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outubro 21, 2005
Secularismo, tradicionalismo e modernidade
É já um lugar comum afirmar que as religiões, na cultura moderna, estão em erosão. Um processo acelerado, que muitos tentam minimizar ou ignorar, provocado pelo pior lado de um secularismo com segundas intenções.
No mundo ocidental moderno, o catolicismo vive uma profunda crise cuja principal causa não consigo dissociar desse secularismo dissolvente que age sobre a nossa sociedade há mais de um século.
A grande questão social, para o futuro, jaz neste confronto entre uma cultura secularizada, "moderna" e em ascensão, e uma cultura tradicionalista em declínio. Esse confronto está já quase vencido no Ocidente, onde os católicos estão, a pouco e pouco, a deixar-se seduzir pelo fascínio inebriante das ideias ditas "modernas".
Os católicos modernos (e generalizo, porque são cada vez mais uma maioria) vivem uma fé à la carte, retirando do catolicismo aquilo que gostam e recusando aquilo que não lhes convém (aquilo que não é bem visto pelos dogmas secularizantes). Não vivem um catolicismo, mas sim uma certa catolicidade. Falando em termos mais gerais do cristianismo, há cada vez menos "cristãos" e cada vez mais "cristófilos", ou seja, pessoas que gostam da figura de Cristo e que o vêem como um bom homem e líder, mas que retêm dos seus ensinamentos apenas algumas vagas directrizes éticas, rejeitando practicamente a crença na sua divindade, deitando assim pela borda fora a quase totalidade de 2.000 anos de herança cristã.
Mas não é apenas o catolicismo que está a mudar fortemente: não falo apenas de um fenómeno estritamente ocidental. Procuremos o taoísmo no Oriente, sobretudo junto das grandes cidades industrializadas e "modernas"... Onde está ele? Está em declínio. Vejamos o caso paradigmático do Japão... Após a derrota na Segunda Guerra Mundial, o tradicionalismo da sociedade japonesa entrou em extinção. Onde está hoje o bushido? Jaz soterrado sob a electrónica de consumo. Ou seja, o Japão "modernizou-se"!
E o que encontramos a combater esta situação?
Encontramos hoje em dia, sobretudo, o Islão, religião expansionista, que ainda mantém em larga medida a essência do ser tradicional e que deste modo desafia abertamente o mundo moderno.
O Islão é uma ameaça?
Será certamente uma ameaça, no sentido em que é sedutor e que tem um poder inegável para fascinar o ser humano (há mais de mil milhões de muçulmanos no Mundo).
Por outro lado, o Islão pode bem servir um propósito mais nobre: ser o contra-poder tradicionalista de um mundo em acelerada secularização.
Temo ser mal interpretado... Não estou a promover a submissão do mundo ao Islão!
Contudo, vejo que os crentes que vivem num mundo secularizado e moderno têm grandes dificuldades em se libertarem dos dogmas modernos, dogmas estes que são incompatíveis com as religiões que professam. Todo o viver de uma religião está condicionado por uma revelação que se crê divina. Ora qualquer revelatum, concebido divino na sua essência (e não necessariamente na sua forma), tem que ter o crivo da eternidade. A "revelação de Deus" não passa de moda! As ilacções que um crente retira de uma mensagem que ele crê revelada não são temporárias ou subordinadas ao tempo ou ao espaço.
Eis algo que causa estupefacção nas mentes modernas: "então a religião não evolui?".
Talvez na forma, mas não na essência!
O homem moderno vive preso a um sonho utópico não provado, não demonstrado e não verificável, o de que a socidedade, a "moderna", está em permanente evolução, ou progresso. É a antítese do pensar tradicional, que concebe uma "idade de ouro", um tempo paradisíaco recuado, seguido por uma progressiva degeneração desde então. Vejamos o exemplo das Idades no mundo clássico: a Idade de Ouro está no início e a do Ferro no final!
Com isto estamos, julgo eu, no cerne do conflito entre tradicionalismo e modernismo: o primeiro baseia-se em verdades perenes, aceites por fé (sem exclusão de intelectualidade); o segundo baseia-se num dogma moderno, o do progresso (ou evolução) permanente da sociedade, inventado para desculpabilizar e legitimar a postura anti-religiosa.
