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julho 07, 2005

O meu amigo anglo-árabe

Vivi em Londres. Foi durante os anos oitenta, quando Portugal era um sítio onde (ainda) era difícil ver uma boa exposição de arte contemporânea, os concertos de pop ou rock eram raros e ter calças Levi's ou ténis giros era um privilégio de poucos.
Passar a viver numa cidade como aquela foi uma aventura. Por vezes saía à tarde, depois das aulas, só para andar sem destino pelas ruas, com o fito único de mergulhar numa urbanidade que antes desconhecia, cosmopolita e multi-étnica.
Nas ruas de Londres respira-se cheiros com todos os paladares do mundo e vê-se pessoas vestidas com indumentárias que, tal como a arquitectura, vão do mais conservador ao mais excêntrico ou inesperado. Ao lado de um saia-casaco a condizer com um chapéu azul celeste, um chapéu preto encimando dois caracois laterais e uma barba ponteaguda, fato e gravata, um sari, uma túnica bordada, cabedal preto e cabelo colorido e camisa ás flores abaixo da cabeleira entrançada com terra.
Havia, no entanto, um passeio que me incomodava. Por vezes passava em Regents Park e, não recordo se era apenas num dia específico da semana, via mulheres de belos olhos persas. Falo dos olhos porque era a única parte do rosto que lhes via. Ou do corpo. Envergavam um pesado vestido até aos pés, muitas tinham até os olhos na sombra, por detrás de uma rede que vedava a única abertura na cabeça, como se até aquele orifício pudesse constituir uma passagem para o pecado. Outras usavam uma máscara metálica, como um cinto de castidade para as palavras e os beijos e, dessas, eu via o olhar, curiosamente não desesperado nem vago, mas duro, cheio de ódio ou raiva; porém esquivo.
Conservo da minha permanência em Londres e posteriores visitas frequentes um grande amigo, daqueles que quase nem precisam de cultivo, tão perene é a nossa amizade. O meu amigo é meio Libanês, meio Inglês. Viveu dividido entre os dois países, mas elegeu o Líbano como a sua pátria. Sentindo-se preponderantemente árabe, conhece bem o médio oriente como, de resto, conhece boa parte do mundo - muitos desenraízados tornam-se grandes viajantes. Foi ele que me ofereceu a minha primeira refeição árabe, que me falou dos costumes e relatou viagens extraordinárias, uma das quais na companhia de mujahideen, pelo Afeganistão, ainda no tempo da guerrilha contra a União Soviética.
O meu amigo foi expulso do seu país pela guerra. Vive agora em Londres. Mas disse-me hoje, quando lhe telefonei aflita com as recentes notícias, que está a pensar em mudar-se para o Dubai.

Afixado por Susana em 7 de julho de 2005, às 22:00

Afixadelas

É evidente que todos somos influenciados pelo que temos visto ao longo das nossas vidas e nos permite uma melhor, ou antes, a nossa visão do mundo.
O teu testemunho é muito importante.
Contudo é de sublinhar que tiveste um contacto da vida ou costumes árabes, no contexto de um país ocidental, onde eles é que estavam "mal". Não faço ideia como será mergulhar no mundo árabe, onde se calhar quem parece exótica é a ocidental de calças justas e cabelo ao vento. Contudo já falamos por aqui no Afixe do problema grave, dos chadors, burkas e outros fatos que são impostos a quem não se consegue entender se aceitam de boa vontade ou não. Choca-nos a nós mas será que para elas mostrar o cabelo é uma falta de pudor? Como para as nossas freiras aqui há uns anos?
O importante é ver como vão reagir os ingleses em relação aos árabes que por lá vivem. E são muitos, como se sabe. Um acto destes pode despoletar um surto de xenofobia violenta. Apesar de toda a tolerância que tem existido, isso é sempre de recear. Viu-se quando se calculou que aquele psicopata português tivesse morto a namorada, a onda ( pequenina, mas…) anti-emigrante-português.
Oxalá não comecem perseguições irracionais mas emotivas.

Afixado por Emiéle em 8 de julho de 2005, às 08:16

Tens razão Susana. Quando se está longe vê-se as coisas de outro modo, mais asséptico digamos assim. Só quando se está mesmo mergulhado no campo se pode falar com emoção. Faço votos que o teu amigo se consiga sentir bem e achar o seu campo com serenidade.

Afixado por Zorro em 8 de julho de 2005, às 09:57

Sim, Emiéle, árabes que estavam mal e árabes que não estavam mal, porque perfeitamente integrados. A única experiência que tive num meio árabe foi uma viagem a Marrocos em que fiz um treking pelo Médio Atlas. Aqui atravessámos várias povoações berberes e mesmo entre eles havia muitas diferenças: quanto mais negra era a etnia, mais escravizadas eram as mulheres. De um modo geral são púdicas, mas reagiam com grande satisfação aos cadeaux que eu lhes dava, de um modo infantil, entre o feliz da vida e eo envergonhado.Quanto mais para sudeste, mais tu percebias que as mulheres estavam até impedidas de olhar para ti (houve mesmo uma ocasião em que o nosso guia me disse que não cumprimentasse as mulheres daquela povoação, porque o meu cumprimento poderia suscitar maus tratos). Já em Marrakech havia de tudo: mulheres cobertas e mulheres de fio dental por baixo de calças transparentes; muito heterogéneo. Nunca me senti propriamente exótica, porque fui sempre bem acolhida e, para nós há uma familiaridade que nos faz sentir em casa. Está no sangue.

Afixado por susana em 8 de julho de 2005, às 14:19

Zorro, é isso, não só é mais asseptico como mais preso a estereotipos.
O meu amigo é um bocado apátrida mas, como tudo tem dois lados (pelo menos!), sente-se mais ou menos em casa em qualquer lugar do mundo. Engraçado como ele sempre disse que um dos países "estrangeiros" onde se sentia mais em casa, por ter muitas afinidades com os dois mundos de onde provinha, era Portugal. Simpático, não é?

Afixado por susana em 8 de julho de 2005, às 14:45

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