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julho 03, 2005

UMA HISTÓRIA DOS DIABOS (LIVRO I)

Naquela manhã, Lúcifer acordara mais cedo que o costume. (Há aqui lugar justificado para uma primeira interrupção. “Lúcifer” não era, de todo, o seu verdadeiro nome; aliás, a ouvidos apenas tridimensionais, as suas sílabas soariam como dez choros de crianças esfomeadas, cem urros pestíferos, mil gemidos de luto. Não se trata, como compreenderão, de coisa que arrisquemos reproduzir nestas páginas...) E bastante mais bem disposto: dera consigo a trautear o “Amour, oiseau d'étoile” ao pequeno-almoço.
Qual a razão de tanto júbilo? Era chegado o Dia da Retribuição; a hora gloriosa da vingança; o momento em que Lúcifer iniciaria por fim a sua ascenção ao trono de Javé. Antever o culminar de milénios de planos e lentas manobras bastava para trazer um bonito sorriso aos seus angélicos lábios. Sim, que Lúcifer, a Luz da Manhã, sempre fora o mais belo dos Arcanjos, o favorito de Javé. Até ao dia em que Ele se tinha lembrado de glorificar as amaldiçoadas criaturinhas de lama, declarando-as Sua Obra e merecedoras, por inerência, de respeito e vassalagem por parte das Hostes do Céu.
Lúcifer, assim como os demais anjos, não tinha recordações muito claras da sua origem. Aproveitando-se disso, Ele sempre fizera caixinha em torno desse tema; por vezes desviava a conversa, por vezes admitia que a Sua omnisciência já não era como antes. A conclusão que Ele desejava ver germinar nas almas curiosas dos Seus anjos era por certo uma só: fora Ele a criá-los. Mas Lúcifer sempre desconfiara que tal história andava mal contada.
O dia da Queda; disso recordava-se ele bem. O suficiente para manter em ebulição o caldeirão da sua ira, ao longo de milénios e milénios de amargo desterro. Aliás, já um súcubo menor se atrevera a gracejar que era a fúria luciferina a verdadeira fonte das eternas e cruéis chamas do Hades. (A pena automática pelo dichote fora o exílio na maldita bola de lama, a Terra. Mas o excomungado até nem se dera mal de todo por lá, mesmo não sendo particularmente esperto; ainda há meses escrevera a Lúcifer anunciando-lhe que fora eleito para um segundo mandato como presidente dos EUA...)

A Guerra dos Anjos acabara por provar que o poder das Legiões celestes era muito mais do que uma emanação, um mero epifenómeno da Essência de Javé. Este perdera as primeiras batalhas. E o destino final da contenda mantivera-se incerto durante séculos; o Criador acabou por ganhar, mas a primeira baixa fora a sua aura de omnipotência incontestada. (Talvez por isso o castigo para os derrotados tivesse sido tão rápido e inapelável; o pecado fora muito mais grave que a mera rebelião: despromover publicamente Javé à categoria de Ser finito.) Mas, agora, os pormenores agonizantes da derrota, os erros tácticos em refregas decisivas, a escolha pouco acertada de lugares-tenentes, nada disso interessava a Lúcifer.
Ele preparou-se para o ritual da Passagem. Dentro em breve iria aniquilar as patéticos caprichos que faziam as vezes de livre arbítrio nos títeres de lama que tanto pareciam entreter o seu Criador. Toda a humanidade estava prestes a conhecer o seu suserano; e ai de quem não se ajoelhasse logo face ao novo poder supremo da suja orbe.

Pobre Divindade; ver-se-ia obrigada a descobrir outro brinquedo com que ocupar as tardes de tédio. Lúcifer riu em silêncio antes de proferir o encantamento que iria escancarar as portas que Javé selara com juras solenes de eternidades de interdito: a entrada da Terra.

Afixado por João Garcez em 3 de julho de 2005, às 02:41

Afixadelas

Leviathan era a grande serpente do mar. Behemoth era o querubim de cornos imensos. Porém, logo Leviathan encheu de tal maneira o mar, que as águas chamaram por Elohim, não sabendo onde se refugiar. A terra, por sua vez, lamentava-se, sob os pés de Behemoth e despojada, por ele, de todo o verde. Elohim compadeceu-se e arrebatou Leviathan do mar e Behemoth da terra. E Elohim os salgou, para conservá-los até ao banquete do último dia. Então os eleitos comerão da carne de Leviathan e de Behemoth; e a considerarão deliciosa, porque Adonai a conservou e preparou.

Por isso, não receeis os fantasmas. Tudo o que está acima do homem deve ser mais belo; tudo o que está abaixo do homem, a desmedida besta, será alimento do homem. Crianças assustadas: deixai de temer "o diabo"! Sede homens e sereis vós a comer o "diabo"!

Afixado por querubim em 3 de julho de 2005, às 05:01

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