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fevereiro 11, 2005
U2 ou o fim de um mito
Em puto, com dezasseis ou dezassete anos, tive o meu primeiro e único ídolo. Chamava-se Paul Hewson aka Bono Vox - era o vocalista da banda irlandesa U2.
Lembro-me de um filme, misto de concerto e gravações em estúdio, "Rattle and Hum", em que Bono, em palco, a meio do "Sunday, Bloody Sunday" fazia um discurso do tamanho do coração do mundo contra os emigrantes irlandeses nos EUA que gastavam as poupanças, de cu sentado no sofá, a promover e a patrocinar o IRA. Nunca tinha visto ninguém falar como aquele homem falou, e acho que ainda hoje sei o discurso de cor, de tantas vezes o ouvir. De tantas vezes com ele me ter emocionado, pela força de alma com que ele falava daquele fatídico bloody sunday. Da forma como ele mandava calar Dave Evans o grande The Edge, que à força queria interromper aquele politicamente incorrecto.
O Bono Vox foi, e presumo que ainda seja, um verdadeiro homem do mundo, honra lhe seja feita, e é, muito provavelmente, o VIP com maior e mais eficaz intervenção cívica e social.
Mas o segundo título deste post, ou o sub-título, é "o fim de um mito", e não me refiro ao Bono, que continua igual a ele próprio, pelo menos na vertente extra-musical.
Falo dos U2, mesmo. O grupo de Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen, os membros de um corpo musical que agora aparece desmembrado. Com uma discografia que ficará para a história, pelo menos até 1988, em que temos, cronologicamente falando, Boy, October, Under a Blood Red Sky, The Unforgettable Fire, Wide Awake in America, The Joshua Tree e o acima falado Rattle and Hum, os membros dos U2, depois de me terem deixado três anos à espera, resolveram acabar o espectáculo que davam ao mundo.
Daí para cá, apenas banalidades, boas banalidades, claro, daquelas que qualquer grupo gostaria de ter no seu repertório, mas sempre banalidades: Achtung Baby, Zooropa, Pop, All That You Can't Leave Behind e o famigerado How to Dismantle an Atomic Bomb.
Canções como I Will Follow, Gloria, Sunday Bloody Sunday, New Year's Day, A Sort Of Homecoming, Pride (In The Name Of Love), Bad, Where The Streets Have No Name (talvez a melhor canção dos U2), I Still Haven't Found What I'm Looking For, Bullet The Blue Sky, Running To Stand Still e In God's Country não tiveram herdeiros. Finito, acabou.
Lembro-me de em finais de 91, ao ouvir o Achtung Baby, ter ficado com uma desilusão que só teria equivalente se o Santana ganhasse as eleições a 20 de Fevereiro.
Em suma, a morte tem algo de belo, como aconteceu com os The Doors, depois da morte de Jim Morrison (nem me refiro, claro a esta fantochada do regresso), como aconteceu com os U2, após The Joshua Tree. E pronto, um gajo até convive bem com ela quando tem recordações do nível das que acima referi.
A merda é quando os mortos insistem em continuar a aparecer, com as mesmas caras, o mesmo estilo em palco - e se todos eles têm estilo em palco. Só que: sem alma. E agora, para cúmulo, vêm-me atazanar a Lisboa, deixando-me na dolorosa dúvida: vou ou não ver o concerto, vou ou não consolidar a maior desilusão musical da minha vida? Em Agosto, não é? Até lá hei-de decidir se comprou ou não bilhete, mas não sei se estou pronto e se tenho estômago suficiente para ver o Bono entremear hinos como Where The Streets Have No Name com pop hits fajutos como Vertigo.
Afixado por afixe em 11 de fevereiro de 2005, às 10:55
Afixadelas
Concordo contigo, apenas com uma excepção: ACHTUNG BABY é o melhor álbum deles, rapaz. Fica combinada uma noite alcoólica para ouvirmos o disco juntos.
Er.
Isto soa mal, não soa?
Rephrasing:
Fica combinada uma noite com a Angelina Jolie (eu falei agora mesmo com ela) ao som do ACHTUNG BABY.
