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abril 18, 2005

O relatório Kinsey.

Tal como a maior parte das pessoas, penso eu, já tinha ouvido falar no relatório Kinsey. Sabia que tinha sido feito nos EUA, com base em inquéritos, e que era o maior estudo feito sobre a sexualidade masculina e feminina. Muitas vezes tinha ouvido o nome mencionado a propósito de masturbação e homossexualidade.
Mas não sabia muitos mais pormenores, nem que tinha sido publicado, pela primeira vez, em 1948!
Na minha ideia, tinha aparecido muito mais tarde, nos anos 60, 70.
Bem, este fim-de-semana fui ao cinema ver um filme que conta precisamente, a história da vida de Alfred Kinsey, o biólogo que foi responsável pelo estudo.
O filme é muito interessante, e deixa-nos a pensar...
Primeiro, na coragem do homem. Publicar, em 1948 (o estudo sobre o comportamento sexual no homem) e 1953 (na mulher), um estudo em que apresenta dados segundo os quais 92% dos homens e 62% das mulheres já se masturbaram, que 46% dos homens e entre 6 e 14% das mulheres tiveram experiências heterossexuais e homossexuais, que 50% dos homens e 26% das mulheres casadas tiveram sexo extra-marital – e a lista continua por aí fora, como podem ver melhor no site do Kinsey Institute – é, no mínimo, corajoso. Basta ver que, hoje em dia, alguns dos assuntos tratados pelo estudo são tabu – quantas pessoas conhecem vocês que admitam que se masturbam, ou que o fizeram nalgum momento das suas vidas, embora as percentagens sejam esmagadoras e não deixem muita margem para dúvidas? Eu não conheço muitas...
Depois, como é difícil ultrapassar os tabus que nos são incutidos pela moralidade judaico-cristã de que estamos todos (europeus pelo menos) ensopados. Seria de esperar que, 50 depois da publicação de um estudo como este, já ninguém pensasse que a masturbação causa cegueira, que a homossexualidade é uma aberração, e que o sexo em geral é uma coisa vergonhosa, de que não se fala, muitas vezes nem com o parceiro. Infelizmente, todos sabemos que não é assim.
Se é verdade que a tradição já não é o que era, certas coisas continuam dolorosamente na mesma.

Afixado por M. Butterfly em 18 de abril de 2005, às 16:01

Afixadelas

Absolutamente Butterfly!

É só tabus e mais tabus, não há frontalidade...ou pelo menos não se vê.

Afixado por bin_tex em 18 de abril de 2005, às 16:38

O documento que linkas-te também demonstra uns números interessantes sobre o Orgasmo e o Sexo Oral, alías todo o documento contém dados interessantes.

Bom post Butterfly!

Afixado por bin_tex em 18 de abril de 2005, às 17:02

realmente. eu falo de sexo na boa, mas há poucas pessoas que conheço que o fazem, coisa que nunca percebi bem. verifico que a maioria nunca o aborda na primeira pessoa. é que se pode falar de sexo sem violar a privacidade de quem o pratica conosco, o ser uma história pessoal não implica que relatemos o outro lado. parece-me que há um certo complexo, um mêdo de que se verifique que a experiência do próprio possa ser menos interessante do que o do seu interlocutor.

Afixado por susana em 18 de abril de 2005, às 19:07

Há tabus e tabus. Uns com mais força do que outros. Falar na 1ª pessoa é um desses. Pudor? É complicado. Eu, por acaso, conhecia o relatório Kinsey, não vi ainda foi o filme.
Fiquei com muito interesse depois de ler o teu post.

Afixado por Emiéle em 18 de abril de 2005, às 19:23

Obrigada M. Butterfly por recordares que apesar de estarmos no século XXI a mentalidade, sobretudo na Europa e EUA, no que toca ao sexo, não difere assim tanto da do século XIX mantendo globalmente a dicotomia vícios privados/públicas virtudes.
Por isso mesmo, como disseram antes de mim, raras são as pessoas que o falam na 1ª pessoa, como se isso não fosse tão natural como dizer o que se comeu no restaurante tal, que livros preferimos ou que desporto gostamos de praticar.
Chega a impressionar quando, como dizes na tua posta e que é moeda corrente em Portugal, nem com o parceiro se fala. Falta de intimidade?...

