« William Henry, the Third | Entrada | Parabéns, rapazes! »

outubro 28, 2005

Ética e Política

Vinha agora no carro a ouvir o Louçã a ser entrevistado na rádio sobre a eterna questão do aborto.
Pego nele mas poderia pegar noutro político qualquer. Haverá algum político que ainda seja da opinião que a ética precede a política?
Se assim fosse, como seria possível Louçã, e todos os outros, falarem exclusivamente de política quando a matéria em discussão extravasa largamente esse âmbito para entrar na ética?
Ouvimos Louçã e é sempre o mesmo disco: pode-se espremer o seu discurso vago e oco em uma só ideia:
"Em Portugal há um atraso cultural e civilizacional".
Para Louçã, a questão do aborto é quase uma questão de higiene. Para ele, Portugal está atrasado "em relação aos outros países". É sempre esta a tónica oca: "os outros países".
Poderíamos pensar, ingenuamente, que os políticos, quando deparados com problemáticas do foro ético, recorreriam aos especialistas em ética, pensariam de modo filosófico ou socorrer-se-iam de pessoas com competência nessas áreas. Esperava-se um amplo debate ético e filosófico sobre as implicações do aborto.
Notem bem: sendo eu católico ainda nem sequer usei uma só palavra ou um só argumento religioso. Não preciso!
É isso que é espantoso!
O que se esperaria era que o debate ético precedesse o debate político.
Mas isso não acontece.
O aborto, para estes senhores que representam a classe política hodierna, é mero factor de distinção entre progresso e retrocesso civilizacional:

País com aborto legal = país evoluído
País sem aborto legal = país atrasado

E pronto!
Está feita a política!

Aqui entre nós, devo ser franco: sendo eu anti-abortista, não tenho qualquer esperança depositada na vitória das minhas convicções. Quando se votou no último referendo, os do "não ao aborto" cantaram vitória, mas já cheirava a derrota, porque era tudo uma questão de tempo.
Uma questão de tempo...
Não tenho quaisquer dúvidas de que basta esperar uma década, talvez um pouco menos, talvez um pouco mais, para termos aborto legal, com limites muito menos duros que os actuais, eutanásia legal, controlo quase liberalizado (graças às pressões do mercado e dos fazedores de opinião da praxe) de material genético humano, entre outras coisas boas da nossa avançada civilização tecnológica.
Sou catastrófico?
Porquê?
Então, todas estas coisas que eu referi são boas ou não?
São ou não são avanços civilizacionais?
São ou não são vitórias dos direitos humanos?
Ironia à parte, eu estou seguro de uma coisa: nesta civilização em decadência (minha opinião), o declive da ética é descendente. Vimos suceder o mesmo no Império Romano. A civilização moderna está em decadência e a pouca importância que se dá à ética e à filosofia espelha-se em todos os sectores da actividade intelectual.
Mas por todo o lado, com estas pequenas "vitórias" anti-éticas que se aproximam e que acabam por chegar e por se estabelecer, o grande glutão da degradação vai-se enchendo, rodeado pelas nossas "elites" intelectuais que vão aplaudindo o espectáculo.
Podiam era ter mais vergonha.
Louçã, e os outros, poderiam tentar usar argumentos éticos sérios para o aborto (que os há, se bem que eu julgo que podem ser contestados e mesmo refutados ao nível filosófico), em vez de recorrerem ao gasto argumento do "parque infantil":
"os outros meninos já vão lá à frente e nós temos que correr mais depressa para os apanhar".

Afixado por Bernardo Motta em 28 de outubro de 2005, às 09:50

Afixadelas

Olá, Bernardo.
Em primeiro lugar, goza bem este dia especial, transcendente, indescritível , que eu ontem já fiz o mesmo. O nosso nascimento deveria ser sempre um motivo de regozijo, de loas, de louvores. E é pena não se reflectir muito nisso, ou antes, só fazê-lo episodicamente quando, como no meu caso, o número é redondo.
Quanto ao teu post, a minha atitude é muito simples: há frequentemente um conflito de interesses entre duas coisas: a gravidez e a gestação. E os conflitos de interesse não podem ser resolvidos apenas por uma das partes interessadas, ou vendo apenas a perspectiva desta. Não é uma questão de "alguém ter razão", mas de um conflito de interesses.
Além disso, quem afirma "mandar na barriga" presume-se que também deveria mandar em outras partes do corpo, com idêntico sentido de determinação, autonomia e responsabilidade.
Quem reduz a IVG a um caso político deveria ainda mais ter esta noção, já que não procederia assim num caso de ajustamento de salários ou negociação laboral...
Abraços
Mário