O dogma moderno do progresso obriga-nos a considerar frequentemente o que está para trás como mau. É esta a herança do secularismo e do modernismo. E era este, julgo eu, o grande desejo de alguns dos primeiros secularistas, que também eram frequemente anti-clericais: a religião deve morrer.
Então, porque dizia eu que o Islão nos pode ajudar?
Porque o Islão ainda resiste a estes dogmas modernos e pode mostrar-nos que o ser tradicional ainda tem forças e legitimidade para existir. Citando Akhbar S. Ahmed,
Os críticos ocidentais estão convencidos de que os muçulmanos, uma vez colocados no caminho da democracia (e da modernidade), passarão a ser como «nós» e, tal como acontece em todo o Ocidente, irão acabar por separar o lado religioso do secular na sua vida. Mas os muçulmanos ou são ou não são muçulmanos, não existe meio-termo. Não podem pegar em pedaços do islamismo e continuarem a ser muçulmanos. Se o fizerem, tornam-se algo completamente diferente.- O Islão, Bertrand Editora, Lisboa, 2003.
Peguemos nas últimas frases: os cristãos também não podem pegar em pedaços do cristianismo, recusando outros, e continuarem a ser cristãos. Ao dizer isto, a socideade moderna rotula-me imediatamente (as etiquetas estão sempre prontas a colar, e voltar a colar): sou fanático, fundamentalista. Os cristãos modernos são "tolerantes" sempre que criam o seu próprio cristianismo, uma manta de retalhos escolhida criteriosamente para não colidir com a modernidade e com uma maneira "fresca" e "jovem" de pensar. Como chegámos a este ponto?
Não tenho quaisquer dúvidas de que a origem desta perversão no modo de pensar tem o seu começo num secularismo que eu vejo como potencialmente enganador.
Mas não quero passar a ideia de que vejo o secularismo como mau sob todas as formas, ou todos os seus defensores como pessoas anti-religiosas. É evidente, e verificável, que existem muitos crentes que defendem o secularismo, ou pelo menos, um tipo diferente e não anti-clerical de secularismo.
O secularismo é uma consequência natural dos sistemas democráticos. O modelo eleitoral de sociedade obriga a ponderar os interesses diferentes dos vários votantes, e deste modo, o Estado democrático tem que se separar de toda e qualquer postura religiosa, do mesmo modo que tem que se separar de qualquer outra tomada de partido. O secularismo pode surgir, assim, como uma natural e justa consequência do viver em democracia.
Mas não será o secularismo prático que assistimos nos tempos de hoje um lobo vestido de cordeiro? Por detrás destas causas justas e aparentemente equilibradas, não surgirá um outro lado mais negro do secularismo?
Falo de um secularismo que não permite ser-se religioso na vida pública, que atira o crente para a esfera do privado, que procura activamente riscar liberdades consagradas como a da exibição pública do ser religioso, desde o vestuário à defesa de ideais. A França é pioneira neste tipo perverso de secularismo, mas outras nações seguirão o seu exemplo. Como diz Ahmed, o muçulmano não consegue viver uma dupla vida: cá fora no mundo, é secular, mas em casa é religioso. O cristão também não deveria aceitar isto, mas aceita-o cada vez mais! O resultado está à vista...
É no Islão que têm berço alguns dos piores grupos terroristas modernos?
Certamente que sim, mas são fenómenos minoritários que a comunicação social se encarrega de empolar.
Por muito terrífica e omnipresente que seja a Al-Qaeda, ela não representa o islamismo. É uma muito eficaz quadrilha de assassinos, que manipulam e se servem da religião muçulmana para obterem apoio e eficácia.
Contudo, libertando o Islão da ganga mediática que nos atiram para a cara todos os dias, surge algo de muito diferente... O Islão pode também servir para acordar as consciências dos crentes ocidentais, que vivem mergulhados na secularidade do mundo moderno, para a necessidade de um retorno ao tradicional e ao perene. Ao que não passa de moda.
É natural e razoável, para um crente seguro e consciente do que é, demonstrar publicamente as suas convicções religiosas, e com elas desafiar continuamente todo o viver em sociedade.
Afixado por Bernardo Motta em 21 de outubro de 2005, às 10:00
Afixadelas
Muito interessante, muito interessante.
Afixado por Martins Campos em 21 de outubro de 2005, às 12:06
Caro Martins Campos,
Isso é a sério, ou é irónico?
