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abril 29, 2005

Ratzinger concorda com a pena capital?

O João Garcez, cuja escrita já disse muitas vezes que apreciava, fez recentemente um post sobre relativismo, no qual ele atacava a Igreja Católica desse mal. Entre muitas outras coisas, que eu comentei no devido lugar, surgiu uma afirmação do João que me pareceu especialmente importante, e que eu considero estar fundamentalmente errada.
É o que tentarei demonstrar.

Escreveu o João:

«E que dizer do relativismo de que Bento XI dá provas, ao aceitar a pena de morte, porque aplicada a um "culpado", enquanto recusa, em qualquer circunstância, o aborto, uma vez que este destrói "inocentes"?»

Eu disse que iria demonstrar, mas bastaria citar a Encíclica Evangelium Vitae, do Papa João Paulo II, datada de 25 de Março de 1995.

55. Não há de que se maravilhar! Matar o ser humano, no qual está presente a imagem de Deus, é pecado de particular gravidade. Só Deus é dono da vida! No entanto, frente aos múltiplos casos, frequentemente dramáticos, que a vida individual e social apresenta, a reflexão dos crentes procurou sempre alcançar um conhecimento mais completo e profundo daquilo que o mandamento de Deus proíbe e prescreve. Com efeito, há situações onde os valores propostos pela Lei de Deus parecem formar um verdadeiro paradoxo. É o caso, por exemplo, da legítima defesa, onde o direito de proteger a própria vida e o dever de não lesar a alheia se revelam, na prática, dificilmente conciliáveis. Sem dúvida que o valor intrínseco da vida e o dever de dedicar um amor a si mesmo não menor que aos outros, fundam um verdadeiro direito à própria defesa. O próprio preceito que manda amar os outros, enunciado no Antigo Testamento e confirmado por Jesus, supõe o amor a si mesmo como termo de comparação: « Amarás o teu próximo como a ti mesmo » (Mc 12, 31). Portanto, ninguém poderia renunciar ao direito de se defender por carência de amor à vida ou a si mesmo, mas apenas em virtude de um amor heróico que, na linha do espírito das bem-aventuranças evangélicas (cf. Mt 5, 38- 48), aprofunde o amor a si mesmo, transfigurando-o naquela oblação radical cujo exemplo mais sublime é o próprio Senhor Jesus.

Por outro lado, « a legítima defesa pode ser, não somente um direito, mas um dever grave, para aquele que é responsável pela vida de outrem, do bem comum da família ou da sociedade ». Acontece, infelizmente, que a necessidade de colocar o agressor em condições de não molestar implique, às vezes, a sua eliminação. Nesta hipótese, o desfecho mortal há-de ser atribuído ao próprio agressor que a tal se expôs com a sua acção, inclusive no caso em que ele não fosse moralmente responsável por falta do uso da razão.

56. Nesta linha, coloca-se o problema da pena de morte, à volta do qual se regista, tanto na Igreja como na sociedade, a tendência crescente para pedir uma aplicação muito limitada, ou melhor, a total abolição da mesma. O problema há-de ser enquadrado na perspectiva de uma justiça penal, que seja cada vez mais conforme com a dignidade do homem e portanto, em última análise, com o desígnio de Deus para o homem e a sociedade. Na verdade, a pena, que a sociedade inflige, tem « como primeiro efeito o de compensar a desordem introduzida pela falta ». A autoridade pública deve fazer justiça pela violação dos direitos pessoais e sociais, impondo ao réu uma adequada expiação do crime como condição para ser readmitido no exercício da própria liberdade. Deste modo, a autoridade há-de procurar alcançar o objectivo de defender a ordem pública e a segurança das pessoas, não deixando, contudo, de oferecer estímulo e ajuda ao próprio réu para se corrigir e redimir.

Claro está que, para bem conseguir todos estes fins, a medida e a qualidade da pena hão-de ser atentamente ponderadas e decididas, não se devendo chegar à medida extrema da execução do réu senão em casos de absoluta necessidade, ou seja, quando a defesa da sociedade não fosse possível de outro modo. Mas, hoje, graças à organização cada vez mais adequada da instituição penal, esses casos são já muito raros, se não mesmo praticamente inexistentes.

