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janeiro 27, 2005

Medo e Silêncio ( I )

Dois dos meus colegas de blog focaram ontem, um assunto que é dos que mais me choca. Talvez por isso mesmo, pouco aqui o tenha referido. Parece um paradoxo, não é? Mas tenho a sensação que se puxar por um fio desta meada, teria tema para um blog inteiro carregadinho de posts.
Choca-me muito a violência calada, interna, fechada á chave. O sofrimento amordaçado. O importante livro de Maria de São Pedro, chamado exactamente “Senhores do Medo”, porque o coração do problema é o MEDO que se impõe, devia ser lido por todos nós. Até porque desmonta algumas ideias preconcebidas de que “isso” só se passa em famílias disfuncionais, e que os pobres são “feios, porcos e maus” enquanto os senhores da alta, convivem na maior correcção. É mentira. Portas dentro de casas de grande luxo material, passam-se muitas e muitas vezes cenas de arrepiar. E, também aí as vítimas não se queixam, por terem medo e por terem vergonha. Porque o chocante é que não são os agressores que sentem vergonha, são as vítimas!
Claro que a violência física me indigna e me choca. Mas talvez me choque ainda mais a outra, a psicológica, que a suporta.
Neste momento aparecem-me do meu passado dois flash:
Eu era ainda criança. Numa rua estava um homem a ralhar com uma menina. Pequenina. Nem 3 anos teria. Ele falava baixo e friamente. E em certo momento disse: :”Olha que eu…!” e fez menção de desapertar o cinto. Reparei nos olhos apavorados da menina e no beicinho que fez. Não entendi nada. Para mim, na altura, um cinto era uma peça de vestuário para segurar as calças. Foram precisos vários anos para perceber o que estava implícito naquele gesto.
Bastante mais tarde, na Av de Roma, cruzo-me com uma adolescente, vestida-de-criada, com uma chávena na mão e as lágrimas em fio. Como viu a minha cara atenta perguntou-me “A senhora sabe onde posso comprar uma chávena igual a esta?” Era uma chávena vulgar que estava partida. Eu não fazia ideia, mas aconselhei que dissesse á patroa, não devia ter importância. Resposta, com voz entrecortada, “Não, que ela não perdoa nada!”. Ele estava completamente aterrada.
São pessoas que não são tratadas como seres humanos, iguais em sentimentos, iguais em direitos, verdadeiros semelhantes. São olhados como objectos. São coisas de que se pode dispor. E é isso que nos tem de revoltar profundamente. Que seja quem for, se sinta no direito de olhar para um seu semelhante como coisa sua. Por direito de casamento, por contrato de trabalho, seja por que motivo for!
Quanto ao “direito de casamento” vai despoletar um ponto gravíssimo que é a vergonha de se queixar e a atitude hipócrita do “não é nada connosco” da opinião pública. O que se passa dentro de portas de uma casa, é como se fosse território sagrado. Mas porquê?
Bem, este vai ser o primeiro de uma série de posts que o tema é infelizmente quase inesgotável!

capa-2.jpg

Afixado por Emiéle em 27 de janeiro de 2005, às 10:20

Afixadelas

Estamos em sintonia nos tempos - se fosses homem pedia-te já em casamento :)
hum, um requisito importante para um homem é que acorde CEDO. A ver se não me esqueço quando aparecer o próximo candidato ao embalo :)

A sério, agora - não consegui encontrar foto maior, mas entretanto como a tenho em ponto maior digitalizada, assim q a conseguir colocar no blog, substituo a pequena que lá está.

Afixado por vague em 27 de janeiro de 2005, às 11:25

Boa!
Mas este tema é tão grave e importante, que não é demais falar-se por todos os lados.
( quanto à imagem, eu primeiro aumentei-a mas ficou muito desfocada; achei que assim estava melhor)

Afixado por Emiéle em 27 de janeiro de 2005, às 11:27


A física é terrível de assistir, a psicológica disfarça-se melhor e por isso ainda é mais vil. mas não consigo avaliar se puser ambas numa balança.
Às vezes vou na rua e vejo um casal a discutir alto, ele com maus modos (normalmente é ele, mas isso daria pano para mangas), ela cabisbaixa e envergonhada e a pessoa q esta´de fora acaba por se sentir constrangida e sabe que não pode fazer nada e q as coisas são assim mesmo. Não entendas isto como resignação à injustiça, q não é, a injustiça como dizia o Martin L. King e eu sinto como meu é mesmo uma ameaça à justiça em qq parte.
Mas q pode fazer alguém q está de fora? e a dependênca económica das vítimas? e a dependência social dos 'amigos e família' e a chantagem emocional em que o joguete são os filhos? A APAV desenvolve uma importante missão nisto tudo e acho q há até uma linha do tipo sos voz amiga para apoio a estes casos.