Desculpe a pergunta, mas o mais normal seria ser irónico!
Afixado por Bernardo em 21 de outubro de 2005, às 13:09
"Como diz Ahmed, o muçulmano não consegue viver uma dupla vida: cá fora no mundo, é secular, mas em casa é religioso. O cristão também não deveria aceitar isto, mas aceita-o cada vez mais! O resultado está à vista..."
Esta diferença tem origem na própria natureza do Islão: esta é uma religião muito pragmática que estabelece regras para todas as esferas da vida quotidiana e fórmulas concretas e rígidas ( muitas vezes bárbaras, a maioria das vezes anacrónicas) para resolver os conflitos familiares e sociais. O Corão é a "sharia", uma espécie de código penal.
A Bíblia, pelo contrário, é mais baseada em ensinamentos morais e interiores...ela não nos diz como proceder judicialmente numa dada situação concreta, apenas oferece directrizes mais gerais e, muitas vezes, metafóricas. No caso do budismo, xintoísmo ou taoísmo a situação é ainda mais visível: são religiões essencialmente filosóficas.
É por isso que é muito mais fácil para um cristão ou um budista ser religioso em casa e secular lá fora, porque não entra em contradição. Não se pode comparar com o islão precisamente por isto.
"É no Islão que têm berço alguns dos piores grupos terroristas modernos?
Certamente que sim, mas são fenómenos minoritários que a comunicação social se encarrega de empolar."
O fanatismo islâmico conta com percentagem significativa de muçulmanos que, embora não sendo maioritários, também não são uma minoria. Dizer que são uma minoria é escapar à raíz do problema. A Palestina é o caso mais extremo: o Hamas tem o apoio de grande parte da população, assim como os actos terroristas. Na Palestina, o islão radical transformou-se numa verdadeira máquina de lavagem cerebral de centenas de milhares de crianças e que conta com a indiferença ou mesmo com o consentimento silencioso das autoridades.
E é preciso lembrar que o anti-semitismo é, mais ou menos explicitamente, a ideologia oficial de estados como a Arábia Saudita ou o Egipto, assim como o ódio ao ocidente é oficial no Irão. O fanatismo islâmico está longe de ser um fenómeno de meia dúzia de psicopatas, ele está implícito nos próprios estados.
"O Islão pode também servir para acordar as consciências dos crentes ocidentais, que vivem mergulhados na secularidade do mundo moderno, para a necessidade de um retorno ao tradicional e ao perene. Ao que não passa de moda."
Sim, a extrema-direita cristã e o fascismo islâmico, quando é para atacar o secularismo, estranhamente andam sempre de mãos dadas... Não é por acaso que João Paulo II declarou que o ayatollah Khomeini era um dos maiores líderes religiosos do mundo, quando toda a gente sabe que o homem foi um louco da pior espécie.
Afixado por Ana A. em 21 de outubro de 2005, às 15:41
Caro Bernardo,
“É já um lugar comum afirmar que as religiões, na cultura moderna, estão em erosão. Um processo acelerado, que muitos tentam minimizar ou ignorar”
Ainda bem que estão a desaparecer. Espero que com o tempo se limitem a referências históricas e nada mais que isso.
“A grande questão social, para o futuro, jaz neste confronto entre uma cultura secularizada, "moderna" e em ascensão, e uma cultura tradicionalista em declínio.”
Este conflito sempre existiu em todas as sociedades. É normal que assim seja. As tradições fazem-se e desaparecem. Para isso basta o tempo.
“Por outro lado, o Islão pode bem servir um propósito mais nobre: ser o contra-poder tradicionalista de um mundo em acelerada secularização.”
Tenha cuidado com o que diz Bernardo. Com isto afirma que mais vale o Islão do que religião nenhuma. Esta afirmação vinda de um católico não fica bem. Se as religiões são inspiradas por uma revelação divina e partindo do princípio que deus não mente, não podemos ter 2 religiões detentoras de 2 Verdades Absolutas. Se o Bernardo é católico então é porque acredita que todas as outras grandes religiões são “gigantes com pés de barro”. No entanto parece afirmar que mais vale o Islão do que religião nenhuma - Mais vale a mentira do que a incerteza.
