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março 03, 2005
Cadáver Esquisito do Afixe - o Regresso da Baronesa
O Jorge Morais, a meu pedido, colocou um ponto final ao cadáver esquisito. Em boa verdade, já não era sem tempo, que a coisa já começava a esmorecer.
Resultado de 242 afixadelas, segue, pois, em entrada estendida o Cadáver Esquisito do Afixe - o Regresso da Baronesa.
Para que fique a constar, colaboraram na respectiva redacção, e por ordem de entrada em cena, as seguintes 29 alminhas, a quem endereço o meu muito obrigado (é assim que se diz, né?): Luís Aguiar-Conraria, derFred, fernando nogueira gonçalves, João Pedro da Costa, Tubarão, susana, sharkinho, Sérgio, gibel, Monty, 1poucomais, Emiéle, Isabel, vague, M., Jorge Morais, JQ, Grilo, bluegift, Santa Cita, Dot, bin_tex, Lyra, jorge, Pedro Garcia, Bruno Parente, Bastet, curioso e Miguel S.
Parei.
Olhei para os lados, sem certeza da opção a tomar.
A minha mente vazava em turbilhão – a pouca segurança que tinha ia-se esvaindo, ao ponto de já não saber o significado das cores ou dos símbolos.
Mas que raio?
Porque me havia aquilo de acontecer a mim?
Continuei quieto.
Não sabendo para que lado me virar vou em frente. Sempre em frente até voltar ao mesmo sítio! Merda, não sei para onde virar.
Tenho de ir embora que esperar não é saber, já dizia o poeta. Demito-me! De quê? Não sei. Demito-me de existir. Não, não posso.
Não posso. Não posso o quê? Onde estou? Estes sapatos não são os que calcei de manhã. São quadrados. Não têm atacadores. Estão-me largos. Descalço-os.
Tou lixado, com este chão abrasador! Quem me manda comprar sapatos nos chineses quando temos o melhor calçado do mundo?
E o azeite, já agora. E o vinho do Porto.
Fiz mal! De onde, eu não sei, mas apareceu-me um cigano a correr e gamou-me as faluas, que acabara de comprar no bazar chinês.
Pensei – isto está a descambar. - dei meia volta a tentar perceber como é que os chineses conseguem contornar a crise económica, enquanto coçava ferozmente o tornozelo esquerdo onde tinha sido picado por uma melga (acho eu).
Tive sede, ou pelo menos parecia, mas apesar de perceber o sentido da palavra copo não conseguia recriar na mente a imagem desse objecto que sabia fazer-me falta em tais circunstâncias. Concentrei-me na torneira, mas não consegui fazer uma associação de ideias que me levasse a abri-la para sorver o líquido de cujo nome não me lembrava.
Cocei até sangrar. E entretanto a sede passou, ou transferiu-se para outro apetite, para outra necessidade que também não sabia como satisfazer...
A um dado momento os riscos da porta, que se assemelhavam a caracteres chineses, começaram a ter um sentido. Eram letras da minha terra! Li: "Zona dos Moribundos".
Acorda. Não faças de um sonho um pesadelo! Que pensavas tu? Que era a mulher fatal? A mulher fatal não é uma mulher de sonho, pesadelo, não sei... Mas quando acordares vai ser pior ainda. Estarás de volta ao beco sem saída em que a tua vida se tornou. Virar à esquerda ou à direita? Não sei, mas vai contra o carreiro, se te queres sentir bem contigo próprio.
Cortei caminho pela floresta, e fui dar a uma clareira desconhecida. Ali, as árvores pareciam mais altas, o céu mais longínquo, o chão mais deslizante. Tão deslizante que comecei a senti-lo desaparecer por baixo dos meus pés. Tentei agarrar-me a um ramo que estava por perto, mas partiu-se. Quando dei por mim, caía. Caía como se subisse, sentia-me a pairar sobre o mundo. Parecia esquecer que existia.
Aqueles cogumelos que recebera da Holanda eram óptimos!
Num lapso da inconsciência que o atormentava, apercebeu-se que não tinha saído do mesmo sítio. As cores e os símbolos continuavam imperceptíveis.
[só um parêntesis: então a inconsciência tem lapsos? E não estamos a voltar ao início? Bem, continuando...o relato é na terceira pessoa do singular não é?]
Decidiu pôr os óculos.
[este trecho é patrocinado pela OPTICLINIC]
Ocorreu-lhe então que estaria a morrer. O cérebro desligava as funções como numa sequência de interruptores com os quais se apagam as luzes nas diversas salas de uma mansão e ele podia assistir ao processo inexorável do fim, até à absoluta escuridão.
Tinha lido algo acerca do assunto e agora batia-lhe mais forte o coração. Mas isso soou-lhe paradoxal: devia bater mais devagar ou mesmo imobilizar-se por completo. Ficou ainda mais confuso.
[vocês estão mesmo a dar no literário: isto é para ser uma daquelas cenas xamânicas em que a mente se desprende do corpo?]
- Mas que Loucura é esta? - Gritou, e continuou. - Tudo isto por causa de uma conta da EDP? A mania dos aquecedores no máximo saiu-te cara. Para a próxima faço ligação directa à casa do vizinho.
E tomou 2 Valiuns...
De repente, lembrou-se: e se fosse ter com a Maria Piaçaba?
Mas agora? Raios partam, será que 'inda ia a tempo de vomitar a porra dos comprimidos?
"Parei assim mesmo parado.
Olhei para os lados e para cima e para baixo e em diagonal, sem certeza da opção ou opções a tomar e quem diz opções diz alternativas.
A minha mente vazava em turbilhão como quem vaza olhos – a pouca segurança, se segurança lhe pudesse chamar e que achava que tinha, ia-se esvaindo, ao ponto e vírgula de já não saber o significado das cores azul, vermelha e branca ou dos símbolos que elas coloriam.
Mas que raio, ou trovão ou lá isso!
Porque me havia aquilo de acontecer a mim, que nem tinha comido os cogumelos todos?
Continuei quieto, enquanto a Monica, que o Bill me havia apresentado no guincho, executava com arte um felatio em três ritmos em mi bemol sustenido..."
Mas? A Monica? Então e a Maria Piaçaba? Que diria a Maria se entrasse no quarto naquele instante? Que explicação lhe poderia dar? Que desculpa? Querida, isto não é o que estás a pensar? Esta mulher está apenas a orar?
Melhor, dir-lhe-ia: "Querida, isto não é o que estás a pensar, eu não sou eu!"
Mas quem entrou no quarto foi um gajo com voz dobrada à moda do Porto (ou seriam tripas?) do canal televendas!
Só para lembrar: Swayzak, The Hacker e Munk actuam amanhã à noite nas (cum)plicidades do Lux! Vendeu-me dois bilhetes e saiu.
Que iria fazer com os bilhetes? Quem iria convidar? A Maria? A Monica? Ou o Comandante Guélas, a Nuvem de Verdade e a promessa do Pleroma?
E acordei. Juro: nunca mais como cogumelos vindos da Holanda!
Já que estava acordado, era melhor começar a mexer-se. Afinal, as pernas começavam a ficar em dormência plerómica. Não podia ser!
Para a próxima, prefiro comprar uma sandes de bacalhau na taberna da Estação do Fundão.
Uma ideia, no entanto, não lhe saía da cabeça – mi bemol E sustenido?! caraças, aquela maria piaçaba era mesmo polivalente. Ou seria a dicotomia da sua dupla personalidade?
Mas não! A confusão grassa! A do mi bemol sustenido havia sido a Monica!
O problema dos cogumelos frescos é que estavam estragados. Bateram mal, tão mal que até julguei ouvir no céu qualquer coisa que soava a uma mistura de Enya com Van Halen. Quando caí em mim, percebi que o pleroma era, afinal, uma doença que a Maria Piaçaba me tinha pegado.
Foi então que me deu uma olímpica vontade de cagar.
Também, quem me mandou comer cogumelos frescos vindos da Holanda? Mesmo com a rapidez das viagens de hoje, sou a prova de que não é muito diferente do que comer peixe fresco na aldeia do Astérix.
(E o mi bemol sustenido não me saía da cabeça... É que, caramba, se é bemol não é sustenido - mas aquele era!)
Mas se estava a ouvir música, seria que estava completamente acordado? Essa dúvida, não bem cartesiana, começou a atormentá-lo. Como iria ter a certeza de estar agora acordado e não o inverso?
Já nem sabia onde estava, logo ali é que me tinha de dar a vontade de defecar. Enquanto o fazia, pensava que a minha vida devia ser mesmo muito triste, para fazer rimas internas com a palavra defecar em textos que nem sequer existiam fora da minha cabeça marada. E a porcaria do pleroma ardia-me na alma e no esmegma.
