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agosto 16, 2005
Qual é o problema do criacionismo?
O que se segue, como não podia deixar de ser, é um texto de opinião, visto que não me considero entendido nas matérias em questão.
As posições tomadas por George W. Bush, nos E.U.A., relativamente ao ensino do intelligent design nas escolas a par com as doutrinas evolucionistas têm gerado imensa polémica.
Muitos evolucionistas surgem ao ataque, agitando as suas espadas em nome da Ciência, contra o que chamam de "obscurantismo medieval", ou seja, o criacionismo.
A histeria, como se sabe, nunca é boa a ajuizar em matérias tão difíceis. Antes de mais, tenho que dizer que, sendo católico, e tendo pensado muito no assunto, opto por uma forma específica de criacionismo. A mais elementar obediência à doutrina católica deveria ter-me levado a assumir, imediatamente, a defesa dessa tese cosmológica. Contudo, parece-me sempre proveitoso que se medite sobre estas questões, de modo a que o crente tome uma decisão, que não obstante ser de fé, seja maturada e ponderada.
Ponhamos as duas teorias (e sublinho a palavra teorias) lado a lado, de forma muito sucinta:
- o Evolucionismo: não obstante os inúmeros ramos evolucionistas, e a grande disparidade de correntes que existem, parece-me razoável definir o evolucionismo como uma tese que se sustenta em dois pontos essenciais, que devem jogar em conjunto para o sucesso da teoria:
a) a Selecção Natural, devida a Darwin, como forma de filtrar a aptidão para a sobrevivência de uma dada espécie; as espécies menos preparadas desaparecem, as mais bem preparadas sobrevivem e multiplicam-se
b) as mutações genéticas como justificação para a variedade de espécies; ao longo de muitos milhões de anos, a alteração por mutação do património genético de uma espécie (ADN) faria dela uma outra espécie
- O Criacionismo: também uma posição matizada, feita de inúmeras correntes, que advoga, para justificar a variedade das espécies de seres vivos, a acção inteligente de uma entidade superior, que se poderia definir como divina e criadora.
Nos E.U.A., temos assistido recentemente ao surgir de inúmeros movimentos criacionistas, que atacam ferozmente o evolucionismo. Vejamos o que é defendido nas mais importantes modalidades do criacionismo:
a) há os que advogam que o Génesis e as Sagradas Escrituras devem ser lidas à letra, defendendo deste modo que a Terra não teria mais do que alguns milhares de anos; seguem a cronologia do Arcebispo de Armagh (Irlanda), James Ussher, que no século XVIII elaborou uma estrutura de datação para a Terra, afirmando que a Criação se dera no ano de 4004 a.C.
b) há os que, afirmando-se cristãos, concordam com a generalidade, senão mesmo a totalidade, da teoria evolucionista; defendem que a evolução, a par com a selecção natural darwiniana, são processos intencionais criados por Deus para guiar o devir do mundo natural
Há ainda inúmeras outras formas de ver o criacionismo que não professam necessariamente a ideia de que a Terra é recente, ou a ideia de que o Génesis deve ser lido com os olhos do Homem do século XXI, e não obstante manifestam-se altamente críticas, não tanto da Selecção Natural mas sobretudo da evolução das espécies por mutações.
Encontro-me nesta última categoria, e foi precisamente o facto de eu achar que este tema anda a ser discutido de forma altamente falaciosa, imperfeita e política que me atirei para a frente com a ideia de lançar este tema aqui no Afixe.
Certos evolucionistas rejubilaram quando, há uns anos a esta parte, o Papa João Paulo II afirmou que a evolução era mais do que uma hipótese. Para eles, era o sinal de que a Igreja Católica dava luz verde ao evolucionismo. Com a subida do Cardeal Ratzinger ao trono papal, muitos demonstraram a sua revolta por aquilo que julgavam ser um retrocesso num suposto "amén" católico ao evolucionismo.
Nada disso.
O actual Papa Bento XVI está em total sintonia com João Paulo II neste aspecto. O evolucionismo é mais do que uma hipótese: é uma teoria científica. A selecção das espécies não contradiz a razão natural nem o mais elementar bom senso. As espécies mais bem adaptadas sobrevivem, e outras menos adaptadas morrem.
As recentes declarações do Arcebispo de Viena, Cristoph Schönborn, geraram mais uma onda de contestação mediática. Vemos que as palavras deste Arcebispo evidenciam claramente a necessidade dos esclarecimentos que o seu texto traz.