Em todo o caso, permanece válido o princípio indicado pelo novo Catecismo da Igreja Católica: « na medida em que outros processos, que não a pena de morte e as operações militares, bastarem para defender as vidas humanas contra o agressor e para proteger a paz pública, tais processos não sangrentos devem preferir-se, por serem proporcionados e mais conformes com o fim em vista e a dignidade humana ».

Como vemos, o ponto de vista da Igreja é sintetizável nalguns pontos bem claros:

1. A vida humana é inviolável.
2. Com base em 1., a auto-defesa ou a defesa de pessoas sob a nossa protecção é legítima, e mais que isso, é um dever moral
3. Com base em 1. e 2., poder-se-ia em casos muito extremos, considerar a eliminação física do indivíduo perigoso como forma de auto-defesa ou de defesa daqueles a nosso cuidado
4. Com os meios penais e judiciais ao nosso dispor hoje em dia, é perfeitamente possível, mesmo que tal acarrete encargos financeiros e logísticos, eliminar o perigo social que uma pessoa representa sem ter que a eliminar fisicamente.

Que fique bem claro que a Igreja Católica apenas aceita a pena capital quando não existir mais nenhuma forma de proteger a sociedade de um indivíduo perigoso. Todos sabemos que hoje em dia temos prisões. Tenho grande dificuldade em conceber uma situação em que não existisse forma de deter ou isolar um indivíduo perigoso sem ter que o matar. Mas, se calhar, essas situações existem. Só quando se torna num imperativo de auto-defesa ou de defesa dos outros, in extremis, sem qualquer outra alternativa, é que seria legítimo aplicar a alguém a pena capital. E seria, REPITO, no estrito critério da auto-defesa ou da defesa da vida de outrém.

A Igreja, obviamente, recomenda vivamente que se usem dos meios actuais para manter a segurança das pessoas sem que seja preciso a eliminação física de uma pessoa perigosa, recorrendo à pena capital.
Daqui a dizer que a Igreja defende a pena capital vai um grande salto.
Estas palavras explicam na totalidade o contexto no qual devem ser lidas as palavras de Ratzinger sobre esta matéria, que estão totalmente de acordo com o magistério da Igreja. O que não podia deixar de ser, visto que todos sabemos o papel fundamental de Ratzinger nesta área nas últimas décadas.

Mais uma vez, cabe-me advertir para o perigo, que deveria ser evidente, de afirmações descontextualizadas, e que muitas vezes podem ser passíveis de serem interpretadas em sentido totalmente oposto ao desejado por aqueles que as fizeram.
É deste modo que nascem equívocos destes, onde parece que a Igreja Católica apoiaria a pena capital.
O que mais me incomoda é constatar que, de entre aqueles que criticam a Igreja Católica nos tempos que correm, sejam cada vez menos aqueles que recorrem às fontes, e que, antes de comentar, tentam estudar o assunto para lhe dar o devido contexto.
Como poderia eu, por exemplo, comentar aqui uma frase retirada do Mein Kampf sem falar do contexto nazi a ele associado?
Do mesmo modo, e aqui te interpelo, João, como podes tu fazer comentários tão graves sobre palavras de Joseph Ratzinger, sem as confrontares com o magistério da Igreja? Com as encíclicas, com o catecismo, e com as fontes? Com a história da Igreja?
Se o fizesses, seria certo que conseguirias evitar tirar a conclusão diametralmente oposta à verdadeira.

Afixado por Bernardo Motta em 29 de abril de 2005, às 17:21

Afixadelas

Por esta ordem de ideias, a Igreja admite o aborto quando o feto coloca a mãe em risco de vida?

Afixado por susana em 29 de abril de 2005, às 18:00

Ena pá, uma Encíclica no Afixe. É a Glória (Agora vou ler o post).

Afixado por Monty em 29 de abril de 2005, às 18:01

(Adenda:) ou considera-o ilegítimo, por não ter sido o feto a colocar-se nessa situação?

Afixado por susana em 29 de abril de 2005, às 18:01

O Bernardo voltou! Vamos lá ler o post...

Afixado por bin_tex em 29 de abril de 2005, às 18:02

Pois, acho que sim, ainda por cima porque a esmagadora maioria dos homicídas passíveis de pena de morte, são crianças indesejadas pelas famílias que lhes deram origem. Assim é mais prático: não morrem na gestação mas morrem mais tarde por injecção letal e depois de uma carrada de crimes. Perfeitamente de acordo...