Afixado por João Pedro da Costa em 11 de fevereiro de 2005, às 12:39
O Achtung Baby? eu adoro o Achtung Baby. Só o começo... Andei a dançar o disco no carro durante meses, tem algumas excelentes músicas. quanto ao serem um pouco um pastiche deles mesmos, concordo; suponho que seja o que acontece quando chega o ponto em que o teu objectivo é agradar ao público, dando aquilo que ele espera (portanto, no que concerne a grande fatia de público, aquilo que ele espera porque já conhece). Perde-se alguma verdade ou genuinidade com isso, mas mesmo assim, se cá estiver, irei ao concerto. sei que tinha deixado de te falar, mas acho que se justifica para discordar de ti ;)
Afixado por susana em 11 de fevereiro de 2005, às 12:59
A melhor critica que já li em relação aos U2!
(Este tipo escreve mesmo bem!)
Afixado por myryan em 11 de fevereiro de 2005, às 12:59
Monty, conseguiste definir aquilo que eu sinto em relação aos U2 e de uma forma muito bem passada para o papel (neste caso ecrã, teclado, seja lá o que for). Recordo-me de na infância, esta banda ser uma referência ao grupinho de rua. De só alguns, os sortudos, terem conseguido ir ao concerto a Madrid.
Depois, veio o pum pum...
E agora estou como tu. Não sei se vá... não sei se não vá...
Afixado por Zoick em 11 de fevereiro de 2005, às 13:10
I'm not sure if this song should be in the film...
Excelente a forma como descreves o discurso do Bono a meio daquela versão única do Sunday Bloody Sunday. Eu também sou um desses gajos que deve saber de cor, o discurso de trás-prá-frente e vice-versa, tantas foram as vezes que me "auto-flagelei" a ouvir o dito! Sinceramente, não me lembro da parte em que o Paulito manda calar o Dave! =)
Outros momentos dignos de registo no filme (que são bastantes): Still haven't found what I'm looking for, nascida e criada numa igreja do Harlem, com o inesquecível riff de guitarra do Edge, e o carismático som do VOX AC30 preenchendo todos os recantos daquele espaço e a melhor versão de sempre do intemporal With or without you.
Quanto ao melhor album da carreira dos U2, na minha opinião este chama-se The Unforgettable Fire (1984). Um album extraordinário, em todos os sentidos.
Afixado por zOinGo em 11 de fevereiro de 2005, às 13:30
oh pá, n sejas careta. o novo álbum tem musicas porreiritas. as antigas sao mt boas, mas será mesmo preciso ficar preso ao passado? actualiza-te!
Afixado por Joca Silva em 11 de fevereiro de 2005, às 13:55
Como quase todos que nunca foram muito à bola com os U2, prefiro os lps menos “à U2”, principalmente o Zooropa, e tb Achtung Baby e Pop (os último 2 quase que abomino).
Durante os 80s preferia bem + Pere Ubu, Joy Division, Talking Heads, Feelies, Sonic Youth, Pixies, Gun club, Lounge Lizards, Einsturzende Neubauten, David Sylvian, etc. (é, já então tinha a mania que era esquisito).
Achava e acho os U2 demasiado pop, demasiado fáceis, se bem que este parâmetro do «fácil» é movediço como o caraças. p.ex. gosto imenso de quase tudo de REM mas reconheço que aplicando este filtro do fácil, os U2 até serão menos fáceis.
Tentando esmiuçar esta coisa do gosto + e do gosto -, juilgo que aquilo que me atravessou os U2, não na garganta, mas à entrada dos tímpanos, foi aquele modo épico, pomposo, solene do raio do Bono cantar.
Já naqules 3 albuns supra de que os fãs gostam menos, Bono, talvez p/influência do BrianEno, colocou a voz dum modo + discreto o que me agradou bem +.
Sobre The Edge, tb acho que tem exagerado o seu virtuosismo. Quase sempre me pareceu algo limitado tecnicamente, c/um “ataque às cordas” demasiado igual ao longo dos anos (ó sacrilégio! o que fui dizer...)
Isto foi o cravo. Quanto à ferradura:
Reconheço-lhes uma coerência ideológica e imaginação melódica muito acima da média (caramba, são 20 anos, salvo erro). Numa analogia meio deslocada é o que tb valorizo no afixe – a persistência, a contínua produtividade de posts, sem quebras, sem momentos de desalento. o que não deve ser nada fácil – julgo ser preciso gostar muito do que faz.
Sobre esta militância do Bono, se por um lado (cínico) há quem desconfie de manobras de marketing tipo «madre teresa do rock», eu creio que o gajo, mais que o sucesso e protagonismo (que já obteve de sobra), quererá fazer algo de + válido e, +1x, de acordo com o que sempre defendeu enquanto músico.
