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maio 06, 2005
CROMOS DIFÍCEIS DA BLOGOSFERA (2)

Ele tem tudo o que uma criatura de Deus precisa para me irritar solenemente: a mania dos aforismos, aquelas pérolas de sabedoria que supostamente encapsulam em meia dúzia de palavras o Sentido da Vida; uma Fé religiosa que descamba em proselitismo feroz a cada curva; um gosto musical que abarca, entre outras preciosidades, os AC/DC e os Black Flag (t’arrenego: o Henry Rollins é que nunca!); uma analítica auto-reflexão que se confunde, dia sim, dia não, com a vaidade.
Mas, como é do Tiago Oliveira Cavaco, A Voz do Deserto, que falo, só posso dizer bem dele. Face à tocante sinceridade e à implacável habilidade estilística da Voz, fico desarmado. Até o ateuzinho militante que vive no meu cerebelo e pede a palavra sempre lhe cheira a incenso se queda tolhido por uma quietude entre o intrigado e o divertido.
O homem é, se bem percebi a coisa, pastor de um grupo evangelista para mim ignoto. E é um entusiasmado apreciador de música pesada. Agora, pasmem: ele leva esse "estilo" canoro ao púlpito através de um grupo de sua inesquecível graça "Tiago Guillul e os Gratos Leprosos", ou o diabo a sete. Em hinos à falta de jeito musical como "A Isabel é intelectual (porque perdeu a virgindade na Feira do Livro)" ou "Ó Judas, aperta o laço", o Tiago faz avançar a nossa ideia de música sacra para paragens nunca antes visitadas...
Mas fiquemos no terreno mais consensual da palavra apenas escrita. As ocasionais descrições dos incidentes quotidianos do seu múnus bastariam para fazer deste blogue uma visita obrigatória para almas curiosas e sensíveis: "Eu estava distraído durante a oração. Até que me apercebi que o pecador confessava as suas faltas. As minhas pernas, que até então abanava relaxadamente, imobilizaram-se. Podem os músculos de um homem repousar quando se ouvem palavras de arrependimento?"
Mas há mais, muito mais. Para vossa ilustração, aqui ficam algumas da homilias mais recentes. O auto-retrato: "Quando me sento no Monte Sinai pouco me aflige o estilo, honestamente. A erudição nunca curou leprosos. Os babilónios não me perdoam que acredite nas coisas que escrevo." A sempiterna questão de Eva: "Uma das debilidades dos ateus é, descartando-se do Criador, atribuir a existência da mulher a um acaso cósmico. Não é incredulidade religiosa. É ingratidão pagã. Não é falta de sensibilidade estética. É falta de respeito." Isto e aquilo: "As palavras são como as cerejas. É preciso ter cuidado com os caroços". Dicas para reparações domésticas: "Acreditar com muita prudência no que os cientistas dizem sobre o Princípio. Acreditar com muita prudência no que os místicos dizem sobre o Fim". E assim por diante, ad eternum.
É certo que um recente chuvisco de públicos elogios ("A glória seria Lúcifer elogiar-me no inferno. Mas aí seria tarde demais para poderem desfrutar de uma ligação à internet") tem vindo a turvar a nascente da Voz do Deserto; a hubris nunca se deu bem com o ascetismo dos profetas semi-loucos.
Mas há que manter a Fé: se alguém um dia for capaz de, através da Internet, curar leprosos ou transformar límpida água em sedoso Barca Velha, será por certo o Tiago Oliveira Cavaco. Visitem-no. E que o Senhor vos acompanhe.
PS: depois de escrever o último parágrafo, lembrei-me da sentença que Deus deixou lavrada em Timóteo: "Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem." Persignei-me (sim, Monty) e tratei de fugir da tentação para uma página de sã pornografia.
João Garcez
Afixado por afixe em 6 de maio de 2005, às 18:23
Afixadelas
Ui, ui. Já por lá passei, sim, mas já não tinha memória. Vou ficar fã, por certo. Para quando o post sobre o Luis Rainha, aquele cromo que andava no BdE?
Afixado por Monty em 6 de maio de 2005, às 18:52
Já reparei que aqui tinhas o competente link para a Voz; é realmente blogue bem interessante. Quanto à tua sugestão, vou adicioná-la à short list; mas vou dedicar-me à malta da 1ª divisão, antes do mais...
Afixado por JG em 7 de maio de 2005, às 01:03
Chiça, que com este post com toda a certeza entraste nas boas graças de Deus. Umas linhas mais, confessavas-te pecador e carente da graça salvífica de Cristo.
O teu post é soberbo.
Afixado por Filipe Spinner em 7 de maio de 2005, às 01:07
Desculpem comentar a despropósito mas depois do que escrevi sobre as Perestrelices, e de acaba de saber que o homem faleceu, nem sei o que diga, mas que qualquer coisa bateu cá dentro, lá isso bateu!
Afixado por Rodrigues Cunha em 7 de maio de 2005, às 01:24
É claro que isto de decisões, cada um sabe porque as toma.
Mas tenho de deixar aqui o meu espanto, quando noto que um blogger, nosso visitante desde há bastante tempo, e que por isso deve ter notado que os posts aqui são sempre como “artigos de opinião” cada um assina-o e diz o que considera que lhe apetece dizer, decidiu retirar o link que ligava o seu blog ao Afixe por causa desta série de posts. Se sabe ( e tem de saber!) que as opiniões aqui são bem plurais, só pode ter em muito baixa consideração os leitores do seu próprio blog que, chegados aqui, não seriam capazes de distinguir o que de bom ( na sua opinião) o blog continua a ter e o que de menos bom ( também na sua opinião) terá…
O acto é seu, é claro. Mas eu, se fosse habitual leitora do seu blog, não teria gostado de ser considerada tão tonta…
Afixado por Emiéle em 7 de maio de 2005, às 10:22
Escrevi o comentário de cima de manhã, e agora que aqui voltei, fui reler o post.
Que coisa estranha. Tirando o tom, que pode ser considerado ligeiro e um bocado galhofeiro, não encontro aqui nada que vá ofender o blogger em questão.
Por outro lado mal seria se não pudessemos criticar uma coisa de que não gostamos! Claro que se não gosta, não se volta lá, mas a opinião é livre, e explicar porque se gosta ou não também. Como tenho muito pouco tempo selecciono muito as coisas que procuro ler, e há blogs onde nunca vou. Ninguém obriga nem a ir nem a não ir. Se fosse um livro, o conselho para não comprar tinha outro efeito ( por acaso, ontem, estive na Fnac com o Acidental na mão. Sentei-me e li um bom bocado. Depois fui pô-lo na estante. Isso é que é feio... não lhe digam a eles)
Afixado por Emiéle em 7 de maio de 2005, às 16:28
Com efeito, a mediocridade continua a pôr-me fora de mim e o post do Eufigénio é completamente medíocre.
"Mas, como é do Tiago Oliveira Cavaco, A Voz do Deserto, que falo, só posso dizer bem dele. Face à tocante sinceridade e à implacável habilidade estilística da Voz, fico desarmado. Até o ateuzinho militante que vive no meu cerebelo e pede a palavra sempre lhe cheira a incenso se queda tolhido por uma quietude entre o intrigado e o divertido. "
Isto é dizer mal ou achincalhar? Será que ele, ao menos, leu o post? Espero, muito sinceramente, que o link para o Afixe não regresse. Será sinal que mantemos a qualidade!
Afixado por Monty em 7 de maio de 2005, às 19:14
