no "Advaita Vedanta" hindu, ou no Taoismo).
Qual é então o problema em questão, para resumir?
É que os católicos, que ganham muito com a obra de Guénon (que lhes oferece segurança e rigor em matérias de doutrina e inigualáveis paralelos entre a doutrina católica e as restantes doutrinas tradicionais), ficam sempre aparentemente "a perder" no que toca a um seguimento das ideias de Guénon. Porque o próprio Guénon não confere ao Catolicismo um valor igual ao que confere, por exemplo, ao Islamismo, ao Taoismo, ou ao Hinduismo.
É então que são sábias as palavras de alguns dos comentadores de Guénon, entre os quais quero destacar o budista (nascido no Ocidente) Marco Pallis, que com este breve trecho, traz uma luz valiosa a esta questão delicada da gnose cristã e do legado guénoniano:
"Once one recognizes the integral character of Christianity, it becomes legitimate and useful to deliberate on the particular modalities of this tradition. It is clear, for example that Christian spirituality, while in no way excluding any intellectual quality, remains in general of a bhaktic nature. It is a “Way of Love” comparable under certain aspects to Vaishnava spirituality in Hinduism. - Its own perfect spirituality and originality, it is useless to stress, is in no way compromised by this comparison. But the end of Christian Gnosis corresponds in a general manner to what the Hindus designate as parabhakti, Transcendent Love, which as such rejoins the Way of Knowledge at the precise point where were it is no longer possible to distinguish one from the other. Having come to this point one can freely admit that the Christian religion cedes nothing to the other religions with regard to the number and the degree of eminence of her saints, those who like Master Eckhart or St. Denys the Aeropagite, which conform to the type of sage that one would call a pure jnanins, are comparatively few. And this is as one would expect in a section of humanity where the contemplative element is much less in evidence than the active element. However, the number attributed to each of these genres in no way affects the question of qualification and in every manner the sanctity a very high degree of intelligence is implied, even though the nature of realization of each person can be different on one or the other specific point." - Marco Pallis, "Supplementary Notes on Christian Initiation".
Os interessados poderão pedir-me este artigo por mail, que é extenso, mas que permite uma melhor percepção do tema tratado e dos fortes argumentos de Marco Pallis. A leitura deste artigo tão elucidatório permite, desde logo, erradicar os ataques perpetrados contra a obra guénoniana por católicos que afirmam que Guénon propagou a heresia gnóstica.
Distinguir "gnosticismo" de "gnose cristã" é uma tarefa fundamental na mente de qualquer católico simpatizante com a obra de René Guénon.
Assim, atiram-se facilmente para as urtigas as patetices ressaibiadas emitidas por alguns personagens anti-Guénon que, mesmo praticando um genuíno esforço em defesa da doutrina católica, pisam injustamente a obra de Guénon devido a uma fortíssima incompreensão, não só do alcance do legado guénoniano, como também (e o que é mais importante) das essenciais nuances relativas às imperfeições da obra de Guénon, e das ilacções que se devem tirar a este respeito.
Afixado por Bernardo Motta em 31 de agosto de 2004, às 21:59
Afixadelas
Muito interessante este post.
Parabéns.
Afixado por ecce pessoa em 1 de setembro de 2004, às 04:41
"Segundo Guénon, o Catolicismo, pelo menos desde a Idade Média, deixou de oferecer vias autênticas de iniciação."
Explica-me uma coisa, bernardo. Estas vias autênticas de iniciação traduzir-se-iam em quê, exactamente?
Afixado por Monty em 1 de setembro de 2004, às 11:43
Isso para já nem perguntar a que corresponde na realidade e para lá da fantasia, esse "graal" da tal "Iniciação".
Andar às voltas com estas intrincadas comparações inter-religiosas é mais ou menos como estudar xadrez a fundo: é do mais interessante que há mas nada tem de comum com a realidade humana.
Afixado por Luis Rainha em 1 de setembro de 2004, às 15:40
Podes mandar-me o texto? Agradecia. Faço tensão de fazer na U.de Lisboa, em Setembro e Outubro um cursosito sobre as principais religiões monoteisteas, e vai-me ajudar pela certa.Fj.
Afixado por Fernando Baeta Neves em 1 de setembro de 2004, às 15:46
Luis, não concordo contigo, desta vez, aliás, mais uma vez. ;)
Muito disto pode ser transposto para a vida real. De resto, uma das minhas birras com a religião é não conseguir compreender algum dos seus fundamentos. Tudo o que me ajudar é bem vindo.
Afixado por Monty em 1 de setembro de 2004, às 16:23
Olá a todos,
Obrigado pelos comentários.
Começando pelo Luís Rainha,
«Isso para já nem perguntar a que corresponde na realidade e para lá da fantasia, esse "graal" da tal "Iniciação".»
Mas porque não perguntar?
É que, de facto, a Demanda do Graal está associada directamente com a questão dos Pequenos Mistérios platónicos (a também chamada "iniciação real", em oposição à "iniciação sacerdotal" ou Grandes Mistérios).
