« Intimidades... | Entrada | E o que é que se faz ao piano? »
maio 23, 2005
Crónica dos últimos dias, antes de ti - 8º dia

23 de Maio de 1990
Na noite de Sábado para Domingo, tinha entrado no quarto uma rapariga, ainda muito jovem com um bebé, acabado de nascer.
Nunca a ouvi falar, nunca a vi sorrir, nunca a vi chorar. Dela, recordo, apenas, a ausência de olhar. Nunca a vi olhar. No Domingo, não recebeu uma visita. O bebé não mamava, a enfermeira vinha buscá-lo, na hora das mamadas. Ela levantava-se, devagar, e saía. Sem um gesto, a não ser os passos que a levavam ao corredor. Normalmente voltava, quando o bebé já estava no berço. Sentava-se na cama ou deitava-se. Sempre sem expressão. Ontem, vieram falar com ela, logo pela manhã. Deixou o bebé no berço e foi, acompanhada de uma enfermeira e de outra senhora. Durante o resto do dia, a cena repetiu-se. Por mais duas vezes voltou a sair do quarto acompanhada. E a voltar.
Esta manhã, cedo, ainda não eram nove horas, a mesma senhora que cá tinha estado ontem, veio buscar os dois. Mãe e filho. Cerca de uma hora depois, ela voltou. Sozinha. Vestiu-se, pegou nas suas roupas e saíu. Nunca olhou para trás.
Na hora da medicação, a senhora da cama ao lado perguntou à enfermeira se tinha acontecido alguma coisa ao menino. “A mãe deu-o para adopção, e já foi para casa”, disse. Parece-me que também não havia expressão na sua voz.
No quarto fez-se silêncio.
Felizmente que nós podemos sair do quarto para almoçar , meu amor. A mãe precisa de aproveitar o caminho para o refeitório para respirar. E para te dizer que não era este o Mundo que te queria dar.
João Pedro, quero dar-te um mundo em que as pessoas olhem. Ajuda a mãe a fazer um Mundo em que as pessoas olhem.
Agora, meu amor, vamos descansar. Preciso de sentir-te para ter a certeza que vale a pena. Um beijo, para ti, serinho e desculpa as lágrimas. Às vezes é preciso chorar. Entre as coisas que te hei-de ensinar, para além de ouvir música, contar e rir, é que, às vezes, é preciso chorar.
Nota: A primeira parte deste texto, contrariamente às outras que aqui tenho deixado, foi feita de memória. Não sou, neste momento, capaz de aqui deixar as palavras que, nesse dia, escrevi no meu bloco. Até, ou sobretudo, porque não julgo que tenha esse direito. Nelas há perguntas, há dúvidas que me ultrapassam. Por respeito e pudor guardá-las-ei para mim.
Afixado por Isabel em 23 de maio de 2005, às 22:13
Afixadelas
Tinhas avisado que nem todos os dias eram bons, mas não se previa esta experiência. Esta é muito pesada!!!
Mas a verdade é que um hospital é o reflexo da vida, e lá encontramos todos os dramas que existem noutros locais mas ainda por cima ampliados. Para quem está a viver a tua maravilhosa experiência com o forte desejo de teres o teu bebé nos braços, o ver cara a cara quem opte por não o fazer, deve parecer que se está num outro mundo. E é tão difícil pormo-nos na pele dos outros...
Afixado por Emiéle em 23 de maio de 2005, às 22:48
Sabe Deus as tragédias que estarão por trás dessas histórias, as marcas que deixarão nas mães...mas vamos antes pensar que esses bebés encontram lares, amor e carinho. Um beijo, Isabel.
Afixado por catarina em 23 de maio de 2005, às 23:00
Ainda cá volto.
É que "este mundo" nunca é como nós gostaríamos para os nossos filhos. Contudo já foi pior. E nós lutamos para que seja melhor. E vamos educar os nossos filhos para continuar nessa "limpeza" que o mundo anda a precisar. Acredito que os valores que se transmitem aos nossos filhos possam ajudar um pouco. Não lhes vamos deixar um mundo bom, mas também não herdámos um em muito bom estado...Acredito que nós lhes podemos transmitir algumas das coisas em que acreditamos.
(isto saiu um pouco panfletário, mas já me sinto um bocado cansada, hoje; até amanhã!)
Afixado por Emiéle em 23 de maio de 2005, às 23:24
Diz-me uma coisa Isabel: não sentiste que tu e o João pedro tinham a maior sorte por poderem e quererem ficar um com o outro?
Afixado por susana em 23 de maio de 2005, às 23:46
Senti, Susana...a maior de todas as sortes...
catarina, por saber que essas histórias são tagédias é que as reescrevi no tom de hoje...sem julgamento, sem incompreensão, apenas com a esperança que que aquela mulher tivesse reencontrado o olhar e aquele menino encontrado o amor,
Naquela altura não tentei pôr, Émiéle, não teria sido capaz...hoje sim. E apenas gostaria de ter conseguido, mesmo sendo panfletária, sido capaz de criar outro mundo. Com olhares .
Afixado por isabel em 24 de maio de 2005, às 00:05
Com um estender a mão? É a vontade, não é?
Afixado por catarina em 24 de maio de 2005, às 00:10
O que é que um gajo pode dizer perante isto? Apenas dizer que por aqui passei.
Afixado por monty em 24 de maio de 2005, às 15:13
Obrigado Monty, por, por aqui passares...
Afixado por isabel em 24 de maio de 2005, às 15:46
