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março 03, 2005

MANUAL DE INSTRUÇÕES PARA DISCUSSÕES NA BLOGOSFERA

É fundamental desmontar quais as técnicas de falsa argumentação - vulgo falácias – mais habituais na discussão diária e que medram (e merdam!) na blogosfera nacional. São técnicas clássicas, mas que, reconheço, talvez apanhem alguns jovens mais desprevenidos - o sistema de ensino já conheceu melhores dias e duvido que a malta nova ainda aprenda estas coisas.

- O apelo à emoção: tenta-se convencer através do recurso a argumentos emocionais ou sentimentais, geralmente negativos, em vez da apresentação de premissas ou evidências convincentes. Geralmente, as emoções mais instrumentalizadas são a raiva, a culpa, a vergonha, o medo, etc. O apelo à emoção anda paredes-meias com a falácia da reductio ad absurdum. (“Como é que podes ser católico depois da Inquisição?” “Como é que podes ser comunista depois dos Gulags?” “Como é que podes ser Alemão depois do Holocausto?” “Como é que podes ser físico nuclear depois de Hiroshima?”, and so on and so on)

- A analogia imprópria, ou non sequitur: é uma falácia argumentativa clássica, consistindo em retirar conclusões de premissas que não têm nenhuma conexão de implicação lógica. (“Ando com as regras atrasadas porque tenho o salário em atraso” argumenta a Celeste ou “Há muita sida em África porque o Papa convenceu o pessoal a não usar o preservativo” o que pressupõe um poder notável do Papa em face de um continente maioritariamente animista e islamista, onde a generalidade dos homens considera culturalmente o preservativo como um empecilho à sua virilidade (!), o mesmo Papa que igualmente pediu aos Estados Unidos que não invadissem o Iraque e não é que os gajos invadiram?! Logo! Pôrra da lógica! Se invadiram foi porque o Papa-Todo-Poderoso certamente não se esforçou o suficiente!...).

- O apelo ao ridículo (cfr. São Barnabé): introduz-se uma passagem de presuntivo humor (geralmente o humorista de serviço ao argumento acha-se muita piada, pelo que o presuntivo é nosso) ou ridícula no argumento, procurando desta forma o espertalhão encobrir a sua incapacidade ou laxismo intelectual para responder à altura do argumento adversário. É uma falácia bastante eficaz: geralmente a força lógica do argumento adversário é completamente ensombrada pela tirada humorística do outro – a assistência aplaude e agradece o circo, pois é da natureza das massas simpatizar com a facilidade mental, preferindo-a à trabalhosa e, porque não dizê-lo, opressora e fria inquirição do mérito das premissas usadas em debate.

- O acento impróprio: acrescenta-se um acento ou expressão maliciosa à apresentação de um facto para desacreditar as suas motivações. Admito, às vezes é irresistível: tipo quando se informa que o Morais Sarmento disse que “vai alternar como Deputado por Castelo Branco”, está mesmo a pedir um acento impróprio...

- A descida escorregadia: sugere-se geralmente que a opção numa determinada direcção desencadeará necessariamente um processo irreversível de consequências ainda mais radicais. (“Se se privatiza a gestão dos hospitais acaba-se o serviço nacional de saúde!”; “Se deixo o Ruben André beber antes dos vinte e um anos, acabará nos Alcoólicos Anónimos”; “Se se descriminaliza o aborto, as mulheres vão todas desatar a fazer abortos”, etc.)

- A ignoratio elenchi: não podendo atacar o argumento original que lhe é proposto, o adversário trata de introduzir material irrelevante para o ponto em discussão de forma a desviar o argumento para outra conclusão em geral mais fácil de ser atacada que o argumento original. (é muito vulgar o uso desta falácia por Pastores da Igreja Ateísta Militante)

- O wishful thinking toda a gente sabe o que é, não se fala noutra coisa na blogosfera.

