« Lógicas...(II) | Entrada | Puta de azia! »

setembro 27, 2004

Violência contra as Crianças

Os recentes e mediáticos acontecimentos de Portimão vieram agitar muitas águas estagnadas. Por um lado os ânimos muito exaltados de pessoas que, com as notícias que iam ouvindo e conclusões tiradas à pressa, poderiam fazer um linchamento com a maior facilidade. E, ouvindo algumas dessas pessoas, poderíamos perguntar como fez o Boss * como é que só agora é que se lembraram de que existiam maus tratos. Por outro, este caso sendo profundamente chocante, é a parte visível do iceberg. Ocorrem ainda, e em países do "primeiro mundo", mais casos do que o nosso optimismo poderia imaginar! Segundo este artigo «não houve necessariamente uma retracção da violência praticada contra os menores mas um avanço da Medicina, que impediu a morte de muitas crianças vítimas de maus-tratos». É assustador. Isto porque os dados dizem que se contam 3.500 casos de morte por maus tratos mesmo em países industrializados.
Para além de um aspecto que não podemos esquecer - a violência invisível, que não deixa marcas físicas. E essa encontramo-la por todo o lado. De casa à escola, entre colegas, até quando se vai a um Centro de Saúde ou hospital. A criança esquecida, ridicularizada, humilhada, abandonada afectivamente, é alguém que sofre e muito. Quantos professores não conheço que embora sem baterem ( é proibido) humilham os alunos de um modo lamentável. Crianças doentes que vão a uma consulta e para além de esperarem horas, são recebidas à pressa, tratadas como objecto. Meninos que no seu grupo de pares são ridicularizados por qualquer diferença ( gaguez, estrabismo) de modo a se fecharem sobre si mesmo e se deprimirem. Tantos e tantos casos...
Ouvido há dias, na boca de uma mãe: "Desde que vocês nasceram que nunca mais tive alegria na vida!" Frase que me disseram, repetida frequentemente. Querem maior violência ?
E esta espiral de violência é gravíssima porque dizem os especialistas que alguém agredido sistematicamente na infância tem mais probabilidades de se tornar, por sua vez, um adulto agressor. Entramos assim em roda livre.

[o Boss deu um esclarecimento, que quando escrevi o rascunho do post ainda lá não estava; mas a essência perdura ]

Afixado por Emiéle em 27 de setembro de 2004, às 17:15

Afixadelas

Bom post! : ) Concordo com o que a emiéle diz. Faz pensar!

Afixado por Johnny em 27 de setembro de 2004, às 20:23

Chocante e muito verdadeiro.
Revolta ver os abutres que agora parece rondarem por Portimão, mas se calhar em casa nem um beijo dão aos filhos. Esta violência é o máximo, na escala, mas não esconde a de que falas e é gravíssima!

Afixado por Ana em 27 de setembro de 2004, às 22:06

Emiéle,

Quando diz "quantos professores não conheço que embora sem baterem (é proibido)" fico a pensar que não sabe do que fala...

É proibido? Vá dar uma volta pelo www.saladosprofessores.com, entre no fórum, escolha o fórum geral, vá à pág. 2, e leia o tópico "pais podem punir filhos com suavidade". Vai ver quantos professores confessam baterem nos alunos, nos filhos, e como aconselham a que todos façam o mesmo.

Afixado por fatima em 28 de setembro de 2004, às 12:03

Fátima
1º Obrigada pelo conselho. Sinceramente. Não conhecia o site e é mesmo de frequentar e ver o que lá se passa.
2º quanto à minha frase, digamos que eu quis ser ..."politicamente correcta". Não me pareceu bem confirmar que há mesmo gente que voluntariamente não cumpre as normas que deve conhecer e aceitar. Mas, é claro que sei que isso se passa. Tenho todo o respeito pelos professores como classe, mas há casos de bradar aos céus! Já perdi algumas batalhas, mesmo graves, nessa luta. E é chato porque depois apanham todos pela mesma medida, o que é muito injusto.

Afixado por Emiéle em 28 de setembro de 2004, às 14:00


É, de facto passam-se situações de bradar aos céus. Mas nem todas as batalhas são perdidas. Esse site, por ex, tinha um link no Ministério da Educação. Após o tópico acima mencionado, foi retirado.

São pequeninas vitórias, que não contam só por si, mas pelo menos para demonstrar que há gente que se preocupa com a violência sobre crianças. Talvez, aos poucos, se vá construindo um Mundo melhor...

Afixado por fatima em 28 de setembro de 2004, às 17:50

Creio firmemente nisso. Podem ser pequenos passos e por vezes há recuos, mas vamos avançando na direcção certa. A verdade é que hoje nem se discute que os pais não são "donos" dos filhos, mas se recuarmos uns séculos... Para além de todos os Direitos da Criança e a respectiva Convenção, que também não eram imagináveis há uns séculos. Sabemos todos que não são cumpridos, mas o estarem registados e os países terem assinado é um reconhecimento de que são justos.
Falta agora todo o resto.

