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janeiro 31, 2005
«Delirium tremens» palmirense

O papa Pio XI (6.II.1922 - 10.II.1939), de seu nome Achille Ratti, o visado das teses revisionistas de Palmira F. da Silva
É inegável o poder da interpretação textual.
Bem feita, pode ser altamente didáctica.
Mal feita, pode servir para uma potente acção de propaganda. Para o controlo das mentes menos informadas, ou menos inquiridoras.
Para que outras pessoas se possam inteirar do teor revisionista (para não usar expressões mais fortes) das "opiniões" de Palmira F. da Silva, aqui ficam duas recentes "lições" suas, retiradas dos comentários que a própria fez ao seu post:
"Na encíclica “Non abbiamo bisogno”, (não havia necessidade...) o Papa Pio XI queixa-se da ingratidão dos fascistas italianos a quem a Igreja Católica, deu todo o apoio, lembrando mesmo que o partido fascista, para se impor num país de cultura católica como a Itália, não deve hostilizar a Santa Sé. E louva a perseguição movida pelos fascistas aos socialistas daquele país."
Compare-se estas afirmações gratuitas com o texto da encíclica, retirado do site do Vaticano (uso links e tudo, hã!):
Pius XI, "Non abbiamo bisogno" (29/06/1931)
Depois, mais à frente, a professora Palmira afirma:
"A mesma linha é seguida na Mit Brennender Sorge... ou seja, Pio XI queixa-se e critica os ditadores a quem a Igreja apoiou e que não retribuem devidamente o favor."
Compare-se agora esta afirmação com o texto da encíclica, retirado do site do Vaticano (uso links e tudo, hã!):
Pius XI, "Mit Brennender Sorge" (14-03-1937)
Bem sei que os textos das encíclicas são longos, e a senhora Palmira F. da Silva escuda-se nisso. Mas ela, mais do que ninguém, utilizadora da Internet na busca incessante de documentação, deveria saber que as encíclicas estão na Web.
Deixo à consideração dos curiosos (porque as divagações do "Diário Ateísta" têm um interesse relativo) a conclusão relativamente às afirmações da senhora Palmira F. da Silva.
«Delirium tremens»?
Ou, o que é bem pior, uma desonestidade intelectual sem limites, em que os fins (uma evidente agenda anti-católica) justificam os meios (a deturpação da história)?
Sou católico convicto, mas sei que é possível defender o ateísmo com rigor e isenção, e sobretudo com erudição histórica e filosófica.
Senhora Palmira F. da Silva, quer que eu passe a redigir os seus "posts" ateístas? Acho que defenderia a causa ateísta com mais honradez e responsabilidade do que a senhora...
Afixado por Bernardo Motta em 31 de janeiro de 2005, às 13:32
Afixadelas
Fica então a minha contribuição para esta discussão, vinda da ICAR dos nossos dias: http://dn.sapo.pt/2005/01/31/opiniao/inquestionavel_odor_decadencia.html (opinião douta de um doutor da Igreja e da Universidade Católica Portuguesa) Haja paciência para meninos de coro!!!
Afixado por hetero_doxo em 31 de janeiro de 2005, às 20:19
Gostaria de saber o que é que a Palmira tem a dizer em relação a este assunto.
Mas infelizmente, depois do Monty ter ameaçado censurar os comentários dela neste espaço por "não gostar da pinta dela", ela recusa-se a vir cá escrever.
Tenho alguma pena...
Afixado por João Vasco em 1 de fevereiro de 2005, às 17:37
João Vasco,
O orgulho ferido fica bem à Palmira.
Mais do que isso, dá-lhe jeito...
Afixado por Bernardo Motta em 1 de fevereiro de 2005, às 19:52
Este Bernardo exige dos outros padrões de comportamento que ele é o primeiro a desrespeitar.
Afixado por Ricardo Alves em 1 de fevereiro de 2005, às 22:29
De uma inteira claque de ateístas do Diário, só comentaram o João Vasco e o Ricardo Alves.
Se calhar, já todos deram por isto, e os mais sérios ou desconfiados já terão até ido ler as encíclicas.
Isto até é fácil, meus caros.
Lê-se o texto das encíclicas.
Depois, lê-se o da Palmira.
Ou pela ordem inversa, é igual.
Depois, basta ver se as conclusões da Palmira batem certo com o texto.
Que raio de contestação é esta, João e Ricardo?
Vocês leram as encíclicas, ou não leram?
