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agosto 31, 2005
O Dhikr...
... é uma prática islâmica, mais concretamente sufi, de oração repetitiva e ritmada. O dhikr consiste na repetição sincronizada, feita por várias pessoas em simultâneo, do nome de Allah ou de uma das suas variantes.
Escutar a recitação de um dhikr é uma experiência única. Dos poucos que ouvi, gostei especialmente deste, que se chama Dhikr Kalwati (aqui dirigido pelo shaik Nazim, da tariqah Naqshbandi). Nesta gravação escutamos, durante muito tempo, a repetição da palavra allah em escalas descendentes.
O dhikr, mesmo sendo uma prática sufi (e portanto inserida na tradição islâmica) é perfeitamente análogo aos mantras hindus e a outras orações de tipo ritmado que se encontram em várias tradições espirituais pelo Mundo fora.
No cristianismo oriental, de tradição ortodoxa, encontramos algo de semelhante na prática do hesicasmo, a repetição ritmada do nome de Jesus. De forma mais ou menos ostinata, encontramos em quase todas as religiões conhecidas algum tipo de oração repetitiva. A prática da oração repetitiva é vista por muitos ateus e agnósticos como uma forma de inebriar massas de crentes ignorantes. Uma tal opinião é, ela mesmo, uma grosseira manifestação de ignorância. O que já é mais espantoso e grave é encontrar, nos dias que correm, crentes que minimizam a importância da oração (o que sucede muito no catolicismo moderno), ou que parecem não dar qualquer relevo a orações repetitivas ou ritmadas, sinal de que já lhes escapa o sentido profundo da importância do ritmo e do som na actividade espiritual.
Sigamos Guénon:
«(...) a [repetição da] palavra dhikr, que, no esoterismo islâmico se aplica a fórmulas ritmadas que correspondem exactamente aos mantras hindus, (...) tem por objectivo produzir uma harmonização de diversos elementos do ser, e de determinar as vibrações susceptíveis, pela sua repercussão através da série de estados, em hierarquia indefinida, de abrir uma comunicação com os estados superiores, o que aliás, de forma geral, é a razão essencial e primordial de todos os ritos» - René Guénon, La Langue des Oiseaux, artigo publicado em Le Voile d'Isis, Novembro de 1931.
Afixado por Bernardo Motta em 31 de agosto de 2005, às 01:17
Afixadelas
Ou talvez esses crentes sejam dos poucos que ainda prestam atenção aos ensinamentos de Jesus. O que terá Ele querido dizer com "Quando orarem, não façam como os pagãos, que usam de vãs repetições, porque pensam que por muito falarem, serão atendidos"? (MT 6. 7-8)
Pois é, o Gajo era um chato que não nos queria deixar rezar os nossos terços, zumbir os nossos dhikrs nem, ó suprema miséria!, abrir comunicações com os estados superiores (um dia, um dia ainda alguém me vai explicar o que isto é, nem que seja a Simara).
Afixado por JG em 31 de agosto de 2005, às 01:57
Pumba! Lá estão estes dois.
Afixado por monty em 31 de agosto de 2005, às 04:01
Nos dias que correm, se há alguém que está sempre a zumbir és tu, ó JG!
Livra, que melga!
Nunca vi um gajo com tanto azedume anti-espiritual!
Devias ir fazer companhia à malta do Diário Ateísta, que lá é que te davas bem!
Será preciso enumerar todas as orações cristãs que usam repetição?
E como é que explicas isso, ó JG?
Que essas orações seriam indesejadas por Cristo?
O que está implícito nesse trecho que citas (e que treslês como é teu mau hábito) é que a palavra sem espírito é como se estivesse morta. S. Paulo diz o mesmo. De que vale repetir palavras sem qualquer pureza espiritual?
Não é a repetição em si que é vã! O que é perfeitamente inútil é repetir palavras num vazio espiritual. Isso não leva a lado nenhum.
Mas tudo bem: aplaude lá os católicos modernistas. Como eles vão acabar por ganhjar, vais sentir-te mais bem rodeado. Ao fim e ao cabo, o catolicismo como ele era vai terminar, mais cedo ou mais tarde, por isso eu não passo de um "freak" com os dias contados...
Afixado por Bernardo em 31 de agosto de 2005, às 09:20
«um dia, um dia ainda alguém me vai explicar o que isto é, nem que seja a Simara»
Sim, continua a achar que o Guénon é como a Simara... Deves ir muito longe a pensar assim...
E ainda dizes tu que lês teologia?
E angeologia? Sabes o que é? Também é material da Simara?
