« Dez milhões de euros | Entrada | Prioridade ao emprego - por onde começar?... »
fevereiro 22, 2005
Felicidade pós-eleitoral?
Este meu silêncio prolongado deve-se às eleições?
Sim, e confesso-vos que nada me enjoava mais nos últimos tempos. Por isso, de certa forma, estou satisfeito que tudo tenha terminado. A campanha, os carros com megafones, a berraria, a histeria, as ameaças, as falsas promessas, os beijinhos artificiais e cheios de cuspo, as bandeirolas, os aventais e as canetas esferográficas.
Houve um pouco de tudo o que é mau, ao bom gosto da novela venezuelana: traições, discursos ofensivos, cartazes insultuosos, enfim: campanha suja.
Ufff!
Agora, há uma coisa que me faz especial confusão: a felicidade pós-eleitoral!
Porque está toda a esquerda feliz?
(uma pequena nota: detesto o uso exagerado e quase sem significado da rotulação "esquerda vs. direita", sinal de que muita gente já não consegue pensar para lá da dicotomia)
Reformulando a pergunta...
Porque estão os votantes do PS, CDU e BE tão contentes?
O país vai melhorar?
As filas de espera nos hospitais vão baixar?
As escolas primárias vão ter aquecimento?
Ou melhor, as escolas em geral vão ter professores?
O sistema educativo vai começar a ensinar?
Os tribunais vão despachar processos?
Os impostos vão passar a ser cobrados?
A resposta é evidente: NÃO
Então... Porquê a alegria?
Será que é porque vamos ter apenas um cartão na carteira?
Ah, fantástico!
Já não bastava termos as carteiras vazias, sem dinheiro, agora vamos também ficar sem cartões?
O que é que eu faço à minha carteira?
Deito-a fora?
Para os mais distraídos, que me conhecerão mal, eu teria escrito este mesmo texto se o PSD tivesse ganho as eleições, ou se o PP tivesse obtido um resultado "histórico" (também detesto a obcessão de considerar tudo o que seja político como historicamente decisivo ou relevante) e as Juventudes Populares tivessem ido saltar e berrar para a rua, e entoar hinos ao Portas.
Se o país vai ficar na mesma, ou pior, se a classe política, tanto no geral como no particular, é uma bela porcaria, porquê tanta festa?
Por vezes, parece-me que na depressão cultural e económica em que vivemos, algumas pessoas decidem ao último minuto colocar o seu voto naquele partido que tem mais probabilidade de ganhar, só pela antecipação da alegria que é percorrer as ruas das nossas cidades deprimidas, noite adentro, buzinando, berrando e colocando bandeiras do lado de fora da janela, para esquecer que o dia seguinte é mais um dia de trabalho mal pago, ou desemprego puro e duro...
Triste Portugal...
Afixado por Bernardo Motta em 22 de fevereiro de 2005, às 09:03
Afixadelas
OK, Bernardo, mas então faz-se o quê?
Emigra-se para Marte, pega-se em armas e faz-se a Revolução, metemo-nos em casa a ver as telenovelas da TVI,metemo-nos nos copos p'ra esquecer, aguardamos a intervenção divina ou damos um tiro na cabeça?
Desculpa lá, mas , de momento, não me ocorrem mais alternativas.
Afixado por isabel em 22 de fevereiro de 2005, às 09:41
Eu ia perguntar exactamente o mesmo que a Isabel já perguntou! E então, Bernardo?
Afixado por Monty em 22 de fevereiro de 2005, às 09:54
Pois, junto-me ao coro... E então?
Olha que tanto pessimismo é mau para o fígado, Bernardo... ; )
Afixado por M. em 22 de fevereiro de 2005, às 10:02
Além de que nem tenho visto assim tantos festejos. Comentou-se aliás que na noite de domingo não houve grandes movimentações populares (à minha porta só passou um carro a buzinar, o que comparado com outras vezes...)