- A petitio principii é o vulgar argumento circular: a falácia consiste em usar a conclusão a que se tenta chegar como componente ou suporte de uma das premissas. A melhor forma de desmontar a falácia é reescrever o argumento do adversário numa forma que demonstre a respectiva circularidade: “Ou seja, Vossa Eminência está afirmando que se o gato tinha botas, então é porque o gato tinha botas!”

- O ataque ad hominem (ou ad mulierem, para não ser acusado de sexista): consiste em atacar o adversário, geralmente diminuindo-o, em lugar de atacar os seus argumentos. Ao contrário das restantes falácias, e do que as pessoas geralmente pensam, esta técnica, além de muitas vezes ser irresistível e saudável para mantermos o bom metabolismo dos nossos fígados, é também lícita em muitos casos: é admissível quando se trata de atacar a credibilidade de um mero testemunho ou opinião apresentado pelo adversário.

Argumentar é coisa mais séria do que parece.
Opiniões, factos, descrições, questões, emoções, não são argumentos.

O pessoal argumenta só para persuadir?
Ou para crescer intelectualmente com o conhecimento de todos?

Querem a verdade? Certamente que a repetição não é a verdade: proposições e lugares-comuns, bastantes dichotes e bocas que se tornaram hábito em quem aplica a régua da tolerância aos outros mas que raramente a aplica a si próprio, designadamente nos clichés com que classifica quem lhe é diferente, não se tornam verdadeiros por serem ditos e re-ditos, lidos e re-lidos à exaustão.


Afixado por Gibel em 3 de março de 2005, às 12:09

Afixadelas

Belo, gibel. Muito bom! Parabéns. Estes há-de ter dado algum trabalhinho, hein? Belo trabalho - este post fica para a história do Afixe e da blogosfera.

Afixado por Monty em 3 de março de 2005, às 12:53

Belo post, Gibel.

Afixado por João Pedro da Costa em 3 de março de 2005, às 13:47

A felatio quê?

Afixado por sharkinho em 3 de março de 2005, às 14:25

A petitio, a petitio! Ignoratio...

Afixado por sharkinho em 3 de março de 2005, às 14:29

Tuby: LOLOLOL. That's the spirit!!!

Afixado por João Pedro da Costa em 3 de março de 2005, às 14:41

Tuby: LOLOLOL. That's the spirit!!!

Afixado por João Pedro da Costa em 3 de março de 2005, às 14:42

Estiveste bem, ó sereia encantada! ;)

Afixado por Monty em 3 de março de 2005, às 14:48

Este é, certamente, dos posts mais elucidativos (e lúcidos) que tenho visto nos últimos tempos na blogosfera.
As técnicas de argumentação aqui apresentadas são, para um jovem desprevenido como eu, o essencial daquilo que deveria orientar o nosso pensamento enquanto escrevemos os nossos posts.
Os meus parabéns por este serviço público.

Afixado por nuno em 3 de março de 2005, às 15:00

Ah, Gibel, já andavas a prometer esta há uns tempos!
Bela ideia, e que pedagógico!
Vou imprimir!

Afixado por Bernardo em 3 de março de 2005, às 17:40

Gostei. E acho que põe bem cobro a este espírito azedo que tem reinado por aqui, e não só.

Afixado por 1poucomais em 3 de março de 2005, às 18:37

Só não percebi o que é argumentar, afinal.

Afixado por sara monteiro em 4 de março de 2005, às 10:04

Só não percebi o que é argumentar, afinal.

Afixado por sara monteiro em 4 de março de 2005, às 10:04

E que tal um link para os "Pastores da Igreja Ateísta Militante", como é de bom tom na blogosfera?

É que essa acusação injustificada de "ignoratio elenchi" da nossa parte está catalogada neste próprio artigo: "apelo ao ridículo" da vossa parte.

Afixado por João Vasco em 4 de março de 2005, às 11:25

Retórica. Chama-se retórica e vem dos gregos, cujos blogs eram mais famosos qu'os pasteis de Belém.

Afixado por Atalaia em 4 de março de 2005, às 14:05

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