Schönborn diz, com muita razão, que muitos evolucionistas deram uma interpretação equivocada às palavras do Papa João Paulo II. O Papa João Paulo II, numa audiência datada de 10 de Julho de 1985, pronunciou sólidas palavras sobre esta matéria. Em suma, o Santo Padre afirmava:
«A evolução dos seres vivos, de que a ciência procura determinar as etapas e discernir o mecanismo, apresenta um finalismo interno que suscita a admiração. Esta finalidade que orienta os seres numa direcção, da qual não existem padrões nem responsáveis, obriga a supor um Espírito que seja o seu inventor, o criador.»
Estas palavras prudentes demonstram que o Santo Padre não se pronunciou fora do campo da sua competência, deixando à Ciência o trabalho árduo de discernir o mecanismo do devir dos seres vivos. O que não está aqui, e que nunca foi defendido pela Igreja Católica, é um aval ao neo-darwinismo, a defesa da ideia peregrina de que a inteligência surge nos seres vivos por milhões de anos de mutações ocasionais e aleatórias. No limite, mesmo sendo possível demonstrar que as mutações genéticas permitem a multitude de espécies conhecidas (extintas ou não), a doutrina católica mostra-se clara num ponto fundamental: a matéria não engendra o intelecto.
Importa salientar que, no debate de ideias, há sempre espaço para uma certa dose de fé. Senão vejamos: ninguém discute a presença desta dose de fé no lado criacionista. Contudo, poucos a reconhecem no lado evolucionista.
Nos meus tempos de Universidade, trabalhei com ferramentas matemáticas que dão pelo nome de Algoritmos Genéticos. O bonito nome pode gerar equívocos, pelo que importa explicar sucintamente o que são e para que servem.
Os algoritmos genéticos são uma das muitas metodologias de resolução de problemas matemáticos. Antes de principiar um algoritmo genético, há que ter duas coisas (que me desculpem os especialistas por esta apresentação mutilada e simplista):
1. Uma heurística que codifique numericamente uma solução para o problema; sem esta codificação (dita "genética"), a solução não pode ser trabalhada algoritmicamente
2. Uma função de custo, que avalie o valor de uma dada solução. Esta função de custo será o juíz, que dará uma pontuação (numa escala pré-definida) a cada solução do problema
Como evolui o algoritmo?
Evolui sensivelmente da mesma forma que, segundo os evolucionistas, o mundo vivo teria evoluido desde os primórdios:
a) parte-se de um conjunto aleatório de possíveis soluções para o problema, todas colocadas em pé de igualdade, e todas codificadas da mesma forma; o ingrediente elementar de cada solução é chamado de "gene", e é um valor numérico que pode ser modificado
b) mutações ocasionais (alterações na codificação das soluções em jogo) permitem o surgimento de novas possíveis soluções; a função de custo avalia as novas soluções: as menos pontuadas vão para o fim da lista (e podem mesmo ser eliminadas); as mais bem pontuadas ascendem na tabela de pontuação.
Ao fim de muitos passos, com maior ou menor dosagem de mutações, o algoritmo produz a "melhor" solução, extraída por pontuação do conjunto inicial aleatório de soluções.
Isto funciona!
Contudo, não se pode aplicar este raciocínio ao ADN dos seres vivos. Porquê? Há várias razões, mas sublinho estas:
1. O património genético de um ser vivo é composto por milhares de genes e é tipicamente muito estável; o ADN reage, muitas vezes, a mutações que num algoritmo numérico poderiam ser desastrosas, mas que no mundo real podem não ter consequências graves para o ser vivo: a Natureza defende-se das mutações
2. As mutações na Natureza são um fenómeno raro, de carácter aleatório, e que apenas pode ser trabalhado probabilisticamente. Num algoritmo, podemos dosear a quantidade de mutação, e é só uma questão de tempo e de processador para que o algoritmo produza uma solução boa. Mas a Natureza não funciona assim, e confesso que vejo a necessidade não de um, mas de vários milhões de milagres para que, ao longo de tanto tempo, e parodiando, uma amiba dê origem ao Homem, tudo apenas com mutações genéticas.
Por tudo isto, penso que o evolucionismo tem um lado aceitável (a Selecção Natural, que pode encerrar em si mesma uma parcela da verdade sobre o devir das espécies), e um lado questionável (a evolução por mutações).
Questionar o evolucionismo é tarefa de qualquer pessoa séria que se debruce sobre este problema. Aliás, em Ciência, questionar é A TAREFA. Como eu gostaria de ver nestes tempos as mentes mais brilhantes debaterem estes temas sem entrarem na infantilização do adversário e sem entrarem em jogadas políticas de ataque à religião.