Afixado por bluegift em 29 de abril de 2005, às 18:13

Susana,

Parece-me que o caso que me colocas é radicalmente diferente deste. É de bom senso que o feto que coloca a vida da mãe em risco não o faz com intenção de dolo. Por isso, a situação que descreves sai totalmente da esfera da legítima defesa.
Repito que aquilo que eu disse é totalmente dependente do conceito de legítima defesa.
Se não há situação de legítima defesa (e a situação que descreves, à primeira vista, não me parece legítima defesa - há dois inocentes ao barulho), não há a legitimidade que havia no caso inicialmente descrito.
Reconheço a minha ignorância.
Vou procurar, e depois digo qualquer coisa, Susana.
Beijos,

Afixado por Bernardo em 29 de abril de 2005, às 18:22

Bluegift, isso é um bocado radical! Então e as crianças indesejadas que se tornam pessoas felizes e realizadas? Com esse raciocínio pareces estar a falar de uma espécie de morte preventiva...

Afixado por susana em 29 de abril de 2005, às 18:24

Não seria mais simples explicar a defesa dogmática da vida, pela necessidade básica de evolução da espécie? E a justificação da eliminação do assassíno, pelo facto de travar essa mesma evolução? Para quê tanta conversa, sobretudo de alguém que vem de ciências? Descobrir a lógica da Igreja apenas pelo que Ela escreveu ou fez, esquecendo o seu papel para a preservação da humanidade, é muitíssimo limitado. (sempre com o "credo na boca", desculpa lá, mas faz lembrar os beatos).

Afixado por bluegift em 29 de abril de 2005, às 18:30

Pois, Bernardo, logo a seguir pensei no que disseste sobre a noção da culpa (no fundo é disso que se trata, não é?), daí a "adenda". Olha, eu não consigo misturar o caso do aborto com o da pena de morte, ainda menos havendo meios contraceptivos. Vou dizer uma coisa que se calhar vai cair mal, mas sempre achei que "ser dona do meu corpo" implicava não o colocar em situações indesejadas e a acontecer isso, assumi-lo em plena consciência. mas lá está, esta ultima palavra remete mais uma vez para "o ser uma questão de consciência".
em todo o caso, sou contra a pena de morte em qualquer circunstância e penso que num católico admiti-la não faz sentido, porque em princípio acredita mais na redenção do que eu.

Afixado por susana em 29 de abril de 2005, às 18:33

Estou a ironizar Susana... claro que há casos de filhos indesejados que são felizes. Mas também é verdade que a grande maioria dos criminosos provém de famílias que não os desejavam. E nesse caso que apontas, a Igreja coloca nas mãos dos pais a decisão. Não é considerado pecado. Não sou recém católica. Parece ser agora a grande moda, sou-o, praticamente, desde que nasci. E também não considero que sou mais católica que o "reles povinho" só porque li a Bíblia e afins e os outros não.

Afixado por bluegift em 29 de abril de 2005, às 18:42

Então vamos lá falar Bernardo, a doutrina é perene, e como tal é de presumir que matar sempre foi pecado (lol a sério o conceito de pecado é hilariante, mas continuando...) como se explica a queima (e tortura e assassinato) de hereges (entre muitos muitos outros "pecadores")? Ou será que o acto simbólico de entrega ao braço secular apaga a culpa? Pois é, os tais valores perenes parece que não são tão perenes como isso, é tudo uma questão de aceitação social. Se a ICAR já mudou a posição neste assunto uma vez é perfeitamente plausível que o faça outra vez quando se tornar possível/conveniente – a teologia já provou estar longe de ser desligada da política ou de ser irreversível.

Mas já agora fico à espera da condenação veemente por parte de Ratzinger à pena de morte americana (aplicada mesmo a atrasados mentais), às penas de morte do mundo árabe (aí o espectro de crimes puníveis por morte é tão avasto que nem vale a pena fazer a lista). Prática antes da teoria. Condenar de forma teórica é fácil (e sem consequências), fazer lobby é difícil e ainda correm o risco de zangar alguns dos amigos conservadores americanos e no caso do mundo árabe as prioridades do Vaticano parecem estar mais na linha de por exemplo excluir os homossexuais da lista de direitos humanos em vez de impedir que os estados islâmicos os executem. É o que eu sempre digo, olhe-se às acções e ignore-se o ruído de fundo, não passa de propagada.