Afixado por Emiéle em 28 de setembro de 2004, às 18:30

Post muito bem escrito, Emiéle. São estes que eu mais aprecio, apesar de também gostar dos outros, de brincadeira. Mas o chamar a atenção para factos como estes é muito importante.
A frase "Desde que vocês nasceram que nunca mais tive alegria na vida!" é de nos deixar K.O. Como é possível??!! já nem é violência, é já terrorismo!

Afixado por Estrela do Mar em 29 de setembro de 2004, às 11:20

Emiéle
Sem querer ser ofensiva, diria que tanto me incomoda o carnaval nas tvs, como o olhar simplista da classe média sobre este caso. deixo-te aqui o comentário que deixei ao Boss e pedindo desde já desculpa pela pouca clareza com que foi escrito.
Abraço blogueiro

Afixado por GIN em 29 de setembro de 2004, às 23:25

Discordo com o que é dito neste post.
A violência doméstica e as reacções que temos perante elas são muito complexas. Percebo, porque sinto o mesmo, que o que temos visto na televisão é uma indecência. Transforma-se o drama de uma criança num autêntico carnaval porque as TVs andam na guerra das audiências. São as TVs as culpadas do desencadear do folclore que ali se passa.
De facto, houve queixas. Elas foram arquivadas. Esta é uma realidade que dificilmente levará as pessoas a voltar a apresentar queixa. Não são as pessoas que se estão nas tintas, são as pessoas que sabem que as suas queixas não dão em nada. Assim sendo, quem deveria ser o alvo da nossa indignação, não são as pessoas anónimas mas as Instituições que nada fizeram.
Depois, sabe-se que a violência doméstica que vem a público é a violência dos pobres. A dos ricos só mesmo quando a mulher do Tallon é substituída por um modelo mais novo é que vem a público.
Estes casos de violência extrema, como o de Catarina e Joana, têm origem na miséria económica, social e cultural. Penso que a visão aqui descrita neste post, é a mesma que leva a que a comissão de protecção de jovens e crianças em risco faça exactamente o que fez. Quero dizer com isto, que ao olhar para estas famílias como pessoas cujo comportamento não pode ser entendido como humano e de quem se espera dado comportamento, perde-se a capacidade de ver o que deve ser visto. Por isso estas equipas deveriam ser constituídas por profissionais bem treinados. Tirar sem mais nem menos as crianças à família é colocá-las na situação de culpadas. Por estranho que possa parecer estas crianças têm laços fortes com as famílias, sentem-se culpadas pela forma como são tratadas e tirá-las de casa é sentido como a confirmação da culpa. Por isso, as coisas têm que ser feitas com cuidado e de forma acompanhada. É uma zona complexa. Aqui, uma vez mais, o problema reside no acompanhamento e controle da família. Nos casos de violação, como o de Catarina, ou de qualquer criança violada, têm sido prática comum a decisão de as tirar da família ao mesmo tempo que se permite a continuidade, no seu seio, do violador. O impacto que isso tem na criança é verdadeiramente dramático, ela sente-se culpada dos maus tratos e sente como castigo o ser retirada ao seu meio familiar ou às pessoas que para ela são significativas. A ideia de que a criança maltratada está desejosa de sair da sua família não corresponde à realidade, ou pelo menos à maioria das realidades, por muito que isto choque.

Afixado por GIN em 29 de setembro de 2004, às 23:26

Quanto às questões da adopção (e desculpem alguma pouca clareza mas o comentário está a ser feito mais rápido do que gostaria) penso que são outra conversa, embora perceba porque razão aqui foi focado. De qualquer forma, diga-se em abono da verdade, há poucos casais dispostos a adoptar as Catarinas e as Joanas. A maioria dos candidatos a adopção candidatam-se a bebés ou a crianças muito pequenas.
No que respeita ao abandono escolar, aí teremos que alargar a nossa indignação à forma como as escolas funcionam e à discriminação a que muitas crianças são alvo. A indignação perante este caso escabroso não nos deve levar à "leveza" de análise e ao apontar como os culpados os "elos mais frágeis" da nossa sociedade.

Afixado por GIN em 29 de setembro de 2004, às 23:29

Certo, Gin. Até pode não parecer mas olha que estamos de acordo. Se citei o Boss ( e não os comentários que se seguiram) foi mesmo pelo tal circo mediático. E por isso é que falei no iceberg. Sei muito bem que a violência é transversal e apanha várias classes sócio-culturais. Por esse facto é que tentei puxar a conversa para a violência invisível, que não deixa marcas no corpo e muitas vezes se encontra em meios sociais elevados. Quanto às CPCJ, escrevi mais acima um post sobre isso. São inoperantes muitas vezes, mas a verdade é que não conseguem ter capacidade de resposta para os pedidos que chegam.

Afixado por Emiéle em 30 de setembro de 2004, às 07:28

po meu chocante por um acaso vi a realidade do nosso país.

Afixado por Amanda em 10 de outubro de 2004, às 12:42

po meu chocante por um acaso vi a realidade do nosso país.

Afixado por Amanda em 10 de outubro de 2004, às 12:43

BlogRating online