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agosto 23, 2005

“Meu amo e senhor”

Acabei de ler ontem um livro que não sei bem como lhe chamar. Romance? Biografia? Testemunho? Talvez lhe chame um “romance de férias”. Não se pode dizer que esteja bem escrito, e tem pontos onde é criticável sem dúvida, mas posso dizer que é interessante.
My Feudal Lord de Tehmina Durrani, uma paquistanesa, mulher de um líder famoso – O Leão do Punjabe, Mustapha Khar. Ela conta a história da sua vida, vida que foi um romance complicado como mulher de classe alta que, embora fiel muçulmana é muito influenciada pela civilização ocidental. Mas não é fácil de conciliar, por um lado os seus desejos de independência e por outro a submissão às leis muçulmanas que, como é sabido, anulam a vontade da mulher em função do marido ou pai.
Torna-se interessante o romance porque, apesar de escrito como biografia e a maioria das 500 páginas tratarem da história pessoal de Tehmina, vamos assistindo ao longo dos cerca de 20 anos que dura a narrativa, às convulsões da república paquistanesa, de Bhutto, ao General Zia, a Benazir Bhutto. Os golpes e contra-golpes, as intrigas, as traições, as jogadas complicadas desta cena política, se não são verdade podiam sê-lo…
E a própria protagonista, intervém de um modo muito activo na cena política, porque se entusiasma com a luta do seu marido, ou aquilo que ela imagina que seja essa luta. Torna-se um pouco cansativo, a perpétua montanha russa que é a sua relação conjugal: de uma enorme paixão que a faz deixar o seu primeiro marido, à desilusão da vida com um homem brutal que a espanca, maltrata e atraiçoa, mas depois se desculpa, e… ela aceita as desculpas! E isso ao longo de todo o romance, uma relação quase sado-maso, porque a história repete-se vezes sem conta – agressão, perdão, agressão, perdão, agressão, perdão. O romance termina com o seu divórcio e libertação e a publicação deste romance, ridicularizado pelo ex-marido. Contudo, à sua afirmação desdenhosa de que ela não tem identidade e só é conhecida como a ex-mulher de Mustapha Khar, ela consegue responder-lhe que quem sabe se ele não virá a ser conhecido como o ex-marido de Tehmina Durrani. Parece ter finalmente crescido.

Afixado por Emiéle em 23 de agosto de 2005, às 19:44

Afixadelas

EMIÉLE, interessante este romance. É que é costume dizer-se que por detrás de um grande homem existe uma grande mulher, e vice-versa também!

Afixado por soslayo em 23 de agosto de 2005, às 21:39

é realmente interessante!
pelo menos teve final feliz.....

Afixado por Nah em 23 de agosto de 2005, às 23:44

Nah, o final é claramente feliz - conseguiu a liberdade e ficar com os filhos. E o marido voltou a casar pela 7ª vez. Mas é curioso que mesmo ela trata os filhos de um modo diferente das filhas. Está a criar uns pequenos futuros "senhores feudais" também. Ficamos com alguma pena da actual mulher do Mustapha, a 7ª, porque o modelo de homem que ele é só é simpático até seduzir a mulher, depois fica um verdadeiro animal...

Afixado por Emiéle em 24 de agosto de 2005, às 01:05

É angustiante, Emiéle, saber que esse tipo de modelo tende a aumentar ao invès de regredir, graças a certos ocidentais mentecaptos ou demasiado naïves.

Afixado por bluegift em 24 de agosto de 2005, às 12:18

Pronto! lá tinha de vir a auto-flagelação ocidental. Sim a culpa é nossa porque na defesa dos direitos humanos nos deixamos levar pelos diabólicos muçulmanos. Eles juntam-se todos em Meca em segredo para conspirar contra os direitos das mulheres.

Por acaso eu li o livro há alguns anos. Na realidade a senhora põe em causa alguns dos valores da sociedade paquistanesa. Mas a estória que ela conta acontece em todas as sociedades, estratos sociais e religiões – a de uma mulher maltratada pelo marido, que só depois de muitos anos de sofrimento teve coragem de romper com o ciclo de violência em que vivia.

Afixado por zuja em 24 de agosto de 2005, às 15:39

Está bem zuja, tu continuas a defender a subjugação da mulher, pois que é uma questão cultural e há que respeitar as culturas sob o risco de passares por incivilizada e intolerante + xenófoba e tal ;) e eu continuo a combater essa mesma causa que tu defendes, ok ?

Afixado por bluegift em 24 de agosto de 2005, às 15:57

Bluegift, tu é que defendes a subjugação, não eu.

tu admites até que imponham limites à tua liberdade pessoal desde que isso impeça outros de fazerem aquilo que tu achas que é condenável. não vamos confundir as coisas.

eu não defendo a subjugação da mulher, muito menos acho que possamos ignorar o problema por muito mais tempo. Apenas não concordo com métodos repressivos que atentam contra a liberdade dos cidadãos de uma sociedade democrática.

Afixado por zuja em 24 de agosto de 2005, às 17:58


Eu? De que modo? Não percebi...

Métodos repressivos? Impedir as práticas culturais de subjugação da mulher é repressivo?
Então como é que garantes a liberdade e democracia dessas mulheres? ou só os homens é que têm direito à liberdade e democracia?
Explica aí pf, pois não estou mesmo nada a perceber como vais resolver esse problema.


Afixado por bluegift em 24 de agosto de 2005, às 23:22

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