Depois de ler as afirmações da Palmira, fui à Internet, encontrei as encíclicas, e perdi tempo a lê-las, de uma ponta à outra.
A minha conclusão?
É a de qualquer pessoa que saiba ler: a Palmira interpretou mal o texto. E estou a ser simpático.
Estou errado? Mostrem-no!
O vosso silêncio (porque estes vossos comentários, João e Ricardo, são totalmente silenciosos) é de cortar à faca!
Ainda estão a debater o que fazer?
Vão ignorar?
O problema é vosso. A careca foi desmascarada. Se não querem defender a vossa casa, isso só vos prejudica.
A Palmira faz birra.
O João acha bem a birra da Palmira.
O Ricardo insiste nos ataques "ad hominem".
Mas a verdade está aqui, com links e tudo!
Como vai ser, caros ateístas?
Afixado por Bernardo Motta em 1 de fevereiro de 2005, às 23:59
Bernardo:
1- Se só eu e o Ricardo respondemos a este post, acho que é mesmo porque só eu e o Ricardo é que o lemos (a "claque" de 10 autores do DA não é muito superior à "claque" de 8 autores deste blogue).
2- Fala num ataque "ad hominem", mas é precisamente aquilo que faz quando diz que a Palmira não vem cá por "não lhe dar jeito". Ela recusou-se a vir cá no momento em que, apesar de ter argumentado com toda a educação, alguém ameaçou censurar os comentários dela por "não gostar da pinta dela".
Eu nem sei se ela tem lido algum artigo vosso a dizer mal dela desde então. Ela simplesmente recusa-se a voltar cá a comentar. Eu não digo que concordo com a atitude dela, mas respeito-a.
Tenho pena que o Bernardo não seja capaz de igual respeito, e insinue (injustificadamente) má fé da parte dela, quando sabe que ela não responderá a essa acusação.
3- Eu NÃO li as encíclicas, nem vou ler. Não tenho tempo.
4- A Palmira leu, diz que elas dizem uma coisa. O Bernardo diz que a Palmira diz uma falsidade. Eu, que não tenho tempo para as ler, apenas poderei saber quem tem razão se a Palmira se pronunciasse perante essa acusação. Por isso é que eu lamento ameaças de censuara que a fizeram ter uma atitude que respeito, mas que acaba por não ser muito esclarecedora para os leitores do afixe.
Afixado por João Vasco em 2 de fevereiro de 2005, às 00:40
Bernardo, não te deste conta de que acabaste de provar aquilo que eu afirmei. O teu «post» é um longo ataque «ad hominem» (canhestro) com dois linques espúrios. Mais nada. Nem a tua opinião sobre as encíclicas, nem excertos destas, nem um único facto concreto. O teu «post» é puro ataque pessoal.
Não comentei porque nada há para comentar que não seja um personagem que acusa os outros de serem mal educados quando ele é sempre o primeiro a insultar. Se não compreendes, substitui «Palmira» por «Bernardo» no «post» e depois lê outra vez.
Afixado por Ricardo Alves em 2 de fevereiro de 2005, às 00:50
"mas que acaba por não ser muito esclarecedora para os leitores do afixe"
João,
Os leitores do Afixe, se calhar, estão-se marimbando para esta discussão.
Passa por aqui tanta gente, que já quase ninguém dará pelo post ou por esta questão.
O Monty fará o que entender nos seus posts, se bem que me parece bem claro que ele nunca baniu a Palmira. Tudo não passa de uma "indisposição" da Palmira para comentar.
Este post está aberto para a Palmira, bem como para qualquer elemento da vossa equipa.
O post é meu.
Eu posso apagar comentários dos meus posts.
Mas eu não vou apagar comentários da Palmira, ou de qualquer um de vocês, a este post.
Faço parte do Afixe desde Setembro, e nunca o Monty apagou qualquer comentário dos meus posts (ele pode fazê-lo), sem me consultar primeiro, e apenas em casos muito excepcionais, diria mesmo patológicos.
Sinceramente, gostaria de saber o que a Palmira tem a dizer sobre esta questão, porque ou ela não leu as encíclicas (o que é grave), ou leu-as (o que ainda é mais grave).
As afirmações que ela faz, caro João Vasco, são muito graves e infundadas. Há muita gente a ler o vosso diário, que sairá equivocada da leitura dessas afirmações da Palmira.
Achas bem que se enganem pessoas?
Se calhar, a ti, diz-te pouco que se deturpem ou distorçam as palavras de um papa.