Afixado por Pedro Fontela em 29 de abril de 2005, às 18:43

ups, na última linha quis dizer propaganda e não propagada.

Afixado por Pedro Fontela em 29 de abril de 2005, às 18:46

Já agora, concordo que sou dona do meu corpo, mas não sou dona de um ser que se está a formar. Mas considero terrível ter um filho indesejado e não concordo com tal. Não me lembro de Jesus alguma vez se ter referido directamente ao aborto, mas, enfim, há quem precise de seguir à letra os manuais para entrar no espírito de uma religião...

Afixado por bluegift em 29 de abril de 2005, às 18:50

Susana,

Qualquer católico tem que se opôr à pena de morte por uma questão de princípio.
Vou dar um exemplo.
Se um ladrão entra em tua casa para disparar contra o teu filho, tens o direito de disparar contra ele, para evitar a tragédia?
Segundo a doutrina da Igreja, tens esse direito.
Tens, não só o direito de matar em auto-defesa, para preservar a tua vida, como o direito de matar para evitar que matem aqueles que tens a teu cargo.
Isto é um ponto.
Outra coisa diferente, por exemplo, é olhar para o sistema penal norte-americano, no qual alguns estados prevêem a pena capital para alguns crimes.
Se era possível deter, sob pena perpétua, um indivíduo demasiado perigoso e impossível de reinserir na sociedade, porquê matá-lo?
É esse o desafio da doutrina da Igreja: porquê matar, se há alternativas de protecção à sociedade que não envolvem sangue?
Só porque a pena de morte, a longo prazo, é mais barata do que a pena perpétua? Só porque alguns "pensadores" norte-americanos acham que os "tax payers" não têm que pagar as custas de detenção de um crápula assassino?
Aqui é que a Igreja diverge: não se deixa reger por considerações financeiras ou materialistas.
Lembrei-me de um exemplo:
imagina que estás num Vaivém Espacial a caminho de Marte. És a comandante do Vaivém, e a ti cabe sempre a última palavra em tudo. Descobres um assassino a bordo, um perigosíssimo serial killer, com provas dadas, e provas irrefutáveis.
Acharias mal, por decisão tua, ou em consenso com outras pessoas da tua confiança, deter esse indivíduo, e por falta de segurança a bordo, condená-lo à morte?
Ou seja, supõe que, pela pequenez do Vaivém, não existia lugar seguro para o deter: todas as divisões do vaivém tinham que ser usadas para a sobrevivência diária da tripulação. Não existem celas. O serial killer, certamente, matará todos a bordo se puder.
Que farias?
Acharias legítimo, nesse caso extremo, matar esse eminente perigo?
Nestes casos, e APENAS nestes casos muito extremos, a Igreja considera "legitima defesa" a decisão pela morte do agressor.

Afixado por Bernardo em 29 de abril de 2005, às 18:53

Precisamente, bluegift, se eu sou "dona do meu corpo", o ser em formação dentro do meu é o único dono do seu próprio corpo. mas também concordo contigo que um filho realmente indesejado é uma coisa terrível, sobretudo para o próprio. (e a escolha dessa frase decorre apenas de ela ser muito utilizada nas campanhas)
Acaba por ser mesmo uma questão de consciência.

Afixado por susana em 29 de abril de 2005, às 18:57

Quanto mais pretendes defender a Igreja Católica mais a afundas. Desculpa mais uma vez, porque vejo que te fartas de estudar a lição, mas a argumentação que utilizas ainda precisa de muito para amadurecer. Demasiado "by the book", demasiado jogo de ideias.

Afixado por bluegift em 29 de abril de 2005, às 18:58

Bluegift,

Desliga lá, por uns instantes, o teu interruptor de "anti-beatices", e desce da tua cátedra de preconceito.

Tu dizes:

"Não me lembro de Jesus alguma vez se ter referido directamente ao aborto, mas, enfim, há quem precise de seguir à letra os manuais para entrar no espírito de uma religião..."