Os estados superiores, na forma como Guénon usa o conceito, são assemelháveis aos estados em que se encontram os seres angélicos. Criaturas a meio caminho entre os homens e Deus. São também assemelháveis às "ideias" platónicas.
Afixado por Bernardo em 31 de agosto de 2005, às 09:24
Sabes o que é que é irónico, ó JG?
É que a tua "exegese" pervertida às palavras de Jesus é, em tudo, semelhante (excepto não seres crente) à que faz qualquer bom fanático, seja ele talibã ou evangélico.
Tu lês os textos sacros exactamente como eles lêem! Num literalismo estéril! Curiosa ironia, não?
Alguém deveria, um dia, estudar as parecenças entre os raciocínios intelectuais dos fanáticos religiosos e dos fanáticos anti-religiosos. Julgo serem imensas! Move-os uma vontade indómita de demolir a verdadeira espiritualidade, onde quer que esta se encontre.
Afixado por Bernardo em 31 de agosto de 2005, às 09:30
Bernardo, Bernardo...
Mas que achaque, homem. Onde topas tu o meu "azeedume" anti qualquer coisa? Julgo que nestas coisas, como em muitas outras, um pouco de clareza e pensamento não faz mal a ninguém. Quanndo me falas em "Angeologia", a SImara fala em "cristalogia", "auras" e o Diabo a sete. tudo jogos de palavras, sofismas, sistemas elaborados que se apoiam em peve nenhuma.
Quando Cristo fala de "vãs repetições", julgo ser estulto andar em busca de qualquer porta de saída do óbvio: ele condenou mesmo a repetição impensada de orações (e isto é facto bem conhecido e discutido); não as orações que contenham em si elementos cíclicos. Aliás, pouco antes desta passagem, ele reprova as orações em público.
Mas já deu para ver que a tua versão da tal"espiritualidade" não levou a grande evolução da tua tolerância. Mas, ao menos, indicou-te um belo esquema para acatar ou não os ensinamentos de Jesus Cristo consoante o que te diz o Génon. Interessante.
MAs diz-me: que medida tens para poder garantiir que eu não sou crente? E "crente" em quê, já agora? Em anjos e arquétipos não certamente.
Afixado por JG em 31 de agosto de 2005, às 11:00
Mas já que te mostras tão condescendente para com as espiritualidades alheias, deixa-me dizer-te que, por acaso, a Simara até está bem relacionada com isso da "angeologia" (também existirá uma "bruxologia"?), como podes ver pelo seu site. Procura: está mesmo entre as "velas" e os "banhos", na mesma linha dos "cristais" e dos "talismãs.
Ah; mas já me esquecia: essas coisas só são "sérias" se forem as "nossas" versões...
Afixado por JG em 31 de agosto de 2005, às 11:12
JG,
«Mas que achaque, homem. Onde topas tu o meu "azeedume" anti qualquer coisa?»
Não estou assim tão irritado como as minhas palavras acusam. Se calhar do mesmo modo que não estarás assim tão azedo com as tuas palavras acusam.
«Julgo que nestas coisas, como em muitas outras, um pouco de clareza e pensamento não faz mal a ninguém.»
É precisamente o que eu penso, e que se aplica que nem ginjas ao que tu costumas criticar naquilo que escrevo.
«Quanndo me falas em "Angeologia", a SImara fala em "cristalogia", "auras" e o Diabo a sete. tudo jogos de palavras, sofismas, sistemas elaborados que se apoiam em peve nenhuma.»
"Angeologia" como em S. Tomás de Aquino.
E não "angeologia" como em Simara.
Ainda sabes ver a diferença na qualidade e na intelectualidade, não?
«Quando Cristo fala de "vãs repetições", julgo ser estulto andar em busca de qualquer porta de saída do óbvio: ele condenou mesmo a repetição impensada de orações»
Como é evidente. Ninguém diz o contrário. O Dhikr não é impensado, aliás nem os mantras nem as orações cristãs devem ser impensadas. Nenhuma oração, cíclica ou não, deve ser dita sem um profundo sentido de devoção, sem uma concentração máxima do intelecto.
«não as orações que contenham em si elementos cíclicos»
Há diferenças substanciais entre a essência do dhikr e a de orações repetitivas como, por exemplo, o rosário. Eu não as abordei. Talvez noutra oportunidade. Seja como for, o Dhikr é espiritualmente válido, e é inútil dizer que o cristianismo não tem nada de assemelhável, porque tens sempre o exemplo mais concreto do hesicasmo, que é a repetição do nome de Jesus (e não de uma oração em ciclo).
