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fevereiro 26, 2005
Sabores e Memória
Memória, recordação, saudade. Sabemos que há pedacinhos do nosso passado que continuam vivos mas numa penumbra durante bastante tempo. Depois, alguma coisa os faz voltar à luz. Muitas vezes nem nós sabemos porquê. De repente lembrámo-nos do vizinho ao lado da casa dos nossos pais, da ida para a praia aos 10 anos, de uma desilusão de adolescência. Assim, sem mais. Acontece. Muitas vezes, é por termos visto uma foto, por se ouvir uma música, por um nome. As recordações vivem numa semi-presença e só esperam um pretexto para virem à tona.
Mas temos dois sentidos, que muitas vezes nos parecem “de segunda”, e contudo são muito especiais como “despoletadores” de recordações, o olfacto e o paladar.
O olfacto é poderosíssimo! É um sentido muito precoce, qualquer bebé sente e distingue o cheiro da mãe, e com enorme força. Todos temos essa experiência. Pela força de qualquer odor, sentido na rua, numa casa, inesperadamente, e de repente parece que uns momentos da nossa vida estão mesmo ali, de novo, ao alcance da nossa mão…
Mas o sabor, também! Hoje, no meio das minhas compras domésticas, encontrei numa prateleira de um Super um fraco de Compota de Chila. Ainda olhei de lado, mas tinha um rótulo que garantia ser caseira ( ? ) e tentei-me. Trouxe-a a pensar ainda na minha infância. A minha avó fazia doce de chila. De abóbora chila. Não vale a pena explicar que cheguei a casa e barrei o pão com o que vinha naquele frasco, mas não encontrei o sabor do doce da minha avó. Apesar disso fiquei inundada de emoções. Revi-me na antiga cozinha. A abóbora aberta ao meio e a avó com um garfo a desfiá-la em fios fininhos. Creio que se fazia um ponto qualquer de açúcar, e aquilo era cozido nessa calda. Sei que cheirava muito bem, e depois, ainda quente se provava de um pires. E a consistência daqueles fiozinhos de doce era uma maravilha.
Paciência. Este pode ser “caseiro” mas a casa é que não é a mesma. Não é nada a casa da minha avó.
Afixado por Emiéle em 26 de fevereiro de 2005, às 10:06
Afixadelas
Como a Azul e o Shark não conseguiram entrar aqui e foram para as rapidinhas, venho eu experimentar..
É mesmo como vocês dizem, as memórias que "metem avós" são muito fortes porque de um modo geral muito antigas também. Esta avó do doce, "vejo-a" quase sempre na cozinha, a outra era mais de conversas comigo e muitos passeios. E estão muito vivas em mim.
Afixado por Emiéle em 26 de fevereiro de 2005, às 14:19
Eu gosto dos cheiros, até de alguns menos bons. É uma das coisa boas, podermos ainda desfrutar dessa sensibilidade básica, que perdemos em dose significativa quando a visão passou a ter o predomínio na nossa defesa enquanto espécie. O paladar - aliás, nas suas variações subtis, dependente dos receptores olfactivos com ligação à boca - é uma das alegrias da vida. Noutro dia fiz um pesto que levei para um almoço e que estava forte. Uma das pessoas presentes disse-me que não lhe sabia a nada, porque tinha perdido o olfacto há algum tempo. Tive pena. A minha avó também fazia compotas e geleias variadíssimas. Havia sempre uma compoteira no armário da copa com um doce sempre diferente. Agora já só mantém uma parca produção de marmelada e geleia de marmelo, que é uma das coisas deliciosas que eu provo quando vou a casa dela. Porque não procuras a receita da tua avó e tentas apurar o sabor antigo, ml?
Afixado por susana em 26 de fevereiro de 2005, às 18:04