Afixado por Jorge Moniz em 22 de fevereiro de 2005, às 10:56
Caro Bernardo,
estou inteiramente de acordo com a Isabel. Vencemos as eleições, conseguimos afasytar Santana, e será que pelo facto do país estar deprimido, não podemos celebrar? Acho mesmo que as celebrações podem trazer algum optimismo às pessoas, porque esta primeira maioria absoluta do PS significa talvez a mudança que elas há muito queriam.
Veremos agora como se vão comportar os socialistas, não nos esqueçamos que têm 100 dias de abébia para fazerem o que quiserem (o chamado tempo de graça) e depois então preocuparem-se em agradar.
Um Abraço
Dizeresmeus.
PS: Escreve-se Obsessão ; )
Afixado por dizeresmeus em 22 de fevereiro de 2005, às 10:59
"... pega-se em armas e faz-se a Revolução..."
Afixado por bin_tex em 22 de fevereiro de 2005, às 11:05
Então Bernardo o que propões tu que se faça? ou achas que se deve fazer?
Afixado por bin_tex em 22 de fevereiro de 2005, às 11:18
Felicidade é ter um poema novo para ler :). Os políticos passam, a fome fica
Afixado por alexandre dale em 22 de fevereiro de 2005, às 11:36
Eh pá, calma...
O texto era pessimista.
Era essa a ideia.
Acho que sou um pessimista convicto, que pela triste situação actual, mais se aproxima do realista.
O que é que se deve fazer?
Trabalhar.
Simples.
Trabalhar.
Lembro-me sempre do caso italiano: política caótica e instável, mas economia regular e sólida.
Portugal deveria fazer o mesmo.
Dizia Júlio César que os lusitanos não se governavam nem se deixavam governar.
Eu não vejo saída para o actual caos político e para a situação de profunda medíocridade dos actuais agentes políticos.
Solução?
Tentar fazer o país prosperar sem eles.
Ou melhor, sem lhes dar muita importância.
Por exemplo, no meu dia-a-dia, tento gerir a minha vida e a minha empresa como se o Estado não existisse, ou como se o estado fosse apenas aquele fornecedor chato, ao qual tenho que dar umas massas de vez em quando.
Acho mesmo que uma boa classe política, para a prosperidade de uma nação, seria útil, mas não é fundamental.
Fiz-me entender?
Estarei louco?
Agradecem-se comentários, ou medicamentos...
Afixado por Bernardo em 22 de fevereiro de 2005, às 11:57
Já agora explico o porquê do meu pessimismo.
Para mim, pessimismo não é inactividade. Já disse atrás que, no meu caso, eu não fico de braços cruzados, e tento, da melhor forma que posso, conjugar a minha prosperidade pessoal com a do meu país.
Acho que todos devíamos fazer o mesmo.
Como negar o terrível estado da nossa classe política, em que são os medíocres que lá estão?
Hoje em dia, quais são as pessoas sérias que se dedicam à política?
É grave, eu sei.
Mas é a realidade.
Para quê tapar o sol com a peneira?
Sinceramente, pasmo-me perante este optimismo de tanta gente. Admiro-o, mas não consigo tê-lo. Optimismo como paliativo psicológico?
Neste caos, o optimista tem as claras vantagens de um maior bem-estar no dia-a-dia. Mas tem uma grande desvantagem: pode ganhar uma visão desfocada da realidade. Pode-se "acostumar" à mediocridade. Pode olhar para aquele energúmeno de um dado partido e dizer: "o tipo até nem é mau... comparado com os outros!".
Baixamos a nossa fasquia, e não ajudamos ninguém. É o que eu acho...
Afixado por Bernardo em 22 de fevereiro de 2005, às 12:03
"O que é que se deve fazer?
Trabalhar.
Simples.
Trabalhar."
"Hoje em dia, quais são as pessoas sérias que se dedicam à política?"
Bernardo, parece-me que são duas frases graves e ,sobretudo perigosas.
