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maio 17, 2005
Crónica dos últimos dias, antes de ti - 2º dia

17 de Maio de 1990
Hoje foi um dia muito cansativo. Mas cheio de acontecimentos. Logo de manhã aconteceu uma coisa extraordinária. A enfermeira perguntou se a noite tinha corrido bem e eu disse que estava preocupada porque te tinhas mexido pouco. A Sra. olhou para mim com ar um bocado zangado e disse-me “Então mas não era a Sra que reclamava, ontem de manhã, depois da primeira noite que cá passou, que ele não a deixava dormir…??? Estas mães…”. Juro, João Pedro, para além de ti foi a primeira pessoa que se dirigiu a mim, dizendo mãe. Fiquei toda orgulhosa e acho que tu também, porque deste logo uma catrefa de pontapés.
Depois fomos fazer um CTG. Não me perguntes o que quer dizer, meu amor, que não faço a mínima ideia. Sei que se chama assim. Deitaram a mãe numa cama e ligaram a minha barriga a uma televisão. Depois comecei a ouvir o teu coração...e,aí, foi um desastre. Não que não quisesse ouvir o teu coração, para além das ecografias, nunca tinha acontecido nada tão bonito como ouvir o teu coração...só que, cada vez que ele batia um bocadinho mais devagarinho ou mais longe, eu entrava em pânico. Aí, acho que tu entendias e voltava a bater com força e mais pertinho, outra vez.
Durou uns dez minutos e, no fim, a tensão tinha chegado aos 19...a enfermeira quase desmaiou.
Por castigo, hoje, ao jantar, nem a sopa tinha sal!
Amanhã eu vou controlar-me. Prometo. Até porque eu sei que é muito perigoso para ti, mas hoje não fui capaz. Desculpa. Se quiseres hoje podes pôr o pé espetado na barriga, que eu não me importo.
Na visita das duas, veio cá tudo. Os avós. A avó Inês, a madrinha e a Joanita. Não sei o que lhes deu que resolveram todos trazer-me camisas de dormir...mas será que esta gente pensa que vamos passar aqui o resto da vida? Ah, tens razão, a Joanita trouxe-te uma chucha com um gato. Está guardada na gaveta. À tua espera.
Ainda tenho que me levantar para ir à casa de banho.Nestas alturas é que dava jeito ter um catrapillar daqueles da Câmara para nos ajudar a levantar da cama e mais esta barriga grandiosa...
Estamos cheios de fome, não estamos serinho? Amanhã vou ter que perguntar ao médico se os avós podem trazer uma bolachas,ao menos, umas pobres bolachinhas. São 9 horas, já comemos há duas e daqui a bocado vão-nos trazer uma chávena de chá e duas (ouviste bem João Pedro? duas) bolachas para a ceia. Meia chávena de chá e uma bolacha Maria para cada um. Para uma noite inteira. Depois de um creme de cenoura sem sal, um posta de peixe sem sal e meia batata sem sal. Eu acho que estes gajos (quer dizer, senhores) nos querem matar à fome!
Os dois bébés que estavam cá quando entrámos, já saíram hoje. Esta é a parte complicada. As outras mulheres que cá estão, já estão todas com os filhos...cá fora, quero dizer, não é preciso desatares aos pontapés...
Afixado por Isabel em 17 de maio de 2005, às 18:43
Afixadelas
Sabes que se percebe que continua a ser assim convosco: meia chávena de chá e uma bolacha para cada um?
Afixado por susana em 17 de maio de 2005, às 20:26
Eu sabia. Tinha a certeza de que o sensível começo deste diário ( ? ) tinha de continuar com esta qualidade. O teu "reviver" de momentos tão tocantes, tão graves, mas contados com a tua graça de sempre vai marcar-nos.
Vais contar com companhia constante nesta viagem, amiga.
