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abril 07, 2005

O Lobo Antunes, O Frutuoso França e o meu avô

Sim, eu sei que é um título estranho, mas passo a explicar...
Ando a ler um livro de crónicas do Lobo Antunes. Surpreendentemente, identifico-me muito com as descrições que ele faz da sua infância. Surpreendentemente, porque o meu background é muito diferente do dele: sou umas décadas mais nova, a minha família nunca foi rica, nunca tivemos criadas, ninguém me chamava “a menina”, nunca quis ser cowboy ou actriz de cinema e o Tarzan Taborda nunca me provocou inquietações existenciais. E a lista continua por aí fora...
Talvez seja melhor dizer o que temos em comum...
Até à idade de seis anos vivi com os meus pais em casa dos meus avós. Basicamente, porque os meus pais trabalhavam, e eram os meus avós que tomavam conta de mim durante o dia. Os meus pais ainda usaram o esquema de me levaram a casa dos meus avós de manhã e voltarem para casa deles à noite, mas parece que eu era uma terrorista que não deixava ninguém dormir de noite, e a casa dos meus pais ainda era longe (para os padrões da altura), e assim eles foram ficando, ficando, e ficaram durante seis anos. Ainda bem que foi assim. Tive uma infância muito melhor desta forma.
Os meus avós moravam em Palma de Baixo, mesmo ali entre a Católica e Sete Rios, encostada à Rua das Laranjeiras. Quem lá for agora se calhar não se apercebe, mas aquele sítio, há quase 30 anos, era como uma ilha no meio da cidade, um retiro quase bucólico, uma pequena aldeia mesmo no meio da urbe. Palma de Baixo era basicamente um largo e uma rua que descia até ao campo de futebol do Palmense. No largo havia um pequeno parque infantil (um sítio com areia no chão e dois ou três baloiços) e estendais, onde as senhoras vinham estender roupa (tipo aqueles anúncios foleiros do Omo sabão natural, não sei se estão a ver...). Havia uma pequena mercearia (onde ainda me lembro de a minha avó me mandar às compras com uma nota de 20 escudos!!) e uma taberna, conhecida pelo Carvoeiro, por razões que nunca cheguei a perceber bem mas que acho que tinham a ver com o facto de, noutros tempos, antes do gás e da electricidade, ser ali que se vendia carvão, que era usado para muito mais coisas do que para os nossos churrascos modernos.
Algumas das casas de Palma ainda se organizavam à volta de pátios, como podemos ver nos filmes antigos. Lembro-me bem da casa onde morava a Menina Júlia (todas as senhoras de Palma de Baixo eram meninas, desde que nasciam até morrerem, depois de casadas, mães, avós e até viúvas. A minha avó continua a ser a Menina Maria), que ficava num pátio que dava para o Largo de que falei. Passava por lá sempre que ia à mercearia, e se ia com a minha avó a Menina Júlia (que invariavelmente estava sentada no pátio, à porta de sua casa, a coser ou a bordar) e a Menina Maria ficavam durante algum tempo a trocar banalidades, às vezes histórias de pessoas que conheciam desde miúdas, e que, vá-se lá saber porquê, tinham sempre vidas complicadíssimas e estavam sempre muito doentes ou muito tristes (pelo menos era isso que me parecia, na altura). E a Menina Júlia fazia o mesmo que todas as Meninas de Palma de Baixo faziam nesse tempo: dizia que eu era linda e fazia-me festas no cabelo, e dizia que eu era uma boa menina, o orgulho dos meus avós. Eu levava o título muito a sério...