“Com isto estamos, julgo eu, no cerne do conflito entre tradicionalismo e modernismo: o primeiro baseia-se em verdades perenes, aceites por fé (sem exclusão de intelectualidade); o segundo baseia-se num dogma moderno, o do progresso (ou evolução) permanente da sociedade, inventado para desculpabilizar e legitimar a postura anti-religiosa.”
O progresso não foi inventado para desculpabilizar nada – é uma realidade e faz parte do ser humano olhar para o futuro com esperança. No entanto, tenho de concordar consigo que realmente há (e sempre houve) muita gente que molda os seus princípios em nome dos seus desejos. O que varia normalmente são as desculpas.
Permita-me por fim corrigir-lhe uma incorrecção:
“Vejamos o exemplo das Idades no mundo clássico: a Idade de Ouro está no início e a do Ferro no final!”
No “Mundo Clássico” não há uma idade inicial nem uma idade final. O tempo é um ciclo, quando uma idade acaba, logo outra começa. Terminando a Idade do Ferro… começa a Idade de Ouro.
Afixado por zuja em 21 de outubro de 2005, às 16:36
Cara Ana,
Obrigado pela sua mensagem que enriquece o texto inicial e promove a troca de ideias.
Tentarei comentar sucintamente.
«Esta diferença tem origem na própria natureza do Islão: esta é uma religião muito pragmática que estabelece regras para todas as esferas da vida quotidiana e fórmulas concretas e rígidas ( muitas vezes bárbaras, a maioria das vezes anacrónicas) para resolver os conflitos familiares e sociais. O Corão é a "sharia", uma espécie de código penal.»
Permita-me algumas correcções.
A lei islâmica é, de facto, a "sharia" e tem a sua origem e legitimidade no Corão. Mas a sharia não é o Corão. A sharia é, de facto, um código penal baseado num texto revelado. O cristianismo, é um facto, não possui tal coisa. Contudo, parece-me que essa questão é tangente ao problema do secularismo da forma como eu a pretendi abordar.
A sharia apenas vigora em certos e determinados países islâmicos. Seguramente, a sharia não vigora em pequenas comunidades islâmicas. Não é de menosprezar a quantidade de muçulmanos que não vivem sob regimes islâmicos. Assim, há todo um universo de cultura muçulmana que não convive diariamente com a sharia. E estes muçulmanos, seguramente, não são na sua maioria nem seculares nem secularizados.
Era o que eu pretendia afirmar nesta exposição de ideias sobre secularismo. É possível criticar o secularismo sem apoiar qualquer tipo de "lei religiosa", se é que me faço entender. Foi o que eu procurei fazer. Não preciso de promover a "sharia", nem uma "sharia cristã", para criticar o secularismo e louvar o tradicionalismo islâmico (presente também ele em muçulmanos que não vivem sob a sharia).
Depois, como bem sabe, sendo a sharia baseada no Corão, a adaptação que se fazem às leis é sempre relativamente subjectiva e variante. Nem todos os países islâmicos onde a sharia vigora a aplicam da mesma forma nem com o mesmo rigor. Posto isto, convém não generalizar nem pintar um quadro demasiado negro e irrealista. É o que eu penso. A questão é demasiado complexa para maniqueísmos.
«A Bíblia, pelo contrário, é mais baseada em ensinamentos morais e interiores...ela não nos diz como proceder judicialmente numa dada situação concreta, apenas oferece directrizes mais gerais e, muitas vezes, metafóricas.»
É porque a cara amiga não está a ter presente certos livros veterotestamentários ou mesmo as cartas de S. Paulo. O livro dos Números, por exemplo, está repleto de normas e preceitos sociais. A literatura epistolar de S. Paulo está também ela repleta de indicações de cariz social. O cristianismo não é uma "filosofia interna", e quando surge, surge para se aplicar em todas as áreas da vida humana. O que não obriga a que Cristo seja César! É Cristo quem diz "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Mais uma vez, esta sua afirmação parece-me uma generalização incorrecta.
«No caso do budismo, xintoísmo ou taoísmo a situação é ainda mais visível: são religiões essencialmente filosóficas.»
Sim, é um facto, mas não esqueçamos que, no caso do taoísmo, a complementaridade deste com o confucianismo (esta sim uma doutrina social) é um facto inegável, apesar da conturbada história de controvérsia entre as duas doutrinas. No Japão, o bushido é um código de conduta com largo espectro social, e está bem longe de consistir apenas em vagos preceitos morais ou interiores.