"Certo", pensou então, "se estava a defecar (que raio lhe tinha dado para ter começado a pensar em termos tão exóticos?) seria porque estava acordado" mas apesar de tudo este pensamento continuava a não lhe surgir com grande clareza.
"Defeco, logo existo." pensou. "Pelo menos estou vivo. Mas na merda..."
A confusão mantinha-se (os tais cogumelos não teriam nenhuma substância estranha...?) pois apesar de não ter agora dívida de que estava vivo e portanto existia, continuava hesitando sobre o seu estado: sonho ou vigília? Eis a questão.
Ó céus! Como seria tal possível? Pois se no seu espírito estava tão claro que se sentia com DÚVIDAS como surgiu do nada a palavra DÍVIDA como "acto falhado" freudiano?
O meu estado mental era tão estranho que me ia apercebendo que dava erros ortográficos e gralhas nos meus pensamentos. Como é? Dívida ou dúvida? erro ou erros? E porquê, oh meu deus porquê?! Enquanto isto, reparei que um pedaço de matéria orgânica rejeitada que boiava nas couves tentava me dizer qualquer coisa. (Boiava nas couves, boiava nas couves?!)
"Despacha-te que preciso da casa de banho, porra! Tou mesmo à rasca! Olha que faço mesmo aqui na sala..."Imaginou o encolher de pernas da Mónica.
- Mas porque é que eu vim para este mundo – gritei em desespero quando ouvi o toque estridente do despertador. A verdade tinha-se revelado: ia ter teste de matemática!
"Pois é", pensou ele " o melhor é voltar a deitar-me a acabar o sonho que estava a ficar tão bom. Este estado que não é carne nem é peixe não me está a agradar". Porque a verdade é que as gralhas mentais, é ainda um sintoma novo na psiquiatria. Será altura de começar a pensar em estudar o fenómeno.
E nessa DÍVIDA de que estava vivo, vida essa ingrata cuja culpa ele atribuía unicamente à tendência libidinosa da sua mãe e ao seu gosto absurdo por cogumelos estrangeiros que ele – ó infortúnio, ó martírio – tinha herdado, tendo herdado também os duvidosos genes do seu pai incerto, meteu as mãos nos bolsos sem encontrar um tostão (nem lhe ocorreu que já tinham há muito saído de circulação).
Foi então que o telefone tocou!
Acordar, é verdade, mas algo ainda atazanava o meu espírito: será que as doenças venéreas se apanham nos urinóis?
Urinol? Sentiu a mesma sensação de há pouco com a torneira. A palavra era-lhe familiar...veio-lhe uma vaga memória duma noite no Bairro Alto. Virou-se para o outro lado, ignorando o telefone...urinol...Bairro Alto...
É isso! Era isso que lhe estava a escapar!
O Euromilhões! Onde raio havia posto o talão que encontrou naquele urinol do Arroz Doce?
Tentou lembrar-se, mas parecia que tinha sinos a ressoar na cabeça.
Começou a enumerar hipóteses: Guardar, guardou-o com certeza. Num bolso? No sapato para não o roubarem? (estava no Bairro Alto) Dentro do livro que levava na mão? Espera! Não o deu a guardar? Isso! Estava um bocado entornado e teve receio de o perder. Pediu a alguém para guardar. A quem?
À Maria Piaçaba! Era com ela que estava o bilhete, se calhar premiado [é ele o tal que não reclamou ainda o prémio aposto - desculpem o aparte não vir nas rapidinhas]
À Maria Piaçaba! Era com ela que estava o bilhete, se calhar premiado [é ele o tal que não reclamou ainda o prémio aposto - desculpem o aparte não vir nas rapidinhas]
Prémio aposto???? O homem está mesmo mal. Precisa de um café forte, bem depressa.
Maria Piaçaba tinha o bilhete premiado mas não o disse ao homem. Deixá-lo pensar que o perdera. Ela iria a Lisboa buscar o dinheiro, colocá-lo-ia debaixo do colchão e o homem dormiria com ela sem suspeitar que dormia sobre um tesouro.
Mal sabiam Maria Piaçaba – enquanto engendrava o seu plano maléfico para enganar o nosso herói – e o nosso herói – é verdade, o nosso herói tem um nome, isso é necessário a todos os heróis, mas por enquanto esse nome é uma incógnita, quem sabe será revelado mais tarde, na história, talvez seja importante que o leitor não o conheça neste momento, para mais tarde, quando for revelado, pensar: - Claro, só podia ser, faz todo o sentido! Porque nestas coisas é bom que o leitor tenha destes momentos, criam a empatia entre ele e a obra, lembram as velhas histórias policiais, ao estilo Agatha Christie, que, como se sabe, toda a gente aprecia, e é isso que se quer para este cadáver esquisito, que seja apreciado – enquanto se retorcia no delírio provocado pelos cogumelos, a meio caminho entre o sonho e a vigília, que é assim como o meio do caminho entre a vida e a morte, só não se sabe muito bem se é a vigília que é a vida e o sonho a morte ou vice-versa, mal sabiam, dizia, que o destino, ou o acaso, para quem não acredita no primeiro, estava prestes a trocar-lhes as voltas, a pregar-lhes uma partida, tal como costuma fazer, para que ninguém possa ter muitas certezas, que a vida não é para esses e de gente que nunca se engana e raramente tem dúvidas estamos todos fartos.
Na verdade...
Mas a hipersensibilidade do príncipe da ervilha poderia trair o segredo de Maria. O monte de notas, ainda que cuidadosamente espalhado ao longo do estrado da cama e debaixo de um volumoso molaflex, causaria desconforto ao seu parceiro de leito. E depois, se ele descobria a fortuna oculta, como reagiria?, cogitou Maria por entre a flatulência descontrolada que os nervos lhe provocavam.
Não imaginando o que ia na cabeça da Maria Piaçaba, ele continuava a tentar encontrar a melhor maneira de reaver o bilhete.
Por momentos não se perdoou a mania que tem em pedir que lhe guardem as suas coisas. E se ela descobrisse que o bilhete era premiado? E se negasse que tinha o bilhete? Onde é que uma mulher como Maria Piaçaba guardaria o dinheiro?
Mas adivinhar o se passaria pela cabeça da Maria, era exercício difícil para o"nosso herói". Como já se viu que o seu pensamento está confuso, pelos cogumelos, o sono e sabe-se lá que mais ainda, não lhe ocorre o caminho fácil de mais de lhe perguntar directamente. Este espírito retorcido nunca tomaria um atalho tão directo.
Enquanto continuou perdido em raciocínios retorcidos e enevoados, o telefone voltou a tocar insistentemente. Tentou ignorá-lo mais uma vez, embrulhar-se nos seus pensamentos, sem voltar ao mundo real, que lhe recordava o teste de matemática a que tinha faltado, quando tudo o que lhe interessava era pensar onde estaria o bilhete. Mas desta vez não conseguiu, o rrrriiinnng do telefone feria-lhe os ouvidos, o cérebro, era quase uma dor física. Arrastou-se, meio cambaleante e atendeu: - Sim? - tartamudeou, com sérias dificuldades em controlar a língua.
Resolveu agir frontalmente.
Enviou-lhe um SMS:
Tens o meu bilhete?
Ela respondeu:
Qual bilhete?
Ele:
O bilhete.
Ela:
Qual bilhete?
Isto deu-lhe uma pista: Gato fedorento!!!
Era a Maria que lhe telefonava, porque aquela história do sms, tinha tanta letra trocada (o homem estava confuso, lembram-se?) que a rapariga não estava a entender patavina.
- Então, já fizeste o que te pedi? - perguntou ela.
- O quê?! - respondi, confuso.
- Mau, mau, mau, mau, mau, mau, mau, mau mau. Não me digas que te esqueceste de fazer aquilo que te pedi.
Num aperto, comecei a vasculhar nos meus bolsos. Encontrei apenas um lenço usado, uma chiclete hollywood, que eu nem sabia que ainda existia, e um minúsculo papel com qualquer coisa escrita. Desdobrei com cuidado, e vi, finalmente vi.
Finalmente vi o que tinha a fazer. tamanho vazio nos cornos levou-me a subir à torre da igreja matriz e gritar para o povo:
HOJE COMI PEIXE COZIDO E GOSTEI
Ao gritar caiu-me a dentuça que começou a fazer um voo picado sobre a comitiva do Bloco que estava em campanha eleitoral.
E logo havia de aterrar na penca do Daniel...
De repente, tudo fazia sentido: Gato Fedorento, Monty Python, penca... EUREKA!
O Monty tinha afirmado que era o Júlio Isidro da blogosfera...
Agora tudo fazia sentido...