Mas imagina que se tratava de um excerto de um autor pelo qual tivesses respeito?
Afixado por Bernardo Motta em 2 de fevereiro de 2005, às 00:54
Vocês são obstinados. Está bem.
Vou ajudar...
Então vamos por partes...
Primeiro, a "Non abbiamo bisogno".
Diz o prefácio:
"NON ABBIAMO BISOGNO
ENCYCLICAL OF POPE PIUS XI
ON CATHOLIC ACTION IN ITALY
TO OUR VENERABLE BRETHREN THE PATRIARCHS, PRIMATES,
ARCHBISHOPS, BISHOPS, AND OTHER ORDINARIES
IN PEACE AND COMMUNION WITH THE APOSTOLIC SEE."
Ou seja, a encíclica é dirigida aos católicos alemães, e não ao Terceiro Reich. Isto deve ser evidente para todos, julgo eu, mas é bom ter presente.
Qual é o contexto da encíclica?
Pio XI queixa-se dos ataques dos fascistas italianos contra a Acção Católica.
Até ao ponto 17, nada relacionado com o que diz a Palmira. Até aqui, da palavra "fascist" nem sinal.
Diz a Palmira:
"o Papa Pio XI queixa-se da ingratidão dos fascistas italianos a quem a Igreja Católica, deu todo o apoio"
Diz Pio XI:
"17. The message denounces the "black ingratitude" of the priests, who are against the party which has been (so the message says) the guarantee of religious liberty throughout all Italy."
Ou seja, o papa está a referir-se a comunicados estatais, nos quais os fascistas acham que os padres são "ingratos", porque o partido fascista sempre fora "o garante das liberdades religiosas em toda a Itália".
A Palmira inverte os papéis.
Coloca na boca da Igreja católica afirmações dos fascistas. Curioso.
Mas mais adiante encontramos isto, sobre quem deve estar agradecido a quem:
(17.) "And if the question of ingratitude is to be considered, it should be rather the ingratitude now shown towards the Holy See by a party and by a regime which, in the opinion of the whole world, from the fact of establishing friendly relations with the Holy See, both gained a prestige and a credit in the country and outside it, which some people, both in and out of Italy, considered excessive, inasmuch as they deemed the favours on Our part too great, and the trust and confidence which We reposed too full."
Se isto é para ser lido com a interpretação da Palmira, o meu inglês, deve estar mesmo mal!
Mas eu acho que ainda não cheguei ao ponto!
O Papa até reconhece que, por vezes, a situação da Igreja Católica melhorou com os fascistas:
(20.) "We have already said that We conserve, and shall still conserve a remembrance and an enduring gratitude for what has been done in Italy for the welfare of religion, a gratitude not lessened by the fact that contemporaneously, a not less and perhaps greater benefit has occurred therefrom the party and to the regime"
Mas, ao mesmo tempo, duvida do carácter premeditado e calculista destas "ajudas" dos fascistas, cujos ataques contra a Acção Católica não deixam margens para dúvidas:
(17.) "They were attacks and measures such as to lead one seriously to doubt whether the former benevolences and favours were indeed actuated by a sincere love and zeal for religion, or whether they were not rather due to pure calculation and to an ultimate goal of domination.
Depois, mais à frente, o Papa distingue bem as juventudes católicas das juventudes fascistas, quando afirma que as primeiras são gozadas e ridicularizadas pelas segundas:
(28.) "There still remain the circles of the Catholic young men, that same Catholic Youth which in the publications of the youth of the [Fascist] party are represented and held up to ridicule and scorn (with what sense of pedagogical responsibility, to say only this, anyone may see) as a swarm of "rabbits," only fit to carry candles and to recite rosaries in sacred processions."
Mas estamos a chegar à parte "quente" da Palmira.
Se ela leu os textos, deve-se ter baseado nestes dois pontos:
"62. In everything that We have said up to the present, We have not said that We wished to condemn the [Fascist] party as such. Our aim has been to point out and to condemn all those things in the programme and in the activities of the party which have been found to be contrary to Catholic doctrine and Catholic practice, and therefore irreconcilable with the Catholic name and profession. And in doing this We have fulfilled a precise duty of Our episcopal ministry towards Our dear sons who are members of the party, so that their conscience may be at peace."
Neste ponto 62, o papa explica bem que não tem como intenção criticar o partido fascista como tal, mas sim criticar aquilo que ele vê no fascismo como sendo contrário ao magistério da Igreja. Isto é dar apoio, Palmira?