Afixado por Emiéle em 17 de maio de 2005, às 20:33
Continua a ser assim, connosco, sim. Não calculas como é recompensador, sentir que o sentiste...para além da recompensa que a vida me deu (me dá) de continuar a ser assim connosco.
Émièle, olha que aquela do catrapillar não era suposto ser piada...eu tinha uma barriga XXXL. Toda espetada e que quase começava logo abaixo do pescoço...
Afixado por isabel em 17 de maio de 2005, às 20:45
Não tenho palavras. Deve ser a única ocasião da vida em que tenho inveja das mulheres... (Garanto que não é ironia).
Desejo-lhe "uma horinha curta" como dizem aqui na aldeia!
Afixado por cls em 17 de maio de 2005, às 21:08
"A horinha foi curta" felizmente...
Como escrevi ontem no 1º post e como, aqui, já todos os visitantes habituais sabem, aquele "serinho" que estava lá dentro a dar pontapés, já tem, agora quase 15 anos (neste dia, tinha 15 anos - 13 dias), e tem 1,87, calça 45...
Tentei, como expliquei, a partir de algumas notas escritas no hospital, revisitar os meu últimos dias antes dele...ainda bem que gostaste. Compreendo, quando dizes, essa parte dos homens...de facto, ter um filho cá dentro, é uma experiência única (que infelizmente, vocês não podem partilhar) mas que podem compensar...sendo o pai, que cada um dos meninos qua dão pontapés merece ou gostaria de ter...
Afixado por isabel em 17 de maio de 2005, às 21:34
Hoje, dia 17 nasceu o meu terceiro sobrinho, filho de um pai que faleceu há precisamente quatro meses.
São textos como este que nos mostram como é possível prolongar a presença de quem nos deixou.
Obrigada, Isabel.
Afixado por Ana em 17 de maio de 2005, às 22:20
Ana, fui a "tua casa" deixar-te um comentário. Obrigado.Um abraço.
Afixado por isabel em 17 de maio de 2005, às 22:34
Querida Isabel: 15 anos e 1,87??mas que rico adubo:)))
Gosto muito, muito de ler os seus textos,sempre tão cheios de amor pela vida,que me tocam tanto..tenho que confessar que passo sempre pelo Afixe para ler o núcleo feminino e como se diz ali em baixo,sou daquelas que aqui vem (e a outros blogs) e é raro comentar..na maior parte das vezes porque aquilo que diria seria por demais redundante e para quê escrever únicamente "totalmente de acordo" ou "lindo" e etc??
No meu caso o silêncio é um de apoio e um de continuem..é um prazer ler-vos.Obrigada.
Afixado por monalisa em 18 de maio de 2005, às 03:55
Olha Monalisa, não sei que raio é que fazemos aos putos, mas esta malta cresce que é um disparate... Acho que a Isabel atinge um record, mas é vulgar eles terem quase mais 20 cm do que os pais.
É obra!
Afixado por Emiéle em 18 de maio de 2005, às 08:24
Isabel,
Palavras para quê?
Mais uma vez... OBRIGADO!... por estes momentos ternos que nos deixas viver contigo.
Afixado por Marta em 18 de maio de 2005, às 09:54
Isabel, 15 anos depois e ainda te lembras de tudo assim? Valha-me Deus!!
Parce que aquela da minha mãe que a dor se esquece logo a seguir era treta para me dissuadir da ideia firme de não querer ter filhos que me ficou desde que, aos 14 anos, vi uma parto na televisão... tenho que falar com ela!
; )
Fora de brincadeiras, adorei o texto e fico ansiosa à espera de novos capítulos!
Afixado por M. em 18 de maio de 2005, às 10:40
O post é todo muito 2significante", mas o dizeres "serinho" é particularmente bonito.fj.
Afixado por FJ em 18 de maio de 2005, às 11:16
São momentos como este que fazem um dia valer a pena.
Lindissimo. Não há palvras para descrever. É puro amor...e isso não se descreve, sente-se.
