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maio 12, 2005
Dizia René Guénon...

... que «A civilização moderna aparece na História como uma verdadeira anomalia: de todas as que conhecemos, é a única que se desenvolveu num sentido puramente material, a única também que não se apoia em nenhum princípio de ordem superior. Este desenvolvimento material, que continua há vários séculos e que se acelera cada vez mais, foi acompanhado por uma regressão intelectual, que esse desenvolvimento foi incapaz de compensar. Trata-se, entenda-se bem, da verdadeira e pura intelectualidade, que poderíamos igualmente chamar de espiritualidade, e recusamo-nos a dar tal nome àquilo a que os modernos se têm sobretudo aplicado: o cultivo das ciências experimentais com vista às aplicações práticas a que elas podem dar lugar. Um só exemplo permitiria medir a amplitude desta regressão: a Suma Teológica de São Tomás de Aquino era, no seu tempo, um manual para estudantes; onde estão hoje os estudantes capazes de a aprofundar e assimilar?» - Regnabit, Junho de 1926, título original do artigo, La Réforme de la mentalité moderne, incorporado na obra Symboles de la Science Sacrée, cap. I.
Este trecho de René Guénon vem a propósito de uma velha "cruzada" minha: debater e combater a errónea noção de Progresso absoluto, que ainda hoje preenche as nossas mentes, e que é tão difícil de erradicar.
Sem nos darmos conta, no dia-a-dia, fazemos inúmeros raciocínios baseados nesta premissa, a meu ver errada: a de que hoje se está melhor do que ontem a todos os níveis.
O percurso do Homem na História é feito de altos e baixos. De montes e vales. Existem progressos e retrocessos nos mais variados domínios.
Guénon convida-nos a reflectir sobre isto: se a nossa civilização moderna ocidental modificou-se e modifica-se cada vez mais no sentido puramente pragmático e utilitário da investigação tecnológica, ou seja, com vista às aplicações práticas, para onde caminha a nossa intelectualidade?
Afixado por Bernardo Motta em 12 de maio de 2005, às 19:34
Afixadelas
Bernardo, à medida que te vou conhecendo, tento perceber qual das gunas do Bhagavad-Gîta mais domina os teus impulsos. Não sendo tu obviamente um tamásico (longe fosse o agoiro!), ando indeciso entre rajas e sattwa: mas cada vez mais me inclino para a primeira - tu não te conformas, és definitivamente um guerreiro ;)
abraço
Afixado por antónio b. em 12 de maio de 2005, às 21:28
Em análise a única coisa que se perdeu foi a autoridade dos impulsos teocráticos. Realmente a liberdade individual, tal como a conhecemos hoje, é difícil de conciliar com esse modelo arcaico...
Afixado por Pedro Fontela em 12 de maio de 2005, às 22:24
António,
Não creio que as minhas gunas estejam assim para o equilibradas! Acho que tenho um bocado de cada uma delas...
Olha que não sou assim tão guerreiro como isso!
E também tenho o meu lado tamásico, que tento compensar com os outros dois! ;)
Afixado por Bernardo em 13 de maio de 2005, às 08:59
Pedro,
Em bom rigor, não faz muito sentido usar a palavra "teocracia" quando se fala do pensamento de Guénon.
Uma das suas obras fundamentais é a "Authorité Spirituelle et Pouvoir Temporel".
Ele distingue bem a questão do "poder" da questão da "autoridade".
Para ele, há o "guerreiro" (não necessariamente num contexto de guerra), associado pelos hindus à casta ksatrya. E depois há o "sacerdote" (não necessariamente num contexto eclesial), associado pelos hindus à casta brâmane.
O António deu algumas pistas: o brâmane tem em si a predominância da guna "sattwa".
O kshatrya tem a predominância da guna "rajas".
A palavra "guna" vem literalmente de "qualidade", no sentido de classificar um ser pela sua natureza e maneira de ser.
Em bom rigor, dizia eu antes de divagar, para Guénon, os "brâmanes" não têm poder (ou seja, não podem ser "senhores" nem "governantes"), mas sim "autoridade", o que é algo de muito diferente.
