« Estamos em Abril | Entrada | Efeméride »
abril 28, 2005
O Ensino e os horários
Quer o DN quer o JN lhe dão honras de primeira página. E a medida parece de facto impor-se embora já se preveja um cortejo de dificuldades.
A ideia é simplesmente aumentar o tempo em que um aluno está na escola de modo a melhorar a sua aprendizagem. São dois pressupostos, à partida quase incontestáveis: as crianças estão pouco tempo na escola, visto que as aulas num horário simples acabam pelas 3 da tarde, e estudos insuspeitos referem que há mau aproveitamento.
Cruzando estes dois pontos, o governo pensa que se justifica existir um acompanhamento generalizado nas escolas do ensino básico.
Acredito que a medida vai levantar polémica. E sobretudo por as condições serem tão diferentes nas diversas escolas distribuídas por este país. Sabe-se que há escolas mais para o interior com pouquíssimos alunos e onde naturalmente que existe o horário único ( esse que termina às 3 da tarde ) e outras, sobretudo nas zonas periféricas das grandes cidades, onde o horário é duplo ou triplo para aproveitar instalações e aí não se consegue ver onde é que se vai processar a “continuação do ensino”. Com a agravante de ser nesse tipo de escola que os resultados são piores e os jovens mais desmotivados.
A verdade é que a Educação está ainda demasiado centralizada. Agora que se começa de novo a falar em regionalização, seria bom ver como se poderá descentralizar alguns serviços e delegar poderes nalgumas Direcções Regionais. Porque há assimetrias tão grandes no Ensino que cada caso terá de ser estudado integrado no seu enquadramento.
É natural que surjam críticas dizendo que “isso já se faz”, que há muitas escolas com acompanhamento, que os ATL são exactamente nessa linha. Eu não sei se é assim. Pelo que entendo não é um acompanhamento do tipo “confirmar-que-os-meninos-fazem-os-trabalhos-de-casa” que se pretende; é mesmo uma ajuda real é uma verdadeira explicação e um apoio, e isso faz-se muito pouco.
Mas se queremos que a nossa terra saia do 27º lugar entre 41 países, segundo o "Programme for International Student Assessmental" alguma coisa tem de ser feita e depressa!

Afixado por Emiéle em 28 de abril de 2005, às 07:08
Afixadelas
O problema do ensino da matemática é só um: FALTA DE TRABALHO
Preste bem atenção:
1 - A minha «média de sucesso», como é comum dizer-se agora, é da ordem dos 72%. Em 19 anos de trabalho. Quer dizer que 72% dos meus alunos passam no final do ano. A matemática, que é a disciplina que eu lecciono.
2 - No final do 2º período tenho a matéria toda dada. Programa completo. O 3º período é para revisões.
3 - Faço testes globais no final de cada período e no final do ano, embora a legislação a isso não obrigue.
4 - Quando apanho alunos de outras turmas nas aulas de apoio e lhes peço os cadernos, e quando tenho acesso aos testes dos meus colegas de departamento, verifico que os exercícios que eles fazem nas suas aulas são bastante mais elementares do que aqueles que eu proponho.
4 - Milagre? Não. Trabalho.
Há já uns anos, na sequência de uma "queixa" de um aluno que desabafava a sua surpresa por estarem a acabar-se-lhe as folhas do caderno ainda antes do Natal, pedi-lhe que contasse os exercícios que já tinhamos feito. Era princípio de Dezembro e ele contou 575 exercícios. Estavamos a acabar o 1º volume do livro e portanto situavamo-nos quase a meio do programa, que comporta 2 volumes.
Perante a surpresa geral, todos os alunos fizeram o mesmo e - ressalvando aqueles que pouco ou nada fazem - o número foi confirmado.
- «Ó sr professor: trabalhamos mais este ano numa aula que no ano passado num mês» - é costume ouvir dizer àqueles que são meus alunos pela primeira vez.
É claro que, a estes, eu apanho-os também sem saberem a tabuada. E não perco tempo a fazê-la decorar. Seria inútil. Mas à força de tanto exercício fazerem, eles acabam por naturalmente irem ganhando a prática necessária para a resolução de problemas progressivamente mais complexos.
Não sou - note bem - melhor professor que a média. De maneira nenhuma.
Trabalho é mais. Bastante mais do que a média. E, portanto, os meus alunos são obrigados a trabalhar ao meu ritmo. Onde não há lugar para pasmaceira.
Uma aula tem 90 minutos. O prof demora 5 a chegar à sala. Mais 3 a escrever o sumário no quadro e no livro, marcar as faltas e preparar os elementos de trabalho. No final da aula, os últimos 2 minutos são para arrumar. Restam 80 minutos reais. Numa aula prática a parte expositiva (resumo teórico) nunca deve ultrapassar uns breves 2 ou 3 minutos. Partamos dos 78 minutos e dividamo-los por 3 minutos - tempo mais que suficiente para que um aluno médio resolva uma questão de nível médio/alto. Dá 26.