Eu não "preciso" de seguir à letra os "manuais". Sei pensar por mim. O meu post é o resultado de uma reflexão prévia, porque raramente escrevo sem antes ter pensado, ao contrário de tantos hoje em dia.

Seria tolo, repito, TOLO, se ignorasse dos dois mil anos da Igreja de debate sobre todos estes temas. Como não ler os textos? Como não ler as encíclicas, as obras dos pensadores da Igreja?

Aquele que se pronuncia sobre opiniões pessoais não fundamentadas faz figura de tolo.
A via normal é a de conhecer, antes de mais nada, os temas em discussão.
Isso dá trabalho!
Escrever um post destes dá trabalho!
E depois, baseado no que se leu e estudou, então sim, emitir uma opinião.
Mas, infelizmente, o que eu vejo e leio todos os dias são intermináveis frases cegas, baseadas apenas em preconceito, com nenhuma ligação à realidade.

Assustam-me os católicos (e contra mim falo) que não lêem os textos oficiais. Há poucos dias, comentava com um amigo meu, católico: "Eh pá, tu que cartas de João Paulo II conheces? Que encíclicas leste?". E, tanto eu como ele, reconhecemos que não nos lembrávamos de nenhuma!
Este post é uma tímida tentativa de colmatar aquilo que eu considero ser uma grave falha pessoal minha: o desconhecimento dos textos fundamentais do magistério da Igreja.
Eu nem sequer tenho o Catecismo em casa!
Tenho que recorrer à versão online!
Não é possível eu ser mais sincero!
E, como me choca a minha ignorância sobre aquilo que a minha Igreja afirma, também me choca o atrevimento daqueles que a criticam sem, também eles, terem lido documentos oficiais.
Estaremos todos loucos?
Será isto "opinionite aguda", a mania de falar sobre o que não se sabe, o que não se estudou, e PIOR... o que não se quer estudar?

Afixado por Bernardo em 29 de abril de 2005, às 19:02

Bluegift,

Este teu comentário deve vencer o prémio do mais arrogante que recebi nos últimos dias.

"Quanto mais pretendes defender a Igreja Católica mais a afundas. Desculpa mais uma vez, porque vejo que te fartas de estudar a lição, mas a argumentação que utilizas ainda precisa de muito para amadurecer. Demasiado "by the book", demasiado jogo de ideias."

Demasiado "by the book"? "Jogo de ideias"?
Mas que porra é essa?
O que é que queres dizer com isso?
Que em debates as ideias são incómodas?

Afixado por Bernardo em 29 de abril de 2005, às 19:05

Digo-te mais, Bluegift, o teu comentário recorda-me a lição que o nosso amigo Gibel deu aqui no Afixe há uns meses sobre erros crassos no processo argumentativo.
O teu erro é simples e evidente: ataque "ad hominem". À falta de argumentos intelectuais sérios, atacas a minha "imaturidade". OK.

Afixado por Bernardo em 29 de abril de 2005, às 19:07

Pedro Fontela,

"Então vamos lá falar Bernardo, a doutrina é perene, e como tal é de presumir que matar sempre foi pecado"

Matar é, e sempre foi, pecado.

"como se explica a queima (e tortura e assassinato) de hereges (entre muitos muitos outros "pecadores")?"

À luz de três ideias bastante complexas:

1. A banalização da pena de morte na Antiguidade, característica comum a todos os povos de todos os continentes do Globo

2. A ideia de que a queima dos hereges era um caso de legítima defesa, de protecção da doutrina

2. A ideia de que a morte de um herege pelo fogo era, de certo modo, uma purificação.

Escusado será dizer que tais interpretações estavam erradas e eram abusivas. A entrega do condenado ao braço secular tem, a meu ver duas nuances:

1. Numa delas, concordo contigo: entregar o condenado ao braço secular não redime a culpa do condenador
2. Na outra, devo pender para o outro lado: a própria existência de um braço secular explica que, nesta matéria, a "culpa" deva ser atribuída à sociedade da altura, como um todo, e não apenas à Igreja.

Repudio as condenações dos hereges à fogueira.
Elas foram possíveis, entre outras tantas condicionantes sociais, graças a uma interpretação enviesada da doutrina.
Espero que não se repitam.
Mas, no entanto, é sempre mais fácil condenar o que já lá vai, porque vivemos noutros tempos, não é?

