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outubro 26, 2005
Copos cheios, e outras coisas
Morreu na segunda-feira Rosa Luise Parks , a afro-americana que, em 1955, ganhou um lugar na história ao recusar ceder o seu lugar num autocarro a um branco. Rosa Parks estava sentada na secção ‘negroes’, mas perante um branco que não tinha lugar na ‘sua’ secção, o motorista do autocarro ordenou a 4 (quatro! O senhor precisava de espaço...) pessoas sentadas na ‘negroe section’ que se levantassem. Rosa Parks foi a única que não se levantou. Por causa disso, foi imediatamente presa, julgada e condenada por desobediência e incumprimento da lei. Este acto solitário acabou por ser a pedra de toque para a declaração de inconstitucionalidade da lei que decretava o segregacionismo em autocarros pelo Supremo Tribunal dos E.U.A. em 1956.
Foi só há cinquenta anos, no país das oportunidades e da liberdade e justiça para todos.
Foi ‘só’ uma pessoa que recusou levantar-se para dar o lugar a outra no autocarro.
Foi um acto de coragem, ninguém o pode negar – o tipo de coragem que se manifesta no dia em que o copo finalmente se enche.
Mas não tenhamos ilusões. O acto de coragem, apesar de corajoso em si, só teve as repercussões que teve porque aconteceu na altura certa. Porque muita gente tinha o copo quase cheio.
Pouco tempo antes, uma outra mulher tinha feito o mesmo, e tinha também sido presa e julgada. Mas tinha 15 anos, e estava grávida. Este facto fazia dela um ‘símbolo inadequado’ para a causa da NAACP. O próprio Martin Luther King fez a comparação entre este caso e o de Rosa Parks com as seguintes palavras: "Mrs. Parks, on the other hand, was regarded as one of the finest citizens of Montgomery -- not one of the finest Negro citizens -- but one of the finest citizens of Montgomery."
Revelador, não?
O que só serve para podermos dizer que até os mais livres pensadores têm preconceitos. Todos os temos, não podemos fugir deles, são-nos incutidos pela sociedade em que vivemos. Há-de haver um dia em que uma pessoa se revolta contra um deles. Hão-de haver outros dias em que mais pessoas acordam. Há-de haver um dia em que haverá uma inversão das maiorias, e o preconceito começará a morrer.
E assim, talvez um dia, um por um, nos livremos de todos eles.
E para dizer também que muitas vezes, a maior parte das vezes, um acto de coragem solitário não passa disso, de um solitário acto de coragem – por isso, apenas isso, merece ser reconhecido e apreciado. Só numa pequena, ínfima percentagem das vezes, esse acto solitário se tornará num símbolo e numa bandeira. É tudo uma questão de timing.
E nem sei muito bem se esta realização nos deve dar esperança ou nos deixar desencorajados. Provavelmente ambos. Provavelmente apenas aliviados e um pouco amedrontados, por percebermos que o peso da responsabilidade individual se torna, em certa medida, colectivo.
Afixado por M. Butterfly em 26 de outubro de 2005, às 11:12
Afixadelas
Bravo!
Que história fantástica!
Não a conhecia...
Afixado por Bernardo em 26 de outubro de 2005, às 11:43
Belo Post M.
Um mero desabafo, confesso que a expressão afro-americano me causa uma certa urticária, mas promovendo a não discriminação, e seguindo a mesma lógica, o mais adequado será considerar que ela recusou ceder o lugar a um euro-americano, certo ? A terminologia do politicamente correcto propicia resultados espertos como este.
Afixado por Jon em 26 de outubro de 2005, às 13:02
Obrigada, Bernardo. Eu também não, até hoje...
Pois Jon, confesso que também não é das minhas preferidas, precisamente por causa daquilo que dizes - mas também porque mistura conceitos diferentes, o de raça e o de origem geográfica. Mas por vezes as palavras são limitadas, e confesso que não conhecendo uma melhor - que exprima raça sem ser racista - utilizei a expressão que estava na fonte da minha história. Às vezes o politicamente correcto é difícil de contornar.
Se alguém conhecer uma melhor, pode partilhar... Gostava imenso de poder utiliza-la no futuro.
Afixado por M. em 26 de outubro de 2005, às 13:45
Enfim de volta! Sempre um primor, querida M.
os afro-qualquer coisa que conheço falam de si como pretos. ou africanos. o politicamente correcto funciona como descriminação positiva, não acham? mas neste tipo de texto torna-se incontornável, como dizes.
Afixado por susana em 26 de outubro de 2005, às 20:10
Excelente post, M.! Eu conhecia a história, mais ou menos completa e não me lembrei de a relacionar com a opinião do Martin Luther King, que dá toda uma dimensão aos diversos preconceitos em causa.
Pois é, o afro-americano usa-se à falta de melhor. Dizer um negro americano ? Mas a verdade é que não se diz um branco americano. E os americanos a sério seriam os índios, não é?
Afixado por ML em 26 de outubro de 2005, às 23:17
É bom estar de volta, Susana, obrigada... vamos lá ver se consigo mantar um pouco de ritmo nisto. : )
Querida ML, que bom ler-te!! Achei que era uma história fantástica, tinha de ser partilhada.
Quanto ao assunto da nomenclatura... Esta coisa de não bastar ser a mulher de César, mas ter de perecê-lo é complicadíssima, e geralmente implica o problema das palavras que se escolhem...
Acho que vou investigar o assunto com uns amigos meus, e se descobrir alguma coisa, partilho convosco.
Afixado por M. em 27 de outubro de 2005, às 09:31
"Ter de perecê-lo"? A quem, a César? Tu quoque, M, fili mi?
Afixado por Monty em 27 de outubro de 2005, às 15:46
Não conheces o ditado, Monty?
Quer dizer que não basta ser uma coisa, tens de dar essa aparência. Por exemplo, podes não ser racista, mas isso não basta... Tens de não o ser de forma aparente (o que inclui um certo cuidado na escolha das palavras), sob pena de os outros te julgarem algo que não és...
Hummm...
Isto fez sentido?
Afixado por M. em 28 de outubro de 2005, às 14:03
Ó amiga minha, eu conheço o ditado. ;)
Mas lê lá bem o que escreveste e o que eu escrevi. Estou a brincar com gralha!
Afixado por Monty em 28 de outubro de 2005, às 17:00
: )
Eu também, meu pai...
Afixado por M. em 2 de novembro de 2005, às 14:24