O Graal é a perfeição do estado humano. É a etapa final dos Pequenos Mistérios. Aquele que procura o Graal está na busca do estado pré-Queda, ou seja, do estado adâmico antes do Pecado Original.
São conceitos fortemente ligados.
Podemos também falar, por exemplo, de outras simbologias. O Graal está associado indiscutivelmente com a ingestão de "bebidas de imortalidade", sendo que obviamente a imortalidade não é a do corpo mas sim a da alma. O "amrita", quando bebido, conferia esta imortalidade da alma, que é também a "recompensa" do "trovador" ("troubador", "achador", quem procura) do Graal.
Doutrinalmente, como define Guénon os Pequenos dos Grandes Mistérios?
Da seguinte forma: os Pequenos Mistérios têm como objectivo o alcance da plenitude máxima do estado actual do ser, que no caso do ser humano, é a plenitude do Homem. O que o Taoismo designa como o Homem Universal.
Necessariamente, a plenitude do ser humano é atingida no "centro" do seu estado actual. O uso de linguagem geométrica é necessário, à falta de algo melhor e mais adequado à nossa compreensão, que necessita sempre de uma base empírica.
É a partir da obtenção deste "estado primordial" (que era simbolicamente o estado de Adão antes da Queda), que, estando "posicionado" no centro do seu estado actual, o Homem pode ambicionar a "subida" aos estados superiores do ser, o que só é conseguido mediante a iniciação nos Grandes Mistérios.
Várias questões se colocam.
O que é, então, a iniciação. Respondê-lo seria impossível num espaço tão pequeno. Sugiro o "Aperçus sur l'Initiation" de René Guénon.
A iniciação é a obtenção de um estado espiritual superior ao estado individual humano no qual todos nascemos. Como vimos, desde tempos imemoriais que o homem separa a iniciação nos dois tipos que referi.
E o catolicismo? Ainda o faz?
O meu artigo queria, precisamente, levantar um pouco esse véu. Nos moldes em que pode ser criticável a base metafísica que sustenta ainda a doutrina católica, é natural assimilar o sacramento da ordenação a um tipo de "iniciação sacerdotal" nos Grandes Mistérios.
E em relação aos Pequenos?
Bem, na Idade Média tinhamos organizações que permitiam essa iniciação, como os Fiéis de Amor, à qual pertencia, por exemplo, Dante. Os "pedreiros-livres", durante muito tempo, conferiram essa iniciação. A Maçonaria verdadeira nasce com eles. Posteriormente degenerou, deixando mesmo de ser "operativa" (ou seja, capaz de conferir uma iniciação e realização efectiva, em "acto") para passar a ser "especulativa" (ou seja, conferindo, no máximo uma iniciação em "potência", visto que o conhecimento é transferido em reflexo - "speculum" é "espelho" em latim - ou seja, indirectamente). Claro que durante uns tempos, a Maçonaria manteve as duas vertentes operativa e especulativa, enquanto as lojas ainda possuiam membros capazes de iniciarem os aderentes de forma efectiva.
Por fim, a Maçonaria, que teria ficado praticamente sozinha como única organização a poder conferir a "inciação real", terminou por se perverter totalmente, com o surgimento das lojas "irregulares", que já nada têm de verdadeiramente maçónico, a não ser uma imitação puramente simiesca de rituais incompreendidos.
No que toca ao carácter iniciático (ou não) dos sacramentos católicos, isso levantou muita celeuma entre René Guénon e um seu próximo seguidor, Fritjof Schuon, sendo que este último defendia o carácter iniciático dos sacramentos católicos, contra a opinião firme de Guénon, que o negava terminantemente.
A questão é complexa. Eu penso que Guénon, devido a limitações suas, e julgo eu de forma totalmente honesta, se enganou redondamente no que toca à questão da iniciação num contexto católico.
Marco Pallis, com o seu artigo (do qual apenas citei apenas uma parte pequeníssima), lança precisamente luz sobre esta questão delicada e vital.
Assim, inevitavelmente, concordo totalmente com o que diz o Monty. Se isto não influenciasse a minha vida, nunca perderia tempo com estes assuntos. Parece-me que não haverá actividade intelectual mais essencial para um ser humano do que procurar a compreensão de Si mesmo, do Mundo em que vive, e da razão da sua existência.
Abraço a todos!
Afixado por Bernardo Sanchez da Motta em 1 de setembro de 2004, às 19:35
Vais desculpar a minha sinceridade; mas julgo eu que estas questões iniciáticas acabam sempre por descambar em frases como "da plenitude máxima do estado actual do ser, que no caso do ser humano, é a plenitude do Homem " ou "A iniciação é a obtenção de um estado espiritual superior ao estado individual humano no qual todos nascemos". Isto, convenhamos, encerra mui pouco significado.
Afinal, o que é um "estado espiriual"? E como se afere a "superioridade" de um sobre outro?