O criacionismo existe há milhares de anos no mundo Ocidental. Estruturas teóricas cosmológicas semelhantes encontram-se no pensamento oriental. A metafísica e as formas de ontologia de origem divina acompanharam o pensar humano desde sempre. Não faz sentido menosprezar o imenso peso intelectual dos defensores do Criacionismo. E muito menos tentar transformar os delírios intelectuais com que os E.U.A. nos costumam brindar, nestas e noutras matérias, na regra geral aplicável a todos. A forma como concebo o criacionismo é muito diferente da da maioria dos criacionistas norte-americanos.
Fica para uma próxima oportunidade alongar-me mais sobre isto.
Para terminar, uma ideia fundamental: o criacionismo é uma tese que não pode ser tratada pelas ferramentas da ciência moderna. É esta uma das razões principais para o aprofundar de toda esta incompreensão. Pelo facto de recorrer a causas metafísicas, e portanto supra-empíricas, o criacionismo é sobretudo uma corrente filosófica. O criacionismo estabelece uma causa sobrenatural para efeitos naturais. O evolucionismo, pelo contrário, e também legitimamente, procura essa mesma causa na própria natureza.
Duas metodologias diferentes que teriam que, naturalmente, conduzir a duas teorias diferentes.
Qualquer "dogmatismo científico" nesta área só pode ser estéril. Se eu fosse um cientista adepto do evolucionismo não me preocupava com os criacionistas: não há base científica para demonstrar o criacionismo. Contudo, as coisas também não estão fáceis para o evolucionismo, uma vez que a base científica de demonstração é eminentemente frágil, controversa e questionável. Para mais, o cientista moderno, em absoluto, terá que ter sempre presente que abdicou, por opção própria, do metafísico no primeiro dia em que se decidiu a trabalhar com ferramentas científicas modernas.
Deixemos a linguagem dogmática para a religião, que é a única que, por definição, a pode exercer com autoridade. Esperemos que os neo-darwinistas possam encontrar a calma e a lucidez para poderem efectuar verdadeiro trabalho científico, ao invés de promoverem agendas anti-religiosas.
Por outro lado, esperemos que os criacionistas do séquito de George W. Bush, com as suas agendas fanáticas bem preenchidas, não façam mais estragos a esta já delicada situação.
Afixado por Bernardo Motta em 16 de agosto de 2005, às 13:57
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Afixadelas
Misturar Ciência e Religião dá sempre maus resultados. Uma depende da Experimentação, a outra da Crença.
Se os EUA continuarem a fazer prevalecer a segunda, o seu sistema de ensino há-de inevitavelmente ressentir-se a prazo da decisão e a liderança tecnológica actual.
Afixado por Rui Martins em 16 de agosto de 2005, às 15:39
Caro Rui Martins,
Permita-me discordar.
Penso que, no debate pela procura da Verdade, Ciência e Religião DEVEM ser colocadas em contraste. Concordo consigo num ponto: trabalham em domínios bem diferentes. Mas podem ser ambas questionadas no que toca à sua veracidade, à forma como concebem o Mundo.
Podemos discordar da abordagem de George W. Bush ao problema, que só poderá ser altamente suspeita. Mas a liderança no progresso tecnológico não deveria ser a meta intelectual de uma civilização.
Se alguém me pudesse ajudar nesse sentido, daria tudo para poder saber qual é a Verdade derradeira no que diz respeito à Criação, ao Mundo, a Deus e à natureza do ser humano. Para conseguir progredir na compreensão disto tudo, há muito que percebi que não podia abrir mão da Ciência moderna, nem da Religião. Ambas me têm ajudado muito na minha busca, e isso interessa-me muito mais do que sucesso em progressos tecnológicos.
Cumprimentos,
Afixado por Bernardo em 16 de agosto de 2005, às 15:55
O grande mal do criacionismo, para além de ser uma ideia gerada não pela observação mas apenas por um desejo cego de seguir uma dada cosmovisão, é mesmo o pessoal que a ele adere.
Quando os que não fazem coro com as nossas ideias são acusados de "defesa da ideia peregrina de" e as nossas próprias teses têm de ser postas ao abrigo das "ferramentas da ciência moderna" algo de profundamente errado e ilógico se passa. Tão errado como afirmar, sem mais aquelas, que "as mutações na Natureza são um fenómeno raro". Isto não é, pura e simplesmente, verdade. Além de que existem outros mecanismos a impulsionar a evolução, como a Transferência Horizontal de Genes (http://www.pnas.org/cgi/content/extract/100/13/7419), de que não se encontra rasto na literatura criacionista…
Mas quando os defensores deste folclore disfarçado de pensamento acham que se podem escrever coisas como "a necessidade não de um, mas de vários milhões de milagres para que, ao longo de tanto tempo, e parodiando, uma amiba dê origem ao Homem, tudo apenas com mutações genéticas", estamos em pleno reino da mistificação.
