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agosto 27, 2005
Nascer de Sol

Às vezes, saímos de casa calmamente. Temos algumas horas só para nós. Algumas compras para fazer. Talvez até dê para comprar um CD. Ou um livro. Ou uma TShirt para o Outono, que as montras já estão cheias de coisas da próxima estação.
Podemos parar para beber um café e comer um bolo cheio de chocolate, óptimo para manter a linha. Temos que fazer tempo para ir buscar o nosso filho que está numa festa de aniversário.
Às vezes, temos que sair de casa e arranjar forma de ocupar as próximas três horas. Saímos com tempo para tudo, pensamos. Apenas não planeamos que entre uma montra e a outra, enquanto tomamos o café e nos deliciamos com o chocolate do bolo, nos aparece o passado.
O passado vê-nos e, espanto, dirige-se a nós. Não podemos fugir, não vamos deixar o bolo de chocolate nem o café a meio. O passado fala e nós não lhe reconhecemos a voz. Olha-nos e não lhe reconhecemos o olhar. Conta-nos uma estória que deverá ter começado na altura em que o passado passou a passado e que parece que acabou agora, poucos dias antes de encontrarmos o passado enquanto tomamos a bica. Deduzimos, pelo tom de voz do passado, que para ele a estória deverá ter agá, mas não o conseguimos encaixar. Ainda paramos o garfo do bolo a meio caminho entre o prato e a boca, mas nada a fazer, o agá não entra. O passado pergunta-nos se nos podemos voltar a encontrar. Talvez jantar. Afinal, diz o passado, o presente foi bom de se viver. Também teve agá, repete-nos insistentemente. Nós, parece que nos lembramos que sim, mas não conseguimos ter a certeza. Já não. Olhamos o passado. Continuamos sem lhe reconhecer o olhar. Que coisa chata! Bebemos o resto do café. Comemos a última garfada de bolo de chocolate e, antes de pegarmos na mala, dizemos-lhe calmamente que não faz bem à saúde sair com o passado. Nem à alma. E que foi um prazer vê-lo. Passado. Ele diz que vai insistir. Nós sorrimos. Quando chegamos a casa ainda vamos à janela. Daí a nada está a nascer o Sol.
Afixado por Isabel em 27 de agosto de 2005, às 01:32
Afixadelas
Que caleidoscópio é a tua vida, Isabel...
De vez em quando aparece um bocadinho que "estava mal arrumado" mas com um movimento fazes voltar tudo a uma outra imagem.
Isso do passado, presente e futuro, só na gramática é que está bem arrumado. Na vida nem por isso...
Mas tens razão. Há passados que o são definitivamente e outros que teimam em aparecer quando se pensa que estão bem arrumadinhos.
E não depende só de nós. Era bom que o fosse...Organizava-se a vida como um filme, daqueles muito interessantes e que acabam bem.
Afixado por Emiéle em 27 de agosto de 2005, às 10:26
Sabes o que é engraçado? É que, às vezes, parece mesmo premeditado...imaginado...como um filme. Quase nunca vou ao local onde ontem estive. Nunca àquela hora. Presumo que aquela pessoa não deva estar todos os dias ali. Muito menos àquela hora. Até porque vem de longe. E ontem estava ali. Como se tivessemos combinado. Como se a vida se encarregasse de me colocar nos locais exactos à hora exacta.
Mas amiga,creio que é um passado que o é definitivamente. Talvez tivesse dúvidas até ontem. Hoje tenho muito menos. Não lhe reconheci o olhar. Nem a voz.
Afixado por isabel em 27 de agosto de 2005, às 11:15
Há tantas coisas na vida real que parecem "composições artísticas"; conheço mesmo alguns casos que se aparecessem em telenovela, quam visse diria "mas que exagero".
De qualquer modo chamaste ao teu post "Nascer de Sol" e creio que está tudo dito. É só ler.
Afixado por Emiéle em 27 de agosto de 2005, às 11:54
Espera.
O que eu li foi que todos os dias nasce o sol. O Sol é o mesmo. Mas quando nasce é a luz de um dia novo. Diferente. Todos os dias são diferentes. Mesmo que sejam iluminados pelo "velho" sol.
Afixado por Emiéle em 27 de agosto de 2005, às 11:58
Eu também li assim, amiga!!!! Leio assim!!! Às vezes, equeço-me um bocadinho (esquecemos todos, não?).Talvez porque de vez em quando estão umas nuvens cinzentas. E eu não vou à janela. Houve alguns dias de nuvens muito cinzentas naquele passado. E eu não fui à janela. Porque se fosse(tivesse ido) tenho a certeza que leria sempre assim. Sempre que vou à janela leio assim. Mesmo por tràs das nuvens.É por essas e por outras que cada vez lá passo mais tempo...na janela.
Afixado por isabel em 27 de agosto de 2005, às 12:29
Gostei da combinação de passado, presente e futuro. Até porque o o futuro não o era sem estes dois. E um passado bom, mesmo que sem presente ou futuro é a melhor forma de nos recordarmos que estivemos, estamos e estaremos vivos.
Afixado por Daniel Arruda em 27 de agosto de 2005, às 19:04
Tens razão, Daniel. O futuro não o era sem o passado e o presente. Sem o Sol e as nuvens do passado. Sem o Sol do presente.
Não faço ideia como será o futuro. Mas hoje, como calculava e desejava, o Sol voltou a nascer. Presumo que amanhã também vai nascer...Afinal, faço ideia de como será o futuro.
(gostei que tivesses gostado)
Afixado por isabel em 27 de agosto de 2005, às 19:39
"Ai que ninguém volta
Ao que ja deixou
Ninguém larga a grande roda
Ninguém sabe onde é que andou
Ai que ninguém lembra
Nem o que sonhou
(e)aquele menino canta
A cantiga do pastor
Ao largo
Ainda arde
A barca
Da fantasia
E o meu sonho acaba tarde
Deixa a alma de vigia
Ao largo
Ainda arde
A barca
Da fantasia
E o meu sonho acaba tarde
Acordar é que nao queria"
madredeus :)))
Afixado por bluegift em 27 de agosto de 2005, às 23:06
Blue,para além do resto ainda me vens lembrar como fui injusta no outro dia em não colocar a Teresa Salgueiro no post das vozes femininas!!!
O resto é que não queria mesmo. Acordar.
Afixado por isabel em 27 de agosto de 2005, às 23:44
;)
:)
Afixado por bluegift em 28 de agosto de 2005, às 11:54
