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fevereiro 02, 2005
O homem que está sentado à minha frente
O homem que acaba de se sentar à minha frente numa esplanada da Praça do Cubo, na Ribeira, é um senhor de idade, estatura média, e até o confundiria com o meu pai, não estivesse ele tão bem vestido, mas tudo bem. É uma da manhã.
O homem que está sentado à minha frente procura há já algum tempo o empregado da esplanada. Está frio e o homem esfrega as mãos. As outras três cadeiras da mesa estão vazias e começo, secretamente, a desejar a chegada de alguém. O homem consegue finalmente captar a atenção de um empregado e pede-lhe algo que não consigo perceber, apenas vejo a forma educada como faz o pedido, e, pela primeira vez, perco o fio à conversa da minha mesa. Passaram vinte minutos e é uma e vinte da manhã.
O homem que está sentado à minha frente recebe um fino e paga com moedas que tira do bolso. Não recebe troco. O homem está bem disposto, vê-se pelo forma como molha os lábios na bebida e pelo sorriso com que olha para tudo o que está à volta dele. De vez em quando, passa a mão pela gravata e tosse. É uma e meia da manhã.
O homem que está sentado à minha frente pega na bebida e resolve mudar para outra cadeira, talvez para poder ver melhor o rio ou para se proteger do vento, não sei bem. A praça começa a encher e uma rapariga pede educadamente ao homem se pode pegar numa das cadeiras da sua mesa. A rapariga é muito bonita. Ele levanta-se, diz algo afirmativo e sorri. Eu sorrio também. São duas e cinco da manhã.
O homem que está sentado à minha frente, agora de perfil, torna-se menos visível. A praça está cheia, muitas pessoas passam entre mim e ele e isso, não sei bem porquê, irrita-me. Vejo que um rapaz leva mais uma cadeira e o homem de pé, num gesto de quase absoluta reverência. Alguém da minha mesa pergunta-me pela primeira vez para onde estou sempre a olhar. Um par de mamas, respondo. São duas e meia da manhã.
O homem que está sentado à minha frente tem o copo vazio e mais nenhuma cadeira na sua mesa (não consegui ver quem levou a última). O homem está vagamente triste e quase me apetece agora escrever que essa tristeza vaga lhe fica bem. Mas não escrevo. Percebo finalmente que ele não espera ninguém, senão teria com certeza invocado o facto como desculpa para não ceder a última cadeira. Ele veio só, está só e não espera por ninguém. Um empregado levanta-lhe o copo vazio e o meu olhar desvia-se. São quase três da manhã.
O homem que está sentado à minha frente é uma ilha. Ele está sozinho, virado para o rio, numa mesa vazia. O ruído na praça atinge o seu zénite, todas as mesas estão cheias de pessoas e de uma animação um pouco estúpida: ouço risos agudos e vidros que se partem - há gente sentada no chão. Os empregados começam a olhar de uma forma pouca simpática para o homem e vejo um rapaz de pé a apontar para ele com o dedo em riste. Dou por ela que não faço a mínima ideia do que se está a falar na minha mesa. Por duas vezes, o amigo que está sentado ao meu lado irá estranhar-me o silêncio. Apetece-me muito beber. São três e um quarto da manhã.
O homem que está sentado à minha frente está a olhar para a sua mesa. E tem agora um ar só e triste que não lhe fica nada bem. Começo a pensar em oferecer-lhe um cigarro, em pagar-lhe um copo ou em convidá-lo para a minha mesa (é só puxar a cadeira, um gajo chega-se práqui), mas não consigo ensaiar o gesto com naturalidade e temo pela sua reacção. A praça começa a ficar vazia e apetece-me ir embora. São três e quarenta da manhã.
O homem que está sentado à minha frente não se mexe há mais de meia hora e começo a acreditar que ele vai morrer ali. Não sinto pânico: apenas penso na sua morte com muita força como para anular qualquer probabilidade de ela acontecer. Quando abro os olhos, a praça está quase vazia e o senhor que estava sentado à minha frente levanta-se e vai buscar, uma a uma, três cadeiras para compor a sua mesa. Quando se senta, vejo que está novamente contente. De repente, olha para a minha mesa e repara que estou a olhar para ele fixamente. Sorri, meio embaraçado, e pergunta-me pelas horas.
Raios me fodam: não lhe soube responder.
Afixado por João Pedro da Costa em 2 de fevereiro de 2005, às 02:14
Afixadelas
E ainda bem que não respondeste.
A isto eu chamo texto filho-da-puta de bom!
Afixado por Gigante monstro horrendo AdamastoR em 2 de fevereiro de 2005, às 02:28
Muito bom.
Afixado por catarina em 2 de fevereiro de 2005, às 02:35
João Pedro,
estou sem palavras. Não me leves a mal a comparação mas o ritmo e a forma como descreves a situação é loboantunesca! NÓS TEMOS UM GAJO AINDA MELHOR QUE O ANTÓNIO LOBO ANTUNES NO APHIXE!
