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dezembro 30, 2004
Da cegueira emocional e outras considerações
De uma forma geral selecciono nos telejornais o que me parece ter interesse informativo e, desligo ou baixo o som, quando passam às entrevistas de pessoas comuns cujas opiniões me interessam muito pouco. Possivelmente por isso, passou-me ao lado a entrevista a uma rapariga que se preparava para embarcar para a Tailândia. Ontem recebi um FW sobre o caso e, aqui pela blogosfera, fui melhor informada. Ela não se deslocava aquelas paragens para ajudar nalguma coisa, não, “ia passar férias, que já estavam marcadas”. E como alguém lhe fizesse um reparo sobre o perigo de ir para ali, ela muito segura de si retorquia que os pais lhe tinham mandado um recado. “Parece que houve um tsunami e umas cenas dessas mas eles estão bem”. Era o que lhe interessava, e sobretudo que não lhe alterassem as suas belas férias. É que já estavam marcadas!
Fica-se estarrecido. Porque é difícil decidir o mais chocante: a profunda frieza até em relação aos pais ( a mensagem deles tirou-lhe as preocupações), a atitude de quem provavelmente não acredita nas notícias ( ou não as vê, o que é difícil pois toda a comunicação social não fala de outra coisa) o desdém sobre o que se passa para além dos seus interesses imediatos, e a estupidez de imaginar que vai ter umas belas férias em locais destruídos e a cheirar a morte.
Isto enquadra-se numa patologia, é claro. É raro encontrar-se um caso tão completo, mas há pessoas que bloqueiam as suas emoções e afectos de modo a só sentirem o que lhes diz muito directamente respeito. Vivem numa redoma emocional, o que se passa à sua volta desliza como água pelas penas de um pato. É uma defesa? E contra quê? Não acredito que uma pessoa dessas viva mais feliz. Porque simplesmente, não vive. Está embalsamada por dentro, é a maior e mais profunda das solidões – deixou de ser humana. Coitada dela!
Afixado por Emiéle em 30 de dezembro de 2004, às 09:48
Afixadelas
Eu não me importava de ser um bocadinho assim.
Afixado por Tesla em 30 de dezembro de 2004, às 10:20
Não acredito, Tesla!
Não conseguias.
Afixado por Emiéle em 30 de dezembro de 2004, às 10:24
Pessoas assim também sempre me espantaram. Não sei como se consegue viver alheado de tudo. Não sei se se é feliz assim. Como tu dizes, não sei se se está vivo,assim.
Conheço algumas...
Falas-lhe que há crianças a morrer de fome e elas respondem-te que o filho está muito bem na escola.
Falas-lhe da tragédia da Ásia e respondem-te que gostavam de ter dinheiro para passar férias na Tailandia.
Falas-lhe dum artigo dum jornal e respondem-te que a Maria casou com o António no Brasil. E que viram os vestidos na Caras.
Perguntas-lhes se viram o Telejornal e respondem-te "Que horror, não. Não tenho tempo p'ra essas coisas. Tenho o jantar para fazer e a loiça para lavar. Só me sento quando começa a Quinta..."
É claro que são raros os casos tão chocantes como o desta rapariga. Mas há muitos parecidos.
Pergunto-me sempre se se trata de egoísmo, puro e simples. Ou de incapacidade total de ver a realidade e de nela viver.Ou porque estão mortas, como tu dizes.
Afixado por isabel sousa em 30 de dezembro de 2004, às 11:05
Creio que uma mistura das 3 hipóteses, com predomínio de "incapacidade total de ver a realidade e de nela viver".
Aliás a resposta do "não ter tempo" dá muito jeito e é muito falsa. Eu sei por mim própria. "Invento tempo" quando preciso dele. para o que sentimos como mesmoimportante há tempo mesmo que falte para outras coisas.
Com essa resposta ( que eu também uso, é claro) no fundo estamos a hierarquisar prioridades, Isabel. Estão no seu direito, é claro. Mas não deixa de ser uma hierarquia de importância, ver a Quinta ou ver o telejornal.
Afixado por Emiéle em 30 de dezembro de 2004, às 11:36
Creio que uma mistura das 3 hipóteses, com predomínio de "incapacidade total de ver a realidade e de nela viver".
Aliás a resposta do "não ter tempo" dá muito jeito e é muito falsa. Eu sei por mim própria. "Invento tempo" quando preciso dele. para o que sentimos como mesmo importante há tempo, mesmo que falte para outras coisas.
Com essa resposta ( que eu também uso, é claro) no fundo estamos a hierarquisar prioridades, Isabel. Estão no seu direito, é claro. Mas não deixa de ser uma hierarquia de importância, ver a Quinta ou ver o telejornal.
Afixado por Emiéle em 30 de dezembro de 2004, às 11:36
A Emiele sabe que eu conheço bem esse estilo:não vejo, não quero ver, ignoro tudo quanto está para lá do meu umbigo.São os amputados afectivos os que usam a defesa (deles)como arma de ataque.Porque é uma forma de agressão essa indisponibilidade para olhar ao de lá do prazeiroso.Mas há outra categoria:a dos "frágeis" os que se elegem como mais sensiveis.Conhecem maior tirania do que a de seres como esses?AB
Afixado por A.B. em 30 de dezembro de 2004, às 18:25
Chiça AB, esses não. O último exemplar desses que conheci bem (demais!!!!)ficou na Golegã com a amazona a reboque...
Tinhas que vir aqui estragar-me as saídas, era???
Afixado por isabel sousa em 30 de dezembro de 2004, às 19:53
eheheheh!!!!
Oh Isabel! Neste momento transbordo de solidariedade! é que essa espécie é mesmo do piorio!
A nossa AB tem uns exemplares do 1º caso que dariam para um estudo, monografia, tese de licenciatura, mestrado, quiçá doutoramento. Por pior que aconteça o seu caso tem logo mais importância porque É SEU !
Mas era um pouco a pensar nisso que eu dizia que no fundo são pessoas muito solitárias. É que quando não se incomodam a pensar e sofrer com os outros recebem o troco na mesma moeda... A vida tem dessas coisas.
Afixado por Emiéle em 30 de dezembro de 2004, às 20:15
Se é,amiga. Só de me recordar ainda se me pôem os cabelos todos em pé!!
Afixado por isabel sousa em 30 de dezembro de 2004, às 21:40
