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julho 22, 2005
Variações gramaticais...
"Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.
O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice.
De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: óptimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos.
Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a movimentar-se: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo.
Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.
Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo. Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula. Ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo.
É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois géneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objecto, ia tomando conta. Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular: ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjectivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.
Os dois olharam-se, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto.
Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objectos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que, as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva."
* Recebida por e-mail. Não conheço o autor. No e-mail vinha a indicação que se trata de uma redacção "feita por uma aluna do curso de Letras, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco - Recife) e que obteve vitória num concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa".
Afixado por M. Butterfly em 22 de julho de 2005, às 11:11
Afixadelas
olá,
bom blog.
visita o meu http://apanhadas.blogspot.com
se quiseres podemos trocar links.
Afixado por neo21001 em 22 de julho de 2005, às 11:19
olá,
bom blog.
visita o meu http://apanhadas.blogspot.com
se quiseres podemos trocar links.
Afixado por neo21001 em 22 de julho de 2005, às 11:20
É sem dúvida uma bela lição de granática.
Quem a escreveu, além de grandes conhecimentos, revela uma enorme imaginação.
Afixado por João Norte em 22 de julho de 2005, às 11:39
M.,
o que é que o teu e-mail tem que o meu não tem? ;-)
Recebes uns textos muito giros. Obrigado por partilhá-los connosco. :-)
Afixado por Jorge Morais em 22 de julho de 2005, às 11:47
Caro Neo21001,
não leves a mal, pá, mas não me parece...
João Norte,
enorme imaginação, mesmo...
Jorge,
sabes como eu sou, uma rapariga generosa e tal...
; )
Afixado por M. em 22 de julho de 2005, às 13:04
Muito bom!
Afixado por Andy em 22 de julho de 2005, às 14:10
Magnífico, M. Merece o prémio e muito mais. Que bom abrir aqui o blog e encontrar um post desses!
( é que eu só agora cheguei; o que está escrito um pouco acima tinha ficado escrito para "entrada futura"...eheheh)
Devia ser obrigatório lê-lo nas aulas de português para se ver que a gramática pode não ser uma seca.
Quanto ao amigo Neo210001 há um aviso feito a seguir ao "Afixe o seu comentário". Se reparar há uma parte que parece escrita a pensar nele. Diz: ...Ah, e outra coisa: se quiser publicidade, pague-a! Bem sei que o comentário foi no post da M. e ela é que é a dona da casa, mas...
[ desculpa-me M. não costumo nada meter-me nos posts dos outros; foi a primeira vez, mas não apreciei a sugestão que ele deixou, e como tenho uma quotazinha na Afixe ]
Afixado por Emiéle em 22 de julho de 2005, às 16:11
Genial!
Já estou como o Jorge; ao meu e-mail só chegam avisos apocalípticos, de várias páginas, de uma astrologa que prevê um futuro radioso e milionário para mim se eu pagar os seus serviços (caso contrário a minha vida vai ser insípida ever after). Isso e spams.
Afixado por susana em 22 de julho de 2005, às 18:44