Obviamente que o sonho ( ? ) continuava, misturado com algumas cenas do "Regresso ao Passado" que tinha visto na véspera em DVD. Porque estava no alto da torre quando uma trovoada sem chuva soltou um raio que o apanhou em cheio.
Mas sempre que começava a pensar que tinha descoberto tudo, sentia a estranha presença, em sincronia, de Emiéle...
Estaria ela também envolvida?
E de facto é bom reflectir nestas coincidências. Nova pista surge aqui... Será um caso de dupla personalidade? Para além do "Regresso ao Passado" eis que o "Psico" se perfila nas suas recordações.
Medo? Confusão? Humor? O que escolher...?
Após alguns instantes de profunda reflexão, a escolha começou a parecer-lhe óbvia: tinha que contactar urgentemente José Maria Martins, o advogado do Bibi! Ele teria o antídoto para o mal que tanto o atentava! Vestiu a capa e dirigiu-se para a esquadra!
Felizmente que no último momento, recuperou um pouco de lucidez, pois por associação com a ideia de "capa" e na sequência das recordações cinematográficas sentia-se também super-homem e por uns segundos surgiu-lhe a imagem de abrir a capa e planar do alto da torre até à esquadra. Mas não. Respirou fundo, e desceu as escadas.
Mas ao sair para a rua, teve um estranho encontro:
O Dr. Serra Lopes, o arqui-inimigo do Dr. José Maria Martins, atravessava a estrada na sua direcção com a filha Inês pela mão.
Serra Lopes ali? Aquela hora? E acompanhado de Inês... Uunnn…Várias hipóteses lhe cruzaram o espírito, de novo pouco tranquilo. Possivelmente teria de repensar de novo todos os seus planos. Tinha de entender o que se passava.
O telemóvel! Ia fingir que estava a receber uma chamada da Felícia Cabrita.
- Estou? Felícia?
-Sou euzzz. Tenho um favorzzz a pedir-tezzz podias pedir ao Danielzzz Oliveira,que me devolvessezzz a dentadurazzz, para poder contactarzzz com urgência com o Dr.José Maria Martinszzz? Tászzz a ver é que aquilo no nariz do gajo nãozzz dá p'ra nada e a mim faz-me mesmo faltazzz...
Foi melhor assim, livrou-se do Serra Lopes e resolveu o problema da dentadura...
De repente pensou:
"Terá isto a ver com o segredo do Bernardo?"
"Ou com o segredo do Governo Sócrates?"
Mas a Felícia, bisbilhoteira, ficou alerta:
Como? Dentadura? Nariz do Daniel Oliveira? Ó homem, tu não me digas que te bateste... Deste-lhe uma dentada!? E com tanta força que a dentadura ficou lá presa! E ele ainda tem nariz? Com certeza não têm. Por isso é que não lhe cheira a esturro. Tenho já aqui uma óptima história, nem precisas de dizer mais nada.
Fica descansado que não digo quem é a minha fonte, a não ser que me supliquem de joelhos no chão...
Bem...voltamos aos joelhos??!! Moooooonicaaa! Estão-te a chamar rapariga aqui ao call center!
"Quem me chama?!" Surge Monica a correr vinda do lado esquerdo do palco e tropeça no ministro Fui Gomos à Silva que, erguendo o indicador, exclama solenemente:
"Esta história do bilhete perdido é mais um cabala involuntária"
Ao que Monica responde:
"Isso não sei how to do, mas se you explain to me I may aprender and develop my skills"
"Paralítico" como no cinema, eis as personagens:
O nosso "herói" (o tal que não tem nome mas virá a ter) está na saída da torre da igreja de telemóvel na mão, fingindo falar à Felícia Cabrita. Claro que, dado a perfeição das escutas assim que se soube que ele fingia falar, o "escutador" fez a ligação e a chamada realizou-se mesmo, daí o diálogo.
Em frente, Serra Lopes, com a Inês pela mão.
José Maria Martins espera na esquadra.
Mónica corre para o local do crime.
Maria Piaçaba olha para um bilhete de totomilhões.
Plim! Pode continuar:
- Não, não e não isto está um caos! - Gritou desesperado o grande realizador Manuel de Oliveira.- Eu disse-vos que ia fazer um filme grandioso sobre a História de Portugal Pós 25 de Abril, mas não quero contar tudo. Os senhores da Pedofilia não são para aqui chamados, senão fico sem os subsídios – e deu uma palmada ao puto que estava debaixo da mesa, para continuar.
De repente aparece o irmão do Milhas, o Janeca e...
Claro que a dentadura, foi colocada num bolso e esquecida, pela sua vítima. Será mais tarde encontrada, quando em pleno Eixo do Mal, Daniel quiser tirar uma caneta, saltando então a dentadura (grande plano, apanhado por uma câmara maléfica)
- Parem, parem, isto está um caos! - Gritou o grande realizador português Manoel de Oliveira. - Eu quero contar a história de Portugal Pós-25 de Abril, como um evento organizado e responsável. Isto está uma balda, parece o PREC! E do PREC eu quero mostrar uma revolução responsável. E não vou contar tudo. A Pedofilia fica de fora se não cortam-me os subsídios – e dito isto deu uma palmada na cabeça do puto que estava junto a ele debaixo da mesa, e que tinha parado com o grito.
- Daqui ninguém sai – ordenou o irmão do Milhas, o Janeca – Quem é que me gamou as pastilhas? Agora estou à rasca do cóxis.
Em pleno "eixo do mal" a dentadura salta para o decote de Clara Ferreira Alves! Esta pergunta a Daniel Oliveira: isso é um problema de falta de aderência ou are you happy to see me?
Em face destas malévolas e assaz libidinosas sugestões, o estúdio é invadido por Sharkinho que arde em ciúme, qual Otelo cego de ciúmes por sua ... [como é que se chamava a miúda do Otelo do Shakespeare? Bolas!] que exclama:
[na versão Sex Appeal chamava-se Julie Sargeant ;-)]
[Desdémona, ou estou a fazer uma das minhas habituais confusões?]
O tubarão invade a sala do estúdio e dirige-se à sua idolatrada CFA. Eis senão quando...
[Dez-de-Mona! É isso mesmo!]
"Dez-de-Mona", o arqui-inimigo de Serra Lopes, e por isso, arqui-amigo de José Maria Martins entra pela sala adentro e...
Uma vez que o lencinho da Desdémona se transformara em algo tão sensual como a bela e branquinha dentadura mandada fazer pelo molde do Paulinho, a nossa Clara, aí começou a balançar entre o olhar verde de ciúme cá do Tubarão, e o Daniel. Levantou-se e disse, como o príncipe da Cinderela- "Quero saber a quem pertencem esses dentes".
Sim, Dez-de-monaa, 86-60-86 nas outras medidas, era assim o nome "misterioso" que Kane dissera no seu último suspiro: "Dez-de-mona"...
Não, nãããão!
"Dez-de-Mona" não era mais uma gaja portuguesa, "Dez-de-Mona" era, agora, depois da mudança de sexo, um perigoso pistoleiro de origem indochina. E ia confrontar Daniel. Ele havia de lhe explicar onde estava Inês!
Mas se a dentadura (tal como o sapatinho da outra, a do príncipe) servir, neste caso na boca do "herói" a Clara casa com ele e adopta a Inês.
Isto SE...
Contudo:
Dito isto, um dos argumentistas saiu furioso, até porque tinha uma festa em curso, e disse:
- Só volto amanhã de manhã, caso isto ainda não tenha acabado!
E dito isto, foi-se, sem ficar a saber que destino seria dado a Inês...
[Emiéle, outra vez???]
[Ai tadinho do Sharkinho que vai ter de experimentar a dentadura pra ficar com a Clara!]
Por amor faz-se tudo. As irmãs más ( e era por ambição e não amor!) não enfiaram as patorras no sapatinho de cristal? Se o Tubarão ficar com duas fiadas de dentes só faz juz ao seu nome!
Juz ao seu nome...jaz o seu nome...qual nome?
Tenho dezasseis mãos. Ou trinta e duas... um excesso de mãos de qualquer forma.
86-60-86. Dizem os entendidos que o rácio das duas últimas medidas se deve situar à volta do 0.66. Ora 60 a dividir por oitenta dá 0.7... uma anca um pouco larga portanto. Há que perder peso, mais ginástica, menos comida, mais dieta.
Entretanto, onde estava Inês?
E ele lembrou-se, então dos velhos versos: "Estavas tu, linda Inês, posta em sossego..."
Das duas uma: ou Inês estava para as bandas do Camões, ou tinha voltado à Quinta das Lágrimas onde o seu sangue continuava, miraculosamente, a vermelhar na fonte.