Afixado por Mário Cordeiro em 28 de outubro de 2005, às 10:23

Caro Mário,

Muitos parabéns atrasados!! Eu esqueço-me sempre que é um dia antes de mim!
Pois é...
O tema do post dá pano para mangas, como todos sabemos. Precisamente porque não há respostas "trigo limpo" para esta situação é que se deveria promover a realização de debates éticos e filosóficos. Não se pode, é verdade, ser reducionista à mãe ou ao feto. O que me choca é que há uma enorme riqueza de pontos de vista e de argumentos, tanto de um lado como do outro, argumentos esses que NUNCA são considerados. Não se vê ninguém a defender, FILOSOFICAMENTE, o aborto, ou a condenar FILOSOFICAMENTE o aborto. É um terreno onde vivem apenas os especialistas no mais espantoso anonimato!
O que assistimos é triste e perverso: vamos, provavelmente (à parte das infindáveis questões parlamentares) acabar por chamar o povo a decidir sobre uma questão que não foi nem pensada nem debatida. Nem pelos políticos nem pelo povo votante!
Por isso é que eu falo em retrocesso cultural e civilizacional. Ninguém se dá conta do óbvio:

1. Para votar de forma bem fundamentada, é preciso ter uma opinião bem fundamentada
2. Para ter uma opinião bem fundamentada, é preciso procurar a informação bem fundamentada, que vem dos especialistas sobre a matéria
3. Os políticos não consultam os especialistas sobre a matéria e exercem a sua profissão em total autismo ético: vagueiam ao sabor dos seus impulsos, das conveniências, dos programas ideolígicos, e das suas convicções pessoais; por isso, não pode sair informação bem fundamentada da boca de nenhum político
4. O povo que ouve os políticos, e que normalmente não tem acesso aos especialistas, não pode obter informação bem fundamentada
5. Logo, o povo não pode votar de forma bem fundamentada.

Não vejo solução!
Se existir referendo, uma gigantesca massa de votantes vai colocar a cruz na opção que mais lhe diz às suas convicções pessoais. É isto democracia!
Pois é, é o povo quem decide!
Mas vota sobre uma matéria com fortíssimas implicações no foro ético e filosófico: os votantes não conhecem as matérias em questão e não vão ser informados.
Qual é a lógica de uma gigantesca multidão de votos mal informados?
Caixotes e caixotes de boletins de votos preenchidos ao sabor dos sentimentos e das emoções pessoais de cada um!
Onde está a racionalidade?
A decisão ponderada intelectualmente?
A certeza de se tomar a melhor opção ética ou filosófica?
Em bom rigor, este é o mal de se referendar: dá-se demasiado poder a quem não está informado nem tem competência para decidir. Contudo, e isto é particularmente grave, esta é uma matéria ética, com profundas implicações civilizacionais.
Eu gostava de "ir à guerra", ou seja, poder debater argumentos a alto nível, poder contestar, por exemplo, as ideias de um Peter Singer sobre a ética do aborto. Como chegar aí?
Estamos afogados até ao pescoço em pseudo-argumentos populistas, primários, provincianos e demagógicos.
Sinceramente, é uma situação desesperante...
Mas enfim, faço anos, e não é dia para este tipo de sentimentos.
Mais uma vez, um abraço por ontem, Mário!!

Afixado por Bernardo em 28 de outubro de 2005, às 10:41

Tenho "beyond reasonable doubts" de que as pessoas saibam o que são dez semanas de gestação e o que isso pode ou não implicar.
Os que forem votar, vão fazê-lo por convicções religiosas, por critérios políticos e por experiências pessoais (num e noutro sentido).
O resto nunca será discutido, entre Zézinhos e Barrigas que devoram o tempo de antena.
Aliás, mais valia quem tem o poder de decidir ter decidido, em vez desta cegada do referenda mas não referenda. Um molho de bróculos que someçou, sejamos justos, com um senhor chamado António Guterres.

Afixado por Mário Cordeiro em 28 de outubro de 2005, às 13:56

Bernardo, antes de mais, PARABÉNS!!!
E olha, comecei a comentar este teu post, mas a coisa ia tão longa, e eu acho o assunto tão importante, que acabei por escrever um post...
Está lá um bocadinho mais acima. : )

Afixado por M. em 28 de outubro de 2005, às 14:05

M.,

Já li e vou agora comentar!!

Afixado por Bernardo em 28 de outubro de 2005, às 14:21

O país é assim há muito tempo. É o país dos "inhos" e "inhas": arranjinhos, mentirinhas, improvisos e, sobretudo, muito pouco estudo sério das questões. Isto é muito visível em situaçãoes bem triviais.
Se quiserem dar uma olhada.

Afixado por cls em 28 de outubro de 2005, às 18:56

Afixe o seu comentário

Se porventura o seu comentário for apagado, não estranhe. Por certo, continha algum dito ou observação de carácter medíocre ou intolerante. E mediocridades ou intolerâncias, como toda a gente já vai sabendo, não são permitidas no Afixe. É censura? Se estiver a pensar em censura como acto de condenação, crítica, reprovação, repreensão ou admoestação pelo baixo nível da observação em questão, então, sim: é censura! Ah, e outra coisa: se quiser publicidade, pague-a! De preferência, contacte a equipa da weblog.com.pt, que bem precisa de patrocinadores. Uma última chamada de atenção: apesar de tentarmos controlar o nível dos comentários, alguns podem passar impunes (temos vidas para além disto), pelo que, por cautela, se refere: todos os comentários aqui afixados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores! Atentamente, a gerência.




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)

BlogRating online