Afixado por vague em 27 de janeiro de 2005, às 11:31

quero agradecer todo o trabalho que a capa (obra do meu filho que não quer ler o livro) vos tem dado::))
Emiele tu leste o meu livro?
xi

Afixado por maria em 27 de janeiro de 2005, às 11:42

Vamos por partes, Maria:
1º Li o livro, claro, por isso é que falo.
2ºAcho que devia ser divulgado, daí esta "publicidade" que não o é para ti, mas para a causa em si própria. :)
3º Isso do trabalho é entre mim e a Vague... Mas olha que eu sou teimosa como um burro ( sou Touro de signo, e Dragão em horóscopo chinês...) e não desisto facilmente.
4º Parabéns ao teu filho, que captou tão bem a mensagem. E sem ler o livro!!!!

Afixado por Emiéle em 27 de janeiro de 2005, às 14:09

Ainda há muito pouco tempo, saiu a notícia de uma pena ter sido diminuída a um homem que matou a mulher por se ter considerado atenuante o facto de ela se recusar a ter sexo com ele (que a violava e agredia regularmente). Claro que os juízes eram homens, e claro que ainda imbuídos dessa mentalidade dos "direitos do casamento" e da submissão da mulher ao seu amo e senhor - só pode.
Dei comigo a relacionar esta violência com a outra que hoje se comemora, a dos campos de concentração. No fundo, em qualquer dos casos, é o sentimento de que se pode fazer tudo ao outro, de que se é senhor do outro que permite agir dessas maneiras.

Afixado por 1poucomais em 27 de janeiro de 2005, às 14:44

Eu falei disso no Afixe, lá para baixo, Azul. Porque, o incrível era mais do que isso: ela era uma má mulher ( a justificar a morte, pelos vistos) porque ia tomar café, e falava com as pessoas. Diziam que tinha ficado assim "esquisita" depois da morte de uma filha. A besta do marido, a quem também deve ter morrido a filha, espancava-a por ela ser uma sem-vergonha e os argumentos eram desse tipo.
Se encontrar o post ainda deixo aqui o link.

Afixado por Emiéle em 27 de janeiro de 2005, às 15:13

É.. e também deixava esturricar a comida... conforme escrito no processo.
E há um juiz(com letra pequena) que lhe reduz a pena por estas atenuantes... sabiam que é nas profissões liberais que se encontra mais violência doméstica?
Seria interessante divulgar esse estudo... ai como ia ficar muito boa gente de boca aberta.

Afixado por maria em 27 de janeiro de 2005, às 19:26

Foi para o que eu quis também chamar a atenção. Este aspecto é transversal à sociedade. E só quando é um colunável muito colunável que é apanhado ( tipo Tallon) é que se fica com uma ideia. Mas pensa-se que é caso único. Não é!
Enquanto as pessoas se forem calando, isto não muda.

Afixado por Emiéle em 27 de janeiro de 2005, às 19:49

É, não há casos únicos.
Às vezes acontecem ligados a um processo mais ou menos lento e irreversível de auto destruição. Dos dois lados, da vítima e do agressor.
Há sentimentos muito estranhos e muito antagónicos que, por vezes, perpetuam estas situações. Talvez a dependencia financeira, seja apenas uma pequena parte da questão.
Se bem me lembro, sei do que estou a falar. Se bem me lembro houve sobreviventes. E houve quem não sobrevivesse. Ás vezes o agressor tem problemas graves de alcoolismo e/ou de toxicodependencia. Ás vezes a vítima, mais do que vergonha, tem medo. Medo da violência, mas também de não suportar a rerponsabilidade de deixar o agressor sozinho com essa sua violência.
Se bem me lembro, eu tive medo.
Se bem me lembro as palavras calavam-se. Eu não as calava.

PS: Como dizes, Émièle, é um problema transversal.
O promissor economista de então, acabou o seu percurso, sozinho, numa quente tarde de um qualquer Verão distante.
Se bem me lembro não ficou raiva. Ficou pena. Muita pena. O pior sentimento que um ser humano pode suscitar.