Afixado por maria arvore em 18 de abril de 2005, às 22:18

Obrigada, Bin. O documento tem realmente dados muito interessantes. Os que utilizei no texto foram só os menos complexos, e que achei que eram já amostra suficciente - para o resto, só mesmo lendo o documento.

Susana, é verdade que há medo em falar de sexo, e principalmente na primeira pessoa. As motivações desse medo são várias, não apenas o medo da própria experiência ser menos interessante que a do outro; às vezes o contrário também se aplica. Uma das coisas em que o filme é interessante é precisamente na abordagem dessa questão do que é normal. No filme, numa das suas aulas de sexualidade, o protagosnista fala de muitas pessoas se lhe terem dirigido com uma pergunta, um medo: será que eu sou normal? As coisas que eu faço, e as que me recuso a fazer, são normais? O estudo poderia ter respondido a essa pergunta, ter encontrado um meio termo, comum a uma maioria, que seria encarado como normal, não fora a principal conclusão do estudo ter sido que todas as pessoas são diferentes. Não existem duas iguais.
Mas para mim, a observação mais interessante é a da diferença do que as pessoas dizem se souberem que são anónimas e o que dizem em sociedade. Um pouco como a maria árvore referiu, a dicotomia vícios privados/públicas virtudes.
Isto para mim quer dizer que esta diferença está ligada a pressões sociais. Não se fala, e sobretudo na primeira pessoa, porque ainda não é socialmente correcto.

Pois, maria, essa para mim é a falha de comunicação mais grave e pode destruir completamente uma relação. A falta de intimidade é claro uma das razões, e simultaneamente o resultado. Mas também tem a ver com convenções sociais e preconceitos, e medos e inseguranças pessoais. Geralmente, é o parceiro que se sente inseguro da sua contribuição para uma vida sexual satisfatória do casal (espero ter sido bastante diplomática...) que se recusa a conversar.

Uma das coisas que tenho notado ao longo dos anos é que a atitude que se tem perante o sexo é uma atitude total. As pessoas que são desinibidas na sua vida intima, que têm uma vida sexual satisfatória, geralmente não têm problemas em falar de sexo. Quem os tens, geralmente tem sempre um "problema" paralelo na vida privada.
Mas isto é a minha experiência, não quero fazer muitas generalizações.
Bem, e agora tenho de ir. Reunião à minha espera...

Afixado por M. em 19 de abril de 2005, às 08:25

Entrei em seu site como que por acaso ao procurar alguma coisa em português sobre o Relatório Kinsey para fornecer a um amigo que não lê inglês. Confesso-lhe que fiquei agradavelmente surpreso com a qualidade da sua sucinta análise sobre o filme e também com as observações de seus leitores.
Quando Cabral chegou a estas terras que hoje se conhecem pelo nome de Brasil, Pero Vaz de Caminha escreveu uma carta ao rei D. Manuel na qual informou que "não existe pecado do lado debaixo do Equador" tamanha a naturalidade com que os indígenas encaravam a nudez e o sexo. E o Brasil tornou-se conhecido pela liberdade com que as pessoas se despem, falam e praticam o sexo. Mas em termos, até mesmo aqui a moralidade judaico-cristã a que você se refere em seu artigo deixou suas marcas. Embora, aparentemente, os brasileiros sejam muito mais abertos do que os portugueses ao falar e praticar o sexo, no fundo no fundo prevelece a moral ibérica e portuguesa.

Afixado por Bento Afonso dos Santos em 22 de maio de 2005, às 16:25

Obrigada, Bento.
O que você diz é interessante, sobre o Brasil ser masi aberto, menos preconceituoso, nestes assuntos. Eu tenho vários amigos brasileiros, e compreendo o que diz: se nalguns aspectos se nota imenso esta diferença de ementalidades, noutros, a diferença não existe.
Espero que continue a visitar o blog!

Afixado por M. em 23 de maio de 2005, às 13:39

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