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junho 19, 2005

SERÃO OS JORNALISTAS PORTUGUESES BASTARDOS OU DÉBEIS MENTAIS?

É bem sabido que os jornalistas se batem com os juízes lusos pelo primeiro lugar no ranking das alergias corporativas à crítica. Nem custa muito inventar razões para este à primeira vista bizarro emparelhamento: pessoas que vivem de opinar sobre vidas alheias têm uma necessidade absoluta de serem vistas pelo vulgo como seres angelicais e puros, quilómetros acima dos pântanos de desejos, fraquezas e defeitos em que se atolam os comuns mortais. Um jornalista nunca se pode encontrar no lado errado de um escândalo; um juiz, por definição, nunca pode ser apanhado em falta. Para se certificarem de que tudo corre efectivamente assim, as respectivas irmandades regem-se pelo mesmo código de conduta utilitário: “quem ataca um dos nossos ataca-nos a todos”. Advogado que se atreva a criticar a inépcia de uma sentença tem processo certo à perna; político que ouse duvidar da presciência da nossa Imprensa passa logo a besta totalitária, ogre mal educadão, ou ambos.
Quando o boçal Alberto João resolveu insultar “alguns jornalistas”, teve logo a classe inteira a espumar a mesma baba raivosa, chorando-se de um ataque indiscriminado e correndo em busca da protecção das presidenciais saias de Jorge Sampaio (azar. Foram logo ter com quem se refugia numa “forma especial” de reagir à soltura oral do grunho insular: a cobardia do silêncio cúmplice). No “Expresso” da semana passada, o ex-jornalista e ex-burocrata partidário Daniel Oliveira não hesitou em formalizar a ira corporativa: “Alberto João insultou os jornalistas”. Uma generalização – mesmo que patentemente falsa – calha sempre bem, nestas ocasiões.
Mas o “Expresso” desta semana bate todos os recordes de falta de vergonha. Logo na capa, vem a denúncia solene: “Carrilho diz que jornalistas são débeis mentais”. Avançamos alarmados para a página do artigo, e que lemos? Uma pergunta imbecil (“porque permitiu que um vídeo sobre a sua vida privada se misturasse e sobrepusesse ao seu projecto?”) que leva com uma resposta certeira e bruta: “Acho isso um argumento hipócrita; o que está dizer é que os jornalistas são débeis mentais e não se interessam pelo essencial. Pobre país que tem uma classe jornalística assim.” Certíssimo: se o lançamento da candidatura de Carrilho se viu “sobreposto” por questões menores, (a cena triste do Dinis e respectiva mamã) foi apenas porque os nossos pés de microfone com carteira profissional assim o quiseram. Mas a resposta coloca o ónus da classificação na pergunta; nem outra coisa seria de esperar de um espertalhão como o nosso filósofo-jet setter.
A coisa piora ainda mais um bocado na caixa que acompanha esta espécie de artigo. O título reza: “Carmona é sonso e indigente”. Assim mesmo: com aspas a denunciar o discurso directo. Lemos o texto. Carrilho chama efectivamente sonso ao concorrente. E afirma depois, comentado uma entrevista em que Carmona terá atribuído a culpa dos problemas de estacionamento da capital ao facto de “haver pessoas com 20 carros para estacionar”: “quando se diz isto, está-se num estado de indigente incompetência”. Ou seja, nunca afirmou, na entrevista citada, que “Carmona é sonso e indigente”.
Depois deste triste epísódio, começo a não ter dúvidas na resposta à pergunta do título deste post: há uns quantos que acumulam funções.

Afixado por João Garcez em 19 de junho de 2005, às 01:01

Afixadelas

Olha, JG, tinha pensado escrever qualquer coisa deste tipo. Enquanto ia lendo a entrevista ia ficando cada vez mais admirada.
É certo que o Carrilho não disse nada que se visse, quanto a projectos a sério, mas a entrevista era completamente tonta e sobretudo os títulos distorciam o que ele dizia. A primeira foi exactamente essa: o que ele disse é que pelas palavras de quem o estava a entrevistar os jornalistas pareciam « débeis mentais e não se interessam pelo essencial» Ele interpretou o que o outro lhe disse, mas o jornalista ou não entendeu ou não quis entender!
Por outro lado houve coisas criticáveis no que o Carrilho disse. Se foi aconselhado por 500 peritos, é de estranhar que pense que o estacionamento vai melhorar se quem estaciona em cima de um passeio tiver uma multa de milhares de euros! Ele é capaz de ter garagem no prédio, mas gostaria de o convidar a vir ao meu bairro e pedir-lhe que me estacionasse o carro. Ficaria muito agradecida.

Afixado por Emiéle em 19 de junho de 2005, às 10:42

Estas leituras são possíveis, muitas vezes, em jornais como o Expresso. Ainda não tinha lido o texto interior, mas pelo título de capa, conhecendo Carrilho, pareceu-me "muita fruta". E era.

Afixado por fil em 19 de junho de 2005, às 11:22

É exactamente como dizes. E o problema é que muitas vezes o que fica são as parangonas. Ao ler o artigo também andei por lá à procura e dei comigo a pensar "leio amanhã que hoje devo estar a ver mal".

Afixado por Monty em 19 de junho de 2005, às 13:41

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