A matemática envolvida na Teoria da Evolução contemporânea não é estranha nem peculiarmente complexa. Podem dar uma vista de olhos aqui: http://plato.stanford.edu/entries/evolutionary-genetics/#3
E, ao contrário do que muitos pensam, a Selecção Natural não é o único mecanismo que pode animar o processo da Evolução. Coisas como o "Neutral Drift" também não costumam ser analisadas por quem pensam que Darwin escreveu a última palavra sobre estes assuntos (http://www.pbs.org/wgbh/evolution/library/05/1/l_051_04.html).
Para quem tem uma ideia de mutação que provém mais de filmes fantásticos do que da Biologia, aqui fica uma história sobre uma destas mutações, por sinal bem recente e benéfica: http://www.science.doe.gov/Science_News/feature_articles_2002/May/Milano_Mutation/Milano%20Mutation.htm
Por fim, se querem ver a que é que o tal "intelligent design" se resume, não vá dar-se o caso de acreditarem que se trata de coisa séria, podem dar uma espreitadela nisto: http://www.pandasthumb.org/archives/2005/07/there_they_go_a.html
Afixado por JG em 16 de agosto de 2005, às 18:18
Johnny Garcês,
E eu a achar que me safava, pá, por pensar que estavas de férias! Livra que estás sempre atento! Um tipo aqui a tentar meter um artigozito criacionista debaixo do tapete do Afixe, sem dares por isso, e tu à espreita.
Então vamos lá, que tu também és da breca com "f"...
«O grande mal do criacionismo, para além de ser uma ideia gerada não pela observação»
Mas porque é que as boas ideias têm que ser geradas pela observação?
É precisamente isso que eu contesto. O estrito empirismo no qual se encerrou grande parte da ciência moderna. Os cinco sentidos são uma boa ajuda para a compreensão do que nos rodeia. Mas também temos um intelecto. É o que nos distingue de outros animais também providos de sentidos.
Por definição, uma tese metafísica não recorre a métodos empíricos para fixar as suas bases argumentativas. E tu sabes isso, João.
Só que achas que tais teses são tretas!
Mas há quem não ache!
Eu, por exemplo, não acho.
«mas apenas por um desejo cego de seguir uma dada cosmovisão, é mesmo o pessoal que a ele adere.»
Todos os seres se movem, em maior ou menor medida, por desejos. Contudo, a verdadeira intelectualidade deveria ser, tanto quanto possível, alheia a desejos ou outras questões passageiras. Recordo-te a grande máxima de Bossuet:
"Le plus grand dérèglement de l'esprit c'est de croire les choses parce qu'on veut qu'elles soient."
Ora acharias que o distinto Bossuet estava a dar um tiro no pé? Deveria ser evidente que se pode ser criacionista por questões puramente intelectuais ou písticas (tenho dificuldade em distinguir os dois tipos). Não sou criacionista "porque quero", mas sim porque pensei no assunto, ponderei os factos à minha disposição, e tomei uma decisão.
Decisão essa que, certamente, não é final nem definitiva. Só os tolos agem assim perante teorias. Defendo o criacionismo até ao dia em que me convencer do contrário. Só que acho que esse dia não virá! É apenas um pressentimento! ;)
«Quando os que não fazem coro com as nossas ideias são acusados de "defesa da ideia peregrina de" e as nossas próprias teses têm de ser postas ao abrigo das "ferramentas da ciência moderna" algo de profundamente errado e ilógico se passa.»
Não te zangues com o "peregrina". Deixa lá cair essa do "peregrina". Foi uma infantilidade minha, só para chatear. Retiro-a.
«Tão errado como afirmar, sem mais aquelas, que "as mutações na Natureza são um fenómeno raro". Isto não é, pura e simplesmente, verdade.»
Não fui claro.
A Natureza é de uma enorme vastidão, e usar expressões como "fenómeno raro" ou "fenómeno abundante" sem dados estatísticos é cair na asneira. Retiro o que disse.
Ponhamos a questão desta forma: as mutações benéficas são raras. Nunca disse que não existiam, porque isso seria um disparate evidente, dado o carácter aleatório das mutações. Sei também que existem inúmeras mutações que, com a natureza intrinsecamente estável do ADN, acabam por não produzir resultados macroscópicos visíveis.
Contudo, mutações evolucionistas, ou seja, aquelas mutações que transformam uma espécie noutra, como um chimpanzé num homem, nunca, que eu saiba foram vistas.
Podes meter centenas de cientistas a mutar o ADN da pobre Drosophila melanogaster que isso não faz dela uma espécie nova. Muitas vezes, nem sequer faz dela uma espécie biologicamente viável.