A primeira, porque me faz lembrar tempos e atitudes que temos a obrigação de ter definitivamente ultrapassado.
A segunda, porque, e desculpa o termo, é moralmente e intelectualmente, duma arrogãncia quase me atrevo a dizer, imoral.
Depois, penso que são contraditórias - "eles" não são "sérios" e então entregamos-lhes o País e dedicamo-nos ao trabalho, na nossa empresa, na nossa casa, no nosso cantinho.
E depois mantenho a pergunta, entregamos-lhes o País e emigramos para onde?
PS: Continuo a "dedicar-me à politica". Tirando quando mando uma boas gargalhadas, não me considero "não séria"- não devo nada a ninguém (tirando ao Banco, mas isso foi porque o parvo do dono insistiu que p'ra me vender a casa eu tinha que pagar,cumpro os meus compromissos, não roubo carteiras, não prejudico consciente e deliberadamente ninguem...
Sou a excepção ou tás a ser demasiado redutor?
Afixado por isabel em 22 de fevereiro de 2005, às 12:37
Bom, salva-se a sinceridade...
Franchemant, Bernardo, deixas-me preocupado...
Afixado por sharkinho em 22 de fevereiro de 2005, às 16:59
Isabel,
Como em todos os assuntos nesta vida, não há bela sem senão. És uma excepção?
Eu nem sequer sabia que tinhas actividade política. Se é esse o caso, é bom que existam excepções.
Se calhar não era óbvio, mas a minha frase não é para ser levada ao extremo do literalismo.
É evidente que eu suponho que existam excepções.
Se te ofendi, desculpa.
Mudo a afirmação para algo mais cauteloso e mais justo:
"Parece-me que, hoje em dia, uma grande parte dos políticos não são sérios."
Já devias saber, Isabel, que escrevo muitas vezes deste modo. Há que dar um certo desconto, e quando estou irritado, posso fazer generalizações que não são para levar à letra.
Agora, outras tuas críticas.
Em relação a trabalhar, não sei o que é que isso te evoca. A mim evoca-me algo de muito normal: o trabalho. Se estás a assimilar as minhas palavras às de outros tempos, garanto-te que é porque não me conheces...
"... e então entregamos-lhes o País"
Quem entrega o quê a quem?
O problema, Isabel, é que se calhar tu achas que o povo é quem ordena.
Eu, pelo contrário, acho que o povo é levado a pensar isso.
Eu não entreguei o país a ninguém.
Não sei se te recordas dessa velha discussão aqui no Afixe, Isabel, mas eu não sou propriamente um adepto da democracia, e já o disse noutros tempos. Acho que é um modelo que parece bonito na teoria, mas que nunca existe na prática. É a minha opinião. Polémica, eu sei.
Mas as opiniões são como as cuecas: cada qual tem direito a ter as suas.
Eu acho que hoje em dia, mesmo votando, o povo não tem poder. O povo não escolhe com conhecimento de causa, e o que escolhe é pressionado por todos os lados, sugestionado por todos os lados.
E quando digo "o povo", obviamente falo de todos nós. E obviamente sei que há muitas excepções de eleitores que votam sem essas sugestões externas e prejudiciais, mas não passam disso: excepções.
Repara, Isabel, eu não sou politólogo.
Tudo o que digo não passam de postas de pescada, e valem zero como opinião, porque não tenho uma fundamentação estruturada. É apenas o que eu sinto e o que eu penso.
Gostaria que o país fosse governado por uma meritocracia. Hoje, infelizmente, vejo o oposto.
Se és daquelas poucas pessoas que vivem honestamente o desejo de fazer boa política, limpa e transparente, só posso louvar que existam pessoas assim. A minha pena é que as Isabéis não sejam a maioria.
Eu não tenho nem queda nem vocação para a política, e por isso há muitas coisas sobre política que me ultrapassam.