E a questão dos "Mistérios", como sabes bem, já era parte fundamental do Mitraísmo... e não me parece que a tal mitologia se possa conceder grande seriedade ou profundidade.
Continuo com a ideia que se trata de uma floresta intrincada e belíssima, mas muito, muito longe de qualquer resposta às famosas questões ontológicas fulcrais.
Afixado por Luis Rainha em 2 de setembro de 2004, às 11:19
Vais desculpar a minha sinceridade; mas julgo eu que estas questões iniciáticas acabam sempre por descambar em frases como "da plenitude máxima do estado actual do ser, que no caso do ser humano, é a plenitude do Homem " ou "A iniciação é a obtenção de um estado espiritual superior ao estado individual humano no qual todos nascemos". Isto, convenhamos, encerra mui pouco significado.
Afinal, o que é um "estado espiriual"? E como se afere a "superioridade" de um sobre outro?
E a questão dos "Mistérios", como sabes bem, já era parte fundamental do Mitraísmo... e não me parece que a tal mitologia se possa conceder grande seriedade ou profundidade.
Continuo com a ideia que se trata de uma floresta intrincada e belíssima, mas muito, muito longe de qualquer resposta às famosas questões ontológicas fulcrais.
Afixado por Luis Rainha em 2 de setembro de 2004, às 11:20
Desculpem lá a repetição; é no que dá passar de um comentário a outro e depois fazer "reload"...
Afixado por Luis Rainha em 2 de setembro de 2004, às 11:22
Luís,
A tua suspeição face à minha linguagem só pode vir de uma ideia pré-concebida que todos temos (eu próprio a tinha) em relação aos termos empregues.
Deves achar que tudo isto anda pouco longe da astróloga Maya.
Enganas-te.
Peço-te que consideres seriamente a leitura integral da obra de Guénon. Nada volta a ser o mesmo depois disso. O rigor doutrinal da obra de Guénon, à parte de alguns detalhes importantes (dos quais eu citei a gnose cristã), é quase inatacável e dificilmente refutável:
Introduction générale à l'étude des doctrines hindoues
Le Théosophisme, histoire d'une pseudo-religion
L'Erreur spirite
Orient et Occident
L'Homme et son devenir selon le Védânta
L'Esotérisme de Dante
Le Roi du Monde
La Crise du monde moderne
Autorité spirituelle et pouvoir temporel
Saint-Bernard
La Symbolisme de la Croix
Les Etats multiples de l'être
La Métaphysique orientale
Le Règne de la quantité et les signes des temps
Les Principes du calcul infitésimal
La Grande Triade
Aperçus sur l'Initiation
Initiation et réalisation spirituelle
Aperçus sur l'ésotérisme chrétien
Symboles fondamentaux de la Science sacrée
Études sur la Franc-Maçonnerie et le Compagnonnage - vol. I
Études sur la Franc-Maçonnerie et le Compagnonnage - vol. II
Études sur l'hindouisme
Formes traditionnelles et cycles cosmiques
Aperçus sur l'ésotérisme islamique et le taoïsme
Comptes rendus
Mélanges
Um abraço!
P.S: Tudo o que digo e escrevo só será correctamente contextualizado por pessoas com conhecimento, nem que superficial, da obra e do legado de René Guénon. Senão, tudo parecerá "mumbo jumbo" New Age, do pior... A culpa deste estado das coisas é da deturpação perpetrada pela mente ocidental moderna a conceitos muito antigos e profundos.
Afixado por Bernardo Sanchez da Motta em 2 de setembro de 2004, às 11:50
Acho que tens a Maya em muito elevada estima, para a considerares apta a entender palavras polissilábicas...
Sei que falo com o distanciamento de um cepticismo desmedido; mas já será um bom começo se perceber o que entendes por "estados espirituais" e suas hierarquias.
Eu, por acaso, até sou um amador entusiasmado da teologia católica; mas apenas enquanto "jeux d'esprit" - nada daquilo me parece remotamente "real"...
Afixado por Luis Rainha em 2 de setembro de 2004, às 15:18
Sim, exagerei com aquela história da Maya! ;)
Acho que o texto ideal para continuarmos esta conversa, caro Luís, é a tradução que eu fiz de um artigo de Guénon sobre a Língua dos Pássaros.
Podes encontrá-lo no fundo da página:
http://terradaalegria.blogspot.com/2004_07_19_terradaalegria_archive.html
Assim que puderes, lê-o, e depois continuamos a conversa. Acho que o artigo em questão é o ideal para te dar uma ideia da forma como Guénon apresenta estes conceitos. Mas ele fala do assunto em inúmeras obras, pelo que poderemos retomar a conversa mais tarde.
Um abraço!
Afixado por Bernardo Sanchez da Motta em 2 de setembro de 2004, às 17:21
Oi amigo, eu gostaria de receber o texto que citas neste post. Um abraço.
Afixado por Junior em 13 de outubro de 2004, às 14:25