«Além de que existem outros mecanismos a impulsionar a evolução, como a Transferência Horizontal de Genes (http://www.pnas.org/cgi/content/extract/100/13/7419), de que não se encontra rasto na literatura criacionista…»
Vou ver do que se trata.
Admito a minha ignorância neste ponto.
«Mas quando os defensores deste folclore disfarçado de pensamento»
Agora estás a ser ofensivo.
Se criticaste a minha forma ácida de escrever, e se não gostaste da "peregrina", retira lá esta treta, que senão não vamos a lado nenhum. Também eu gosto de retóricas e piaditas, mas também sei de vez em quando desistir destas retoricazinhas de putos e passar à discussão de forma ordeira. É isso que queres fazer? Senão regresso à piadita...
«A matemática envolvida na Teoria da Evolução contemporânea não é estranha nem peculiarmente complexa.»
Nunca ninguém disse que era.
Não sei se já te disse que estudei Algoritmos Genéticos? Não tem nada que se compare com a complexidade da Biologia, mas deu-me alguns conceitos básicos. Estou familiarizado com o que apresentas neste site:
http://plato.stanford.edu/entries/evolutionary-genetics/#3
Diz este senhor:
"The force of mutation is the ultimate source of new genetic variation within populations. Although most mutations are neutral with no effect on fitness or harmful, some mutations have a small, positive effect on fitness and these variants are the raw materials for gradualistic adaptive evolution."
Nada tenho contra isto!
É verificável e não tem nada de novo nem de complexo, como tu próprio afirmas.
O problema, amigo João, e tu sabes bem, é que isto não permite que se dê facilmente o salto macroscópico.
Este próprio autor o afirma:
"Thus, the central challenge of Evolutionary Genetics is to describe how the evolutionary forces shape the patterns of biodiversity observed in nature."
Grande desafio, sem dúvida!
Um desafio tão grande que faz do evolucionismo uma teoria e não um dogma. É isto?
Continuo sem ver como é que o evolucionismo pretende justificar a variedade biológica como a que temos hoje em dia (e ao que tudo indica, como temos tido nos últimos milhões de anos). Como é que a amiba dá origem ao Homem? E olha que a amiba é já bem complexa para ter tido uma origem ocasional. Por onde andam os elos perdidos?
«E, ao contrário do que muitos pensam, a Selecção Natural não é o único mecanismo que pode animar o processo da Evolução. Coisas como o "Neutral Drift" também não costumam ser analisadas por quem pensam que Darwin escreveu a última palavra sobre estes assuntos (http://www.pbs.org/wgbh/evolution/library/05/1/l_051_04.html).»
Sim, João, já se percebeu que dominas melhor do que eu a matéria, mas eu próprio apresentei isto no início como uma opinião, e não um tratado. Sim, vou ler os textos que me indicas. Apesar de tudo, eu sou inquieto e gosto de ir ao fundo de todas as questões que me intrigam.
Gostaria que fizesses o mesmo, sem preconceitos.
«Para quem tem uma ideia de mutação que provém mais de filmes fantásticos do que da Biologia, aqui fica uma história sobre uma destas mutações, por sinal bem recente e benéfica: http://www.science.doe.gov/Science_News/feature_articles_2002/May/Milano_Mutation/Milano%20Mutation.htm»
Não o disse, João.
«Por fim, se querem ver a que é que o tal "intelligent design" se resume, não vá dar-se o caso de acreditarem que se trata de coisa séria, podem dar uma espreitadela nisto: http://www.pandasthumb.org/archives/2005/07/there_they_go_a.html»
Obrigado pelo link.
Espero que tenhas lido o que eu escrevi até ao fim. Tenho pouco em comum com a maioria dos criacionistas norte-americanos, sobretudo essa malta nova do "Intelligent Design" que o Bush está a querer promover...
Espero que saibas que há criacionismo e criacionismo, certo?
Senão terei que te explicar exactamente quantas vertentes existem, e o que defendem. A questão é tão complexa no que toca ao criacionismo quanto ao evolucionismo. Não vale a pena ser redutor. Reduzir o adversário com ataques "ad hominem" é apenas fogo de artifício.
Esta discussão não termina por aqui.
Abraço,
Afixado por Bernardo em 16 de agosto de 2005, às 19:06
«Mas quando os defensores deste folclore disfarçado de pensamento»
Ó peregrino Bernardo; eu ofendo é o "pensamento" criacionista, não os esforçados escribas que tão ardentemente desejam nele acreditar...
Não te abespinhes com tão pouco!
;-)
Afixado por JG em 16 de agosto de 2005, às 19:18
Já que estamos numa de links, diz-me o que pensas disto?
http://www.euskalnet.net/graal/bukar2.htm
(desculpa, mas só tenho o texto nesta tradução espanhola)
Será este tipo de argumentação "folclore disfarçado de pensamento"?
