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junho 30, 2005

Será esta a resposta? I

greve.jpg

Aguçada pelo post da Émiele, aqui vai. Porque se trata de posts demasiado grandes, que não consigo encurtar, decidi dividi-los. O mesmo post, em dois posts. Ou dois posts, sobre o mesmo tema.

O movimento sindical não tem vindo, apenas, a perder força, em Portugal. Tem vindo, cada dia, a perder discernimento, capacidade de analisar as situações, capacidade de encontrar novas respostas.
As direcções dos Sindicatos vão–se perpetuando, teimam em recusar o método de Hondt como método eleitoral, com medo de perderem influência e poder e, com isso, vão-se afastando cada dia mais das empresas, dos trabalhadores e dos seus problemas reais.
A maioria dos dirigentes sindicais (seja dos Sindicatos afectos à CGTP ou não), não vai à sua empresa há anos. E, quando por lá passa, passa, não respira o ar pesado que por lá se vai respirando, não tem tempo para ver os jovens contratados, os imigrantes ou os “extras”. E, quando volta às estruturas, volta sem ter aprendido nem apreendido nada da realidade do mundo do trabalho em 2005.
Cada vez que a agenda politica o impõe, os Sindicatos, apelam a manifestações. Todos os trabalhadores descontentes com o rumo dos País e dos seus direitos o deveria entender. Mas os Sindicatos não explicam, não vão aos locais de trabalho. Os trabalhadores sabem das manifestações pela comunicação social.

Cada vez que a agenda politica o impõe os Sindicatos decretam uma Greve. Aliás, nem é preciso haver uma greve para que os Sindicatos decidam enviar pré avisos de greve para as empresas. Como se algum trabalhador se declarasse em greve para ir a uma manifestação. É a falta total de conhecimento do que é a vida dos trabalhadores. Numa empresa privada seria bem mais fácil, arranjar uma desculpa ao chefe para participar na manifestação, do que declarar-se em greve, perder o salário desse dia, sofrer as retaliações de um acto, quase sempre isolado, para participar.
Há meses, propuz ao meu Sindicato, uma pequena nota informativa para os trabalhadores mais jovens, em que se lhes explicasse quais os direitos que efectivamente perderão se o Contrato Colectivo caducar, como é intenção das Associações Patronais. Há meses que estou à espera. Que esses jovens trabalhadores, não sindicalizados, que não fazem ideia o que era o Contrato Colectivo, não fazem ideia do que está efectivamente em causa, esperam por esse papelito de 20 ou 30 linhas.
Desde então, a empresa recebeu dezenas de pré avisos de greves, que ninguém conhece. A entidade patronal dá-lhes a importância que têm as coisas inúteis e inócuas, mete-os no dossier onde estão as comunicações do Sindicato. Para ali, ficarem guardados para a posteridade. Para a recordação de mais uma Greve que ninguém fez, ninguém soube. Que nem greve, afinal, foi. Ali fica na prateleira dos monos. Sem que, na maioria dos casos, os trabalhadores tivessem sabido que tal comunicação foi feita.

Afixado por Isabel em 30 de junho de 2005, às 00:20

Afixadelas

Muito bom post, Emiéle.

Afixado por Filipe Moura em 30 de junho de 2005, às 00:29

Filipe, a Émièle, teria feito um post tão , usando as tuas palavras, "bom" como este, aliás foi devido a um post dela desta tarde, que decidi fazer este e o de ciam, mas é meu...a gente já acha piada que sejamos tão iguais...até nos posts nos confundem...Émièle, não nos safamos, mesmo :)

Afixado por isabel em 30 de junho de 2005, às 01:03

Obrigada Isabel, mas não tinha feito um post tão bom como este, não. Teria um grande orgulho enm o poder assinar, mas não seria capaz de o ter escrito. Concordando com tudo, não tenho a tua vivência. Fui realmente em tempos dirigente académica e também em tempos que já lá vão dirigente sindical de um sindicato "intelectual" minúsculo. Nada a ver com esta realidade.
Mas concordo imenso com o que dizes olhando de fóra. Como sindicalizada. E olhando à volta, para quem vive na minha rua, toma os transportes que tomo, faz as compras que faço. Não olhando "para o umbigo da minha classe profissional" e tentando ver a globalidade.
Não é assim tão difícil!

Afixado por Emiéle em 30 de junho de 2005, às 06:35

É o que falta aos dirigentes sindicais, Émièle, uma passagem pelas empresas. Ver o dia a dia. E, já agora, apanhar os transportes públicos e ir às lojas de 300...

Tenho histórias deste divórcio diário entre o Sindicato e os trabalhadores.
Durante muito tempo, até que tive uma conversa dura e definitiva, quase ameaçando que faria chegar a informação a todos os trabalhadores e à Comunicação Social, sempre que eu, como membro da CT ligava para o meu Sindicato, a saber uma informação, que um trabalhador me pedia, a primeira pergunta era: O trabalhador é sindicalizado?
Compreendo que para dar acompanhamento juridico a um trabalhador, este tenha que ser sindicalizado, mas para dar uma informação a um membro de uma estrutura representativa dos trabalhadores, que pela Lei, todos representa, sindicalizados e não sindicalizados? Penso que é a viciação total dos dados, dos papéis. E a prova do divórcio efectivo.