Se a tua reacção de profundo desagrado às minhas palavras provém de um amor-próprio ferido, só posso ficar descansado por saber que ainda há pessoas assim. E nesse caso, fica sabendo que me arrependo da frase que usei, que sendo tão generalizante, não te fez justiça.
Para terminar, peço a todos para não levarem tão a sério o que eu digo. Muitas vezes, escrevo por desabafo, e exagero. Gosto de opiniões, mesmo que adversas, mas parece-me demasiada a vossa preocupação.
Um abraço,
Afixado por Bernardo em 22 de fevereiro de 2005, às 18:19
Bernardo, só 3 ou 4 coisitas para não estarmos aqui a "malhar ferro" como se diz na minha terra.
1º- Não acredito que eu seja excepção. Há politicos que não são sérios? Claro que há. Como há empresários, jornalistas, carpinteiros, canalizadores,professores, médicos. Pessoas.
O problema da tua frase é a generelização que acarreta.A poltica não é uma coisa séria.
2º Como dizes, não sei nada de ti. Infelizmente ainda vivi um tempo em que a frase "A minha política é o trabalho" era um emblema do regime. Provavelmente fui injusta, mas foram essas as palavras que se me afloraram.
3º Meritocracia: Como se mede? Quem mede? Qual a unidade de medida?
4º Claro que o povo não tem poder. O poder. Há muitos anos acreditei que a Revolução Socialista estava ali, mesmo na esquina da rua, e que depois tudo seria diferente. A sociedade, o homem, a vida.Mas a utopia tem datas. O sonho de um mundo melhor pode perdurar. A utopia de um homem novo passa com a idade. Teve que passar.
5º Por isso, apenas, resta a minha pergunta inicial, Bernardo. Este não é o Mundo com que eu sonhei, há politicos corruptos, há politicas injustas e imorais, a Democracia não é o regime perfeito, o "povo" (nós todos,como tu dizes)abdica diariamente dos seus deveres e dos seus direitos, estou numa CT há dez anos, onde um dia tenho que ser forte, noutro ceder, noutro ser intransigente, noutro implorar, às vezes tudo isto no mesmo dia.Quantas vezes tive que assistir a autenticas desonestidades morais, intelectuais, perseguições, injustiças, chantagens, faço o quê? Dou o tal tiro nos cornos? Nos meus ou nos de quem assim age?
6º Na semana passada uma imigrante brasileira a quem consegui que fizessem um contrato de um ano (!!),depois de anos como "extra", viúva, mãe de dois putos, entregou-me um desenho duma praia com um Sol lindo e amarelo, feito pelo mais pequeno de 8 anos.Feito para a "Sra Isabéu, com beiginhos (assim mesmo)do Diogo".
Acredita Bernardo, vale a pena ser um bocadinho menos pessimista.
Um abraço, para ti também
Afixado por isabel em 22 de fevereiro de 2005, às 21:28
Isabel: queres casar comigo?
Afixado por João Pedro da Costa em 23 de fevereiro de 2005, às 02:38
Ao ler o post do Bernardo e todos os comentários que dele resultaram, nomeadamente o diálogo com a Isabel, foi esta/aquela a frase que me ocorreu: "A linguagem é uma fonte de mal-entendidos" . Porque, de repente, tenho a sensação de que os dois, na prática, estão de acordo. Isto é, a motivação da Isabel vem-lhe do seu optimismo, do pessimismo, a do Bernardo. O efeito nos dois é o mesmo: eles querem mudar o mundo!
Afixado por spiraculu em 23 de fevereiro de 2005, às 19:51
E a vitória retumbante foi devida à vontade de mudança de Tempo...uma novena dos tempos modernos: até S. Pedro se alegrou abrindo por fim a torneira.
Já Guterres sentiu e confundiu essa vontade popular quando saiu: chovia, chovia e choveu, choveu.
O Tempo inviesa muito as votações...
Afixado por João Ribeiro em 24 de fevereiro de 2005, às 23:52