«Mas já deu para ver que a tua versão da tal"espiritualidade" não levou a grande evolução da tua tolerância.»
Eu tolero, mas não deixo de criticar.
Tolerar implica aceitar?
Eu não me importo que os outros tenham ideias erradas ou incorrectas, mas não preciso, para os tolerar, de concordar com eles, ou preciso?
«Mas, ao menos, indicou-te um belo esquema para acatar ou não os ensinamentos de Jesus Cristo consoante o que te diz o Génon. Interessante.»
Dispenso a ironia.
Jesus Cristo não disse o que tu querias que ele tivesse dito. E se julgas que norteio o meu cristianismo pelas ideias de Guénon andas muito enganado. Não preciso de te provar nada. O que eu não faço, isso seria tolo, é desprezar o conhecimento valioso que emana da obra de Guénon.
Guénon, quanto mais não seja, é para mim um esplêndido antídoto contra as asneiras dos tempos modernos. Ajudou-me a respeitar e a recuperar a admiração pelas mais elevadas ideias espirituais da minha religião (e consequentemente, das outras).
Curioso paradoxo, não é?
Quando um muçulmano maçon nos pode ajudar, com as suas obras, a sermos cristãos mais coerentes e integrados na nossa religião, e mais respeitadores da nossa herança apostólica, pois que assim seja!
«MAs diz-me: que medida tens para poder garantiir que eu não sou crente?»
Crente em Deus, tenho quase a certeza de que não és! Se fores, és um tipo bem estranho...
«E "crente" em quê, já agora?»
Eh pá, está bem.
Se acreditares noutras coisas, tudo bem. Assim, todos são crentes. Eu queria dizer "crente em Deus".
«Mas já que te mostras tão condescendente para com as espiritualidades alheias, deixa-me dizer-te que, por acaso, a Simara até está bem relacionada com isso da "angeologia" (também existirá uma "bruxologia"?), como podes ver pelo seu site. Procura: está mesmo entre as "velas" e os "banhos", na mesma linha dos "cristais" e dos "talismãs.
Ah; mas já me esquecia: essas coisas só são "sérias" se forem as "nossas" versões...»
Se não distingues S. Tomás de Aquino da Simara, então só podes estar:
1. Tonto
2. A gozar comigo
Afixado por Bernardo em 31 de agosto de 2005, às 11:47
Ah, e JG, como a minha autoridade é nula, vejamos de que modo é que as palavras de João Paulo II, que foi Papa (é sempre bom relembrar), tratam esta questão das orações com técnicas repetitivas. Será que o próprio Papa desconhecia as palavras de Jesus que tu tão sabiamente desencantaste? Será que o Papa João Paulo II desconhecia a passagem que mencionaste? Será que o Papa se deu conta da suposta contradição? Ou será que estás errado e não há contradição nenhuma? Penso que só há duas possibilidades:
1. Tu interpretaste mal a passagem do Novo Testamento
2. O Papa João Paulo II interpretou-a mal
Qual vai ser?
Eis o que o Papa escreveu, ao falar sobre a oração do Rosário.
«28. Recordei na Carta apostólica Novo millennio ineunte que há hoje, mesmo no Ocidente, uma renovada exigência de meditação, que se vê às vezes promovida noutras religiões com modalidades cativantes.( 35)Não faltam cristãos que, por reduzido conhecimento da tradição contemplativa cristã, se deixam aliciar por tais propostas. Apesar de possuírem elementos positivos e às vezes compatíveis com a experiência cristã, todavia escondem frequentemente um fundo ideológico inaceitável. Em tais experiências, é muito comum aparecer uma metodologia que, tendo por objectivo uma alta concentração espiritual, recorre a técnicas repetitivas e simbólicas de carácter psico-físico. O Rosário coloca-se neste quadro universal da fenomenologia religiosa, mas apresenta características próprias, que correspondem às exigências típicas da especificidade cristã.
Na realidade, trata-se simplesmente de um método para contemplar. E, como método que é, há-de ser utilizado em ordem ao seu fim, e não como fim em si mesmo. Mas, sendo fruto duma experiência secular, o próprio método não deve ser subestimado. Abona em seu favor a experiência de inumeráveis Santos. Isto, porém, não impede que seja melhorado. Tal é o objectivo da inserção, no ciclo dos mistérios, da nova série dos mysteria lucis, juntamente com algumas sugestões relativas à recitação, que proponho nesta Carta. Através delas, embora respeitando a estrutura amplamente consolidada desta oração, queria ajudar os fiéis a compreendê-la nos seus aspectos simbólicos, em sintonia com as exigências da vida quotidiana. Sem isso, o Rosário corre o risco não só de não produzir os efeitos espirituais desejados, mas até mesmo de o terço, com que habitualmente é recitado, acabar por ser visto quase como um amuleto ou objecto mágico, com uma adulteração radical do seu sentido e função.»