Comida, pensou ele. Há quanto tempo não lhe entrava nada p'lo bucho? Eram quase 10 da noite e afinal, não tinha recuperado a dentadura, nem o bilhete do euromilhões, nem falado com o advogado do Bibi. Nem comido nada. Quando pensou em comida, voltou a lembra-se da Dez-de-Mona, que a esta hora já deveria ter sido trespassada pela dentuça dupla do tubarão...
Pensava no enorme peixe, quando, pelas costas, sentiu umas mãos suaves a pousarem-lhe nos ombros...
Mais dieta. Pensou Daniel Oliveira, enquanto recolhia apressadamente a dentadura do rosáceo colo de alabastro de Clara.
Daniel então parou.
Viu-se a olhar para os lados, sem certeza da opção a tomar.
A sua mente vazava em turbilhão – a pouca segurança que tinha ia-se esvaindo com as bocas que lhe mandava o José Júdice, ao ponto de já não saber o significado das cores ou dos símbolos da porra do cenário ("quem pintou esta bela porcaria prá SIC e uma barbicha azul ao Pedro Mexia também meteu o garfo aos cogumelos do Dez-de-Mona!" pensou para os seus botões, pelo menos para aqueles que estavam apertados - pois entretanto, Clara! O que é que estás a fazer debaixo da mesa? Caiu-te a bic?).
Mas que raio?
Porque me havia aquilo de acontecer a mim?
Continuei quieto, dentro do possível...
Tentei pôr-me no corpo oprimido de uma mulher vítima de bocas sexistas que em nada quebram a lógica cristalizada da linguagem, antes a prolongam. No coração batia-me aquele apelo: fazes-me falta!
Ocorreu-me então aquele episódio passado em 63 na redacção do Jornal "A República É Já Ali" em que estava na cave, onde habitualmente reunia uma tertúlia em torno da última fase de Sartre, a conversar com o Zebedeu que era um marialva consabidamente fascista - sabíamos que bufava prá pide, mas dava gozo passar-lhe informações falsas tipo "amanhã vai haver na Leitaria Fonseca à Rua dos Douradores distribuição de pães de leite recheados com boletins-miniatura do "Avante" pela malta do PC" que o gajo engolia logo) e com o Arménio Criolina, que já na altura desconfiávamos que atracava fora do Cais da Rocha, porque quando íamos à Casa de Tias da Rua da Prata dar o curso de alfabetização em Proust - volumes I e II do "Em Busca..." - às meninas da Tia Goretti, o gajo insistia em ficar sentado na sala e em não participar...mas dizia eu...
Inês, afinal estavas aqui...desde o meio da tarde que te procurávamos rapariga...
Ele entendera finalmente...
Falta... falta...? p'ra já a falta, aquela hora, era mesmo primeiro que tudo qualquer coisinha p'ra trincar. Se os dentes também faziam falta, com a fome que por ali já havia, rapidamente pôs de lado os ditos apelos de "corpo oprimido de mulher" e decidiu-se entrar na primeira pastelaria que encontrasse aberta. Marchava o que lá houvesse e não fosse excessivamente rijo de roer. Embora que se faz tarde. E avançou, mas...
Mas, na sua cabeça algo soava mal. Tia? Pastel da tia? O R rolado que não tinha sido pensado, fê-lo recuar aos tempos onde vivia no oriente e à dificuldade que tinham os orientais em pronunciarem o fatal R rolado. Porque se teria lembrado disso neste momento?
Porque na sua mente outra imagem se tinha perfilado.
É certo. Enquanto o seu estômago reclamava o alimento soltando mesmo uns ruídos um pouco embaraçosos, no seu espírito o que surgia era realmente uma bela refeição mas saboreada num ambiente exótico de que já tantas saudades tinha.
Aos anos... pensava ele. Naquela bela ilha onde se tinha filmado algumas das cenas emocionantes de James Bond.
Quem lhe diria nessa altura que vinha cair como um anjinho numa verdadeira cena de espionagem bem mais séria do que as do 007!
A preocupação nunca o abandonava. Porque a verdade é que só ele e *****(nem para si se atrevia a dizer o nome )é que sabiam a senha que se escondia naquele bilhete do Euromilhões, recuperado e de nove perdido...
Porém..
(Cena essa em que a sua dentadura, caída sobre a penca de Daniel Oliveira e depois depositada nas doces mãos de Clara Ferreira Alves, ia desempenhar um papel jamais sonhado).
O certo é que a Maria Piaçaba não ouvia a conversa da Clara e do Daniel da Inês e do pai Lopes, absorta que estava no bilhete premiado do toto-milhões que jazia debaixo do colchão. Maçaba, como era conhecida na freguesia não tinha televisão nem luz eléctrica e blogs só lia ao fim de semana reinava desolada no seu trono milionário e só. Manel (como é que se chamava o homem?) não sabia de nada nem podia saber do dinheiro ganho; forreta como só ele, se se apanhasse com as mãos na massa, certo seria que a Maria nunca mais lhe punha as mãos em cima.
Um fervor assassino pulsava no interior de Maçaba! Eu podia ler naqueles olhos raiados que nada de bom crescia dentro dela, espicaçada que estava pela cobiça que o bilhete do Euromilhões provocava. Um momento antes dela se precipitar para cima de mim, lembrei-me da madalena que costumava trincar ao serão em casa dos meus pais. Ah, como era doce sentir o cheiro quente do bolo, enquanto em redor as conversas dançavam de assunto para assunto, monótonas.
"Então o senhor vota ou não vota? já viu a fila que se formou para esta sala?"
O quê? fila? voto? e o que é que eu estou a fazer numa sala de aula com uma camisa laranja? ou será rosa?
Sacana do Monty... trocou-me as aspirinas com os ácidos bacanos que eu trouxe de Amesterdão!
"então?! não lhe bastou a campanha eleitoral para se decidir?"
Ai o caraças... e o que é que eu faço agora? bom concentra-te... concentra-te...
Laranja é PSL... Rosa é LSP... então...
E a candente questão do momento. Sim, a grande questão! De que é feito o bolo? Como apareceu aqui? Porque é que tem um buraco no meio em vez de uma cruz? Em quem é que vota o bolo? Posso votar na bola? Mas quem é que trouxe a bola? Não era um bolo? Bolas! Tantos bolos!... ou são bolas? E o senhor quem é? O presidente da mesa? Mas que mesa? Do bolo? Do bolo que não tem cruz mas que tem buraco. Ou da bola? A bola tem mesa? Bolos! Bolos não! Bolas! Mas não era uma madalena? As madalenas têm buracos em vez de cruzes? E são rosas? Senhor. Olha a D. Isabel! Como está a prima? A Maria Piaçaba? O quê? Não me diga!!!! O totomilhões! Fantástico! Por isso comprou o bolo!...
Então Pedro Santana Lopes, qual anjo alado, desceu numa nuvem e disse: estás a ver o que dá a defesa das drogas leves que apregoa o Francisco Louçã?
Depois, veio Paulo Portas, com uma auréola à volta da cabeça a dizer:
- Que a irmã Lúcia te perdoe...
Depois veio o Sócrates, com o seu Dolce&Gabana:
- Não te preocupes bacano, eu sou muito liberal...
A seguir vem o Francisco Louçã:
- Você não devia fumar isso, você nunca plantou cannabis...
A seguir vem o Francisco Louçã:
- Você não devia fumar isso, você nunca plantou cannabis...
Finalmente viu um homem com uma foice e um martelo. Começou a fugir, desesperadamente.
Jerónimo de Sousa, atónito:
- E eu pensei que já ninguém tinha medo dos comunistas...
Em fuga desesperada, afocinha num turbante marroquino impestado de cheiro a erva... é Freitas do Amaral que o agarra pelos ombros...
"Iôooooo meu, 'tás'tás numa boa? 'tás mesmo com cara de quem viu alma ressuscitada. Toma lá um LSP... qu'isso passa."
Entretanto o homem da encruzilhada inicial, o nosso herói, estonteava-se ainda com a falta de guita para mandar vir mais hawaianos... Apesar disso, algo lhe assombrava ainda mais a mente... Porque é que não paro de sair de mim? Procurava a resposta às constantes mudanças de pessoa que lhe eram impostas por narradores... Seguiu o seu caminho... Depois de mais uma breve patrulha pelas ruas da hiperconsciência lembrou-se que tinha de passar na regueifa o belo do papel higiénico... Afinal tinha estado a vomitar pelo orifício anal e não tinha cumprido obrigações higiénicas... Ou não o tinham feito cumpri-las... Mas pensou: "E agora? é memo com a manga do casaco de caxemira ou será que a gravilha funciona???"