A casa dos meus avós ficava na rua que ia dar ao Palmense, com o lindo nome de Rua Direita de Palma de Baixo (não sei se ainda se chamará assim...). Do lado direito da Rua Direita existiam vários prédios, um deles onde moravam os meus avós, e do lado esquerdo existia um velho solar, que devia ter sido muito bonito, mas que estava há muitos anos votado ao abandono. Parece-me lembrar que era habitado por um casal de velhotes que morreu ainda eu era muito pequena, mas não tenho a certeza se ainda os conheci, ou se eles até morreram antes de eu nascer, e só me lembro deles pelas descrições que me fizeram – as minhas memórias de infância são assim, não tenho bem certeza quais são reais e quais são fabricações da minha imaginação, depois de ter ouvido as histórias serem repetidas tantas vezes...
Bem, esse solar tinha um jardim que parecia uma verdadeira selva e que era território proibido (os meus avós não queriam que eu andasse a invadir propriedade privada), todo vedado com um muro de pedra quase a cair, mas que estava completamente coberto daquelas trepadeiras que têm umas flores azuis/lilases que parecem trombones – sabem quais são? Acho que se chamam campainhas (são parecidas com as da fotografia, mas não exactamente iguais)... De qualquer maneira, seja qual for o nome, era lindo na Primavera, e essas flores ainda são as minhas preferidas. Cada vez que as vejo parece que estou de novo à janela do rés-do-chão dos meus avós, a olhar para o muro. Ou sentada no chão do passeio, encostada a ele, entretida a fazer bolos de lama com a minha irmã (desde muito cedo que tive um especial pendor pela culinária...). De qualquer forma, nem o solar, nem o jardim, nem o muro existem ainda. Foi tudo demolido e construíram um prédio tipo caixote, pintado de um lindo amarelo canário. Coisas do progresso, segundo dizem.
Ao fundo da Rua Direita, antes de chegar ao campo do Palmense, existiam uns terrenos baldios onde o meu avô tinha feito a sua horta. O meu avô era, por natureza, um homem do campo, estava-lhe nos genes o mexer na terra, e embora tenha acabado a viver em Lisboa - em grande parte, penso eu, porque se apaixonou pela minha avó, uma perfeita Lisboeta, embora tenha nascido no Fundão (mas somente por acaso; mas isto é uma outra história, e longa, por sinal, por isso, adiante) – nunca prescindiu, até morrer, de cultivar a sua própria comida.
Aquela horta era um País das Maravilhas, só vos digo. O meu avô tinha todo o tipo de vegetais e frutas, e coelhos, e galinhas, e até fazia a sua própria água pé! Lembro-me de o chatear até à medula para ele me deixar “ajudar”, e de ele me dar um sacho minúsculo para as mão e de eu estar entretida durante horas a “cavar”. Hoje penso que ele perdia depois bastante tempo a tapar os buracos que eu tinha feito. E lembro-me de no Verão comermos, sentados debaixo da parreira, tomates maduros e pepinos com sal, e no Inverno batatas e cebolinhas novas assadas numa fogueira que o meu avô preparava. E lembro-me dele, sorridente, manchado de escarlate até às coxas, a pisar uva para fazer água pé – e garanto-vos, aquilo era uma pinga de primeira!
Bem, mas já me estou a desviar muito do assunto do post... isto era só para vos dar uma ideia da razão pela qual eu me identifico com as descrições do Lobo Antunes: eu vivi a minha infância, como ele, numa aldeia no meio de Lisboa, num sítio parado no tempo, igualzinho à trinta anos atrás.
Como se já não bastasse isto, descobri que a identificação é ainda maior, e foi esta revelação que suscitou este post. É que ambos partilhamos (ou partilhámos) um forte temor reverencial pelo Frutuoso França
Para quem não sabe quem é o Frutuoso França (o que é perfeitamente normal, não é uma figura pública, nem uma imagenzinha dele consegui encontrar no Google, e há anos que não lhe ouvia o nome), ou melhor, quem era, era um fadista, e acho que o Lobo Antunes põe a descrição perfeita do seu estilo na boca do sapateiro da sua crónica, quando diz que ele é o fadista da “moral”. Por moral aqui entenda-se aquela mistura de virtudes católicas e salazarentas que os Meninos e as Meninas desses tempos deviam seguir para serem considerados gente de bem (Deus, Pátria, Família, respeito pela propriedade privada e sobretudo pelos seus proprietários, os comunistas comem criancinhas ao pequeno almoço, as meninas devem ser puras, ajudar as mãezinhas e ficar em casa e os rapazes são marialvas, iniciam-se com as mulheres de má vida e depois dividem-se em dois grupos: os que procuram uma fada do lar que lhes saiba lavar as ceroulas e casam, têm muito filhos e vivem felizes para sempre, com umas ocasionais incursões pela taberna, e os que são sempre marialvas e dedicam a vida a desgraçar a vida a meninas donzelas, que se deixam seduzir e depois são abandonadas com um bastardozinho nos braços, coitadinhas, mas que se há-de fazer, um homem não é de ferro, mas uma mulher honesta deve resistir às tentações – estão a ver o género?).
Bem, o Lobo Antunes ouvia o Frutuoso França na oficina do sapateiro do Bairro, eu ouvia em casa. O meu avô gostava muito dos fados dele, e eu, claro, sentava-me com ele a escutar. Não me lembro de nenhum fado dele excepto um (embora tenha imensa pena de não me lembrar de um em particular que o Lobo Antunes menciona, chamado Desgraçada Rússia Comunista, que deve ser uma pérola!) que me fazia chorar todas as vezes e que me fez perceber pela primeira vez o conceito da morte (depois disto o meu avô nunca mais pôde ouvir o Frutuoso França à minha frente, que eu abria imediatamente as goelas e fazia um escândalo).O fado era sobre uma menina (claro!), muito pobrezinha mas muito boazinha, que tinha a mãe muito doente, quase a morrer, e não tinha pai. Para poder comprar os medicamentos para a mãe, a menina, toda esfarrapada, vendia laranjas todo o dia pelas ruas de Lisboa, e ninguém a ajudava nem lhe comprava as laranjas (gente horrorosa!!). ao fim do dia a menina só tinha dinheiro para os medicamentos da mãe e para um pouco de comida para ela, e por isso, esfregava a boca com cascas de laranja, para a mãe pensar que ela tinha comido. No fim da história, a mãe cura-se com os remédios, mas a menina morre de fome e de frio. Uma desgraça, como vêem, e para a minha cabeça de menos de seis anos, um trauma para sempre. Ainda me arrepio, só de estar aqui a escrever isto! Lembro-me de passar horas sem conseguir dormir com os pensamentos mais aflitivos – “E se a minha mãe fica doente e eu tenho de ir vender laranjas para a curar? E se eu não tiver nada para comer? E se a menina morre, eu também posso morrer. Nunca mais, nunca mais ver a minha família. Mas os meus pais são mais velhos, podem morrer também e ainda mais depressa? Oh, meu Deus, Oh meu Deus... E os meus avós? São velhotes, podem morrer a qualquer momento! Nunca mais ver os meus avós! Ai, Ai...” - estão a ver a extensão do drama...
Escusado será dizer que se seguiram uns tempos em que eu não queria dormir sozinha, tinha pesadelos e chorava durante a noite. Acho que nunca ninguém percebeu porquê, porque eu nunca contei – não queria afligir ninguém com a notícia da sua morte iminente. Depois acabou por passar, mas ainda hoje sou incapaz de ouvir o Frutuoso França...