SE ELE NÃO GANHOU O NOBEL VAI-TE TU PREPARANDO!
Estou histérico. Desculpa. É que fiquei "over-uelmed" como dizem os brits!
Afixado por gibel em 2 de fevereiro de 2005, às 02:41
valeu a pena estar a pé a esta hora. Chiça! Já tinha saudades de te ler.
Afixado por gibel em 2 de fevereiro de 2005, às 02:44
Fui lendo sem ver de quem era o texto. Claro, tinha de ser teu, sacana. Já estava com saudades de um bom texto teu!
Afixado por 1poucomais em 2 de fevereiro de 2005, às 02:47
Bem, não há nada como vocês para me inflamarem o ego. Eu fico sem jeito e apenas posso agradecer.
Obrigado. Hoje, soube-me muito bem voltar aqui.
Um abraço
Afixado por João Pedro da Costa em 2 de fevereiro de 2005, às 02:59
Adorei este texto, JP. A qualidade a que nos habituaste, com um final que só podia ser teu!!!
Afixado por NOITE em 2 de fevereiro de 2005, às 04:24
Pois é. Comecei a ler com alguma dúvida, mas ao segundo parágrafo pensei: O João Pedro voltou. Quem te leu nas Ruinas ( e não só) já sabe que é assim que escreves.
Disse "voltou" por teres estado uns dias fora. Bem vindo de novo. Bem vindo sempre. Ainda não me habotuei completamente a isto de ter As Ruinas dentro do Afixe...
Afixado por Emiéle em 2 de fevereiro de 2005, às 06:08
lindo
Afixado por Mi em 2 de fevereiro de 2005, às 07:52
Muito bonito, JP. Obrigada... (acho sempre que se deve agradecer a quem nos oferece um momento de beleza nestes dias tão conzentos).
Afixado por M. em 2 de fevereiro de 2005, às 08:44
Apesar de aqui os dias não estarem cinzentos,é bom começar o dia com um texto assim.
Sabe mesmo bem ter-te de volta.
Afixado por isabel em 2 de fevereiro de 2005, às 09:55
Nem digo nada, pá, nem digo nada.
...
...
...
Não digo nada o caralho. Que coisa tão bem escrita, João Pedro, pá. Que coisa linda.
Afixado por Monty em 2 de fevereiro de 2005, às 10:31
O homem que está sentado aí escreve tão bem, e escreve tão bonito que parece que está aqui mesmo, sentado à minha frente.
É lindo JPC.
Afixado por Eufigénio em 2 de fevereiro de 2005, às 10:46
E um dia eu vou poder dizer aos meus netos, sentado na mesa do cibercafé:
"Tás a ver aquele senhor na televisão? Foi meu colega num blogue!"
E os putos com ar céptico pra mim:
"Pois, pois... E o papa (que ainda será vivo nessa altura) também escrevia nesse blogue, não é?"
E eu vou sorrir, satisfeito, por ter conhecido o gajo que me ensinou a olhar para as pessoas sentadas nas mesas à minha frente, com a atenção de quem aprende a vida nas vidas que se cruzam com a nossa, mesmo que seja só de raspão.
Sinto-me feliz, JP, e confesso aqui a minha admiração incondicional pelo teu dom.
Afixado por sharkinho em 2 de fevereiro de 2005, às 11:21
Delicio-me com a tua escrita.
Parece que sinto a inclinação da praça, as conversas cruzadas em noites de esplanadas cheias, o rosto do homem sentado à tua frente... e o teu, curioso pelos outros...
Raios homem! Gosto da tua escrita!
Afixado por sofia em 2 de fevereiro de 2005, às 11:55
Por isto me recuso a perder-te de vista.
Afixado por Ricardo Garcia em 2 de fevereiro de 2005, às 11:59
Monty,
achas que o João Pedro ainda nos pede aumento do valor do passe? Convém aumentar o valor da cláusula de rescisão...
Afixado por gibel em 2 de fevereiro de 2005, às 12:18
Repetitivo. Os críticos diriam: "Anafórico, minha cara!". Bocejei bastante durante a leitura. O desfecho, bem, não me deu tesão nenhuma. Lamento, as opiniões não podem ser unânimes, portanto eu diria que o texto é mediano e está longe, mas mesmo longe de concorrer com textos nobelescos.
Passem bem :-)
Afixado por Claudia em 2 de fevereiro de 2005, às 12:19
que texto lindo!
Afixado por abóbora em 2 de fevereiro de 2005, às 12:32
SIM
Afixado por JQ em 2 de fevereiro de 2005, às 12:44
Ó Cláudia, isso é dor de corno ou de cotovelo? A propósito, não sei se alguém já te disse, mas terias de morrer e renascer várias vezes até a tua escrita chegar aos calcanhares da do JPC. A inveja é uma coisa tão feia, rapariga.
Afixado por Monty em 2 de fevereiro de 2005, às 12:56
(Bem, vocês deviam é de ver a minha cara ao ler os vossos gentis comentários...)
