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julho 03, 2005
UMA HISTÓRIA DOS DIABOS (LIVRO II)

O plano de Lúcifer soubera ser simples e paciente, como todas as maquinações que ousam cortejar as graças do destino e esconder-se dos olhos Daquele que tudo vê. Em primeiríssimo lugar, ele enviara para a Terra um dos seus favoritos, demónio de língua aveludada e poderes consideráveis. Ali, o emissário pudera contar com os cúmplices do costume: a cobiça e a ignorância dos homens. E, sobretudo, com a sua vontade de acreditar em qualquer coisa que lhes prometesse poder e vida eterna. Os prodígios, que garantiam sempre olhos esbugalhados e juras imediatas de obediência sem freio, sucederam-se, embora com a parcimónia que o sigilo da missão tornava indispensável. Tal pirotecnia de feitos sobrenaturais, embrulhada em cantadas tapeçarias de sedução e promessas revelara-se, como previsto, isco por demais apetitoso para as pobres criaturas. Devagar, o número de conjurados humanos crescera; primeiro em palácios atapetados a seda, derramando-se logo depois por ruas juncadas de pedintes e destroços de pragas várias. Hoje, os braços da conspiração abraçam em segredo todos os continentes do mundo de lama.
Javé dera certamente pelo alastrar da tramóia, por muito clandestino que o seu avanço lograsse ser; mas tomara-a por apenas mais um sobressalto, mais uma pirueta inesperada e divertida dos seus dilectos palhacinhos. Algo a merecer curiosidade risonha, nunca apreensão ou escrutínio mais atento.
Erro fatal. Lúcifer aguardava apenas que o número dos seus fiéis fosse o bastante; e que a sua devoção ganhasse a força necessária para quebrar os selos com que Javé lhe cerrara a passagem para a Terra.
É chegado o momento. Lúcifer sabe que os seus servos mais denodados estão reunidos numa enorme sala em pedra, desenhada de acordo com requisitos e preceitos exactos e poderosos. Todos vestem as opas cerimoniais que há milhares de anos foram prescritas para esta ocasião. O escolhido para albergar a força vital do seu Mestre já aquiesceu ao seu destino; também ele anseia pela chegada da sua hora de glória. Lá fora, a turba agita-se e junta a sua vontade ao rio de energia espiritual que se apresta a reabrir o pórtico entre esferas.
Nada se afasta dos ditames de Lúcifer.
Antes de avançar, ele ainda gargalha ao contemplar o vigor com que os pobres bichos humanos se entregam à causa que os vai perder, obliterando toda a sua penosa história, todos os seus ínfimos esforços. O vosso tempo acabou, criaturas da lama!
Agora. Ele está na Terra. Por fim.
Em seu redor, todos se ajoelham. Um deles avança, olhos pregados ao chão e coroa pronta a colocar na cabeça daquele que agora é o seu Monarca absoluto. Surge a pergunta do Ritual: “E que nome ides agora tomar?”
Também aquele pequeno passo foi há muito ponderado e decidido. Lúcifer não hesita na resposta: “Bento XVI”.
Afixado por João Garcez em 3 de julho de 2005, às 12:57
Afixadelas
Lamentável. Será contactado pelo nosso advogado.
Afixado por nunciatura apostólica em 3 de julho de 2005, às 14:09
Tu és insuportável, pá!
Mas, infelizmente, não há nada a fazer: o texto está muito bem escrito!
Será que não terás o engenho do Demo a guiar a tua pena, caro JG?
Ah, já vejo tudo: ganhaste a glória literária por uma módica quantia - 1 alma!
Afixado por Bernardo em 4 de julho de 2005, às 00:05
Ná. Comprei no catálogo da La Redoute. E até estava bem em conta... O pior é que, como sempre, you get what you pay for!
Não te irrites, que até foste tu quem plantou a pequena semente que resultou nesta historieta.
Afixado por JG em 4 de julho de 2005, às 00:34
ó Diabo, não esperava o desfecho.
Afixado por susana em 5 de julho de 2005, às 15:23