Afixado por M. Butterfly em 7 de abril de 2005, às 10:35

Afixadelas

E eu, então, fiquei cheio de curiosidade de ir ouvir esse Frutuoso França. Ganda post, M. Um pérolazinha. Parabéns!

Afixado por Monty em 7 de abril de 2005, às 10:57

Espantoso, M, gostei muito; é raro ler um post enorme (até ao fim), mas este lê-se com o prazer de ler um conto. E deve ser mesmo uma experiência, viver num sítio assim. Suponho que ainda haja reminiscências de alguns desses espaços, pelo menos ainda se vêem muitos quintais por Lisboa.

Afixado por susana em 7 de abril de 2005, às 11:20

Já se vê porque é que só cá vens de mês a mês. É para chocar um post destes!
Ufff!! Quando fizermos o livro, vai em anexo :)
Querida M. estou a brincar porque fiquei sem jeito para fazer um comentário. Muito bom, amiga. Um abraço.

Afixado por Emiéle em 7 de abril de 2005, às 11:54

Obrigada pelos elogios...
Agora, Monty, se quiseres ouvir o frutuoso França, eu acho que ainda tenho uns discos dele guardados. Eram do meu avô, por isso nunca os deitámos fora. Se quiseres ouvir a coisa arranja-se. Mas ouves sozinho, que eu acho que ainda não aguentaria o choque emocional.