É curioso como estão reunidas nesta caixa as pessoas que mais gosto na blogosfera. Falta mesmo muita pouca gente. Tuby, meu maluco da merda, esse jantar anda ou não anda? :)
Afixado por João Pedro da Costa em 2 de fevereiro de 2005, às 13:14
Não tenho inveja. Digo o que penso. Agora, isto aqui não parece ser uma democracia... Tenho direito a ter a minha opinião, não tenho? Não gostei do texto. Vou-me pôr aqui a sorrir, a fingir e dizer que gostei? Não me parece... Ele já escreveu coisas melhores. Tem textos muito bons, sim, mas este, lamento... O que é que querem?
Afixado por Claudia em 2 de fevereiro de 2005, às 13:36
Repetido como o quotidiano. O estilo de ver coisas lindas no quotidiano que nos cerca. E terminar com o inesperado.
Gosto muito do que escreves JPdC.
Afixado por maria arvore em 2 de fevereiro de 2005, às 13:39
Ó pá, já que insistem tanto: Ó João Pedro, meu amor, como tu escreves bem, caralho. Consegues pôr-me no 7º céu quando escreves. Eu, tarada como sou por exímios manejadores da caneta Bic, fico em êxtase perante os teus textos. Fico assim em jeito escancarado tal como a boca de uma Lewinski. Ó pá, não consigo descrever o que sinto quando leio um texto teu.
Pronto, estão satisfeitos? Pus a minha alma e todas as tripas que tenho em forma de coração para elogiar aquele feiote que até tem textos bons.
Afixado por Claudia em 2 de fevereiro de 2005, às 13:42
Vim acabar de ler o teu texto aqui, mas a atenção foi-me despertada no "A Grande Fauna".
Gostei muito, parabéns.
Afixado por Alex em 2 de fevereiro de 2005, às 14:04
Cláudia:
Democracia? Onde raio foste buscar essa ideia? Alguma modernice, não? Aqui não temos nada disso, toda a gente tem de ter um mínimo de bom gosto.
Afixado por Monty em 2 de fevereiro de 2005, às 14:34
Ah "ganda" Claudia!!!
Não concordo com ela... Gostei mesmo do texto (o auxiliar foi à terra ver a familia e buscar uma batatitas e uns enchidos, mais um garafão de azeite).
Gostei pronto!
Mas não penso que a Claudia tenha dor de cotovelo, quanto a ela chegar aos calcanhares do JP... não me meto na vida íntima de cada um. Diz o que pensa e isso chama-se sinceridade.
Parabéns JB e Claudia.
Afixado por NVPA em 2 de fevereiro de 2005, às 15:17
Às vezes temos este desejo de conhecer os estranhos por dentro.
Abraço, JP
(Monty, acho que a Claudia não estava a ser agressiva mas sincera; é a maneira dela; e agora vou levar dos dois lados por estar a defendê-la)
Afixado por derFred em 2 de fevereiro de 2005, às 15:21
derFred:
por amor de Deus, então achas que te ia bater? É a tua opinião, a minha é diversa.
Um abraço,
Afixado por Monty em 2 de fevereiro de 2005, às 15:57
Gostei muito do texto e está muito bem escrito!! Parabéns, JPC.
Afixado por Johnny em 2 de fevereiro de 2005, às 17:25
Creio que o derFred conhece um pouco melhor a Caudia de outros blogs. É curioso, que não a conheço não tinha interpretado o comentário nem como sincero, nem como inveja. Aos meus olhos tinha sido uma provocação. Tinha querido quebrar uma unanimidade que a irritou.
Mas é certo que tem o direito a ter o seu gosto, e de o exprimir. Então em literatura, sabe-se que os gostos variam mesmo muitos. Quantos Nóbeis conhecemos que muitas pessoas, disseram que nunca na vida, o deveriam ter recebido!!!
Afixado por Emiéle em 2 de fevereiro de 2005, às 21:47
Chego tarde, mas ainda assim, queria dizer "presente"...
João Pedro, o meu comentário é só este: "Queremos mais!" (como este...)
Afixado por Leonel Vicente em 2 de fevereiro de 2005, às 21:55
Saudades de te ler! (Andas a fazer-te difícil, é?)
Afixado por cap em 3 de fevereiro de 2005, às 01:27
Monty, na realidade a Emiéle é que acertou na mouche. A Claudia gosta de ser a pedrada no charco. E às vezes é.
Dito isto, não concordo contigo, Claudia. Gostei muito do texto.
Afixado por derFred em 3 de fevereiro de 2005, às 11:16
Alguém aí (DerfreD) sabe qual é o blogue da Cláudia? É que também eu gosto da literatura clássica.
Afixado por João Ribeiro em 3 de fevereiro de 2005, às 11:52
desculpa lá ó joão mas este texto tá do caralho!
se não te importas vou public´-lo no meu blog. pode ser?
Afixado por nc em 4 de fevereiro de 2005, às 14:56