Segundo Guénon, é aos kshatryas que cabe a tarefa de governar, mais conforme à sua natureza "rajas". Mas, do seu ponto de vista, os khatryas não devem governar fora da autoridade dos brâmanes, que estando neste mundo com uma posição de ligação ao transcendente, são o garante da tradição e dos princípios.
Um governante não deveria governar sem se reger pelos princípios espirituais.
Nota bem a nuance: não se trata de conversa fiada, em que o poder está, de facto, num brâmane, só porque ele tem autoridade sobre o kshatrya. Não deve ser assim!
Assim, o poder do khatrya seria um simulacro de poder, e ele seria um pau mandado. Assim, lá teríamos o teu regime teocrático!
Não é disso que se trata.
O kshatrya tem nas suas mãos o poder, mas esse poder tem que vir de algo que o transcende.
É no respeito pelos princípios que os brâmanes representam que o kshatrya reconhece a autoridade dos protectores da tradição.
Por isso, em bom rigor, não há aqui teocracia.
Porque a palavra "teocracia" deriva, literalmente, da junção de "deus" com "poder".
Deus tem, de facto, como Criador, o poder sobre todas as coisas.
Mas os homens, nas duas naturezas de que falei, teriam cargos diferentes: a uns caberia a autoridade, e a outros o poder.
Como viste, a autoridade caberia aos "representantes" dos princípios divinos. E não o poder.
Entente-se isto melhor se soubermos como os hindus, por exemplo, dão importância vital ao "não-agir" dos brâmanes.
Aqui para provocar o nosso amigo António, o ponto de vista de Guénon é, sobretudo, guelfo.
Ou seja, Guénon dá vital importância à autoridade sacerdotal.
Já os gibelinos, dos quais o nosso amigo António é um distinto representante, advogam acima de tudo uma independência entre sacerdotes e governantes. Numa distinta escola, diga-se, onde se encontram figuras como Dante.
Para terminar, Pedro, a questão é bem complexa.
Nada disto se aplica, por exemplo, a um país teocrático como o Irão. Guénon classificaria esse governo de "anti-tradicional". Isto tem mais nuances do que aquilo que parece.
Não é fácil etiquetar as ideias defendidas por Guénon, porque não se encaixam nos estereótipos.
Um abraço,
Afixado por Bernardo em 13 de maio de 2005, às 09:13
Bernardo,
A partir do momento que o poder depende da aprovação de (ou deve agir em conformidade com) uma "autoridade espiritual" qualquer distinção entre os dois torna-se um exercício de organização bizantino que simplificado se traduz em teocracia (a introdução de níveis intermédios de controlo não muda a raiz do sistema).
Nem comento a questão das castas...quanto mais depressa se extinguir essa relíquia melhor.
Cumprimentos
Afixado por Pedro Fontela em 13 de maio de 2005, às 23:00
Pedro,
Devo-me ter explicado mal.
Há uma distinção real entre os dois. Se ler o que eu escrevi, eu faço esse "caveat".
Para já, compreendamos que estamos a discutir modelos sociais, num plano teórico.
Uma discussão a este nível teórico cai por água abaixo quando começamos a tentar extrair deduções e conclusões baseados em aplicações imperfeitas e por vezes mesmo falseadas de modelos teóricos que eram, em si mesmos, coerentes.
A aplicação de um modelo é sempre imperfeita, em maior ou menor medida. Nesse sentido, a sua ideia sobre as castas está quase inteiramente, julgo eu, baseada num preconceito que o Pedro extrai da situação actual da Índia.
Não discutirei casos práticos.
Teoricamente, a "autoridade espiritual" fixa princípios, pelos quais todos se regem.
O problema está, julgo eu, no facto do Pedro pensar que esses princípios são como "leis sociais" ou medidas políticas.
Nada disso.
Os princípios defendidos pela autoridade espiritual são princípios transcendentes. Algo que, ultrapassando-os em larga medida, englobaria a ética e a moral.
Por outro lado, o poder temporal actua na sociedade, no domínio secular, tomando decisões e agindo em conformidade com os princípios transcendentes que referi.
