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junho 29, 2005

A Verdade e a Mentira

Há ideias que trazemos, completamente cimentadas dentro de nós, mas por vezes um inesperado abanão faz-lhes dar uma volta de 180º.
Já por várias vezes veio a Portugal participar em seminários, um grande especialista, psiquiatra infantil, psicanalista e terapeuta familiar, especializado em maus-tratos e abuso sexual – Tilman Furniss . Numa conversa muito interessante com uma colega e amiga sobre o que se tinha aprendido nesses seminários, fomos abrindo portas para caminhos surpreendentes. Não vou aqui falar agora do perfil do abusador, que tem muito que se lhe diga, mas daquilo que este especialista pensa sobre os testemunhos que se recolhem.
Qualquer um de nós tem a ideia, lógica, de que uma pessoa que esteja a narrar um acontecimento real se for interrogada mil vezes dirá mil vezes a mesma coisa, ao passo que outra que foi industriada para contar uma invenção, interrogada nas mesmas condições acaba por “se descair” enganando-se e contradizendo-se. É isso que faz sentido. Portanto, segundo o senso comum, a pedra de toque entre a verdade e a mentira, é que a verdade é sempre igual ao passo que a mentira vai sofrendo alterações.
Pois bem, Tilman Furniss diz o contrário!
Diz-nos que uma pessoa sujeita a uma situação traumática, tem um choque tão forte que tanto pode dizer que a camisa era verde como azul, estava calor ou fresco, ouviu música ou não. A memória fica mesmo afectada. Pelo contrário, quem aprendeu uma história, decorou-a e dirá sempre a mesma coisa do mesmo modo.
Como um actor num palco.

Afixado por Emiéle em 29 de junho de 2005, às 16:13

Afixadelas

Tem piada que já uma pessoa me tinha dito o mesmo, noutro contexto: com grande experiência em tribunal de menores, esta pessoa disse-me que quando os adolescentes interrogados se apegavam firmemente a uma história, sem desvios, não balbuciavam nem coravam, nem mostravam atrapalhação na tentativa de persuadir o interlocutor da veracidade do que diziam, estavam geralmente a mentir (faz sentido, porque um inocente fica fragilizado nesta situação, ainda mais fica uma criança na que referes). Eu assisti a um episódio conduzido por esta pessoa com um rapaz que tinha roubado uma jóia em casa de amigos e comprovou-se que assim era: ele mentiu sem hesitações e tinha mesmo sido o autor do roubo.

Afixado por susana em 29 de junho de 2005, às 17:29

Vês, Susana?! Mas não parece o mundo de pernas para o ar??? Aprendemos o contrário. E agora, estes senhores, dão-nos a volta.
E afinal, se reflectirmos, isso faz sentido, não é? A fragilidade emocional pode baralhar os dados. Até nós já passamos por momentos em que se insistirem muito connosco, já duvidamos se não se teria feito confusão nalgumas coisas. Evidentemente que isto não é para generalizar, mas em casos extremos, faz todo o sentido!

Afixado por Emiéle em 29 de junho de 2005, às 17:39

Perante o choque emocional a vítima quer mesmo é esquecer ou transformar positivamente o choque, tudo menos recordar a realidade. Imagina agora os assistentes sociais, a polícia e os juízes face a crianças ou jovens que se queixam de abusos. Há de certeza muitos inocentes presos e muitos culpados a rirem-se baixinho. Felizmente a Psicologia e a Psiquiatria têm dado grandes passos nesse domínio. O pior é convencer os leigos a acreditar nesses especialistas ;)

Afixado por bluegift em 29 de junho de 2005, às 19:19

Mas olha Emiéle, nesta fase do processo casa pia, é preciso ter muito cuidado com a forma como se utiliza este tipo de informação. Há outros métodos para avaliar a veracidade e grau de traumatismo das crianças. A esfera de influências que gira à volta deste processo é muito forte, e toda a opinião 'especializada', dada de forma aparentemente inocente, pode visar influenciar a Justiça, assim como quem não quer a coisa... Já vi casos desses passar pela nossa televisão. Os jornalistas só passam a parte que lhes interessa para influenciar a opinião pública. Ora quem...

Afixado por bluegift em 29 de junho de 2005, às 19:33

SABE EMIÉLE,COMO NÃO SOU ESSAS TRÊS COISAS DO SR. TILMAN FURNISS NUNCA TINHA PENSADO NISSO!

É por isso que ando horas perdidas nestes blogues e, todos os dias aprendo algo. De facto se uma pessoa sofreu um trauma ela, vai criar vários cenários em relação a determinado assunto. Enquanto aquela que foi instruída para esse mesmo assunto, cria um tipo de cassete. Não é que o especialista deve ter razão!?
Agora uma coisa vos posso garantir, é que desde os tempos imemoriáveis da espécie humana que infelizmente existem essas coisas. Também, estou de acordo que vivemos outros tempos (ou tempo novo, como dizia o Santana Lopes, de má memória), mas com franqueza, este assunto da Casa Pia já mete nojo! Andamos há três anos nisto!

Afixado por soslayo em 29 de junho de 2005, às 20:47

Por acaso, posso jurar que quando escrevi o deixei aqui em cima, não estava a pensar como a Blue se lembrou, e bem, do processo Casa Pia.
Palavra que a minha ideia era muitíssimo mais abrangente! Era realmente a ideia de sublinhar, que a fronteira entre a verdade e o que o não é, é mais difusa do que à primeira vista podemos imaginar. Quando escolhi a imagem para ilustrar o que dizia, procurei mesmo uma pessoa dividida, partida, confusa.
Entendem onde quero chegar? Uma pessoa pode contradizer-se e estar a ser sincera e outra dizer muito firmemente uma coisa que não está certa. Mas só isso não chega. Claro que pode ser firme numa verdade e atrapalhar-se na mentira, estão a ver? O que eu queria dizer era mesmo isso - a memória de cada um nem sempre é fiável.

Afixado por Emiéle em 29 de junho de 2005, às 21:54

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