Afixado por isabel em 27 de janeiro de 2005, às 22:06

É Isabel, quando falas /escreves assim deixas-me sem palavras.
No post do nazismo tinha dito agora mesmo ( para além de considerar que eras uma boa mãe, pois só essas conseguem ter um filho como o João Pedro) que não quria contar aqui histórias. Não quero porque não posso. Sou uma "ouvidora de histórias" por profissão e, eticamente, não as posso contar mesmo disfarçadas. Não ficaria de bem comigo. Mas sei muitas. Nunca as vivi pessoalmente apesar de, como pessoa, também ter muito que contar. Mas não histórias assim. As minhas são muito diferentes, complicadas é claro, que viver é complicado.
Se aceitares um abraço grande, grande, ele está aqui.

Afixado por Emiéle em 27 de janeiro de 2005, às 23:22

Claro que aceito o abraço, amiga. Mas sabes Émièle, não sou super mãe, nem super mulher, nem super ser humano. Sou sobretudo alguém com uma paixão enorme pela vida. É essa paixão que me fez sobreviver VIVA a muitas coisas complicadas e que me faz, apaixonadamente, tentar transmitir essa paixão ao meu filho.
Daqueles anos ficou-me a memória dolorosa,o reconhecimento da nossa incapacidade de mudar /salvar os outros, mas sobretudo essa paixão de continuar viva.
Algumas vezes me perguntam"Como é que conseguiste ficar igual". Escondo o encolher de ombros que me provoca sempre o total desconhecimento do ser humano e respondo "Vivendo".

PS: Por causa desta conversa toda, nunca mais acabo as malditas das baínhas das calças. Porque carga d'água é que não nasci grande???

Afixado por isabel em 28 de janeiro de 2005, às 10:06

Fica a título informativo: Junto de algumas Juntas de Feguesia do Concelho de Sintra que aderiram ao projecto "espaço informação mulher", encontra-se apoio gratuito de um psicólogo aos casos de violência doméstica. A orientação técnica vai desde o próprio serviço de psicologia ao encaminhamento para outras instituições, participações legais, etc, consoante o caso e a vontade da vítima.

Afixado por Bastet em 28 de janeiro de 2005, às 11:23

Isabel, como disse, de mim não tenho que contar, e as ouvidas por profissão também não posso, mas tenho uma grande amiga, que casou com um colega de faculdade. Bom meio sócio-cultural. E os primeiros tempos muito bons. Até que o pequeno-almoço começou a ser um copo de whisky. Daí em diante foi um plano inclinado, só que a violência só foi física 2 vezes que à terceira ela foi-se embora. Fugiu de noite, de uma casa isolada, a esconder-se dos faróis do carro que a procuravam...
Já em casa da mãe, tempos mais tarde, a empregada telefona-lhe "que o sr. dr. tinha ido para o hospital com um ataque cardíaco". Felizmente que teve a serenidade de antes de entrar em pânico, falar com uma nossa amiga médica. O "ataque cardíaco" era um "coma alcoólico".
Hoje está óptima. Voltou a casar e tem um filho lindíssimo. Merece!

Afixado por Emiéle em 28 de janeiro de 2005, às 14:42


Li agora as palavras da Isabel e arrepiei-me. Como se importasse muito como me senti, bah.
É essa a coragem de quem já fez caminho e vê tanto para andar. Com força.
Envio um abraço meio sem jeito mas seria assim que o daria, sem jeito e com verdade.

Achei mto importante isto: é que o medo do outro pode passar por aquilo que esse outro pode fazer a si próprio, o que o agressor pode fazer a si próprio. E há tanta coisa, alcoolismo, toxicodependência, perturbações mentais, loucura.

Falo de um caso de uma miúda que conheço bem, não referencio ninguém pelo que não me sinto a invadir a sua privacidade, apesar de imaginar q ela não está aqui a ler.
28 anos actualmente, casada pela 2ª vez e hoje feliz e serena depois de 2 anos de medo envergonhado.
Aos 22 casou com alguém com alguma perturbação
ou descompensação, que a agredia. Uma miúda linda, independente, inteligente, a tirar o curso, como é que isto foi possível? Não quis acreditar quando a mãe dela e minha amiga me contou. Imagina o que é alguém apagar beatas nas mãos de outro alguém. Queimá-la. É filme de terror, não é? E aconteceu não em filme. Com uma miúda que conheço desde os 8 anos dela, criada com todo o carinho, um dia apaixonou-se pelo homem errado.

Afixado por vague em 28 de janeiro de 2005, às 23:12

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