Gostava de obter a tua douta opinião sobre o texto que aqui trago, um dos que melhor expõe a minha forma de ver esta questão, tanto na argumentação como na linguagem usada.
Afixado por Bernardo em 16 de agosto de 2005, às 19:18
Como é que não me hei-de abespinhar se me chamas de esforçado escriba com desejos?
Bolas, é este tipo de infantilização no diálogo que me irrita solenemente.
Irritado com a soberba dos evolucionistas, decidi-me pôr a pensar neste assunto a sério há uns tempos a esta parte. E verifiquei que havia mais portas, mais caminhos por onde seguir.
E verifiquei que os evolucionistas tinham fechado portas por mim, certamente para me ajudarem, porque seriam segundo eles, portas que não levavam a lado nenhum.
Imagina que eu era um brilhante evolucionista: toda a minha vida tinha sido dedicada a crer numa teoria que me limitava à partida ao domínio da matéria, ao domínio do sensorial.
Um evolucionista estrito dá todos os seus melhores anos intelectuais a uma causa eminentemente limitada: o empirismo!
Porra, o meu espírito não cabe nessa caixinha...
O que é que queres?
Se te satisfaz, está no teu direito. Para mim, não chega. Não concordo com premissas como estas, que querem fazer do empirismo o real único. O que não podemos cheirar, provar, ver, ouvir ou tocar não existe? Que ciência é esta que temos hoje em dia?
Como é que nos atrofiámos tanto?
A matéria originou o intelecto?
Quem, no passado, acreditaria nisto? Em nome de quê?
Deixa-me lá ser escriba esforçado, mas lá no alto transcendente onde há espaço para um gajo normal se poder mexer intelectualmente...
Afixado por Bernardo em 16 de agosto de 2005, às 19:30
Para mais, e conhecendo eu a velocidade com que se criam e destroem teorias científicas, fico pasmado com esta soberba: o cientista moderno, orgulhoso do que conseguiu construir, deveria ser o último dos homens a exibir soberba. Deveria ser o primeiro a saber que, por detrás de uma nova teoria, estão anos de trabalho anterior a ela, e anos de trabalho posterior a ela. O cientista deveria ser o eterno inquieto, o que duvidaria, todos os dias, do que tinha escrito ontem.
O mais eminente cientista defensor do evolucionismo deveria ser como o nómada, sempre pronto para, no dia seguinte, se se der uma importante descoberta, baralhar e voltar a dar as cartas teóricas.
Onde andam esses homens e mulheres?
Hoje em dia, só vejo agendas anti-religiosas... A religião é o alvo a abater, e o truque é infantilizar o crente. Não alinho nisso... E ainda existem ateus que não o fazem, que preferem o debate intelectual.
O metafísico tem o valor do que é perene. Tem o valor da casa construida na rocha. Durante séculos, cristãos, muçulmanos, judeus, hindus, budistas, taoistas, e muitos outros, contemplaram a beleza da transcendência e viram a luz divina. Quem a vê, não quer outra coisa. Quem, depois de ver o jardim, quereria regressar à caverna?
Bem, amigo JG, já divaguei demais.
Os modernos cientistas não são donos da intelectualidade, e por arrasto, não são donos da verdade. A mais elementar humildade intelectual deveria fazê-los reconhecer algo de tão simples como isto.
Afixado por Bernardo em 16 de agosto de 2005, às 19:40
Meu caro: nada o impede de acreditar que a vida surgiu da forma que muito bem entender. Não deve é disfarçar essa vontade sob as roupagens de uma teoria científica, que obedece, por definição, única e exclusivamente a quão bem resiste à comparação com as observações.
As teorias científicas evoluem quando se encontram observações que por ela não são explicáveis. Quando se começam a acumular muitas observações não explicáveis por determinada teoria, tentar-se-á refinar, melhorar, essa teoria de forma a que a sua versão revista consiga melhor concordância com as observações. Repare que a religião, ideologia ou gostos pessoais do cientista são (devem ser) irrelevantes para a matéria em questão.
Einstein recusou-se até ao fim dos seus dias a admitir a cada vez mais óbvia validade da mecânica quântica, porque, homem religioso, se recusou a abandonar a sua crença num universo que imaginava como um relógio, uma máquina de precisão concebida por um ente superior. Recusou-se a admitir que a um nível fundamental, o mais que conseguíssemos determinar sobre um determinado evento fosse quão provável era que ele acontecesse (quão provável era que um electrão se encontrasse em determinado ponto em torno de um núcleo atómico, por exemplo, ao invés de conseguir dizer com precisão arbitrária onde ele estava). "Deus não joga aos dados", disse. A mecânica quântica deu-nos o transístor, o satélite, o computador, a internet. Você é capaz de refutar que ela é válida?