«É por isso que é muito mais fácil para um cristão ou um budista ser religioso em casa e secular lá fora, porque não entra em contradição.»
Não há postura secular no budismo, pelo menos na acepção que eu dei à palavra!
É evidente que no Budismo se distingue a "sangha" (comunidade de monjes e/ou monjas) da sociedade leiga. Mas quem é budista, monje ou não, vive segundo os preceitos do budismo e aplica-os quotidianamente sem qualquer disrupção. Contudo, no homem ocidental, a disrupção tornou-se bem visível!
Depois, discordo totalmente que use a palavra "contradição". Sou cristão e não tenho qualquer problema em aplicar os meus princípios à vida quotidiana. Se entrar em contradição com o mundo, não tenho qualquer dúvida sobre quem está errado: é o mundo e não a doutrina que professo. É o que deve fazer qualquer pessoa que professe uma doutrina transcendental, porque é essa mesmo a natureza de uma doutrina deste tipo: transcende as meras condicionantes sociais, e extravasando-as, ao mesmo tempo, permite aplicações a qualquer aspecto da sociedade. Jesus não nos deixou uma lei social mas deixou-nos uma doutrinal social que nos permite deliberar sobre questões sociais e legais. Vejamos isto: a ausência de sharia no cristianismo não permite neutralidade moral do cristão perante a sociedade! Contudo, Cristo deixou ao cristão as ferramentas de doutrina para ele poder viver no mundo e com o mundo. O conceito de uma religião "interior" é falso e não faz grande sentido! O homem religioso nasce neste mundo e pertence a ele!
Fechar as religiões "em casa" é uma boa estratégia de quem não gosta delas, mas afirmar que certas ou determinadas religiões ficam melhor "em casa" do que outras é profundamente errado.
«Não se pode comparar com o islão precisamente por isto.»
Claro que se pode comparar, desde que se saiba do que se está a falar. Por acaso, não tive o cuidado de explicitar o que pensava sobre a sharia e o secularismo. Mas reafirmo-o: a sharia, sendo uma lei religiosa, invalida "ipso facto" a secularidade de um Estado. Por outro lado, uma comunidade islâmica não sujeita a uma sharia pode, e deve, combater esse lado mau do secularismo que visa esconder os crentes em casa como se fossem fósseis de uma forma velha de estar na vida! Isso é intolerável!
«O fanatismo islâmico conta com percentagem significativa de muçulmanos que, embora não sendo maioritários, também não são uma minoria. Dizer que são uma minoria é escapar à raíz do problema.»
Concordo que as minhas palavras não foram as melhores. O exemplo que dá do Hamas é bem claro.
«E é preciso lembrar que o anti-semitismo é, mais ou menos explicitamente, a ideologia oficial de estados como a Arábia Saudita ou o Egipto, assim como o ódio ao ocidente é oficial no Irão.»
A expressão anti-semitismo é sempre perigosa. Semitas são uma série de povos na região, e não apenas os judeus. Se quer dizer "anti-judaismo" está a referir-se à oposição aos crentes judeus. Se disser "anti-israelitas", está a falar das pessoas que são inimigas dos habitantes do Estado de Israel. Isto é complexo! O ódio de muitos no Egipto aos israelitas tem razões políticas, com um longo passado e historial de quezílias territoriais. A religião, como sempre, quando adulterada, é um bom utensílio para manipular as vontades populares. Não vamos buscar anti-semitismo ao Corão que ele não está lá. O conceito de anti-semitismo é muito complexo, e a própria palavra tem significados diferentes consoante a época histórica e o contexto social em que se fala dela.
«O fanatismo islâmico está longe de ser um fenómeno de meia dúzia de psicopatas, ele está implícito nos próprios estados.»
Depende dos estados.
«Sim, a extrema-direita cristã e o fascismo islâmico, quando é para atacar o secularismo, estranhamente andam sempre de mãos dadas...»
Pedia-lhe, de novo, algum cuidado nas palavras. A expressão "fascismo islâmico" é fortemente inadequada. "Fascismo" é o nome técnico dado a uma corrente política que existiu em Itália durante o século XX. O que entende por fascismo islâmico? Eu vejo onde quer chegar, mas temos que ter mais rigor nas palavras sob pena de não nos fazermos compreender!