Perturbado pelo facto de tanto existir na 3ª como na 1ª pessoa, e ligeiramente incomodado pelo cheiro que subia do traseiro, despachou a limpeza e puxou as calças para cima. Então, reparou que um homem vagamente parecido com ele o olhava do extremo oposto da divisão. Caminhou em direcção ao homem. Segundos depois, um cutelo ferrugento abatia-se sobre o seu pescoço.
Carvalhas? Mas tu...? Eu pensava que ... (fica sem voz) ...
Ao sentir o corte do cutelo no seu pescoço ainda teve tempo de penar.
"Pronto, isto acaba aqui..."
De repente, e enquanto uma luz emanava do ralo da banheira, ouviu uma voz dizer:
Eu sou o senhor das trevas e tu tens a canalização toda entupida! Mas não é isso que aqui me traz...
Eu vim aqui para te dizer que: "Eu tenho dois amores, ta-na-nan, que em nada são iguais, ta-na-nan, mas não tenho a certeza, ta-na-nan, de qual eu gosto mais, áis, áis, áis, áis...!"
Começou então a pensar nos anagramas e na linguagem cifrada. Virou-se para os seus pensamentos de espião desde os tempos da guerra fria, e disse foi a CIA!
Ou não!
Afinal um homem tem sempre de olhar o verso e o reverso.
Tinha então duas, hipóteses: ou foi a CIA, ou não foi a CIA.
E se não foi a CIA, como lhe começava a cheirar, havia então que avançar para a liderança do PSD!
"Abacho a reachão! Morte aos capitaliztaze e latifundiárioze! o pobo benceráze! O pobo bence_rá___ze___ze_______zeee..."
(a voz apagava-se me eco...)
Bem me parecia que aquela alma ressuscitada me ía dar azar...
Mas que névoa... que leveza... para onde foram todos? que estrelas lindas... para onde estou eu a voar? oh! há ali gente... mas, mas eu conheço aquele ali, de gravata laranja e óculos de aviador! puft! que cheiro a chamusco! Eh! não fuja, não fuja...
" 'bora daqui Su, a toda a brasa! já despachámos mais um que ía votar no Pedrinho Santanaz... Yhaaaaa!!!!!!"
Esta dos latifundiários faz-me ocorrer agora aquela história que acho que ainda não contei em que estava eu no "Diário de Lisboa", onde não trabalhava, apenas de passagem para levar uma sande de linguiça à Clotilde Vulva-Leve, que não tinha ido almoçar e que era uma interessante jornalista e personagem do bas-fond sofisticado lisboeta. Toda a gente do círculo literário anti-fascista da Vá-Vá sabia que ela era ninfomaníaca, mas era uma ninfomaníaca exótica e que entusiasmava o espírito de quem a escutava no coito a vir-se em francês - os seus "Mais-oui, Mais-oui, Mais-ooouuuuuiiiiiiiiii" são de antologia! - enquanto recitava poesia erótica de Shelling, o que até achávamos estranho porque este poeta inglês certamente rabeta nunca escrevera poesia erótica, mas ela era uma mulher assaz criativa...
sim ela a Ferreira Leite..denotava em seu rosto um pingo de insatisfação em cada segundo que observava os movimentos pélvicos do Luis Filipe..
A noite que passou com a ninfomaníaca exótica..Ah, aquela noite!
"Brigit Bardot... Big Brother... BiBi..."
Mas porque é que estes nomes não me saem da cabeça? e porque é que eles se foram embora ?
"Brigit Bardot... Big Brother... BiBi... Bomboca... BlogueBasa..."
Será que estou a ser atacado por uma BimBalite?
Bou Basar sim...
E montado na sua vassoura com gripe das rãs, voou janela fora em direcção àquela que havia de ser a sua doce e saborosa vingança! Muéééééé!
A doce vingança era uma madalena trincada e arrependida, pensava Manel para si, desejoso de ferrar de novo os dentes no bolo ou seria bola.
Que se lixe! Anda a Maria Piaçaba sempre virada para o mesmo lado da cama, não sai daquela posição, um homem não é de ferro.
Maria Piaçaba chorava desconsolada sem saber o que fazer. Se mudasse de posição na cama, Manel podia descobrir os maços de notas escondidos debaixo do colchão e num instante desbaratava o dinheiro do toto milhões; Se se mantivesse firme no seu posto, queda e muda, Manel teria vontade de saltar a vedação.
Que hei-de fazer, quem me acode nesta aflição?
já que se a morte surgir leve é por desaparecer tudo que se afirma.
uma decisão na ausência, um grito vazio último a trazer o silêncio pleno, o corpo ido.
Enquanto arrancava ferozmente a cueca de gola alta da gaveta, Piaçaba pensou: "E se eu chamasse o bacano do gajo do talho pa fazer a folha a este palhaço?? Assim a primavera germinaria e a minha virilha não se ressentiria... Alem disso era gajinha para ficar com a nota toda..."
O talhante, um ex-trolha dotado como se de um moçambicano se tratasse, tinha o perfil indicado para o trabalho e Piaçaba não hesitou em contacta-lo, como boa gestora de recursos humanos que é com provas dadas na extinta Junta Autónoma de Estradas...
De repente, o Weblog foi abaixo. E a vida do nosso herói ficou suspensa por um fio...
No dia seguinte, o Weblog voltou a dar sinais de vida. Mesmo a tempo de salvar o nosso herói de uma morte macabra: estava quase a morrer de riso ao ver o blog do Santana Lopes.
O nosso herói não morreu da funesta morte política, mas continuava sob a terrível ameaça do cutelo enferrujado do talhante contratado por Maria Piaçaba, mulher que falara, não poucas vezes, com o Diabo. Uma sombra gigantesca o ameaçava. Foi então que viu, projectada na parede, a silhueta de uma foice e de um martelo, sorrindo para ele com desdém.
De facto na manhã seguinte, quando o fio da weblog retomou o seu fôlego, podendo a vida do nosso herói ser salva dessa triste morte informática, deu-lhe para reflectir. Mas francamente, porque receava ele as atitudes da Maria Piaçaba? Até ao momento, tudo o que de mau imaginara não passava da sua mente retorcida. Não chegara a falar com ela! Se tinham sido tão amigos e tão íntimos que é das qualidades que estiveram na base dessa confiança? Não senhor. Ele tinha de repensar o seu modo de encarar a vida.
Enquanto repensava, surgiu-lhe um sorriso matreiro no canto esquerdo da bocarra desdentada... Podia não conseguir reaver o bilhete em posse da Maria Piaçaba, mas tinha conseguido vingar-se do Daniel Oliveira que não lhe tinha devolvido a dentuça, antes a tinha atirado para o doce regaço da Deusa do tubarão....O Barnabé, não funciona...
E a vingança ia ser terrível! O sorriso, mais do que matreiro já era maquiavélico. Foi então...
Foi então que ele viu a Luz. Sim, a Luz, aquela antiga amante que deixara por causa da Maria Piaçaba, e que fora verdadeiramente a mulher da sua vida.
O sorriso transformou-se. Radioso agora. Sim ela era digna do seu nome. Tudo iria levar uma grande volta para melhor!
Só que, para se aproximar da Luz, precisava do busca-pólos. Porra pá, mas onde é que eu deixei o busca-pólos?
Ficou aterrorizado. A Luz não podia fugir...
Lembrou-se repentinamente do dito cinematográfico... Get away from the light, ouviu no vazio que tinha na sua mente... De seguida recordou-se do motivo porque deixou a Luz em favor de Piaçaba... Conseguia defecar às escuras mas nunca conseguiu tratar daquelas mais consistentes que teimavam em permanecer na sua retrete Madalena... Não havia fluxo de água, por mais poderoso que fosse o autoclismo, que por si só levasse o remanescente lá para o esgoto infernal...
De repente a maria apareceu. Ele disse: ó maçaba, que maçada!, queria fazer uma massada de atum e não encontro o busca-pólos com que costumo abrir as latas.
[Puxem de novo o post para cima, já não o consigo encontrar e por aqui não acedo às rapidinhas. E apetece-me uma rapidinha, ora bolas]
E à falta do busca-pólos a Maria abriu a lata com o vibrador da avó. À noite é que foi o problema. O Mário veio com a ponta e queria a Maria só para ele. Mas a Maria não estava para aí voltada, o atum tinha-lhe dado a volta à barriga.
- Se não queres a bem vai a mal - e agarrou no vibrador.
O cheiro a atum invadiu de imediato o quarto.
- Esteve cá o Pinto de Sousa!
Lembrou-se então da máxima de Woody Allen no filme "Nem guerra nem paz":
"Todos os homens são homossexuais ou bissexuais. Existem ainda aqueles que não têm qualquer interesse por sexo e que normalmente se formam em Direito."
