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junho 23, 2005

O teu aniversário.

De cada vez que fazemos amor, penso que vai ser a última. Deixo-te a dormir, desço as escadas do prédio, de sapatos na mão para não acordar vizinhos curiosos, ando pela rua deserta arrepiada com o friozinho da madrugada, e tenho a certeza que foi a última vez.
Nem sei muito bem de onde vem essa certeza. Há sempre uma razão. Outra pessoa. Um desejo meio inconsciente de deixar o passado para trás, com medo que ele não me deixe viver o presente.
E houve Aquela noite. A noite em que estivemos juntos como um “velho casal”. Despimo-nos enquanto conversávamos, deitamo-nos na cama nus, a apreciar a brisa que vinha da janela e a rir com um qualquer programa estúpido de televisão. Assustei-me, nessa noite. Pensei que nem nós podíamos fugir à maldição do hábito.
Tu deves ter sentido a mesma coisa. Mas numa noite qualquer depois daquela que devia ter sido a última, o telefone apitou com uma mensagem tua às duas da manhã, e voltei a sentir uma montanha russa do estômago. E foi outra vez como é sempre entre nós, como uma primeira vez melhorada pelo conhecimento de todos os gostos, de todos os cheiros e de todos os poros do corpo do outro.
Por isso não sei muito bem porque continuo a sentir que é a última vez. Já devia saber que não vai ser assim. A última vez será tão irresistível e impensada como foi a primeira. Talvez esta seja a minha forma de proteger a nossa relação da monotonia, do tédio do sempre igual, que acaba por destruir tudo.
Não sei.
Só sei que há dois dias foi o teu aniversário (no dia do solstício de Verão, claro, não podia ser outro dia, o dia mais longo do ano, o dia mais mágico do ano, o meu dia preferido) e apesar de tudo, apesar da distância, não me esqueci.
E apesar de há muito tempo não conseguir escrever, nem mesmo pensar, tive de escrever isto.
E levantar um copo à tua saúde, amigo. E a nós. Que a última vez, seja ela quando for, seja como as antecedentes.

Afixado por M. Butterfly em 23 de junho de 2005, às 13:57

Afixadelas

Texto muito bonito, de um coração transbordante de vida e paixão, e uma cabeça que vive no desejo.

Parabéns.

Afixado por Explícito em 23 de junho de 2005, às 14:34

E ao ler-te o meu estômago enrolou-se todo.
E apertei as lágrimas, para que não me denunciem, que são teimosas, que só visto.

Esta história é minha... ou era... parece que afinal, tudo vai rodando no mesmo...

Talvez a diferença, esteja no facto de eu querer a última, mas não conseguir deixar de correr atrás da próxima...

Afixado por Partilhas em 23 de junho de 2005, às 14:41

Que bonito, M. Sempre que vejo o teu nome abaixo de um post, fico à espera de um texto destes, de que tanto gosto.

Afixado por susana em 23 de junho de 2005, às 15:06

Eu, tal como a Susana, também fico sempre à espera, M.
Que o escrevas e que o escrevas por mim.

Afixado por isabel em 23 de junho de 2005, às 15:18

Obrigada a todos.
Ultimamente tenho-me sentido muito vazia, sem nada para dar depois da energia que gasto só para viver.
Por isso tenho andado tão calada.
É bom ter os vossos comentários quando algo me quebra o silêncio.

Agora só para a Partilhas:
por muito única que pensemos ser a nossa história, há sempre alguém que vive ou viveu algo semelhante. Se a minha história é a tua, não te deve merecer lágrimas. Não é uma história triste. Não deixes a tua cabeça transformá-la numa história triste. Vive para o momento, aproveita os muitos momentos bons que ela te deve proporcionar. O resto não importa. Cada momento belo deve ser apreciado plenamente. Só isso é importante.
Boa sorte.

Afixado por M. em 23 de junho de 2005, às 15:50

Olha, Buterfly, com um texto destes espero que já tenhas umas quantas mensagens no telemóvel....
;)

PS: Voar assim e com asas coloridas não será decerto, nada, mas nada triste.

Afixado por rita em 23 de junho de 2005, às 16:09

Posso brindar ao teu texto tão bonito e intenso?
Que faças muitos como se este fosse o primeiro da tua vida.

Afixado por maria arvore em 23 de junho de 2005, às 16:11

Nem me parece conveniente dar-te os parabéns pelo texto; melhor será desejar-te boa sorte na vida. Julgo – mas quem serei eu – que mereces.

Afixado por João Garcez em 23 de junho de 2005, às 16:34

M. isto não é um texto... é um poema! Um poema de amor bem escrito e sem rimas para o tornarem vulgar. Excelente!

Afixado por Far em 23 de junho de 2005, às 16:40

Rita,
não, não é nada triste. Apaixonante, desafiante, exasperante, um pouco solitário, mas triste, não.

Maria árvore, abrigada pelo brinde! Tchin!

João Garcez, o teu comentário tocou-me. Obrigada.

Afixado por M. em 23 de junho de 2005, às 16:45

M.,
este é um daqueles textos que me deixa sem capacidade de dizer o que quer que seja. Ganda beijo!

Afixado por Jorge Morais em 23 de junho de 2005, às 17:01

Absolutamente maravilhoso. E feminino como nenhum texto que li até hoje na blogosfera.

Afixado por João Pedro da Costa em 23 de junho de 2005, às 18:39

Porque também soube viver assim, no dia em que a morte o levou, só restaram recordações boas ... da primeira, à última vez.
Obrigada M. por mais esta.

Afixado por karla em 23 de junho de 2005, às 20:40

Só agora abri a net e cheguei ao teu post.
Que bom poder ler-te, M.
Vale a pena esperar, porque a tua qualidade compensa largamente a menor quantidade. Sempre assim tem sido. São raros os teus posts que não nos deixam a pensar, ou comovidos, ou indignados com algo que também te indignou.
Neste os nossos sentimentos são agitados até lá ao fundo.
Obrigada, M. Um abraço.

Afixado por Emiéle em 24 de junho de 2005, às 00:52

Sinto o texto um pouco como o João Pedro, é de uma feminilidade profundamente actual e tocante.

Afixado por bluegift em 24 de junho de 2005, às 07:47

Obrigada a todos.
Foi tão bom ler os vossos comentários como escrever o texto.

Afixado por M. em 24 de junho de 2005, às 10:01

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