Afixado por isabel em 30 de junho de 2005, às 10:48

Muito bom post! É um post que nos faz pensar um bocado...

Afixado por johnny em 30 de junho de 2005, às 11:37

Eu não quero ser pessimista, mas estas estruturas já não representam a realidade. Provávelmente as pessoas já só podem confiar nos "conhecidos" e nos "jeitos" (sabedoria ancestral comprovada pelos séculos) e portanto cada um se safa com pode. È duro, mas é a realidade.

Afixado por Mário em 30 de junho de 2005, às 14:10

Excelente post, e assunto importantíssimo.
É bom ouvir-te dizer isto, porque é exactamente aquilo que penso, estando do lado de fora.
As minhas experiências com Sindicatos foram poucas, mas todas más. Tive-as enquanto estive aí, trabalhava num IP, com um contrato individual de trabalho, e fui membro da CT. Os sindicatos não só tentaram sabotar as nossas iniciativas (medo de perder terreno, talvez...) como chegaram ao cúmulo de interpôr uma acção em tribunal a pedir a declaração da ilegalidade das normas que permitiam a contratação pelo IP de trabalhadores com CIT e a nulidade dos contratos já celebrados.
No mínimo, uma vergonha.

Afixado por M. em 30 de junho de 2005, às 15:31

M. , como a Isabel diz, parte do erro é os sindicalistas se "profissionalizarem" em excesso. É certo que têm de dominar áreas específicas, mas não deviam sair completamente das empresas. Quando o fazem “perdem o pé”, acabam por não ter contacto com a realidade do dia a dia do trabalhador anónimo. Deveriam “fazer estágios” obrigatórios de tempos a tempos. Um dirigente dos bancários ir uns meses para um balcãozito da periferia. Se calhar passava a ver as coisas de um outro modo.

Afixado por Emiéle em 30 de junho de 2005, às 16:06

Vou-vos contar uma história.
Há muitos anos, fez-se uma greve de mais de 10 dias na empresa. Não há lógica nenhuma em se fazer uma greve de mais de 10 dias. Já não havia, na altura, mas fez-se.Com a pessão e a direcção insensata da Direcção do Sindicato e a conivência infantil da CT.
Foi uma derrota total.

Durante anos, nem pensar em falar na palavra greve dentro da empresa.

Em 98, durante a Expo, já eu estava na CT, fez-se uma proposta de greve de 2 dias, Domingo e Segunda. Caiu o Carmo e a Trindade na Direcção do Sindicato. Nunca se tinha visto uma greve ao Domingo. Creio que não vinha nos manuais.
Foi um êxito. No primeiro dia, os trabalhadores, habitualmente, mais relutantes, administrativos, por exemplo não trabalhavam. A percentagem de adesão foi elevadíssima.
Na Segunda Feira, os trabalhadores que, habitualmente não fariam greve, acabaram, tal a adesão da véspera, por fazer e por ficar connosco na entrada.
Tivemos uma adesão real de 87%, alcançámos os objectivos: A direcção cedeu e nós ultrapassámos o "trauma" duma luta mal conduzida e quase suicida, que, na altura, deve ter servido os interesses da Direcção do Sindicato, mas que quase alienava para sempre a capacidade de luta dos trabalhadores da empresa.
Já na altura, o problema principal dos Dirigentes era não irem há empresa há mais de uma década...agora o problema multiplica-se pelos anos que, entretanto, se passaram.

Afixado por isabel em 30 de junho de 2005, às 17:05

Desculpa o lapso, Isabel.

Afixado por Filipe Moura em 30 de junho de 2005, às 19:35

Filipe, não tens que pedir desculpa...nem eu nem a Émièle ficámos zangadas contigo:):)

Afixado por isabel em 30 de junho de 2005, às 20:22

Quase que nós próprias nos confundimos, Filipe. Se não fosse o gosto por certas cores, era uma chatice. E o importante foi teres concordado com o post ( que eu realmente gostaria de ter escrito... eheheh!!)

Afixado por Emiéle em 30 de junho de 2005, às 22:18

Essa dos traumas da empresa é bem verdade, há muito tempo atrás respondi a um anúncio e fui a uma entrevista a uma multinacional. O director do pessoal não me fez nenhuma pergunta sobre a minha formação académica, só me perguntou se eu concordava com greves, o que faria se o pessoal a meu cargo fizesse uma greve e coisas do tipo.

Uns dias depois fui a outra entrevista, desta vez com o director e todas as chefias de topo numa mesa enorme e eu na outra extremidade, depois de um interrogatório pidesco, tive de ler uma lista de temas, escolher um e falar 10 minutos sobre o tema escolhido.
Os temas eram quase todos politico/polémicos, os sindicatos, comunismo internacional, aborto e diretio á vida.
O mais inócuo era sobre turismo e economia nacional. Escolhi esse e lá falei umas lérias quaisquer, mas não fiquei surpreendido quando não fui escolhido, não devo ter sido convincentemente anti-sindicalista.

Afixado por Mário em 30 de junho de 2005, às 23:59

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