Mas o certo á que este herói está rodeado por mulheres : A Maria, a Clara que tinha ficado com os seus dentes, a Luz, luz da sua vida mas cujo contacto era difícil pelo medo dos choques ( e o famoso busca-pólos tinha desaparecido) pelo que a recordação de Woody Allen não podia vir mais a propósito. Woody sempre esteve rodeado de mulheres, por mais que suspeitasse do sexo. talvez dessa banda lhe viesse inspiração para a decisão a tomar na sua vida.
Mas claro, o José Maria Martins, advogado do Bibi e do Saddam...
Só então olhou para o chão e viu o que o tinha salvo do cutelo ferrugento: meia dúzia de coelhos suicidas.
Suicidas e generosos, que se tinham interposto entre ele e o mortífero cutelo. Vivam os bons dos coelhinhos, e que se reproduzam como eles sabem fazer!!!
A verdade é que José Maria Martins, se calhar com sentimentos também suicidas, teima em não querer entrar nesta história que lhe daria a celebridade! Ao ouvir mencionar o seu nome, escapa-se de fininho...
Sim, José Maria Martins evitava a glória.
Lembrava-se que a Glória tinha feito comentários pouco abonatórios à sua performance sexual individual.
O que não tinha impedido que tivesse ido esperar para a esquadra quando foi convocado aqui pelo nosso herói. A verdade é que cliente é cliente, o Bibi é garantido, o Hussein foi tanga mas enquanto acreditou foi uma alegria, e se aparecesse agora mais alguém arranjava-se um espacinho para o atender. Trabalho é trabalho, e é melhor não pensar na Glória que é uma linguareira. (mas estava-lhe com algum pó, isso é certo!)
Sim, ele tinha ficado com um pó da Glória da última "rave party" a que tinham ido os dois. E era do bom...
Mais agradável que os cogumelos holandeses que lhe tinham causado tanta perturbação e tido aquele triste resultado intestinal! Recuperar os tempos vividos com a Luz ( que bem podia desmentir a parva da Glória)e ainda uns fumozinhos para animar a malta, era um programa que valeria a pena.
Só que, o homem põe e Deus dispõe, e eis senão quando...
...mesmo ali, parado , à sua frente, viu José Sócrates. Tinham sido companheiros de carteira, na escola. Ele tinha que se lembrar...encontrar o novo primeiro-ministro, agora, ali, mesmo à mão de semear, era a resolução de todos os seus problemas (mesmo os intestinais). Decidido, avançou...
... recebo uma chamada do Expresso para ser comentador residente na Única. Resolvo recusar, é claro; mas aceito um convite do Luís Delgado para fazer bungee-jumping na ponte sob o Tejo. Mas as cordas estavam carcomidas...
É claro que isto depois de ter zarpado, a fugir do Sr. Sócras.
Mais uma vez o nosso herói faz a escolha errada. Tal como os coelhos, a sua vocação é bastante suicida. Quando tinha à mão de semear uma razoável solução, numa pirueta deita tudo a perder. Se calhar...
Se calhar devia mesmo fazer como os coelhos. O suicídio, intentado de formas bizarras, que atraíssem no final a atenção de todos os que o tinham desprezado em vida. Desde a Luz ao José Maria Martins.
Com a corda carcomida, Luís Delgado é disparado, num salto de impulso forte, para a zona de Sintra. Mas com menos sorte, o nosso herói cai em cima de um barco que ia ocasionalmente a passar no rio Tejo. Bate com a cabeça violentamente no convés. E é ai então que aparece Abramovich agarrado a Maria Piaçaba, trocando carícias que lhe fariam ficar louco de ciúmes... se estivesse porventura consciente.
"Também acho" pensou ele. "Sou um cobarde, nem tive coragem p'ra tentar um lugar de assessorito em qualquer coisa...Só me resta fazer como os coelhos do JPC...".
Mas p'ra se suicidar também era preciso imaginação. Tinha que ser uma coisa em grande...com televisão e jornais. Até podia ser que lá estivesse a CFA a fazer a reportagem e ao menos, fosse um morto com dentes...
E começou a planear um suicídio em grande. Foi ler os livros dos Suicide Bunnies para se inspirar. Foi ao falecido "Ruínas" em busca de resposta, nos desenhos do JP e na famosa exposição em torno dos coelhinhos. Foi assim que uma ideia começou a formar-se na sua cabeça... e que rica ideia aquela era! (pensava ele, esfregando as mãos de contente).
Foi então que pensou:
Eu sou um homem, não um coelho. Tenho que agir como um homem com M grande. Por isso vou agir como um homem e não como um coelho. Para começar, vou deixar de comer cenouras.
'As cenouras fazem bem à pele e dão-me este tom sexy ao cabelo', pensava Jorge Sampaio enquanto pensava no seu amigo Coelho.
"Ah, pois é, eu também posso agir como o Coelho que não tem orelhas compridas nem rabinho em forma de pompom" (fez-se luz na cabeça do nosso herói; luz, não Luz - essa era outro problemas, e ainda ninguém tinha encontrado o busca-pólos).
É que lá por isso ele já tinha ferveroso benfiquista. Nessa altura ia à Luz cheio de alegria. Outros tempos, é claro... Agora, Trapatonni ou lá o que é, a luz anda um bocado apagadita, talvez umas pilhas Duracell com o famoso coelhinho.
E ouviu uma voz, voz ressoante de 6 milhões de portugueses, vibrar na sua cabeça : "Benfica a pilhas?!?! Oh herege, oh infame, oh maldito!!". Assustou-se um pouco. Ouvir vozes e tão alto era mau sinal.
Pensou que entre ser coelho e ser benfiquista, talvez fosse melhor ser coelho, pelo menos tinha uma vida sexual mais activa.
Com a mesma força com que aparecera, o eco dos seis milhões definhou. Pressentiu nesse instante a necessidade do telefonema:
- Mourinho pá, precisamos de ti...
Com a mesma força com que aparecera, o eco dos seis milhões definhou. Pressentiu nesse instante a necessidade do telefonema:
- Mourinho pá precisamos de ti...
O problema do homem estava a agravar-se de tal forma que já pensava em duplicado...
Ainda tentou encontrar qualquer alteraçãozita nos dois pensamentos, um -, umas ..., nada...acabava de dar à luz dois pensamentos clones...
Deve ser por causa dos coelhos. Para além da tal vida sexual activa ( e rápida) cada coelha tem umas ninhadas que nunca mais acabam. No meio de tanto gémeo-coelhinho, uns dois mesmo iguais é coisita pouca; eles e os pensamentos apelando ao Mourinho, já se vê...
E Coelho pensava: por quem sois? E Sócrates respondia: por quem boys?
E Coelho perguntava: seremos snobes? E Sócrates respondia: queremos jobs?
Mas um coelho também poderia acabar estufado numa panela...
Mas entre um coelho estufado numa panela e um job arranjado por um Coelho...
...que venha o filósofo grego e escolha.
Ah, se o Mourinho quisesse ser ministro...
Teríamos certamente um governo campeão europeu.
Por falar em campeão...Ele tinha mesmo que arranjar maneira de se deitar com a Maria Piaçaba...lembrou-se outra vez do boletim premiado da Casa Campeão...se não arranjava um job...tinha que levar a gaja p'rá cama...
Oh, inclemência! E agora, o que fazer? Como preencher o espaço (a cama) e o tempo (escasso), condicionado pelas limitações de uma imposição?
O nosso herói, perante tanto dilema, considera de novo a hipótese do suicídio em grande. E se o anunciasse em directo para o noticiário da TVI?
Porto 1 - Benfica 3
Celebremos este resultado de ficção antes que a realidade o desminta.
Perante a ideia de um suicídio em directo e relatado pela Manuela Moura Guedes teve um visionário momento de deslumbre:
- Suicídio? Eu vou é candidatar-me à liderança do PP...
Na verdade era quase o mesmo, o suicídio ou a liderança do PP. Um único objectivo, um único propósito, um único slogan: do partido do táxi para o partido da motorizada. Somos menos mas vamos mais depressa.
"Mas, por outro lado... Se os jornais dizem que o Sócrates é espanhol, tendo ele ganho as eleições, o que irão noticiar da minha vitória no PP e de me ter esborrachado na motorizada?" o nosso homem continua indeciso, sem saber bem o que fazer. Vai pedir ajuda a...
Mas para isso teria que ler o último livro do Papa, e isso era pouco menos que suicídio. Pensamentos circulares, em ruínas, que retomavam ciclicamente a imagem da irmã Lúcia a segredar-lhe o 3º segredo de Fátima. Era isso! A resposta estava no boletim premiado. E quando o recuperasse já podia saber o seu verdadeiro nome.
É teria mesmo que pedir ajuda...
É teria mesmo que pedir ajuda...
É. Tinha mesmo de pedir ajuda...
