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maio 23, 2005
E o que é que se faz ao piano?
No caminho deixei que o sol me anestesiasse o rosto, absorvendo a luz laranja que, intensa, penetrava as pálpebras fechadas. Tinha acabado de assistir às lágrimas de quem se dispunha a visitar pela última vez, depois de tanto tempo, a casa onde tinha vivido todas as experiências iniciáticas da puberdade, o risco da juventude e a aflição dos primeiros apontamentos da idade adulta: a casa que fora dos pais.
Abrindo os olhos, vi um adolescente que quase caiu do passeio à nossa frente, equilibrando-se no último instante; um guarda-chuva castanho emergindo sob um contentor do lixo; uma rapariga loira que empurrava um carrinho de bebé vazio.
Passado o portão (sem cancelas), transpondo o declive pela subida pedregosa de sempre, constatei que continuava o mesmo paraíso para os incautos coelhos que escapavam às rodas dos carros e à mira do ocasional caçador furtivo que por ali passava.
Em frente da casa, vi os pequenos edifícios contíguos já em ruínas, cobertos pela hera e preenchidos pela vegetação. Na passagem estreita que acedia à porta de entrada, de um lado esculturas contemporâneas portuguesas, partidas e cobertas de pó; do outro, os pinheiros caídos da colina adjacente tinham espantado o aloés que antes ali triunfava e que agora persistia em aparecer todo esticado por entre alguns dos ramos carregados de pinhas caídos a monte. O cheiro era o mesmo.
Lá dentro salas e quartos quase vazios, mobília fora do espaço e do contexto em que foi usada, objectos dispersos, pilhas de papéis e fotografias (poucas) e uma luz serena. Nas janelas e varandas a paisagem está agora pontuada de edifícios e, tranlúcidas em frente do rio, as árvores por podar. Olhava em volta esperando rever o passado naquela casa, antecipando a memória “olha, daquela vez namorámos mesmo ali na escada”, “fizemos amor na varanda”, “zangámo-nos no teu quarto” – e nada: filmes que tiveram outro cenário e, já agora, uma personagem que não sou eu.
Depois de calar mais lágrimas e de nos abraçarmos no hall onde tantas vezes dançámos, pegámos nas coisas (muitas eram minhas) e partimos. No regresso falámos do crescimento caótico dos prédios naquela zona, do Presidente da Câmara e de coisas que não recordo. Olhando para o sol rasante que descia de frente para mim numa curva da estrada, deliberadamente, deixei-me cegar.
Afixado por Susana em 23 de maio de 2005, às 23:26
Afixadelas
Foi também 'a' casa para mim. Ainda bem que não voltei lá. As minhas recordações permanecem intactas, intocáveis pelo tempo. Olha, nem consigo dizer mais nada, tal é a quantidade delas que me estão a arrasar agora.
Afixado por catarina em 23 de maio de 2005, às 23:42
O caramachão dos lanches e dos estudos destruído, contentores de estaleiro no jardim, o resto do campo (á volta) um matagal impenetrável.
Afixado por susana em 24 de maio de 2005, às 00:15
Essas viagens são marcantes Susaninha...
Às vezes também as faço e fico ali como se o tempo tivesse parado por uns minutos a ver-me anos atrás.
A nostalgia às vezes é tramada. Se a antiga casa dos meus pais (onde vivi na infância e também alguns anos da adolescência) me marca existe outras paragens que às vezes ainda têm um efeito mais forte sei lá...a casa da minha avó lá em cima no Douro...
Às vezes tenho vontade de fazer como a Catarina. Não voltar. Mas...sabes como é não é amiga?
Beijo
Bin
Afixado por bin.tex em 24 de maio de 2005, às 01:14
Bin, colecionamos casas cheias e casas vazias.
Afixado por susana em 24 de maio de 2005, às 03:06
Por exemplo, esta é uma casa cheia.
Afixado por Fred em 24 de maio de 2005, às 03:10
Olá, derFriend :)
Afixado por susana em 24 de maio de 2005, às 03:23
Susana, sei exactamente como é. As recordações falizes do passado macadas pela nostalgia do presente. Não voltar é talvez mais inteligente, mas nunca consigo ser inteligente nestas coisas.
Afixado por M. em 24 de maio de 2005, às 07:45
Não sei bem se não voltar é a solução. Talvez convivermos com as duas memórias. talvez conseguir-se que a actualidade não altere em profundidade o que ficou na memória. Repara que no fundo são duas as casas: a que recordas, e a que encontraste. Conserva as duas.
Afixado por Emiéle em 24 de maio de 2005, às 08:49
Mas é que é isso mesmo que me acontece: as duas ficam - uma cheia, outra vazia.
Afixado por susana em 24 de maio de 2005, às 11:13
Diz a M. "Não voltar é talvez mais inteligente, mas nunca consigo ser inteligente nestas coisas."
Subscrevo! Por causa dessas viagens ao passado, tem-se-me partido, bastantes vezes, o coração.
Afixado por monty em 24 de maio de 2005, às 15:12
O pessoal desta casa anda muito emocional ou eh da minha vista? (Ah, se aparecer no Geoloc algum visitante da Czech Republic sou eu, o padrinho blogueiro desta sentimentalona).
Gostei da posta, Susana. Sabes como eu aprecio as emocoes fortes, nao eh?...
Afixado por sharkinho em 24 de maio de 2005, às 17:17
Pois é sharksy, anda a emoção à solta (deve ser do calor...). beijos para a República Checa.
Afixado por susana em 24 de maio de 2005, às 17:26