26 exercícios são aqueles que devem, em média, ser resolvidos pelos alunos numa aula prática. 260 em 10 aulas. 2600 em 100 aulas.
Num ambiente descontraído, os alunos mais lentos podem atingir metade desse objectivo. Os mais rápidos podem ajudá-los, se sentados ao seu lado. O espírito de entre-ajuda é a chave do sucesso de muitos alunos mais fracos. Passados uns meses é notável verificar o brilhozinho nos olhos quando, por vezes, conseguem realizar o trabalho proposto antes do colega do lado.
Estamos no interior. Os alunos provêm de famílias iletradas.
Ninguém os obriga a trabalhar em casa. Muitos pais nunca vêm à escola nem sequer para receber as notas no final do período.
Teremos que ser nós, nas aulas, a proporcionar-lhes aquilo que deveria ser realizado no recato do lar: a prática.
Até porque a carga horária é demoníaca e não pode ser exigido às crianças que, saindo de casa às 7,5 da manhã e regressando às 6,5 da tarde, ainda vão agarrar-se aos livros.
Por amor de Deus!
Um ano lectivo comporta mais de 100 aulas. Tirando aquelas que o prof falta e as abençoadas viagens de estudo e aquelas que são dedicadas aos testes ficamos, em matemática, com cerca de 100.
Se todos os alunos resolvessem metade desse objectivo - 1300 exercícios por ano - garanto que conseguiriam o que os meus conseguem.
Afixado por Joao Tilly em 28 de abril de 2005, às 08:11
João Tilly, o teu comentário é tão completo, um verdadeiro depoimento que é difícil acrescentar mais.
Também acho que em muitas áreas de trabalho se houvesse uma avaliação correcta, sem a força de sindicatos excessivamente influentes por vezes, as coisas começariam a correr melhor. Não só no ensino. Deveria haver uma avaliação justa, não só pelos superiores, mas pelos colegas ou até pelos subordinados
Afixado por Emiéle em 28 de abril de 2005, às 09:00
O caso é grave. Mas não é pelo aumento das horas que se resolve, é pela consciencialização dos professores e o acompanhamento dos pais.
Eu sou (fui) professor em todos os graus de ensino: infantil, básico, secundário e professor de pedagogia durante 10 anos nas antigas Escolas do Magistério. Sou também pai de três filhos. Os meus alunos no Ensino Básico, logo no 1º ano sabiam ler correctamente e faziam operações e cálculo mais elevado do que hoje no 3º ano. Eram mais inteligentes? Não. Eram mais trabalhados e eu nunca fiz uma hora a mais do que o horário estabelecido. É errado pensar que por mais horas se aprende mais. A criança tem os seus limites de resistência, ao fim de muitas horas não aproveita nada. Isso está provado pela psicologia. Apenas os pais querem ter onde guardar os filhos. E é porque o professor passou a ser um fiel de armazem e não um professor que as coisas estão assim. É preciso rever os objectivos, as práticas, as exigências e não os horários.
Tenho uma filha sorôdia, com 6 anos, no 1º ano do Básico. Não precisou de mais horas, nem de grandes explicações apesar dos pais serem professores, apenas o interesse pelos seus trabalhos. Já lê com tanta facilidade que largou os seus livros de histórias e lê os meus. Faz cáculo mental de soma e subtracção com quantidades até 20 ou 30 com rapidez e não é nenhum super é normal como qualquer criança da sua idade.
Haveria muito para dizer, não é o local próprio.
Afixado por João Norte em 28 de abril de 2005, às 10:02
Estes comentários tão dilatados deixam-me a pensar. Quem os escreve só teve sucessos... POrtanto os restantes professores é uma cambada de calaceiros? Há qualquer coisa que não bate muito certo.
Quanto ao tocar-se em horários, acho que vai saltar para aí outro lobby. Foram os magistrados e as suas férias, agora os docentes, ai tanta loiça partida!!!
Afixado por King em 29 de abril de 2005, às 09:54
"É errado pensar que por mais horas se aprende mais. A criança tem os seus limites de resistência, ao fim de muitas horas não aproveita nada. Isso está provado pela psicologia. Apenas os pais querem ter onde guardar os filhos. E é porque o professor passou a ser um fiel de armazem e não um professor que as coisas estão assim. É preciso rever os objectivos, as práticas, as exigências e não os horários."
Sr. João Norte, ora ainda bem que tem uns filhos inteligentes, estudiosos e com a felicidade de terem quem os saiba acompanhar em casa! Mas o Sr. concerteza que sabe que, infelizmente, esse não é o caso com a maioria das crianças deste país. Não digo que não sejam inteligentes, mas sem estudo e sem um acompanhamento devido não se chega a lado nenhum. Na maior parte dos casos, ambos os pais trabalham, chegam tarde a casa e nem sempre há dinheiro para pagar um ATL.
Sei o que estou a dizer, porque é o que vejo na escola primária, onde anda uma das minhas filhas. Depois das 15.30h, uma pequena minoria vai para o ATL de um infantário particular, todos os outros vão para casa. Quase todos ficam com os avós, pessoas simples, sem grandes aptidões para os ajudar e incentivar. Outros ficam na rua, não têm ninguém em casa. O resultado é, no dia seguinte, poucos terem os trabalhos de casa feitos e a lição estudada. O aproveitamento é muito baixo...