Se o vai conseguir na prática, desconheço. espero bem que sim.
Afixado por JQ em 11 de fevereiro de 2005, às 14:16
JQ:
Que grande análise, pá. Mas que grande análise, mesmo.
Afixado por Monty em 11 de fevereiro de 2005, às 14:24
JP:
Está combinado, manda vir a gaja, mas tu ficas na sala com os chupas, certo? ;)
Susana:
pazes, é?
Zoick e zOingo:
Estamos em sintonia. E sim, manda-o calar com a mão porque dá a sensação que ele estava a querer terminar a guitarrada de fundo ao discurso.
Joca:
Sou careta assumido!
Afixado por Monty em 11 de fevereiro de 2005, às 14:29
monty, pazes, nada! só se for pá-zes.
Afixado por susana em 11 de fevereiro de 2005, às 15:28
Olha que os álbuns dos anos 90 são muito bons. Como não gostar dos riffs do The Edge em "The Fly", por ex., ou do "Numb", pelo arrojo em relação ao habitual dos U2. Eu acho é que os U2 dos anos 80 são uma banda, aquela que desbravou novos caminhos na música pop, enquanto que os U2 dos anos 90 encontraram um outro rumo na sua carreira, transformando-se noutra banda, diferente da anterior. Eles tinham de mudar, era impossível continuar a fazer hinos nos anos 90. Ainda bem que não se tornaram numa espécie de Rolling Stones; massificaram-se, mas não perderam qualidades. Apenas alguma frescura, mas isso é natural. O Pop será o único álbum realmente mau dos rapazes.
Afixado por Sérgio em 11 de fevereiro de 2005, às 15:32
Monty, acho que estás a confundir intervenção política com talento musical, pá. E olha que este eles não o perderam. A primeira, também o Chico Buarque a perdeu!
Concordo com o JPdC: musicalmente, o "Achtung Baby" é o melhor álbum deles.
Se podes pagar dois bilhetes, vai vê-los e deixa-te de merdas. Um concerto dos U2 é um grande espectáculo.
Afixado por Filipe Moura em 11 de fevereiro de 2005, às 15:41
Quase me esquecia de agrader o elogio à myryan: Thanks myryam, you're too kind! ;)
Susana:
Será como dizes, então.
Filipe:
É bom ter-te por cá. Talvez siga o teu conselho. Vamos ver...
Sérgio:
Outra boa crítica. E assim será. Sucede que eu não gosto destoutra banda. Preferia os velhos.
Afixado por Monty em 11 de fevereiro de 2005, às 16:41
o filipe põe o dedo na ferida...
"se podes pagá-los"..., ouvi dizer que os preços estão escandalosamente caros...
uma coisa curiosa que li numa revista qualquer do passado fim de semana, é que a paisagem "lunar" que aparece no último teledisco, é afinal... no Barreiro...
saber isto com certeza que desmitifica um bocado qualquer banda.
Afixado por tchernignobyl em 11 de fevereiro de 2005, às 17:58
JQ,
E desde quando é que o The Edge é um virtuoso da guitarra?! Tecnicamente sempre foi um instrumentista limitado, tanto na guitarra como no piano. Virtuosos da guitarra eram e são, os Hendrix os EVH's e os Satrianis!
Onde ele realmente se destaca dos outros e nisso "não há pai pra ele", é na manipulação de efeitos, na panóplia genial de sons que consegue obter destes e também na criatividade das suas composições.
Quanto à suposta mudança de "pose vocal" do Bono devido à influência de Eno, não me parece ser uma explicação muito válida já que este, produz os albuns de U2 -com mais ou menos protagonismo- desde 1984, The Unforgettable Fire incluído no rol. E este último não tem nada que ver seja com o Achtung Baby, o Zooropa ou o Pop.
Monty,
Man, desculpa lá mas não consigo mesmo lembrar-me da parte onde supostamente o Bono "manda calar" o Edge. É que durante o dito discurso (And let me tell you something... I've had enough of those Irish-Americans (...) eles nem sequer estão perto um do outro. Edge encontra-se no "R/C" a destilar um strumming na guitarra, enquanto o Bono encontra-se bastante afastado e num nível superior do palco, explicando às massas aquilo que lhe vai na alma!