Feito normalmente reservado a um punhado de génios, alternativamente alguém tem uma ideia brilhante, que explica a realidade de uma forma mais sublime, mais elementar, mais exacta (no sentido de mais conforme às observações).
Pode-se referir como exemplo a teoria da relatividade geral, que pôs fim a uma miríade de tentativas de refinar a mecânica Newtoniana para que esta concordasse com as observações a um nível de precisão muito superior àquele disponível a Newton. Note-se que a teoria da relatividade geral produz as mesmas soluções que a mecânica newtoniana quando estudamos fenómenos que estão dentro de um determinado envelope de condições (por exemplo, a velocidades relativamente baixas, digamos, até 1% da velocidade da luz). A teoria da relatividade simplesmente "alarga" esse envelope, e continua a ser válida em situações mais extremas, como por exemplo a velocidades próximas da da luz. É, no fundo, uma teoria mais abrangente. Dada a sua muito maior simplicidade matemática, e o facto de ser muito mais intuitiva, a mecânica newtoniana continua a ser utilizada em situações em que estamos dentro do tal envelope mais restrito. Mas tergiverso...
Infelizmente para quem crê que num universo desenhado a régua e esquadro, e apesar dos inúmeros avanços e melhoramentos a que a teoria da Evolução tem sido sujeita, os seus princípios fundamentais continuam a formar a base de um corpo de conhecimento que consegue explicar muito bem a realidade observável.
Repare que Darwin apenas se limitou a extrair hipóteses, observando a natureza, que lhe permitissem explicar o que obervava de uma forma congruente, sem ter, por exemplo, a mais leve suspeita da existência do ADN e da biologia molecular. Muitas décadas mais tarde, estas viriam a ser descobertas e viriam a mostrar ainda mais convincentemente a genialidade e a aplicabilidade das ideias de Darwin.
Infelizmente para os criacionistas, quanto mais esgravatamos, mais concluímos que Darwin tinha razão. Se discorda, tudo bem, está ao seu alcance destronar o Evolucionismo como teoria explicativa da origem e diversidade da vida. Simplesmente tem que convencer as pessoas formulando uma teoria que melhor explique a realidade, e não apenas... "porque sim".
Afixado por Holandês Voador em 23 de agosto de 2005, às 14:59
Caro Holandês Voador,
«Meu caro: nada o impede de acreditar que a vida surgiu da forma que muito bem entender.»
Fico grato pela sua tolerância, uma característica rara nos nossos dias.
«Não deve é disfarçar essa vontade sob as roupagens de uma teoria científica, que obedece, por definição, única e exclusivamente a quão bem resiste à comparação com as observações.»
Penso, o que não me espanta, existir aqui um grave equívoco da sua parte, que poderá ter resultado do facto de não ter lido esta parte do meu texto, ou de a ter interpretado mal:
"Para terminar, uma ideia fundamental: o criacionismo é uma tese que não pode ser tratada pelas ferramentas da ciência moderna. É esta uma das razões principais para o aprofundar de toda esta incompreensão. Pelo facto de recorrer a causas metafísicas, e portanto supra-empíricas, o criacionismo é sobretudo uma corrente filosófica. O criacionismo estabelece uma causa sobrenatural para efeitos naturais. O evolucionismo, pelo contrário, e também legitimamente, procura essa mesma causa na própria natureza."
Como vê, é dito claramente que eu considero que o criacionismo não é uma teoria regida pelos ditames da ciência moderna.
Por isso, estamos de acordo neste ponto, e por isso a sua objecção não faz sentido.
«As teorias científicas evoluem quando se encontram observações que por ela não são explicáveis. Quando se começam a acumular muitas observações não explicáveis por determinada teoria, tentar-se-á refinar, melhorar, essa teoria de forma a que a sua versão revista consiga melhor concordância com as observações.»
De acordo.
«Repare que a religião, ideologia ou gostos pessoais do cientista são (devem ser) irrelevantes para a matéria em questão.»
Sim, de acordo. Essa seria a situação ideal, mas nem sempre possível.
«A mecânica quântica deu-nos o transístor, o satélite, o computador, a internet. Você é capaz de refutar que ela é válida?»
Nunca disse que não o era.
Pedia-lhe, por favor, um mínimo de objectividade, que poderia começar por tentar ser preciso nas suas objecções, uma vez que até agora apenas levantou falsas objecções.