Decidiu não pensar quarta vez no assunto, até porque se tinha esquecido de aumentar o capital da apólice do seguro de vida.
Embora lhe pesassem na consciência mais de duzentas (!) excelentes razões para avançar com a decisão mais dramática...
É. Tinha mesmo de pedir ajuda...
SOCORRO. O seu cérebro tinha entrado em modo de repetição.
...decidiu ir pedir ajuda ao Totta...quem é amigo, quem é?
E a Dez-de-Mona? E o Dez-de-Copas? E os dez euros que a Emiéle lhe devia de coima por o ter obrigado a fazer várias coisas em paralelo? Como é que tudo isto se interligava?
Alguém falou na Emiéle?
Mas estas ideias suicidas não teriam muito mais espaço para medrar. O nosso herói acabara de ganhar o Totobola. Mas perdeu o boletim premiado; e acaba por descobrir que Maria José Nogueira Pinto tem o boletim milionário na sua posse e prepara-se para incinerar na lareira a solução dos problemas do nosso herói. O que fazer? O que fazer?
Não usarás o Seu (dela) nome em vão! - gritou ele com voz de tubarão.
Não se sabe muito bem como o mundo começou a andar ao contrário... não apenas o pensamento «É teria mesmo que pedir ajuda...» se repete qual disco rachado, vezes sem conta, como a contagem dos comentários sobre o estranho fenómeno que aqui narramos, [ comentários que decorrem numa outra zona do Universo denominado "rapidinhas" ]começaram a decrescer. Os números dentro em pouco chegam ao algarismo 1!
Fenómeno nunca visto...
Nunca visto? na, até calculo como vai acabar!
Pera lá, pensou ele.
Atão se quem tem o boletim é a Maria José Nogueira Pinto, então é com a Maria José Nogueira Pinto e não com a Maria Piaçaba que eu tenho que ir...
Como a casa Émièle fica na esquina do Parque de estacionamento que os gajos da Câmara resolveram fazer, antes de ir a casa da Zézinha, passo por lá a pedir a coima...continuo a pensar...
E lá vai ele direitinho à casa da Émièle...
A casa da Emiéle era um antigo palácio neo-romântico agora votado ao abandono e abrigo permanente de um grupo de Okupas liderado pela revolucionária e bem disposta Emiéle.
- Entra, sê bem-vindo. Convidava-o a partilhar o espaço enquanto lhe oferecia uma lata de spray.
E lá foi ele cantarolando:
Emiéle, Emiéle, tu est la plus belle.
Dez-de-Mona, Dez-de-Mona, ..., que é que rima com Dez-de-Mona? Ah, já sei. Dez-de-Mona, Dez-de-Mona, minha catedral de Barcelona...
Nisto, vindos da casa de banho, aparece um dos coelhos suicídas do João Pedro da Costa de mão dada com o Xau Silvestre, esse gato rabeta que passa a vida atrás do Piu-Piu...
Então, de repente, fez-se luz, não Luz mulher, nem Luz estádio, nem Lux revista.
Emiéle não era francesa, Emiéle é a forma lida de "M e L". Ou seja, a resolução do mistério estava no quadro de Mona Lisa. Elementar, meu caro Watson.
Mona Lisa. Mona. Dez-de-Mona! A Mona Lisa é a Dez-de-Mona e o Da Vinci ... O Da Vinci ... já foi ao Brasil, Praia e Bissau, Angola e Moçambique.
Mas isto não tem mesmo nada a ver...
Inebriado com mais uma vitória do seporteim (Spor-ting! sport-ting!), sentia a mona pesada, já não podia com a carola, uma enxaqueca brutal e começou a lembrar-se, numa doce fantasia, da carol, uma moreninha de cabelo frisado que tinha conhecido a bordo de um cargueiro, nos seus tempos de embarcadiço. Nunca tinha percebido o que fazia ali a carol, mas lembrava-se das noites lentas em que ambos tinham acentuado o balanço das ondas no mar alto. mas era agora o momento de passar à acção.
De repente ouviu gritos. Estalos. E mais estalos. Começou a aperceber-se lentamente da dor. Era ele que estava a levar os estalos. Todo nu, sentado no chão de uma casa-de-banho que não reconhecia. A cabeça parecia prestes a rebentar. As imagens turvas diante de si. Empurraram-no para baixo, panela com água a ferver entre as pernas cheia de folhas de eucalipto e um cobertor grosso por cima. "Inspira lenta e profundamente" disse-lhe uma voz meiga enquanto lhe empurrava as costas. Uns minutos mais tarde tiraram-lhe o cobertor de cima e carregaram-no para o chuveiro. Água fria. E o calor era insuportável. Muita água fria. Sentia-se febril. Os membros pendiam. A toalha embebida na água a ferver com folhas de eucalipto percorria-lhe o corpo todo. Com mais força nos cotovelos, joelhos, tornozelos, pescoço, ombros... ahhhhhhhh sabia-lhe bem aquela pressão. "Vira-te" murmuraram-lhe ao ouvido obedecendo de imediato. A pressão exercida na coluna provocou um misto de alívio e dor. Afinal, onde estaria? E quem era aquela mulher?
...entretanto os coelhos suicidas do JP, o xau silvestre, o gato rabeta, o Piu Piu, o advogado do BIbi, de quem não se lembrava o nome, a Inês, a Maria Piaçaba,a Maria José, rodeavam a carol, numa fotografia, colocada bem no centro da sala da Èmièle. Por cima do quadro, uma enorme bandeira vermelha tinha desenhado um P, um C, um P, um (, um m, um l, um ) e ao cantinho cinco cintilantes estrelinhas amarelas...Foi aqui se se lembrou que, antes de tudo isto começar, tinha deixado o Jerónimo na Associação a dançar uma valsa com a Dez-de-Mona...
Claro que a susana tinha dito que era tempo de passar à acção...o problema é que ele não conhecia Susana nenhuma e não tava mesmo p'raí virado...
Aquele tratamento de choque por uma mulher desconhecida, apesar de o ter deixado mais lúcido - ou pelo menos não tão nublado - foi um pouco o sinal de stop! Estava rodeado por um excesso de mulheres!!! Uma é bom, duas vá lá, mas ainda há pouco, quando veio a si na tal sala da Emiéle no palácio decadente cheio de okupas, recapitularam-lhe as mulhres da sua história mais próxima. Ó céus! Inês, Maria, Clara, Luz, Glória, Maria José, Dez-da-Mona, Carol, e claro sem falar na referência à irmã Lúcia e à Mona Lisa... Chega de mulherio. É certo que nem todas eram citadas no mesmo contexto, mas na história da sua vida havia excesso de mulheres.
Impunha-se um retiro.
Pensou em voar até ao Tibete e recolher-se a um mosteiro.
Paz... Divina paz...
Paz... ocorreu-lhe um poema do octávio paz que costumava saber de cor. mas não adiantava: agora só o nome do tipo, nem o título do poema lhe acorria á mente. por associação, pensou no octávio pato e apeteceu-lhe voltar a provar o delicioso arroz de pato que a sua mãe lhe fazia, há tantos anos. a mãe juntava-lhe sumo de laranja e por isso ficava menos enjoativo. laranja? não! não! não! vinham-lhe à memória as coquetes santanetes e ele não queria sequer pensar em mulheres. verdade, verdadinha ele nem sabia se teria ponderado bem as suas opções: a realidade é que quando amara a carol em alto mar, a falta de recursos não permitia que a rapariga fizesse a depilação e ele sentia um estranho e estimulante frisson ao passar a mão pelas suas pernas hirsutas. ah... passar a mão pelo pêlo, isso era o que lhe apetecia mesmo - se calhar vou arranjar um gato, pensou.
De repente lembrou-se do lenço que Carol lhe tinha feito depois de três dias a depilar-se. Lembrou-se do modo meigo como ela fiara a sua própria lã... Da ternura com ela rasgava o silencio com os gritos provocados pela cera a ser arrebatada... Recordou-se também que Carol tinha bordado uma frase, nesse lenço, com os seus pelos do nariz para que ficasse rijo... A frase... Foi subitamente ao bolso... Olhou o lenço amarelado e esverdeado... Tentou abri-lo completamente e o som ecoou pela sala de Emiele... O som de velcro provocado pelo pegajoso lenço... Vislumbrou a frase... e reflectiu...
"Contra Ventos e Marés"?
Mas que porra é que isso quer dizer?
Desculpe lá: Contra ventos e marés ? uma gaita . Você (Santana) aqui não entra.Quer vir dar cabo do final desta história? Vá lá mas é dar lustro ás laranjas que estão cheias de poeira.
Estava tudo explicado:
Emiéle, aliás M.L., aliás Mona Lisa. O Código Da Vinci. Monty era afinal Dan Brown, o autor desta posta e do Código da Vinci. E aí estava ele, mesmo à sua frente, acompanhado de 100 meninos guerreiros.
