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agosto 22, 2005
O Baloiço
Hoje, depois de um post-desabafo e um post-resposta de duas colegas de blog, dei comigo a reflectir como a experiência de cada um de nós, por definição é tão difícil de transmitir. Porque é nossa, pessoal. Mesmo quando queremos sentir pelos outros, somos sempre nós que estamos ali.
Vivi estes meus últimos 3 dias de férias junto a uma amiga. Uma rapariga fantástica, cheia de qualidades, e muito diferente de mim em muitas coisas – apesar de surpreendentemente semelhante noutras… Entre muitos e muitos assuntos de conversa, falámos das recordações de férias. As famosas férias “na terra”, porque todos temos “terra”, mesmo os que, como nós as duas, somos de Lisboa: é a terra dos pais, ou até dos avós. E eu contava a recordação, felicíssima, que guardava dessas famosas férias da infância. Para a minha amiga, nada disso. Era um tempo de opressão, numa aldeia muito pequena e preconceituosa, onde uma menina não podia fazer certas coisas porque não era bonito. Experiências e recordações posso dizer que opostas. Para mim era uma festa a ausência de electricidade e os candeeiros de petróleo, sentia como se vivesse no tempo dos reis, só faltavam as saias de balão. Que divertido! Para ela era uma seca as noites sem nada para fazer, nem televisão, nem convívio - “porque era uma menina”.
Em determinado momento do nosso passeio, creio que em Marvão, passamos por um largo com uns baloiços pendurados. Ela saltou para um, e desafiou-me a ver quem baloiçava mais alto. Hesitei. Se calhar já não sei dar balanço… Aos anos que não brinco assim.
Mas atrevi-me. Afinal não tinha perdido o jeito. Começámos a cortar o ar, no meio de risota. De repente a vida começou a rebobinar depressa, depressa, e eu senti-me de novo com 7 anos, num baloiço improvisado, na quinta da minha tia-avó, lá no Alentejo. Se fechasse os olhos ainda podia imaginar que tinha por detrás o meu primo Tó, que, se me apanhava distraída, dava-me um forte empurrão de modo que o baloiço quase tocava as traves do alpendre. Depois eu vingava-me, está visto.
Mas são momentos que se mantêm vivos ao longo dos anos. Momentos meus. Pessoais. Intransmissíveis. E muito felizes.

Afixado por Emiéle em 22 de agosto de 2005, às 19:10
Afixadelas
Eu tinha um baloiço no quintal, mesmo ao pé da galinheira...e tinha galinhas...e coelhos...mas estou um bocadinho como a tua amiga, muito cedo começou a faltar-me o ar...e não era só com o balanço do baloiço...era o ar, sempre.
Mas tens razão, também há momentos muito felizes. E da falta de ar, curamo-nos...dos momentos felizes, não esquecemos.
Afixado por isabel em 22 de agosto de 2005, às 21:06
Eu tive mesmo sorte, porque realmente o "meu" campo, era de liberdade enorme. Parece-me que tinha até mais do que na minha casa em Lisboa, onde já tinha muita. Mas lá era uma maravilha, andava de burro, ajudava a fazer pão, via ordenhar as vacas, e à noite cantava-se muito. Porque isso dos cantares alentejanos é mesmo verdade, não é folclore. Cantava-se a várias vozes de um modo lindíssimo. Hoje não sei como é, receio que esteja mesmo diferente que isto são recordações antigas...
Afixado por Emiéle em 22 de agosto de 2005, às 21:30
Ainda se canta, Emiéle. Onde se juntam meia dúzia de alentejanos canta-se assim, da forma como te lembras.
Talvez não tanto como nesses tempos de candeeiros a petróleo porque hoje, nas tabernas, também já se vê a bola pela sportetevê. Mas, sempre que o tempo se espalha devagar pela calma das noites de verão, ou por altura das festas da aldeia (em honra da inevitável santa), quando regressam os familiares vindos da cidade grande ou da "estranja" e as almas se sentem felizes, canta-se. :-)
Afixado por Mar em 22 de agosto de 2005, às 22:57
E comove-me sempre, Mar. Passam-se anos, e se oiço aqueles coros, tão afinados, fazem-me um nó na garganta... Como entram as diversas vozes tão a tempo, e de um modo tão perfeito.
Tenho cá umas saudades... Eram uns serões espectaculares. Contavam-se histórias de que nunca mais me esqueci. E o cheiro daquela terra. E o sossego das tardes, quando recolhíamos, pela “calma” como diziam.
Olha, se começo com recordações, fico para aqui a falar…
Afixado por Emiéle em 23 de agosto de 2005, às 00:27
Por mim podes falar que é um tema do qual nunca me canso, Emiéle.
Sei o que queres dizer quanto à comoção, só quem vive uma região da forma como tu a vives ou quem é "indígena" como é o meu caso, pode gabar-se de se emocionar com o seu cante, os cheiros ou com a luz que, ao final das tardes, rasga a paisagem de uma forma particular.
Só se ama desta forma os sítios onde fomos felizes. :-)
Afixado por Mar em 23 de agosto de 2005, às 01:12
Eu também tenho a sorte de ter recordações semelhantes, de noites alentejanas do céu mais estrelado que já vi, e de cantares. E de dar o biberão a borregos recém nascidos, ajudar a fazer queijo, ir com os pastores de manã e voltar à tardinha, e do meu sítio especial, o onto mais alto do monte, de onde se via Beja inteira. à noite era magnífico, mas a minha hora preferida era (sempre foi) o pôr-do-sol.
Obrigado, émiéle, por mo fazeres recordar...
Afixado por M. em 23 de agosto de 2005, às 08:37
M. !!!!!!!
Mas que surpresa!!
É que o "meu" Alentejo também fica para essas bandas... Queres ver que nos conhecemos?
( e não há pôr-do-sol como aquele!!! é mágico )
Afixado por Emiéle em 23 de agosto de 2005, às 14:32
Olhem lá! Mas vocês andaram aqui a cruzar-se comigo, pelas estradas de terra batida que vão dar aos montes de onde se vê Beja inteira e não me disseram nada?! Tá mal...;-))
Afixado por Mar em 24 de agosto de 2005, às 16:14