=)
Afixado por zOinGo em 11 de fevereiro de 2005, às 18:28
zOingo: ele manda calar alguém com a mão. Talvez não o the edge, concedo...
Afixado por Monty em 11 de fevereiro de 2005, às 18:35
Zoingo, li no New Musical Express, por várias vezes nos últimos 15 anos, opiniões no sentido de que The Edge era 1 guitarrista fora de série e coisa e tal que me deixaram boquiaberto (e p.f. não me peças p/fundamentar porque ia dar-me 1 trabalho do caraças - n/tenho scanner e n/vai dar p/vasculhar os arquivos do NME dessas alturas, os quais nem sequer sei se existem) para além de que alguns amigos meus que deixei no Norte jurariam o mesmo e crucificar-me-iam se lessem o meu comentário supra.
RE: Joe Sartrianis – o pouco que conheço levou-me a n/querer conhecer +. Acho-o definitivamente pimba.
Sobre B.Eno, tenho de dar o braço à tua palmatória. Só agora, via Google, reparei que o gajo já tinha produzido + albuns dos U2 do que eu sabia.
Ainda assim, para além do facto de ter sido o modo + discreto do Bono cantar naqueles 3 que aumentou o meu agrado, tb foram aquelas ‘atmosferas sintetizadas’ no fundo que me influenciaram nesse sentido (sim, gosto de electrónica e psicadelismos) e continuo a acreditar que, naqueles 3, o B.Eno teve influência + notória.
Sobre EVHs (?!!!), desculpa-me a ignorância mas desconheço. ficaria grato por uma qualquer tradução...
Quanto ao Jimmi Hendrix, benzo-me de cada vez que o ouço...
Afixado por JQ em 11 de fevereiro de 2005, às 21:56
achtungggggggggggggggggggggggggg babyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyy!!!!!!!!!!!!!!!!!
Afixado por móveis correia, arquitectos em 12 de fevereiro de 2005, às 17:29
eh pá... enquanto tu pensas se vais ou não ao concerto, eu já lá estarei!!...Sabes, todas as bandas, bem como qualquer pessoa, tem os seus momentos bons e menos bons, mas uma coisa é certa os U2 são os U2...e eu não perderei este concerto memorável por nada!... Bj
Afixado por Anabela Marques em 13 de fevereiro de 2005, às 09:41
pois bem...para mim o melhor album é o joshua tree...mas, mtos criticos referem que Achtung Baby é o melhor...e fico-me pelo o politicamente correcto...são todos mto bons...a esta hora já me pergunto como vou conseguir comprar o bilhete amanha...:P
Afixado por This Never Ends em 13 de fevereiro de 2005, às 19:03
JQ,
EVH = Eddie Van Halen... Guitarrist extraordinaire.
=)
Afixado por zOinGo em 14 de fevereiro de 2005, às 11:58
Monty,
O concerto é no dia de aniversário da tua afilhada mais velha.
Para ires ao concerto terás de a levar, e o pai dela também.
Quanto ao texto, embora concorde que os U2 evoluiram de uma lirica (letras de musicas) socialmente mais intreventiva para um outro genero mais introspectivo, a verdade é que eles mantêm muita qualidade naquilo que fazem. A verdade é que a idade redirecciona muitas das nossas preocupações.
Exemplo:
Se um jovem de vinte anos quer mudar o mundo acabar com a guerra e a fome, um homem aos trinta que deixar um mundo melhor para os seus filhos, mas acima de tudo quer fazer dos seus filhos pessoas melhores.
Um homem aos vinte julga que tem país para o resto da vida, aos trinta quer aproveitar para viver os país que tem.
Há uma coisa que eu admiro naquela que continua a ser a minha banda de culto, a sensações musicais reforçam muito a mensagem lirica.
Afixado por Tesla em 14 de fevereiro de 2005, às 12:10
Penso que o Achtung Baby não só é o melhor disco dos U2, como é, por várias razões, um disco marcante na indústria musical (área pop-rock).
Também concordo com os coments do JPC e do JQ. No entanto, parece-me interessante identificar o que é musica e a sua intervenção artística ou politica, para não falar no meramente comercial. Acho que os U2 já estiveram em todas, e agora assumem-se como comerciais, talvez por acharem que já não acrescentam nada a não ser musica que soa bem.
Afixado por racf em 14 de fevereiro de 2005, às 12:32