Inspirado por Octávio Paz, começou a lutar: paz, paz, paz, caíram 3, paz, paz, mais 2, ..., paz, paz, paz, caíram os 100 meninos guerreiros - já podemos ter paz...
Agora só faltava o Monty, aliás Dan Brown. Pegou no cutelo ferrugento, apontou e atirou... mas mais meia dúzia de coelhos suicidas salvaram agora o autor da posta...
Talvez por essa confusão, o autor dos mais brilhantes coelhos decidiu pôr-se ao fresco enquanto ia a tempo. Voltou a circular nas suas ruínas. Mas o mistério que se aproxima de um desfecho magnífico, pois o Monty / Dan Brown deixou as biscas por aqui e tudo começa a fazer sentido.
[ será que afinal o homem desiste do Tibet? não teria de lá passar tantos anos como o outro, mas uma pausazinha podia ser simpática...]
Coisas estranhas via ele através do vidro do velho camião Kamaz e das imagens que passavam a preto e branco no pequeno monitor com o Afixe. Os seus conhecimentos básicos de cirílico permitiram-lhe ler um pouco do blog na versão russa. Lia os delirantes posts que, em catadupa, falavam sobre si. Por entre paisagens semi-desérticas com um rasto de poeira intensa do Cazaquistão, rumo ao mosteiro no Tibete, as várias luas que a boleia já levava deram-lhe tempo para reflectir sem nada concluir. Afinal do que falavam? De tantas mulheres apenas conhecia agora a Natasha, cazaque de origem russa, olhos de um azul profundo, tez clara, cabelo curto pintado de ruivo, maçãs do rosto salientes, lábios finos e sardas abundantes num metro e oitenta e quatro de rebeldia, rumo a Vladivostok. Também ela já estava vidrada no vidro traseiro da cabina do camião a ajudá-lo a traduzir a versão russa do Afixe, por entre muitos sorrisos e abanares de cabeça. Afinal já não era só Colombo que era português. Descobrira, através do Afixe, que também a Mona e o Da Vinci eram portugueses... ca raio? De repente coelhos, muitos coelhos. No Cazaquistão? Em cavalos alados brancos guerreiros, muitos. Sobrevovam o camião. O que quereriam?
Assustou-se. Seriam as almas dos "meninos guerreiros" que pouco tempo atrás despachara? Nestas coisas, devemos ser prudentes. Um ataque aéreo não lhe convinha nada...
Achou melhor parar e enfrentá-los apesar do susto da sua Natasha. Ele era muito homem para enfrentar uma multidão se fosse necessário!
Saiu do camião e olhou...
Ora...! Afinal estavam na zona das Mil e Uma Noites. Ia cair numa história de Sherazade...
O ataque dos camelos voadores e dos gigantes de cimitarra empunhada tinha sido aterradora. Nunca tinha visto tantos camelos cor-de-rosa a voar. 120 ao todo. Enquanto, espantado, olhava para o céu a [sua] Natasha tinha voltado para o camião e fugido com os ajudantes uzbeques, deserto fora. Ao fim de 7 dias e 7 noites, a lanho, rasgado pelas serpentes noctívagas de cinco braços e garras afiadas, mordido pelos mosquitos em toda a parte, apareceu-lhe alguém à frente. Loira. Bonita. Sexy. E, ah!, inteligente. Deu-lhe o suficiente para apanhar o próximo cavalo para a costa onde encontraria o que procurava. Mais não disse e desapareceu no meio da tempestade de areia, ela e as equipas de televisão que tinham vindo com ela.
Loira, bonita, sexy e inteligente? Percebeu de imediato que estava perante uma miragem...
Que turbilhão emocional! Que elevação intelectual! Que porra de vida!
Estranha vida esta, até lhe parecia que partes da sua vida haviam sido escritas e todavia ele nunca chegara a vivê-las. Seria uma afasia que lhe roubava parte das suas memórias? ou seria a caixa de comentários de afixe, com o seu hábito de omitir extensas parcelas de uma história que era a sua e da qual, no entanto, ele não sentia a experiência directa?
Estranha vida esta, até lhe parecia que partes da sua vida haviam sido escritas e todavia ele nunca chegara a vivê-las. Seria uma afasia que lhe roubava parte das suas memórias? ou seria a caixa de comentários de afixe, com o seu hábito de omitir extensas parcelas de uma história que era a sua e da qual, no entanto, ele não sentia a experiência directa?
E depois, como magra tentativa de compensação, lá vinha o déja vu...
Assim lhe disseram quando baixou as calças e mostrou o cu a uns mirones que o miravam de cima para baixo.
Claro que a menina loira, bonita, sexy e inteligente, era de papel como o tigre, ou de cinema, tá na cara. As de carne e osso estão cheias de imperfeições. E o pior é que esta nem é deste filme. Nesta história as mulheres são bastante mais reais. E temperamentais, como uma certa caixa de comentários que tens as suas ideias a respeito de dietas: tão depressa come tudo e não mostra a ninguém, como devolve tipo clone o que acha que está a mais... Vamos lá entendê-la!
E quanto ao nosso homem, no meio do deserto...
Também ele tinha achado estranho. Porque carga de água tinha a SS ido ali, ao oásis? Sentia-se perdido, desnorteado, alienado... encostou-se ao coqueiro, enrolou um com a serenidade de quem não tem que correr e fumou-o calmamente, enquanto contemplava o horizonte infinito de nada. Adormeceu embrenhado numa miríade de pensamentos desordenados.
Iria o seu corpo já corroído por mulheres, advogados, cavalos alados, coelhos suicidas, amarfanhado pelo Código Da Vinci, pelo Código do Trabalho e ainda, pela bandeira vermelha do retrato, resistir a uma noite passada no deserto?
"Quem não tem cão caça com gato". Só podia ser uma infeliz coincidência agora que Emiele miava no sofá de cabedal.
Desesperado, pela forma desesperante como os autores desta trama o fizeram desesperar, decidiu que teria que acabar com todos os autores, um por um. Monty, o que começou isto tudo, seria o último. Só precisava de escolher o primeiro, os outros surgiriam naturalmente. Mas quem seria o primeiro?
A susana foi fácil de apanhar. Esperou-a á saída do supermercado e injectou uma dose imperceptível de veneno nos chocolates aos montes que ela trazia no carrinho. Sabia que ela comia pelo menos 200 grs de chocolate por dia, por isso bastariam alguns dias de agonia para a substância produzir o efeito pretendido. Foi uma morte horrenda e dolorosa, mas ele não ficou a assistir, prosseguindo com determinação a sua missão seguinte.
A Susana tinha sido a primeira, por isso merece especial destaque. Porque o nosso herói ficou com as mãos manchadas de chocolate e não quis continuar. Assim, encontrou uma solução mais prática: encontrou o Santo Graal, que transformava os autores e as personagens da história em coelhos suicidas. Um a um, todos foram desaparecendo, de forma mais ou menos imaginativa. O mais martirizado foi o Monty, que transformado em coelho suicida apareceu no afixe com um cartaz a dizer "Fim", sendo trucidado por todos os seus leitores em fúria.
Acabada a sua missão, atirou fora o Santo Graal, que ao cair lançou um raio que também o transformou em coelho suicida. E assim, o nosso herói acabou por comer o resto dos cogumelos holandeses e tombou, não sem antes dizer: "Dez-de-mona".
E assim, todos acabaram. Todos? Não! Eu disfarcei-me de coelho suicida e fiquei caído no chão até todos desaparecerem.
Foi cumprida a profecia: "There shall be only one"
Pude então pegar no Santo Graal, e ficar a admirá-lo: "My precious! ... My precious! ..."
Quase uma hora depois, vi uma inscrição na base do Santo Graal: "AVISO! Não fique com este objecto na mão durante uma hora ou tornar-se-á num coelho suicida."
Tinha passado exactamente uma hora. Oh, não! Sou um coelho, sou um coelho, onde é que está a canção do menino guerreiro, onde está. Cá está ela. Ah, não a posso ouvir! Eu vou... eu vou... aaaahhhhhhhhhhhhh...
FIM
Autores (por ordem de entrada em cena):
Luís Aguiar-Conraria, derFred, fernando nogueira gonçalves, João Pedro da Costa, Tubarão, susana, sharkinho, Sérgio, gibel, Monty, 1poucomais, Emiéle, Isabel, vague, M., Jorge Morais, JQ, Grilo, bluegift, Santa Cita, Dot, bin_tex, Lyra, jorge, Pedro Garcia, Bruno Parente, Bastet, curioso e Miguel S.
Afixado por Costa Pereira em 3 de março de 2005, às 17:17
