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abril 29, 2005
Maurice Ravel (1875-1937)

Interrompo esta minha mania de falar sobre temas religiosos, porque já se está a tornar maçador, para falar sobre algo de (aparentemente) diferente: música.
Não há razão nenhuma em especial por detrás deste post: sucede que ouvi ontem na rádio um dos meus concertos preferidos, e isso fez-me lembrar uma necessidade que eu tenho há varios anos. Ouvir, pelo menos uma vez por mês, os dois Concertos para Piano e Orquestra de Maurice Ravel.
Ouço-os porque preciso deles. Sei que parece tolice, mas para mim é inevitável regressar sempre a eles. Não sei explicar o que é. Se não conhecem, só posso recomendar uma coisa: tratem de ouvi-los quanto antes.
Primeiro, vem o Concerto n.º 1.
Três andamentos. O primeiro e o último são acelerados, sempre a arrepiar caminho. São provas de virtuosismo. Um mundo alucinado de sons surpreendentemente coerentes, misturados num ritmo frenético. Magnífico, o uso de dois tacos de madeira num único momento, mesmo no final do terceiro andamento. É quase sempre motivo de riso, quando se vê ao vivo o percussionista a preparar os tacos... E, de repente, no momento exacto, no único momento em que aquilo faz mesmo falta, lá se ouve: "clac!".
Isto de escrever sobre música é uma treta. Não consigo passar nem um terço do entusiasmo.
Quem já ouviu estas peças, sabe do que estou a falar.
Mas o melhor é o segundo andamento. Um conselho: colocar o CD a tocar. Essencial o silêncio absoluto, sobretudo para ouvir o segundo andamento. Depois, beber todas as notas (não vale esquecer aquelas que se ouvem lá ao fundo), todas mesmo. Garanto que é algo de inesquecível.
Depois, temos o Concerto n.º 2, "para a mão esquerda".
Esta merece uma explicação...
O pianista austríaco Paul Wittgenstein, irmão de Ludwig, tinha perdido um braço na Primeira Grande Guerra.
E dirigira-se a Ravel para lhe pedir uma obra que se pudesse tocar APENAS com a mão esquerda.
Parece impossível, mas eu desafio quem nunca ouviu este Concerto a ouvi-lo com atenção e tentar visualizar a mão. É tudo tocado só com a mão esquerda! Sem avisar, não se dá por nada.
Este é um Concerto atípico a vários níveis: tem apenas um único andamento. Contudo, é notório o uso de crescendos, muito ao estilo do seu Bolero. Estes crescendos são em volume, evidentemente, mas também encontramos neste Concerto o uso intensivo do ostinato, a repetição persistente de um mesmo padrão rítmico.
A certa altura, é alucinante escutar tudo aquilo. Um carrossel de sons, cada vez mais cativante e magnético. Se vocês vissem as figuras dementes que eu faço no trânsito quando ouço a cassete no rádio do carro...
Mas isto só mesmo ouvindo!
Ah, o blogue é mesmo uma treta, no que toca a falar sobre música...
Afixado por Bernardo Motta em 29 de abril de 2005, às 20:08
Afixadelas
Pelo menos, parece que tens bom gosto para a música :P Também gostas dos Madredeus, não é? Acho que sim, fala-nos então de boa música ;)
Afixado por bluegift em 29 de abril de 2005, às 22:47
Tens que pedir ao João Pedro para te ensinar a colocar música música aqui...
Afixado por susana em 29 de abril de 2005, às 23:04
