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março 29, 2005
Acidentes de trabalho

Durante o ano de 2004 registaram-se 185 acidentes de trabalho, mortais, em Portugal.
Quase 50% destes acidentes verificaram-se na construção civil.
Ontem, em Almornos, concelho de Sintra,uma grua matou três trabalhadores.
O responsável pela empresa considera que poderá ter havido uma falha da segurança - um dos trabalhadores que faleceu não tinha o cinto colocado.
Um trabalhador está numa obra da Construção Cívil sem o cinto, que é obrigatório. Falha humana, conclui a empresa. A grua caiu, talvez falha humana. Dos trabalhadores que morreram o ano passado, haverá, certamente, uma percentagem de “falhas humanas”. Então e a fiscalização? Das próprias empresas? Da Inspecção Geral de Trabalho?
As estatisticas mostram que em cada 2 dias, morreu um trabalhador, vitima de acidente de trabalho. Para além dos que ficaram feridos, paralizados, incapacitados. O representante da IGT afirmou, ontem, que as pessoas podem estar mal informadas ou não terem condições para perceber. Mas não deveria ser essa a função da IGT, assegurar-se, quando uma obra está a decorrer ou uma qualquer empresa a laborar e enquanto não há acidentes, que as regras de segurança existem, que os trabalhadores as cumprem e as entendem?
Gostaria, apenas, de fazer uma consideração final, àcerca do Código de Trabalho e da sua ligação a estes casos.
O CT concede uma majoração de dias de férias se o trabalhador não tiver faltas injustificadas ou se tiver apenas 3 faltas justificadas no ano anterior.
No caso de haver um acidente de trabalho, quer esse acidente seja ou não provocado por falhas de segurança da exclusiva responsabilidade da empresa, o trabalhador que tenha que ficar ausente do trabalho por se encontrar doente ou hospitalizado, irá perder a majoração no ano seguinte.
Ah, e só para terminar. Os familiares dos trabalhadores mortos por acidente de trabalho (neste caso) motivado pelas tais falhas de segurança, que podem ser da empresa e pela falta de fiscalização, que pode ser da IGT, que usem a licença de nojo por morte de familiar também perdem essa majoração.
A alteração urgente da imoralidade do Código de Trabalho e a criação de uma IGT que actue e fiscalize, parecem-me medidas mais urgentes que qualquer alteração de férias de magistrados ou, mesmo, a venda de medicamentos fora das Farmácias. Mesmo que concorde com estas medidas.
Espero, ansiosamente, que o Governo passe das medidas simbólicas, para as medidas que têm a ver com a dignidade e a vida das pessoas.
Afixado por Isabel em 29 de março de 2005, às 10:30
Afixadelas
Apoiadíssimo!
Mas se reparares tudo o que é fiscalização anda meio paralizado... Em quase tudo. Não quero acreditar que seja corrupção, mas lá que há bruxas parece que as há...
Porque noutros campos, (este do Código é sinistro e nem dá discussão!) mas eu dizia que noutros campos as nossas leis não são más. Não há é capacidade para as fazer cumprir! e gostaria de entender porquê?
Sem ir mais longe, a actual lei do aborto, é constantemente sabotada. Basta fazer arrastar as decisões, enviar de serviço para serviço, pedir mais um papel, pedir outro parecer, e o prazo foi ultrapassado!
Mesmo as leis mediocres, se fossem cumpridas já se vivia num país melhor do que este.
Quanto ao que dizes, ainda bem que escreveste este post. Há muita gente que não faz a menor ideia do que se passa!!!!
Afixado por Zé em 29 de março de 2005, às 10:48
Trabalhei 8 anos junto de pessoas que, embora tenham adquirido algum tipo de deficiência, sobreviveram a acidentes de trabalho. Para meu espanto,a situação traumática porque passaram (na generalidade das situações) não mudou o padrão de comportamentos ou, pelo menos, a forma de pensar. Se se mantivessem no mesmo posto de trabalho, o desleixo quanto a questões de segurança manter-se-ia. Que isto de trazer o capacete na obra nã dá jeito nenhum, faz calor e pesa. Só serve para estorvar.
Uma mudança de atitude no que diz respeito a questões de segurança implica necessariamente uma mudança de mentalidade. Queixamo-nos dos trabalhadores das obras mas não nos importamos de trazer as crianças sem cinto no banco de trás, empoleiradas na janela, que está um calor de morrer e elas até precisam de apanhar ar, coitaditas.
Isto não invalida, em nada, a necessidade das empresas serem muito mais exigentes no que diz respeito ao cumprimento das normas de segurança. É também a partir delas que se deve processar parte dessa mudança de cultura do desleixo, de cultura de que só acontece aos outros. Desculpa este comentário tão alongado mas a dor estampada na cara daqueles que perderam algo, porque não cumpriram com os mínimos de segurança, não me permite ficar calada nestes momentos.
Afixado por CotaMarada em 29 de março de 2005, às 11:07
Concordo contigo Zé, há leis que têm que ser alteradas, mas o problema é que nem as que existem são cumpridas nem o seu cumprimento fiscalizado.