Nem me coloco do lado de Einstein nem do lado dos físicos quânticos, uma vez que nessa complexa questão eu entendo que ambos os lados têm uma certa razão, e dentro de certos pontos de vista. Desenvolver aqui e agora esta ideia tornar-se-ia demasiado longo. Talvez noutra ocasião.
«Pode-se referir como exemplo a teoria da relatividade geral, que pôs fim a uma miríade de tentativas de refinar a mecânica Newtoniana para que esta concordasse com as observações a um nível de precisão muito superior àquele disponível a Newton.»
Sim, mas essa mesma teoria já está, há muito, sujeita a novas dificuldades.
«Note-se que a teoria da relatividade geral produz as mesmas soluções que a mecânica newtoniana quando estudamos fenómenos que estão dentro de um determinado envelope de condições (por exemplo, a velocidades relativamente
baixas, digamos, até 1% da velocidade da luz).»
Agradeço as suas precisões, que no entanto não são novidade para mim. E continuo sem perceber se esta parte do texto é outra objecção ao que escrevi.
«Infelizmente para quem crê que num universo desenhado a régua e esquadro, e apesar dos inúmeros avanços e melhoramentos a que a teoria da Evolução tem sido sujeita, os seus princípios fundamentais continuam a formar a base de um corpo de conhecimento que consegue explicar muito bem a realidade observável.»
Totalmente de acordo.
Contudo, e aqui é que me parece nascer a confusão, eu não me satisfaço com isso: não me satisfaço com uma explicação do observável. Este post, e as minhas opiniões, têm alcance filosófico e metafísico. Assim, o texto que escrevi possui um contexto que claramente extravasa o domínico científico moderno.
«Repare que Darwin apenas se limitou a extrair hipóteses, observando a natureza, que lhe permitissem explicar o que obervava de uma forma congruente, sem ter, por exemplo, a mais leve suspeita da existência do ADN e da biologia molecular. Muitas décadas mais tarde, estas viriam a ser descobertas e viriam a mostrar ainda mais convincentemente a genialidade e a aplicabilidade das ideias de Darwin.»
Não tiro a Darwin o talento de dedução teórica. Contudo, recuso-me (o bom senso a isso obriga) a crer no darwinismo como um dogma. E nesse sentido, pergunto-me, filosoficamente, se as teorioas darwinianas são apenas uma possível explicação, ou se correspodem a algo de ontologicamente real.
«Infelizmente para os criacionistas, quanto mais esgravatamos, mais concluímos que Darwin tinha razão.»
Não percebo porque é que diz "infelizmente". Sou criacionista, já o disse, e no entanto isso não me demite da busca pela Verdade. Há um toldar do raciocínio por parte de certos evolucionistas: porque é que suporia que eu me demito da busca pela Verdade só porque concebo um Deus Criador?
É, PRECISAMENTE, pelo facto de buscar, incessantemente, a Verdade é que estou aqui a discutir. Tudo o que os evolucionistas me puderem mostrar de verdadeiro será, imeditamente, assimilado por mim como verdadeiro, uma vez que só me interessa a Verdade, e nada mais do que a Verdade.
Há, nos evolucionistas, como em muita da Ciência moderna, uma vontade indómita em cortar o transcendente, em dizer-nos: "Vá, larguem lá o vosso Deus porque tudo se explica sem ele". E por essa estrada, meu caro, não seguirei. Tenho a minha capacidade de raciocínio em boa estima e não costumo escolher atalhos limitadores.
«Se discorda, tudo bem, está ao seu alcance destronar o Evolucionismo como teoria explicativa da origem e diversidade da vida.»
Penso que, em certa medida, é possível fazê-lo. Mas quero fazê-lo num terreno supra-empírico. Num terreno que se poderia chamar de filosófico. Não me interessa defender outra teoria científica alternativa ao evolucionismo. Interessa-me retirar do evolucionismo o que ele poder ter de correcto, e obter uma ideia abrangente e o mais completa possível do que somos, do Mundo em que vivemos, e de Quem nos colocou aqui.
«Simplesmente tem que convencer as pessoas formulando uma teoria que melhor explique a realidade, e não apenas... "porque sim".»
Há argumentação no meu texto. Se reparar, dizer "porque sim" não vale de nada. Não é argumento, eu não o fiz. Continuo perplexo ao constatar que, mais uma vez, surgem de todo o lado uma míriade de críticos aos meus textos que, ao invés de procurarem objecções concretas, dizem que discordam de coisas que não escrevi e que objectam pressupostos que não defendi.
Caro Holandês Voador, o seu comentário mais parece um navio fantasma. Onde estão as críticas ao meu texto?
Afixado por Bernardo em 23 de agosto de 2005, às 15:55
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Afixado por annanda girard em 22 de setembro de 2005, às 23:37
