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julho 30, 2005

A vida consequente

A morte do pai de um amigo suscitou dois eventos: um velório e um funeral - e eu compareci ao primeiro.
Os velórios são curiosos. Quando nos dirigimos para a igreja vamos todo o tempo a pensar ou, se tivermos interlocutor, a falar sobre assuntos relacionados: a morte; aquela morte específica; o sofrimento dos outros; casos semelhantes.
Chegados ao local onde se congregam os familiares e amigos de quem fica orfão temos sempre um ar compungido. Cumprimentamos uns, abraçamos outros, temos vontade de chorar vendo a dor nos rostos crispados ou apáticos de quem acabou de perder alguém que, apesar de velho, ainda se esperava com vida por algum tempo. Por vezes sorriem e conversam serenamente, como quem está de fora ou apenas anestesiado, bloqueando a emoção; é cêdo para que se tenha apreendido a certeza da morte.
Depois encontramos outros amigos, alguns afastados há anos e começamos a conversar, ainda com a fisionomia presa, mimese ou espelho do sentimento com o qual empatizamos.
Não sei como aquilo acontece, mas passado algum tempo começa a ouvir-se gargalhadas aqui e além e pode até ser embaraçoso quando nos apercebemos no meio de um grupo em franca galhofa, a participar dela, numa instância que exigia circunspecção.
Engraçado nisto tudo é no desconcerto da morte não conseguirmos deixar de celebrar a vida ou fazermo-lo ainda com maior empenho. O desgosto da certeza fica guardado para o funeral.

Afixado por Susana em 30 de julho de 2005, às 16:30

Afixadelas

Deixa cá ver se isto funciona...

Afixado por susana em 30 de julho de 2005, às 16:36

Agora está a funcionar...( mas tem estado tramado!)
Já tenho pensado muito no que dizes. É exactamente assim. Tirando os familiares mais próximos, que não conseguem sair do desgosto que sentem, os que lá vão dar um abraço, depois do primeiro impacto começa tudo a falar de outras coisas e quanto mais animado for, melhor!
Parece uma espécie de exorcismo!
Celebrar a vida, quanto mais perto dda morte se estiver.

Afixado por Emiéle em 30 de julho de 2005, às 16:45

(funciona)
É sempre assim, os velórios são sempre divertidos (eu sei que é uma frase horrível, mas também sei que percebes).

Afixado por catarina em 30 de julho de 2005, às 16:47

Muito a propósito, afilhada, esta posta. Ainda na semana passada constatei estas realidades num velório em que participei. Dantes fazia-me confusão, chocava-me. Mas agora até acabo por participar no clima de boa disposição que se cria. E entendo o american way dos comidos e bebidos para manter o pessoal mais animado nesse momento tão brutal para os mais próximos de quem morreu.
A vida insiste em continuar para lá de nós. Mas com essa tragédia posso eu...

Afixado por sharkinho em 30 de julho de 2005, às 17:48

Pois sei, mana. É o que diz a Emiéle sobre exorcisar a morte e também o reencontro com tanta gente que se junta ali por uma amizade comum. No fundo até faz sentido: vamos lá porque somos amigos de alguém e quando se juntam todos os amigos, mesmo aqueles que não se vê há muitos anos, é natural que haja festa.
(foi tão divertido que eu quase acabei a agradecer quando me despedi dele, no meu habitual despiste)

Afixado por susana em 30 de julho de 2005, às 21:43

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