Como tu dizes, há pessoas que não fazem a mínima idéia do que se passa, nestes e noutros aspectos dentro duma empresa. E este desconhecimento começa pelos responsávies da IGT ou de outros organismos oficiais.
CotaMarada, "desculpa por este comentário tão alongado"?
Que raio de coisa. É para ter comentários mais ou menos alongados, é para discutir assuntos sérios ou rirmo-nos com os menos sérios que se fazem posts.Se não qual seria o gozo? E o objectivo?
Os teus comentários são sempre bem vindos.
E como dizes, o que temos que mudar, é ,também a cultura do desleixo, do deixa andar, do "só acontece aos outros".
Afixado por isabel em 29 de março de 2005, às 11:26
Acompanhei varias vezes operários em montagens de estruturas metálicas.Era de arrepiar! Muitas vezes só sob ameaças de processos , conseguia que utilizassem o cinto e o capacete.Há gente para quem a segurança e a precaução são sinónimo de "medricas" e "bétinhos" Depois ...bom , depois "pagam" com o corpo ...sem direito a troco.
Afixado por fernando nogueira gonçalves em 29 de março de 2005, às 12:13
Estou cansada de ouvir responsáveis dizer "acidentes acontecem".. Quem trabalha de perto ou conhece a realidade, sabe que raramente os trabalhadores estão salvaguardados, porque implica mais dinheiro que sai do bolso.. O estado é para nós, mas também deve ser POR nós.
Afixado por Pecola em 29 de março de 2005, às 12:15
O problema, Fernando, é que a questão não se resolve, parece-me, com processos, resolve-se com formação e essa custa dinheiro. E implica fiscalização. Claro que há pessoas que são desleixadas (como o são na estrada, por exemplo),mas para além disso a responsabilidade passa pela segurança que as empresas têm que criar e implementar e pela fiscalização que a IGT tem que fazer. Antes que os acidentes aconteçam.
Á forma bem portuguesa de "depois de casa roubada, trancas à porta", tem que ser alterada. E essa responsabilidade passa por todos:trabalhadores, empresários e Estado.
Afixado por isabel em 29 de março de 2005, às 13:19
Isabel,no caso que referi e em abono da verdade, a empreza tinha tudo o que de melhor existia para segurança dos seus empregados. Só que essa educação de que se fala e bem deve ser dada a partir dos bancos da escola.
Já por diversas vezes comentei os programas de "escola segura" por exemplo. Como é que é possível sensibilizarem-se crianças para as questões rodoviárias e depois vemos os miúdos por tudo quanto é sítio proibido com bicicletas, sem luz, passando vermelhos sentidos proibidos etc.
Acho que tudo o que se está a fazer neste momento em Portugal e em matéria de prevenção em todos os ramos tem dois objectivos: sacar massas da C.E e posar para a imprensa.
Afixado por fernando nogueira gonçalves em 29 de março de 2005, às 14:32
Eu concordo, Fernando. essa parte também existe. Não é, no entanto, a única. Há empresas que descuram totalmente a segurança dos seus trabalhadores.
E há outras questões qua nunca ninguém coloca.
Eu ontem perguntei no meu DRH, o que aconteceria se houvesse algum acidente com algum dos estagiários que cá estão.
É uma empresa multinacional, com condições razoáveis de trabalho e de segurança.
Do outo lado, para além dum esgar de espanto, tipo acabei de ver um extraterrestre, responderam-me "Só cá estão 2 meses...que horror...que pessimismo, não andam propriamente nas obras..."
Isto é, poderia acontecer tudo. E ninguém se tinha lembrado de nada. E, pelo ar, vão continuar "sem se lembrar".
Afixado por isabel em 29 de março de 2005, às 14:42
Seria interessante descobrir quantos desses sinistrados estavam devidamente cobertos, à data da ocorrência, por uma apólice (obrigatória) de seguro de acidentes de trabalho com os salários reais declarados à seguradora.
Aí começa a segunda parte do drama, muitas vezes suportada pelos familiares, de quem se vê atraiçoado pela sorte e pela soma de negligências.
Afixado por sharkinho em 29 de março de 2005, às 15:27
Olha a ingenuidade, Shark. Pois se grande parte são imigrantes mais ou menos ilegais... É exploração em toda a linha. Falo da construção civil, é certo, mas nós sabemos como é. Muitos são contratados à semana ou ao dia. Qual seguro qual quê! Então lá diminuia o lucro.
Afixado por Emiéle em 29 de março de 2005, às 15:47
È como diz a Émièle, a maioria das vezes o lucro não é compatível com essas "miudezas"...
E a precaridade que se junta à impunidade.Quantas empresas terão sido condenadas por falhas na segurança que poderão ter causado acidentes de trabalho?
Afixado por isabel em 29 de março de 2005, às 16:07
Mesmo quando há seguro tem de se partir para uma longa caminhada nos tribunais, ficando os advogados menos honestos com a grande fatia desse bolo que é a indemnização. Enquanto isso a família tem de ir pagando os custos da reabilitação com o dinheiro do seu bolso (que na maioria dos casos está completamente roto).
Afixado por CotaMarada em 29 de março de 2005, às 19:26