Ora digam-me lá, se a escola continuasse, não digo só com aulas, mas com uma espécie de ATL, com apoio para os TPC e com actividades lúdicas, não era muito melhor?
Afixado por Caillenn em 29 de abril de 2005, às 19:36
Este comentário do ( da?) Caillenn obriga-me a dizer algo que "tinha em carteira" mas estava à espera que alguém o dissesse. É que as cartas estão mal expostas neste jogo. Sei bem que as crianças - tal como os adultos - têm limites de resistência. Por isso é que as aulas têm o tempo pre-determinado. É certo que não se pode estar com atenção a determinada exposição mais do que um certo tempo. Mas não é isso que significa aprender. Isso é só "um tipo de aprendizagem". Aprender aprende-se durante todo o dia. Só que a aprendizagem escolar é orientada. E concordo que não se pode nem deve estar a ensinar coisas novas durante tempo excessivo, mas pode e deve treinar-se as coisas que foram ensinadas. E esse treino será decerto muito mais bem feito se o fôr por um professor.
Não foi assim há tanto, tanto tempo, que as escolas não acabavam ás 3 horas... Se falarem com pessoas de 60 ou 70 anos as aulas da sua escola primária eram até ás 5. Assim como na esmagadora maioria dos colégios particulares.
Pois é, Caillenn, as pessoas que pensam que as crianças hoje saem às 3 horas e vão ser acompanhadas pelos pais, não vivem pelo menos num meio urbano de classe média.
Afixado por Emiéle em 29 de abril de 2005, às 20:19
Sou mãe de duas meninas, de 3 e 8 anos. A mais velhinha está no 3º ano. Acabei por optar ficar em casa com elas, visto que os horários escolares não se compadecem de quem tem de trabalhar pelo menos até às 19h, só tem direito a 22 dias úteis de férias por ano e não pode faltar "por dá cá aquela palha"!
A escolinha em questão, em tempos, teve OTL, mas era um serviço pago e apenas uns quantos uns quantos eram obrigados a fazê-lo, visto a maioria das crianças serem consideradas carenciadas... Justamente no ano em que a minha filha entrou para a escola, houve uma reunião a anúnciar os novos preços e os poucos pais que tinham que pagar preferiram, já que tinham de desembolsar desse por onde desse, meter os filhos no ATL do infantário local.
Eu acabei por me tornar "gestora do lar" (desculpem, mas domésticas são as criadas!), tomo conta das minhas filhas, consigo dar conta do recado a ajudar a mais velhinha com os trabalhos de casa, embora volta e meia me atrapalhe com a diferença nos métodos de ensino e acabo por ter de ir fazer umas quantas perguntinhas à professora.
Afixado por Caillenn em 29 de abril de 2005, às 22:30
Ainda cá volto, como resposta à Caillenn. No teu comentário pões no fundo dois problemas que estão muito próximo mas não são o mesmo. Uma coisa é a pedagogia, e isso é função do Ministério da Educação fazê-lo bem. E se o que os 2 primeiros comentadores pretendiam era realçar que com o horário que existe a pedagogia não é beliscada, pelo menos deixaram dúvidas. Eu tenho dúvidas que isso possa ser bem feito no tal horário que termina às 3 e pouco e ainda mais num horário que é só de manhã ou de tarde...
Concordo que quando o professor é algo mais do que alguém que lá vai "despejar" a matéria, há maiores probabilidades de sucesso, mas um horário muito espartilhado nunca me parece muito positivo.
Outro problema, levantado pela Caillenn, é o que se pode chamar de "assistência à família" e deveria ser do âmbito da Segurança Social ou das autarquias. Para além do tempo lectivo, há um tempo em que as crianças têm de esperar pelos pais que trabalham. E aí, é que deviam entrar os ATL ou animadoras sociais como lhe queiram chamar. E o pagamento desse tempo nunca, mas nunca, deveria ser incomportável para o orçamento de uma família como tantas vezes é.
Como é que se pode querer um aumento demográfico quando uma mãe precisa de deixar de trabalhar como neste caso?
Afixado por Emiéle em 29 de abril de 2005, às 22:49
Emiéle, o direito de uma mulher ser mãe é um assunto que dava pano para mangas! Sempre podes aproveitar e lançar a discussão.
Mas o que está aqui em discussão é o alargamento do horário escolar.
Quantas escolas primárias não têm dois ou mesmo os quatro anos misturados, tendo os professores de fazer autênticas gincanas educacionais para darem matérias diferentes ao mesmo tempo?
Quantas vezes não há actividades extra-curriculares, como natação (promovida pela Câmara Municipal) no horário das aulas?
São apenas dois exemplos de situações que lucrariam com um alargamento do horário escolar.
Mas isto é apenas a minha opinião!
Afixado por Caillenn em 30 de abril de 2005, às 00:03