Mas vamos ao 63, mais polémico...
"63. We believe then that We have thus, at the same time, accomplished a good work for the party itself. What interest and success can the party gain, in a Catholic country like Italy, through retaining in its programme ideas, maxims, and practices which cannot be reconciled with a Catholic conscience?"
Aqui estão as palavras do papa: "We believe then that We have thus, at the same time, accomplished a good work for the party itself."
É disto que a Palmira fala, certo?
É aqui, não é?
Ou seja, o safado do papa confessa algo como "Nós acreditamos ter prestado um bom serviço ao partido".
Cá está! Eh, pá, será que a Palmira tinha razão?
Já agora, vamos ler até ao fim, para se perceber o contexto... Dá jeito...
"Qual é o interesse e sucesso que pode o partido ganhar, num país católico como a Itália, retendo nos seus programas ideias, máximas e práticas que não possam ser reconciliadas com uma consciência católica?"
Ou seja, o "apoio" que a Palmira deverá ver nestas palavras é tão simplesmente uma "lição" da Igreja Católica aos fascistas: eles que não usem ideologias incompatíveis com o catolicismo num país católico.
O "bom serviço ao partido" fascista, é então, o de ajudar os fascistas a evitar posturas contrárias à doutrina da Igreja, sob pena de se tornarem anacrónicas ou fatalmente desajustadas da realidade italiana.
Dá para ler isto de maneira diferente?
Afixado por Bernardo Motta em 2 de fevereiro de 2005, às 01:32
Estou estafado...
Já é muito tarde...
A "Mit Brennender Sorge" fica para amanhã, ok?
Vão estudando a de cima...
Afixado por Bernardo Motta em 2 de fevereiro de 2005, às 01:37
«NON ABBIAMO BISOGNO
ENCYCLICAL OF POPE PIUS XI
ON CATHOLIC ACTION IN ITALY
TO OUR VENERABLE BRETHREN THE PATRIARCHS, PRIMATES,
ARCHBISHOPS, BISHOPS, AND OTHER ORDINARIES
IN PEACE AND COMMUNION WITH THE APOSTOLIC SEE."
Ou seja, a encíclica é dirigida aos católicos alemães, e não ao Terceiro Reich. Isto deve ser evidente para todos, julgo eu, mas é bom ter presente.»
(Descubra o erro!)
Afixado por Ricardo Alves em 2 de fevereiro de 2005, às 23:15
Ricardo Alves,
"Ou seja, a encíclica é dirigida aos católicos alemães, e não ao Terceiro Reich. Isto deve ser evidente para todos, julgo eu, mas é bom ter presente."
Erro meu evidente.
Obrigado pela correcção. O avançado da hora a que escrevi o texto, e uma confusão com a "Mit Brennender Sorge" permitiram a asneira.
Eis a errata:
"Ou seja, a encíclica é dirigida aos católicos italianos, e não ao Partido fascista. Isto deve ser evidente para todos, julgo eu, mas é bom ter presente."
Mais uma vez, obrigado pela correcção.
Afixado por Bernardo em 2 de fevereiro de 2005, às 23:23
Se calhar, dada a asneira apanhada pelo Ricardo, eu não deveria começar a escrever isto a esta hora.
Mas se não for hoje, só o poderei fazer para a semana.
Vamos, então, à "Mit Brennender Sorge".
Diz a Palmira:
"A mesma linha é seguida na Mit Brennender Sorge... ou seja, Pio XI queixa-se e critica os ditadores a quem a Igreja apoiou e que não retribuem devidamente o favor."
Pois bem, dirá se calhar o João Vasco, ou o Ricardo Alves, a Palmira diz apenas que "Pio XI queixa-se e critica os ditadores". Até aqui, estamos todos de acordo. Esta encíclica contém um rol de críticas ao ditatorial Reich alemão.
Mas a frase da Palmira dá a ideia de que Pio XI teria afirmado um apoio da igreja à ditadura, e uma sensação de igratidão, por parte do Reich, a tal apoio.
É esta a insinuação que consideramos enganadora, porque falsa, e que pretendemos veementemente contestar, tentando aportar alguns esclarecimentos, mediante uma leitura comentada do próprio texto de Pio XI.
Vejamos o que nos diz o texto...
