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janeiro 29, 2005

Se eu quisesse, enlouquecia

Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?

in Os Passos em Volta - Estilo, Herberto Helder

Afixado por afixe em 29 de janeiro de 2005, às 12:28

Afixadelas

Obrigada pela posta anti-depressiva. :)
A mania que temos de dar sentido à vida...

Afixado por maria arvore em 29 de janeiro de 2005, às 14:07

oh se te fazes entender... mas a prescrição ocasional daquela receita mais ali em baixo pode servir p/mitigar as dores d'ei-alma

Afixado por JQ em 29 de janeiro de 2005, às 14:40

+ a sério: os passos em volta do HH foram das 2-3 coisas que eu tive a sorte de ter sido obrigado a estudar e, ao fim destes anos, foi bom descobrir, através do excerto que escolheste, que continuo a achar-me, por isso, um burro cheio de sorte.

– a sério (voltando ao tal estado de espírito que te terá levado a escolhê-lo): apenas porque não há outro remédio senão aguentar, melhor que a tal receita do JPdC, só mesmo uma ‘buba’ de dimensões consideráveis.
descontando a náusea do dia seguinte, a eficácia é brutal. parece que, durante a noite, alguém andou a eliminar aquela tonelada de ficheiros *.tmp que se vai acumulando diariamente na memória dum gajo - antes que os *.tmp se transformem em *.etn (=eternos?)

claro que, mesmo acordando com o fígado + pesado e a carola + leve, passadas algumas horas, tudo recomeça mas aí, já temos mais algums kbs livres na memória para ir aguentando o barco.
eu, que sou uma besta insensível, preciso de fazer este deleting 1/2 dúzia vezes/ano. agora vê lá se não acabas numa reunião adventista de AAs

(acabei de reler isto à pressa e reparei que falhei o propósito inicial de dar ânimo. sugeriria antes que os teus amigos, que não me parecem poucos, te fizessem uma visita não virtual e te enchessem de porradas. o êxito é garantido)

Afixado por JQ em 29 de janeiro de 2005, às 15:42

"...a loucura, a tenebrosa e maravilhosa loucura..."

Afixado por xc em 29 de janeiro de 2005, às 16:15

atraente loucura, acrescentaria eu.

Afixado por Monty em 29 de janeiro de 2005, às 16:28

JQ,
Antes de mais, obrigadão pela força. Isto não é nada de especial, estou só um bocado apardalado com esta cena. Nunca me tinha aborrecido, na blogosfera, claro, com alguém que realmente prezo, como é o caso do Boss.

Afixado por Monty em 29 de janeiro de 2005, às 16:34

O tempo ajuda ;)

O Herberto Helder é fantástico, arrepia esse livro, é de uma densidade, lembra-nos o q queremos esquecer com risos. Mas acaba por ser catarse também. E os estados de espírito são como as vagues do mar ;)

Afixado por vague em 29 de janeiro de 2005, às 18:07

belas palavras, Monty. Vê lá se te recompões. Abraço.

Afixado por gibel em 29 de janeiro de 2005, às 19:10

Bom, começo por dizer que adoro Herberto Hélder!

Depois, explicado o contexto da neura, começam--me a faltar as palavras: não faço ideia do que falam.

Acredito, no entanto, que entre amigos tudo se pode resolver, assim ambos o queiram!


Afixado por Rita Santos em 30 de janeiro de 2005, às 16:43

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