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março 07, 2005
A GLÓRIA DOS VENCIDOS

Nem acho grande piada à Fórmula Um, sobretudo desde que ganha sempre o mesmo e nem é o da minha preferência (como no futebol, mas enfim...). Contudo, o facto de nesta época se estrear um piloto português (coisa rara) fez-me reparar no mais recente Grande Prémio.
Pois o nosso veloz Tiago Monteiro, ao volante de um Jordan (mais ou menos como um Fiat Punto a picar-se com Maseratis), trouxe-me à memória os Eurofestivais da Canção. E eu explico porquê.
Os cotas da minha geração devem recordar-se do entusiasmo febril com que o país seleccionava o tema que nos iria representar. Era uma questão de orgulho nacional (um pouco como parece acontecer com a celebrada existência de um piloto português na Fórmula Um...) e as famílias reuniam-se ao serão para ouvirem as estopadas (na maioria) que se apresentavam a concurso na edição festivaleira nacional.
Ganhava uma, nem sempre a menos má. E a rapaziada começava logo a prognosticar um desempenho brilhante da nossa canção lá fora.
Depois era o que se via, com os malandros do espanhóis a receberem os nossos pontinhos e em troca a preferirem dá-los a uma canção horrível de um país do qual nunca ouvíramos falar. Penúltimo, vigésimo-não-sei-quantos, terceiro a contar do fim. Anos seguidos de brutais desilusões. Nem o balão subia nem o papagaio voou...
Mas a tenacidade lusitana não tardava a encontrar um consolo para mitigar a frustração. Havia, claro, a batota. Os outros faziam “caixinha” e pontuavam-se mutuamente para promoverem as suas canções. Também se destacava o facto de não ficarmos em último, a única vergonha que nunca conseguimos encaixar. Mas o que mais irritava a malta era a ingratidão do júri espanhol, que nos privava dos dois ou três pontinhos que nos permitiriam ficar à frente da Islândia ou do Luxemburgo.
A Imprensa dava sempre enorme destaque à participação portuguesa no certame, mesmo quando (e era sempre) a comitiva regressava com a viola no saco e eram enterrados os sonhos de futura projecção internacional.
A notícia veiculada pelas televisões acerca da participação do Tiago Monteiro na sua primeira corrida trazia a entoação dos grandes feitos, das muitas glórias que se constróem nas entoações da Comunicação Social. O puto, excelente condutor – afirmo-o sem reservas, conseguiu obter o importante objectivo de chegar ao fim. De concluir a prova.
E ficou na décima sexta posição, acrescentavam, ainda com o tom de quem anuncia uma medalha de ouro da Naide Gomes no Campeonato Europeu de Atletismo em Pista Coberta – apesar de o referirem mais tarde, num lugar mais baixo da hierarquia noticiosa.
Invariavelmente, a importante notícia da estreia do piloto português da Fórmula Um, terminava com o jornalista a referir entredentes que décimo sexto equivalia a penúltimo.
A dureza daquele desporto automóvel de alta competição justifica que reconheçamos o esforço do Tiago (que até estava engripado, como alguém frisou). Mas não entendo que se puxe para primeiro plano a notícia do penúltimo lugar obtido pelo piloto de corridas e ainda menos consigo perceber qual o critério aplicado para a escolha do tom.
Irrelevante? O passo seguinte pode ser um de dois: ou ficamos com noticiários semelhantes aos da Coreia do Norte ou os pivots sentirão que têm todo o direito de rir às gargalhadas durante a leitura da notícia de um velório.
Se os estudos de mercado garantirem que isso impressionará as audiências.
Publicado por sharkinho às março 7, 2005 10:36 AM
Afixadelas
Esse complexo tem algum nome que não me ocorre agora...
Publicado por: Miguel S. em março 7, 2005 11:14 AM
Por estas e por outras é que eu gosto do Mourinho. Arrogante como não há outro, é certo, mas vencedor.
Publicado por: Monty em março 7, 2005 12:35 PM
Pois, e ainda por cima no mesmo dia a Naide ganhava uma medalha de ouro...
A Glória não é para os vencedores...é para a elite...
Publicado por: andre em março 7, 2005 01:32 PM
"Para que ter um Inimigo se pode ter um Amigo como este" -> http://amigopublico.blogspot.com/
Publicado por: Amigo Publico em março 7, 2005 01:45 PM
É a tal conversa que o importante é participar...E prontes! Tar lá também conta.
Publicado por: Emiéle em março 7, 2005 03:57 PM
Estás a ser injusto. Primeiro esqueces-te da "nossa" Marie Myriam, emigrante de segunda geração que ganhou o eurofestival pela França. Depois esqueces-te que a Naide é mulher, o que a coloca em flagrante desvantagem face ao Tiago e além disso num desporto com muito menos glamour. São assim as nossas patéticas vitórias...
Publicado por: susana em março 7, 2005 04:13 PM