O caso do Irão é claramente anti-tradicional: os ayatollas, e o governo teocrático que dirigem, elabora directamente leis sociais e toma medidas políticas, em vez de se limitar àquela que deveria ser a sua competência. Ser o garante dos princípios tradicionais.
Como a palavra indica, "princípios" são axiomas que permitem que sobre eles se construa todo o tecido do governo social.
É como se a autoridade espiritual estivesse encarregada de garantir os alicerces.
E o poder temporal construísse, sobre terra firme, toda a estrutura secular.
Fiz-me compreender?
Este modelo teórico pode estar a ser mal compreendido por si, e mal explicado por mim, mas não duvide de que se trata de um modelo coerente.
Agora, se um tal modelo pode ser aplicado na prática com sucesso, aí já tenho as minhas (grandes) dúvidas! ;)
Se eu fosse um espírito pragmático, e só me interessasse pelo lado prático das coisas, nunca me interessaria por este modelo governativo, mesmo que fosse coerente.
Mas trata-se de uma questão de inclinação pessoal.
Leio Guénon, nestas e noutras matérias, e sinto um cheiro fortíssimo a Verdade, que é complicado de explicar.
Se calhar, há quem vomite ao ler Guénon, ou tenha reacções alérgicas.
Para mim, trata-se de um autor que conseguiu, em muitas matérias, intuir o verdadeiro com uma lucidez quase imbatível.
Afixado por Bernardo em 14 de maio de 2005, às 11:00
Bernardo,
Não é falta de percepção das ideias que defendes, é sim uma discordância total (mesmo num plano totalmente intelectual). Se o poder político tem que se limitar a agir perante os ditames de uma religiosidade então ele é um escravo dos representantes dessa "autoridade espiritual". Essa classe eclesiástica pode não controlar de forma directa a legislação mas a verdade é que controla as linhas largas que dirigem a sociedade já que nenhuma legislação pode ser passada que viole uma tradição que se quer sacrossanta. O grande erro é essa visão que existem (ou pode existir) princípios pelos quais todos se regem. A única forma de ter uma situação dessa é à ponta de uma arma – como acho que admites quando falas de essa tais autoridades espirituais que fixam o que é a moralidade. Aliás o próprio conceito de "espiritualidade" como base social é um atentado à liberdade de e da crença.
Considero o conceito de castas como algo verdadeiramente repulsivo. Alguém condenado a preencher um determinado papel sem ter qualquer voto na matéria parece-me um desrespeito das mais básicas liberdades (e já agora um péssimo uso de recursos) – prefiro modelos que permitam ao indivíduo crescer e escolher onde se quer encaixar. A própria visão de uma sociedade de castas (como grupos fechados sobre si mesmos) é profundamente injusta.
Afixado por Pedro Fontela em 14 de maio de 2005, às 18:51
se tiver algum texto do Guénon que puder me enviar em português,eu agradeço
Afixado por ivan em 31 de maio de 2005, às 22:57
se tiver algum texto do Guénon que puder me enviar em português,eu agradeço
Afixado por ivan em 31 de maio de 2005, às 22:57
Concordo inteiramente contigo, Bernardo, no que concerne à falsa noção de progresso propagandeada pelos nossos contemporâneos. Felizmente ainda existem mentes lúcidas, e não envolvidas intelectualmente nas ruínas da modernidade, com a capacidade de discernir a verdadeira "anomalia" em que vivemos.
Contudo, não creio que se possa fazer algo relativamente a esse assunto, ou melhor, 'agir' sobre as condições descendentes do devir. Prefiro, por mais que me incline a não o fazer, remeter-me para a 'contemplação'; não que ache que a acção seja um resíduo da contemplação per se, como advogavam os neoplatonistas, mas não é certamente neste Yuga que existem condições para uma acção efectiva.
Sugiro, a quem interessar, uma visita ao meu blogue, onde espero expor algumas das anomalias modernas, em toda a minha humildade, de um ponto de vista contemplativo.
Afixado por Luís Carneiro em 18 de junho de 2005, às 21:02
