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maio 25, 2005
Crónica dos últimos dias, antes de ti - 10º dia

25 de Maio de 1990
Finalmente, uma festa neste hospital!!! Amor, estás a ouvir o barulho lá fora? Viste quando vínhamos do refeitório, aqueles senhores, senhoras, meninos, meninas e bebés espalhados pelas cadeiras, pelos corredores, sentados no chão???
Estão à espera dum bebé cigano que vai nascer. A mãe está na sala onde os bebés nascem, o pai anda a fumar cigarro depois de cigarro (a enfermeira diz que não vale a pena dizer que não se pode fumar...) e estão cá as famílias todas à espera que o menino (ou menina, a mãe não perguntou) nasça.
Aqui, no hospital, diz-se que os ciganos são sempre assim: quando nasce um ciganinho novo, quando alguém fica doente, quando...são sempre assim, Joãozito. Vêm todos e falam e esperam e falam e esperam. Agora só se vão embora quando nascer o bebé.
Até lá, duvido que possamos dormir...mas não é grave. Serve para quebrar a monotonia. E deve ser bom o menino que lá está dentro da barriga da mãe saber que tem tanta gente à espera. Espero que mãe não se tenha esquecido de o avisar, e que ele já venha preparado para esta festa toda. Ou, então, vai apanhar cá um destes sustos...
Olha, meu amor, hoje a enfermeira disse que o médico amanhã vai falar com a mãe, mas que não deve cá estar na Segunda Feira. Só nos devemos ver na Terça. Eu e tu. Fiquei um bocadinho triste, por não estares cá nos meus anos...mas estes são os últimos em que não apagas as velas comigo. Prometido???
Agora vamos tentar dormir e esperar que, como dizem lá na terra, a cigana tenha uma hora “curtinha”. Gosto de os ouvir ali, mas também não desgostava de dormir um bocadinho.
Faz como a mãe, pensa que só faltam 4 dias. O sono vai, de certeza, chegar!
Afixado por Isabel em 25 de maio de 2005, às 22:26
Afixadelas
O que se passou nesse hospital, Isabel!
Essa da comunidade cigana, é mesmo o que estava a faltar. Eu sei, porque acredito em ti, que este diário é real, que não estás a inventar nada, mas só posso dizer que a vida é um assombro. Esta situação de "exagero" de calor humano, depois da menina de olhar vazio que não falou com ninguém, até parece inventado.
Afixado por Emiéle em 25 de maio de 2005, às 23:00
Como diz a Emiéle, num hospital assiste-se ás maiores disparidades. E há sempre casos mais peculiares que o nosso. São bons observatórios da vida.
Afixado por susana em 25 de maio de 2005, às 23:04
Acabei por lá estar 15 dias...tenho a certeza que metade das coisas não escrevi, apesar de, muitas ainda recordar.
Mas essa dos ciganos soube bem. Sobretudo no dia a seguir à daquela mãe e daquele menino.
Mas voltei a ver uma cena semelhante, muitos anos depois, quando há dois anos a minha mãe esteve gravemente doente e hospitalizada. Esteve lá um cigano jovem, que sofrera um acidente de moto e que acabaria por falecer...a comunidade cigana nunca de lá saiu...quando se abria as portas do elevador do 9º andar, eles estavam em todo o lado.Iam para a visita das 13.00h e depois ficavam na sala de espera até à visita das 16.00 e depois esperavam pela das 19.00. Quando nós todos saíamos, eles ainda lá continuavam. Fiquei sempre com a sensação que um cigano nunca nasce nem morre sozinho.
Afixado por isabel em 26 de maio de 2005, às 00:07
De novo, leio, sorrio, e apetece-me mandar-te um beijo. Sou uma sentimentalona, é o que é! :)
Afixado por Zu em 26 de maio de 2005, às 01:09
O vício é tanto que antes de me ir embora ainda abri o blog. E depois dei-me conta de que vou perder 5 posts desta série. Fiquei infeliz. Vai fazer-me mesmo falta!
Guarda-os para mim, Isabel. Num sítio seguro onde não apanhem pó, nem calor, nem humidade. Queria lê-los assim que voltasse.
Afixado por Emiéle em 26 de maio de 2005, às 08:48