"MIT BRENNENDER SORGE
ENCYCLICAL OF POPE PIUS XI
ON THE CHURCH AND THE GERMAN REICH
TO THE VENERABLE BRETHREN THE ARCHBISHOPS AND BISHOPS OF GERMANY AND OTHER ORDINARIES IN PEACE AND COMMUNION WITH THE APOSTOLIC SEE."
Agora sim, uma encíclica dirigida à Igreja católica na Alemanha.
As minhas desculpas pela asneira do meu comentário sobre a encíclica anterior.
O tema: "A Igreja e o Reich Alemão". O título evidencia a preocupação de Pio XI com os crescentes atritos entre as duas partes.
(1.) "It is with deep anxiety and growing surprise that We have long been following the painful trials of the Church and the increasing vexations which afflict those who have remained loyal in heart and action in the midst of a people that once received from St. Boniface the bright message and the Gospel of Christ and God's Kingdom."
O que lemos?
"Julgamentos da igreja"
"Vexames crescentes"
Depois, vem a questão da concordata, que eu relembro ser um documento que estabelece as regras entre dois estados, o Terceiro Reich e o Vaticano. Não se trata de um "acordo de amigos", como hoje em dia tende a ser visto por uma opinião pública mal informada, ou mal intencionada, mas sim de um documento diplomático indispensável.
"3. When, in 1933, We consented, Venerable Brethren, to open negotiations for a concordat, which the Reich Government proposed on the basis of a scheme of several years' standing; and when, to your unanimous satisfaction, We concluded the negotiations by a solemn treaty, We were prompted by the desire, as it behooved Us, to secure for Germany the freedom of the Church's beneficent mission and the salvation of the souls in her care, as well as by the sincere wish to render the German people a service essential for its peaceful development and prosperity."
Ou seja, quando o papa assinou a Concordata de 1933, estava empenhado em conseguir um documento que permitisse "assegurar para a Alemanha a salvação das almas ao seu cuidado, bem como (...) prestar ao povo Alemão um serviço essencial para o seu desenvolvimento pacífico e prosperidade".
Nada de estranho, então...
"Hence, despite many and grave misgivings, We then decided not to withhold Our consent for We wished to spare the Faithful of Germany, as far as it was humanly possible, the trials and difficulties they would have had to face, given the circumstances, had the negotiations fallen through."
Ou seja, para quem sabe ler, o papa especifica que, se concordou com a assinatura da Concordata, apessar dos problemas em todo o processo, foi pelo desejo de evitar evidentes dissabores aos fiéis católicos da Alemanha.
Depois, vem a questão das escolas confessionais, apenas um dos muitos pontos da Concordata violados pelo Terceiro Reich:
"Even now that a campaign against the confessional schools, which are guaranteed by the concordat, and the destruction of free election, where Catholics have a right to their children's Catholic education, afford evidence, in a matter so essential to the life of the Church, of the extreme gravity of the situation and the anxiety of every Christian conscience;"
Os distintos senhores e senhoras do Diário Ateísta querem-nos convencer de que na Alemanha nazi se vive uma saudável e concupiscente amizade entre nazis e católicos. Será?
"At a time when your faith, like gold, is being tested in the fire of tribulation and persecution, when your religious freedom is beset on all sides, when the lack of religious teaching and of normal defense is heavily weighing on you (...)"
Depois, para os adeptos das teses revisionistas do "Hitler católico" aqui ficam as explicações do papa Pio XI:
"The believer in God is not he who utters the name in his speech, but he for whom this sacred word stands for a true and worthy concept of the Divinity. Whoever identifies, by pantheistic confusion, God and the universe, by either lowering God to the dimensions of the world, or raising the world to the dimensions of God, is not a believer in God. Whoever follows that so-called pre-Christian Germanic conception of substituting a dark and impersonal destiny for
the personal God, denies thereby the Wisdom and Providence of God who "Reacheth from end to end mightily, and ordereth all things sweetly" (Wisdom viii. 1). Neither is he a believer in God."
Pio XI explica, de forma concisa, o que separa o neopaganismo hitleriano da doutrina católica.
Segundo o papa, não basta pronunciar o nome de Deus num discurso para se ser crente em Deus.
Depois destas palavras, haverá atrevimento para continuar a sustentar que Hitler era católico?
"8. Whoever exalts race, or the people, or the State, or a particular form of State, or the depositories of power, or any other fundamental value of the human community - however necessary and honorable be their function in worldly things - whoever raises these notions above their standard value and divinizes them to an idolatrous level, distorts and perverts an order of the world planned and created by God; he is far from the true faith in God and from the concept of life which that faith upholds."