Susana, é bom saber que este se consegue ler até ao fim... Quando acabei o texto ainda pensei em publicá-lo em capítulos, para ser mais legível, mas com os níveis de produção do Afixe isso seria impossível... Cada capítulo ficava separado por vinte posts, e perdía-se o fio à meada.
E sim, foi muito bom viver num sítio assim, tive muita sorte. Se fores a Palma de Baixo ainda encontras muitas reminiscências do que aquilo era. O Carvoeiro é agora um restaurante e já não se estende roupa na rua, mas os velhos prédios ainda lá estão. Mas agora tudo está sufocado epla cidade que cresce ao redor. Não deve demorar muito tempo para tudo desaparecer. O prédio dos meus avós já foi demolido e construíram um moderno, e penso que não deve demorar muito para acontecer o mesmo aos outros.

Émiéle, nada me redime dos meus baixos níveis de produção. Mas o Monty já me diminuiu o salário, por isso já não me sinto tão mal. Mas como o livro me anda a provocar um mood muito nostálgico, pode ser que ainda me dê para escrever mais uns posts destes... Já preenche a minha quota mensal!

Afixado por M. em 7 de abril de 2005, às 12:19

Eu diria de outra maneira, M: este não se consegue não ler até ao fim.

Afixado por susana em 7 de abril de 2005, às 13:37

Ó p'ra mim a corar, Susana!
(Desculpa Isabel!!! Não leias este comentário, OK?)

Afixado por M. em 7 de abril de 2005, às 13:40

Eu conheço essa zona, sim senhora. Tal como dizes entre a Católica cá em cima e as Laranjeiras mais para baixo. Aliás a rua que desce é onde estão os serviços da Wolkwagem a que infelizmente tenho de recorrer de vez em quando. Agora que há para ali metro ficou muito mais acessível.
Mas tem graça que ainda ontem, falava com a Isabel, o interessante que é os bairros de Lisboa terem tanta personalidade. Não tem nada a ver com os subúrbios. São muito mais humanos, ainda hoje.

Afixado por Emiéle em 7 de abril de 2005, às 13:42

Pois é, Émiéle, nada a ver. Mas acho que é porque os subúrbios se desenvolveram muito mais tarde, como dormitórios de Lisboa, porque a cidade já não aguentava tanta gente. Quando se desenvolveram, e porque foi tudo muito depressa, pereram a identidade. Por exemplo Queluz, onde eu vivia, era, até aos anos 70 um sítio encantador, com o Palácio mesmo alí, onde toda a gente se conhecia e ainda se passeava a cavalo pelas ruas. A partir dos anos 80 foi ver a zona a explodir de novos prédios, até ficar a desgraça que é hoje...

Afixado por M. em 7 de abril de 2005, às 14:52

(A Emiéle aproveita para dizer que tem um Volkswagem)

Afixado por Monty em 7 de abril de 2005, às 15:53

(Pois! Resta saber qual deles... Eu cá acho que ela tem estilo de Beetle laranja!)

Afixado por M. em 7 de abril de 2005, às 16:04

Se o vissem...! O motor é bom, mas por fóra mete dó...Nã senhora, é um desgraçado de um Polo que já foi á inspecção e tudo! O que vale é que com aquele aspecto ninguém mo rouba.

Afixado por Emiéle em 7 de abril de 2005, às 17:05

E já agora, M. tens alguma pontaria, porque até hoje o carro que tive de que mais gostei foi um 2 cavalos vermelho, bestial!!! O descapotável mais barato do mercado. É quase um todo o terreno!

Afixado por Emiéle em 7 de abril de 2005, às 17:10

Pois, a emiéle vai-se revelando...
Olha lá, "já foi à inspecção e tudo"?! O meu já foi até várias vezes e é um belo bólide, está ali prás curvas (o pior são as rectas...). Pronto, tem uns problemazitos, como aquele da porta, mas é esperto, passa sempre nos exames.

Afixado por susana em 7 de abril de 2005, às 17:24

Gostei muito deste post, M.

Afixado por Filipe Moura em 7 de abril de 2005, às 18:41

HeHe! Os meus dons divinatóros continuam em forma!!!

Susana, pela discrição, o teu carro parece igualzinho ao meu!!

Filipe, obrigada!

Afixado por M. em 8 de abril de 2005, às 09:31

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