"Ou será que o acto simbólico de entrega ao braço secular apaga a culpa?"

Não apaga, e disse-o atrás.

"Pois é, os tais valores perenes parece que não são tão perenes como isso, é tudo uma questão de aceitação social."

Repito: a queima dos hereges era uma interpretação deturpada da doutrina. É com a sua história duplamente milenar que a Igreja demonstra como, a pouco e pouco, foi limando os seus erros e aprendendo com o passado.

"a teologia já provou estar longe de ser desligada da política ou de ser irreversível"

A Teologia não está isenta de interferências provenientes da Política. Tens toda a razão. O passado demonstra-o inúmeras vezes.
Mas deve tentar estar isenta.

Nesse sentido, o pedido de desculpas de João Paulo II é um excelente exemplo de quem quer, de uma vez por todas, evitar esse tipo de interferências e aprender com o passado.

Mas, inevitavelmente, esse pedido de desculpas é usado pelos anti-católicos como arma de arremesso.
Preso por ter cão e por não ter...

"Mas já agora fico à espera da condenação veemente por parte de Ratzinger à pena de morte americana (aplicada mesmo a atrasados mentais), às penas de morte do mundo árabe (aí o espectro de crimes puníveis por morte é tão avasto que nem vale a pena fazer a lista)."

Como sabes se ele não a condenou já?
Já leste TODOS os textos que ele escreveu?
Eu não sei se ele já condenou ou ainda não condenou, mas não me atreveria a uma frase tão precipitada como a tua. Parece que conheces todos os escritos de Ratzinger, e deixa-me que te diga que não me parece que isso corresponda à realidade.

"excluir os homossexuais da lista de direitos humanos"

Gostaria de ver, mais uma vez, em que fonte te baseias para afirmar tal disparate.

"em vez de impedir que os estados islâmicos os executem"

Ah, ou seja, ingerência do Vaticano em estados estrangeiros? Como é que isso e processa? Com que base penal ou diplomática?
E achas que não há, já, inúmeras acções de pressão, dentro da legalidade, para que essas práticas acabem?

Afixado por Bernardo em 29 de abril de 2005, às 19:18

Bernardo,

« Elas foram possíveis, entre outras tantas condicionantes sociais, graças a uma interpretação enviesada da doutrina.»

O facto da pena ser banal não muda nada, se a ICAR está separada do mundo, os seus valores são eternos e inspirados por deus então isso é irrelevante, o que tudo isto prova é que a doutrina sempre foi um produto do tempo em que surgiu, inspirada por nada mais divino do que interesses clericais e aceitação/medo popular. Resta dizer duas coisas quanto à entrega ao braço secular:

1- em muitos casos o senhor feudal era um membro da hierarquia católica pelo que a entrega não era mais que uma troca de papeis.
2- Ai do senhor feudal que recusasse julgar e massacrar heréticos (como o caso de Raimundo VI de Toulouse bem demonstrou).

Essas interpretações erróneas não foram limadas por "aperfeiçoamento" da ICAR, foram purgadas pelo mundo secular, de forma por vezes violenta e sempre com muita resistência clerical, a mudança é fruto de acção exterior e não de uma dinâmica interior.


« Como sabes se ele não a condenou já?»

Não li todos os textos de Ratzinger mas não me lembro de jamais ver uma referência a texto algum dele em que se faça uma declaração clara e especifica, – se o fez dê-me a referência que eu agradeço (se tal declaração existisse lhe garanto que os católicos me tinham esfregado isso na cara e que provavelmente mesmo antes disso já saberia da sua existência).


« Gostaria de ver, mais uma vez, em que fonte te baseias para afirmar tal disparate.»

Vamos ver, pode não os quer excluir de terem acesso aos direitos humanos (enfim isto é discutível, mais uma vez prática antes da teoria... se chamar doente e inerentemente malévolo a alguém não tem essa intenção não sei o que terá....) mas sem dúvida que quer evitar que os direitos humanos universais tenham qualquer referência quanto á orientação sexual (e nisto no passado em manobras várias na ONU os países árabes sempre foram os parceiros de crime...)