Neste ponto, uma crítica firme às teorias raciais e à prepotência do estado.
"9. Beware, Venerable Brethren, of that growing abuse, in speech as in writing, of the name of God as though it were a meaningless label"
De novo, aqui temos um puxão de orelhas aos nossos adeptos do "Hitler católico".
Pio XI avisa: "Cuidado com o crescente abuso, na fala e na escrita, do nome de Deus como se fosse uma etiqueta sem significado".
Com esta frase, lá se vão metade das citações que a Palmira faz dos discursos de Hitler, que pretendem provar, com a retórica inflamada do ditador, que o papaguear do nome de Deus por parte de Hitler é prova de um pretenso catolicismo.
"13. We thank you, Venerable Brethren, your priests and Faithful, who have persisted in their Christian duty and in the defense of God's rights in the teeth of an aggressive paganism."
O agradecimento, nestas palavras, do papa à perseverança dos fiéis perante um "agressivo paganismo".
"21. In your country, Venerable Brethren, voices are swelling into a chorus urging people to leave the Church, and among the leaders there is more than one whose official position is intended to create the impression that this infidelity to Christ the King constitutes a signal and meritorious act of loyalty to the modern State."
E aqui?
Onde está a amigável cooperação entre católicos e nazis?
Pio XI fala numa propaganda em que o abandono da Igreja começa a ser visto como num acto de "lealdade ao estado moderno".
Depois, sobre as virtudes do patriotismo num contexto católico, desde que não impliquem um antagonismo entre o serviço à Pátria e o serviço a Deus.
"34. No one would think of preventing young Germans establishing a true ethnical community in a noble love of freedom and loyalty to their country. What We object to is the voluntary and systematic antagonism raised between national education and religious duty. That is why we tell the young: Sing your hymns to freedom, but do not forget the freedom of the children of God. Do not drag the nobility of that freedom in the mud of sin and sensuality. He who sings hymns of loyalty to this terrestrial country should not, for that reason, become unfaithful to God and His Church, or a deserter and traitor to His heavenly country."
Sobre a infiltração dos ideais nazis na educação religiosa...
(39.) "(...) Religious lessons maintained for the sake of appearances, controlled by unauthorized men, within the frame of an educational system which systematically works against religion"
"40. Venerable Brethren, We are convinced that the words which in this solemn moment We address to you, and to the Catholics of the German Empire, will find in the hearts and in the acts of Our Faithful, the echo responding to the solicitude of the common Father. If there is one thing We implore the Lord to grant, it is this, that Our words may reach the ears and the hearts of those who have begun to yield to the threats and enticements of the enemies of Christ and His Church."
Pio XI fala dos "inimigos de Cristo e da Sua Igreja".
Palavras estranhas para quem era tão "amigo de Hitler", não vos parece, caros membros do Diário Ateísta?
E pararei por aqui.
Porventura, a cara Palmira F. da Silva não teria querido insinuar que esta encíclica falaria de um apoio da Igreja Católica aos nazis, porque de tal apoio (totalmente fictício), não se encontra uma só palavra nem sequer uma só insinuação nesta missiva papal.
Mas não há dúvidas de que a sua frase assim quer se que pense.
Atropelos, interpretações forçadas, distorções, hipersimplificações, maniqueísmos, preconceitos...
E tudo isto porquê, Palmira?
Para quê, Palmira?
É isso ser ateu?
Eu sei que não, porque conheço ateus que são sérios.
Afixado por Bernardo em 3 de fevereiro de 2005, às 00:19
Bernardo:
A Palmira obviamente não fez nada daquilo que a acusa.
Mas escusa de se dirigir a ela porque, como lhe disse, ela não comenta nestas caixas de comentários.
No entanto, na terceira parte do artigo dela, que estás prestes a ser publicado no diário, ela vai voltar a abordar todas essas questões, e pode ser muito esclarecedora para com as dúvidas que o Bernardo tem a respeito de onde é que ela leu aquilo que ela diz que lá está.
Eu, completamente fora do assunto, já vejo a posição dela relativamente defensável só pelas citações que o Bernardo destacou. Mas se as razões que a levaram a afirmar o que afirmou se basearam noutras citações que não as escolhidas pelo Bernardo, isso pode tirar muitas dúvidas a quem não conheça os texots em questão.
Afixado por João Vasco em 3 de fevereiro de 2005, às 17:30
