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agosto 25, 2005
"Mundo de sombras" ( ou "Para além do espelho" )
Hoje fui fazer uma visita.
A uma pessoa que estimo muito, e está num local desagradável. Quando agora me sentei em frente do teclado para começar a escrever, veio-me à ideia um post que a Isabel escreveu há pouco tempo. Ela levou-nos a pensar na relatividade do valor que as coisas têm – de um momento para o outro, damos conta que o mais importante de tudo é a Vida. Mas, para além desse valor básico, temos outros também de um valor incalculável, como a saúde, e neste caso, a saúde mental.
A pessoa que fui visitar, com uma depressão muito grave, está numa clínica psiquiátrica. Enquanto a ia procurando, cruzei-me com muita gente. Algumas pessoas com aspecto abatido, que me cumprimentavam discretamente, com um olhar que me fazia sentir que “estavam do lado de cá”. Mas outros, muitos, vinham conversar comigo. Muitos deles risonhos. Outros zangados. Outros queixosos. Mas quase todos esses, os que procuravam falar comigo, não viviam no meu mundo. O deles tinha outra lógica. As histórias que me contavam só faziam sentido para quem as contava, para mim não tinham nexo. Ia tendo a clara sensação de que, através dos seus olhos, eles não viam o mesmo que eu estava a ver. E é isso que se torna assustador. Como uns extraterrestres, como alguém que vem de um outro mundo e sente este estranho e hostil.
Quando saí, ainda perturbada, sentia-me dentro de um caleidoscópio. Aparentemente, basta uma pequena agitação para que a fantasia seja realidade, ou a inversa. Eu tenho a certeza da realidade do meu mundo. Pois é, mas eles também. Se calhar a diferença é que “nós” somos muitos mais. Afinal, cada um deles tem apenas o seu mundo. Pequeno, porque é só do seu tamanho. E por isso se sente tão só. E por isso procura a companhia de quem passa por ele. E nós passamos depressa, a sacudi-los, a fugir ao contacto, com algum medo até.
Porque afinal os extraterrestres assustam, não é?

Afixado por Emiéle em 25 de agosto de 2005, às 21:59
Afixadelas
Há uns anos fiz um ano de formação nos "Leigos para o desenvolvimento". Num dos fins-de-semana de formação fui fazer trabalho de voluntariado para uma associação que acolhe mulheres com "problemas" psicológicos. Foi a experiência mais "assustadora" mas ao mesmo tempo mais gratificante que tive até hoje. Habituado à rotina de fato e gravata não imaginava que haviam "outros mundos". Um exemplo estar a dar comida a alguém na boca e essa pessoa cuspir-nos tudo para cima e continuarmos como se nada fosse, com um sorriso.
Os sorrisos e os beijos "babados" que recebi daquelas senhoras quando terminou o fim-de-semana foram das experiências mais intensas que tive...cabe a cada um de nós interiorizar que existem pessoas diferentes ou pessoas que, temporariamente, vivem num mundo àparte.
Afixado por pedro oliveira em 25 de agosto de 2005, às 23:08
Émièle, uma viagem a esses mundos, aos seus mundos, leva-nos a relativizar as críticas ao que se passa ou deixamos que se passe no nosso mundo. Depois dum dia em que decidi brincar, como é meu costume, com este mundo, o nosso mundo, é um murro no estômago ler um post em que nos falas em mundos em que não se brinca. Com que não se pode brincar. Obrigado, amiga. Os murros no estômago são sempre bem vindos...amanhã será outro dia. Continuarei a brincar com este mundo...hoje, ficarei com os outros na memória.Os deles.
Afixado por isabel em 26 de agosto de 2005, às 00:09
Pedro, o complicado é que se calhar a senhora que cuspiu para cima de ti, quando o fez não foi em cima do Pedro Oliveira tal como o vemos, mas talvez para um ser que naquele momento lhe meteu, a ela, repugnância. Se eu for andar de metro e depois de estar sentada olhar para o lado e vir uma lagarta gigante, era capaz de fugir a gritar. A fantasia de uma pessoa com uma psicose é um mundo muito estranho. Os seus pensamentos fogem aos padrões que nos são habituais. Acho magnífico essa experiência que relatas. Só quando nos aproximamos das coisas as podemos sentir verdadeiramente. Bom trabalho.
Afixado por Emiéle em 26 de agosto de 2005, às 00:23
Isabel, não é de propósito que divido os comentários, é a droga do PC em que estou a escrever que se desliga... Grrrr!!!!
Olha menina, se citei o teu post de "Cinco Horas", não foi por acaso. É que para mim, teve esse condão de me fazer ver a relactividade da importância de algumas coisas. Algumas, atenção!
Como disse, para mim a Vida é um bem acima de todos. Mas para ter o valor devido deve ter dignidade, deve ser vivida em condições humanas. Por isso me revolta tanto ( e se calhar românticamente ) se vejo tratar pessoas como números de uma estatística.
Afixado por Emiéle em 26 de agosto de 2005, às 00:30
EMIÉLE, será que as doenças do foro psiquiátrico não tem a ver com razões mais profundas da sociedade portuguesa? Não é por acaso que o consumo de anti-depressivos aumentou em Portugal numa percentagem alarmante! O mundo e Portugal duma maneira particular não estará a contribuir fortemente para o aparecimento dessas doenças? A vida competitiva que hoje levamos e a falta de perspectivas de futuro também não contribuem para isso? Só tenho dúvidas!!!
Afixado por soslayo em 26 de agosto de 2005, às 10:39