« Ah, ou seja, ingerência do Vaticano em estados estrangeiros?«

Meu caro Bernardo o Vaticano jamais teve problemas em interferir em assuntos estrangeiros (como o prova as recentes acções em Timor e Espanha), se não o faz é porque não tem interesse algum em promover essa causa.

Afixado por Pedro Fontela em 29 de abril de 2005, às 19:44

Para observar a Igreja Católica nada como ler o que diz, nas fontes, o que não diz, o que faz, o que não faz, e tentar interpretar com todo o contexto possivel. Neste caso parece-me que a Igreja Católica convive bem com a pena de morte, sem grandes problemas. A condenação do aborto pouco tem, no fundo, com a defesa da vida, o motivo é bem diferente, e está á vista de todos que queiram ver. No fundo, e por motivos relacionados, a Igreja, ela própria, ainda condena muitos a mortes horrorosas, intrditando os mais eficazes meios de defesa do SISA (ou tentando interditar, felizmente, graças a Deus, não o consegue como gostaria).Não somos todos cegos e surdos, só quem não o deseja é que não capta os sinais escandalosamente patentes do relativismo desta Igreja. FJ

Afixado por Fernando Baeta Neves em 29 de abril de 2005, às 21:52

Bernardo,
Acho óptimo que leias todos os textos sagrados. É uma leitura extremamente interessante e de grande valor histórico. Ainda por cima, se te encontras a elaborar obras literárias que se baseiam nessa leitura, ainda mais ela se justifica.
Quanto ao te parecer ter sido arrogante, não o fui mais do que aquilo que tens demonstrado na elaboração de alguns destes posts. ;)
Praticamente, fazes depender a credibilidade da Igreja Católica de uma melhor ou pior análise da sua história. Por esse caminho Bernardo, acabas inevitavelmente por ir bater com o nariz numa Igreja que tem tanto de Santo como de Diabólico. Não vale a pena tentar minorizar os crimes cometidos pela Igreja, com grandes discursos acerca do que foi escrito ou não a seu propósito. O próprio papa João Paulo II já tratou de pedir desculpa pelos erros cometidos. É que foram mesmo CRIMES! E os pedidos de desculpa ainda não acabaram. Chegará ainda a vez, de pedir desculpa pela indevida clarificação do que significa a proibição dos métodos anti-concepcionais; e mais há-de vir.
A Igreja ERRA e faz muitas asneiras, muitos “pecados”! São os próprios padres os primeiros a reconhecê-lo, e apareces agora tu a puxar do concílio xpto, e suas múltiplas leituras, para justificar o quê?
Bernardo, Apesar de todos os erros cometidos e a cometer pela Igreja, não é a sua coerência ou “relativismo” que interessam, mas sim o que ela significa como representante espiritual da religião católica. Ela não é perfeita, nem poderia sê-lo, e é por isso que é preciso criticá-la para que consiga adaptar-se cada vez mais à realidade social actual, reinventar-se sem perder a sua identidade. Ser um modelo e não um tirano.
Quando afirmo que a tua postura é imatura, é porque te vejo a abordar o problema de uma forma demasiado técnica, superficial. Acabas por não abordar a essência das questões que te são colocadas. É um problema filosófico, espiritual, não se trata do código civil revisto e anotado XXI ra. edição...

Afixado por bluegift em 29 de abril de 2005, às 22:35

!podería-se"????

Afixado por Pedro em 30 de abril de 2005, às 17:48

lapsus linguae, Pedro. No worries!

Afixado por Monty em 1 de maio de 2005, às 01:18

É fantástico o poder da Internet.
Tenho sempre correctores ortográficos e gramaticais à mão!
Caro Pedro, espero não o ter ofendido.
"Poder-se-ia".
OK?
Peço as mais sinceras desculpas pelo engano, que confesso ter sido não intencional e não premeditado.
Às vezes interrogo-me, e acho que legitimamente, se as pessoas que comentam de forma indignada os meus posts, apontando erros ortográficos, serão elas exímias máquinas de escrever em português.
Cada vez mais reconheço as minhas enormes deficiências em português, porque eu, por vezes, ainda me engano a escrever, enquanto que isso é inexistente em tantos comentadores dos meus posts... Ainda bem!
Obrigado pela correcção, Pedro!
Vou já mudar...

Afixado por Bernardo em 1 de maio de 2005, às 12:17

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