Obrigada por por partilhares.
Afixado por Shemá em 18 de maio de 2005, às 11:24
São momentos como este que fazem um dia valer a pena.
Lindissimo. Não há palvras para descrever. É puro amor...e isso não se descreve, sente-se.
Obrigada por partilhares.
Afixado por Shemá em 18 de maio de 2005, às 11:25
São momentos como este que fazem um dia valer a pena.
Lindissimo. Não há palvras para descrever. É puro amor...e isso não se descreve, sente-se.
Obrigada por partilhares.
Afixado por Shemá em 18 de maio de 2005, às 11:25
M, como disse no primeiro post,lá mais em baixo, estas "crónicas" são escritas a partir duns apontamentos originais, então escritos, todas as noites, antes da hora de adormecer, no hospital, onde tive que ficar nos últimos dias de gravidez.
Fiz algumas pequenas alterações, mas o essencial tem ...15 anos.
E a tua mãe tem razão...a dor esquece-se logo a seguir...
FJ, "serinho" ficou até hoje...mesmo quando já é um "serão"...
Afixado por isabel em 18 de maio de 2005, às 12:09
Esta série de posts é deliciosa.
Fico à espera do resto. É de uma sensibilidade e delicadeza invulgar. Ainda bem que registaste estes dentimentos, Isabel. Que lindo, e que bom é partilhares isto connosco.
Afixado por Gui em 18 de maio de 2005, às 12:51
Isabel, tens de pedir aumento de ordenado aí no Afixe.
Olha que este tipo de trabalho não se faz em blog nenhum!!!
Bravíssimo!!!!
Clap, clap, clap!!!
Afixado por Zé em 18 de maio de 2005, às 12:55
Gui, alguns haverá um bocadinho mais tristes...é possível haver, às vezes, momentos de alguma tristeza, no meio da alegria que são (foram) aqueles dias...
Monty, ouviste o Zé???
Afixado por isabel em 18 de maio de 2005, às 13:18
Isabel,
Que partilhas lindas, estas, que deixas aqui...
Conta ( se quizeres ) o João já leu estes textos? Lê este textos? Que diz ele?
Afixado por Partilhas em 18 de maio de 2005, às 15:49
Leu quando era mais pequeno ...para aí, no 5º ou 6º ano...aquilo estava num dossier ,houve algumas páginas que eu retirei, por razões muito pessoais que não gostaria nem poderia ter partilhado com o meu filho nessa idade.O meu filho não é de se expressar muito...lembro que me disse que eu escrevia muito mal, que aquela letra era impossivel de se ler...que parecia "gatafunhos" e que tinha saudades da avó Inês...depois foi lendo aos pouquinhos...sozinho...ria-se de vez em quando...fazia perguntas algumas vezes...nunca se manifestou muito.
O bloco que dá para ler continua lá em casa e sempre esteve na estante da sala...não sei se lá voltou ou não...as outras páginas estão mais guardadas...não me parece que algum dia as deva ler. Gosto demasiado dele para isso...
Afixado por isabel em 18 de maio de 2005, às 18:07
Essa da letra de gatafunhos, é óptima para te tirar peneiras. Como é a dele?
lololol
Mas mesmo sem se manifestar ( há pudores que o impedem, Isabel ) acredito que o tocou. É impossível não o fazer. Mas como ele te conhece melhor do que nós, se calhar não foi surpresa essa tua faceta de extrema sensibilidade.
Afixado por Emiéle em 19 de maio de 2005, às 08:59
Obrigada pela resposta Isabel.
Acho, que estes textos lidos, como protagonista, devem conter em si mesmos, emoções, que nós próprios desconhecemos.
Já li, o 3º dia...
Acho que a Emiéle, tem razão. A sensibilidade extrema, numa escrita fluente e segura.
Lindissimo Isabel.
Afixado por Partilhas em 19 de maio de 2005, às 12:51