Afixado por Bernardo em 31 de agosto de 2005, às 12:05
Mas o antigo Papa que não viesse defender o bam-amado Rosário. Claro que a Passagem de Mateus que te citei já foi por muitos empregue precisamente para criticar o hábito do terço, tão recomendado pela estranha imitação de Virgem Maria que João Paulo II acreditava que visitou Fátima. Enfim; se toda uma Igreja, e sei lá quantos Papas, embarca no pecado (não há mesmo outra forma de por a coisa) de aceitar como divinas as enormidades que a Virgem terá proferido em Fátima (prometer o inferno a crianças, se não rezassem muit, p.ex.)... já só se espera mesmo o pior.
Quanto ao teu precioso Aquino... deixa-me dizer-te que também encontro grandes diferenças entre as habilidades escaquísticas do Kasparov e do meu filho; mas nem por isso o xadrez deixa de ser apenas um jogo. Fascinante, mas um jogo.
O que eu acredito? Hmm... ficarias surpreendido.
Afixado por JG em 31 de agosto de 2005, às 12:28
JG,
Outra coisa não seria de esperar de um católico conservador como eu do que discordar de tudo o que colocaste no último comentário.
O Rosário é fundamental, a devoção à Virgem Maria também, e o Papa João Paulo II acertou em cheio em todos estes pontos. A sua missão pastoral foi exemplar.
Por fim, se eu ficaria espantado por descobrir em que é que acreditas, porque é que não tentas falar sobre isso?
Eu passo a vida a desbocar-me e a dizer o que penso (dizendo muitas vezes coisas que ainda não tenho maturidade para defender). Atravesso-me sempre à crítica...
Faz o mesmo!
Cá estarei para ler os teus posts!
Abraço,
Afixado por Bernardo em 31 de agosto de 2005, às 12:35
No ocidente a coisa ( a tal da repetição cantada)ainda se manteve na aprendizagem da tabuada...
Lindo! um vezes um, um...nha nha nha, nha.
Já agora, numa exposição que esteve patente no Museu Nacional de Etnologia sobre indios da Amazónia, referia-se que estes têm uma conceção musical do Universo. São os sons que comandam o Cosmos e a vida na Terra; de tal modo será isto verdade que não se atrevem a tocar uma determinada flauta só porque sim.
Afixado por João Ribeiro em 31 de agosto de 2005, às 17:32
"Já agora, numa exposição que esteve patente no Museu Nacional de Etnologia sobre indios da Amazónia, referia-se que estes têm uma conceção musical do Universo. São os sons que comandam o Cosmos e a vida na Terra; de tal modo será isto verdade que não se atrevem a tocar uma determinada flauta só porque sim."
Caro João Ribeiro, o que afirma é interessantíssimo e faz todo o sentido. Encontramos, por exemplo no hinduísmo, a primazia do som no conjunto das faculdades sensíveis. É uma característica comum às cosmogonias tradicionais. No cristianismo sucede algo de equiparável. Jesus Cristo é o Verbo, a "palavra proferida" por Deus Pai. De novo, o uso de uma linguagem indelevelmente associada ao som e à comunicação verbal.
Afixado por Bernardo em 31 de agosto de 2005, às 17:35
Das vezes que andei embarcado, chegar a terra firme foi sempre uma engraçada experiência do ponto das faculdades sensíveis. Habituado o ouvido a uma vertical sempre em movimento, oscilante, quando passamos para o pontão, imóvel, a sensação é de que toda a terra se embala. Anda-se de perna aberta, o tal andar marujado, para não se cair. Em minutos ou horas o efeito passa, excepto, e cá está a primazia do ouvir, quando se ouve água correr: uma torneira que se abre ao fim alguns dias ainda provoca um instantãneo marear, em que regressamos ao interior do barco...
Afixado por João Ribeiro em 31 de agosto de 2005, às 22:09
Ora aí está uma coisa que eu gostava de experimentar: embarcar durante umas semanitas. Para ter essa sensação. As minhas ridiculamente curtas passeatas de barquito nunca me enjoaram, mas gostava de experimentar a sensação de ficar a balançar durante semanas...
Afixado por Bernardo em 1 de setembro de 2005, às 00:37