Talvez queira dizer "conservadorismo islâmico"?
Ou quer dizer "fanatismo islâmico"?
No primeiro caso, na minha opinião, porque sou conservador, compreendo bem quem, noutras culturas, é conservador como eu.
No segundo caso, o do fanático, eu não me insiro. O fanático é aquele que julga que os fins justificam os meios, é aquele que adquire uma fé cega, e impiedosa porque cega. O fanático é o inimigo maior da religião, muito mais do que o anti-clerical.
Depois, pareceu-me notar que me conota com a "extrema-direita cristã".
Se não for esse o caso, o que vou dizer a seguir não se aplica. Mas se for esse o caso, deixe-me protestar violentamente contra a sua insinuação!
É outra mania teimosamente "moderna" e secular esta de pensar que todos os homens apenas se movem por razões políticas (ou financeiras). Aquilo que aqui escrevi, e que a minha cara Ana leu, foi escrito por uma pessoa totalmente desprovida de ambições ou "paixões" políticas. Não estou filiado em nenhum partido, afirmo categoricamente que não me revejo em nenhum (se bem que me posso rever nesta ou naquela pessoa deste ou daquele partido, mas nos dias que correm são cada vez mais raros os exemplos a seguir), e a política não faz parte dos meus temas favoritos. O que aqui afirmo tem consequências políticas, mas não quero extrair ilacções a esse nível. Se quiser a minha opinião pessoal, abomino todo e qualquer partido de extrema-direita. Não lhes reconheço qualquer valor intelectual.
Se quiser chamar estas ideias de "cristianismo conservador", esteja à vontade. Identifico-me nesta etiqueta. Se as chamar de "cristianismo fanático" ou "cristianismo fascista" ou "cristianismo da extrema-direita", fique certa de que protestarei veementemente.
Estas últimas são calúnias.
«Não é por acaso que João Paulo II declarou que o ayatollah Khomeini era um dos maiores líderes religiosos do mundo, quando toda a gente sabe que o homem foi um louco da pior espécie.»
Já agora, de onde retirou essa afirmação e em que contexto foi proferida? Se descobrisse uma citação fidedigna seria o ideal.
Cumprimentos,
Bernardo
PS: Apesar da minha forte discordância, não tome este comentário como um protesto pela sua participação. Todas são bem-vindas, mas que ninguém conte com o meu silêncio...
Afixado por Bernardo em 21 de outubro de 2005, às 16:53
Zuja, zuja, sempre atenta ao que eu escrevo!
Obrigado pela atenção, sinceramente! ;)
«Ainda bem que estão a desaparecer. Espero que com o tempo se limitem a referências históricas e nada mais que isso.»
Ainda bem que esse teu sonho não passa disso mesmo: um sonho! ;)
«Este conflito sempre existiu em todas as sociedades. É normal que assim seja. As tradições fazem-se e desaparecem. Para isso basta o tempo.»
A forma humana, a "casca" das várias tradições sofre, de facto, com o tempo. Eu não diria que aparece ou desaparece. Eu diria que se transforma continuamente: a forma e não a essência!
Do ponto de vista divino, o tempo, pouco importa. É relativo. O tempo apenas influencia a esfera do corpóreo. A Revelação, ocorrida neste ou naquele instante temporal, pode parecer fugaz para os homens. Para Deus é acto instantâneo de uma vontade que nos ultrapassa. É por isso que a essência da revelação, tendo carácter transcendente, é perene.
«Tenha cuidado com o que diz Bernardo. Com isto afirma que mais vale o Islão do que religião nenhuma.»
Não foi isso o que eu disse! Tem piada... Eu disse que temia ser mal interpretado. Já sabia! Ora cá está a prova de que há sempre alguém à coca de coisas para implicar... Zuja, Zuja, é isso justo!?
Ora lê mais adiante, se fazes favor...
«Esta afirmação vinda de um católico não fica bem. Se as religiões são inspiradas por uma revelação divina e partindo do princípio que deus não mente, não podemos ter 2 religiões detentoras de 2 Verdades Absolutas.»
Uma verdadeira religião é sempre o plasmar no universo humano de uma revelação divina, desejada por Deus. A revelação, na sua essência, não muda porque vem de Deus. Contudo, a forma da revelação pode ser diferente consoante o tempo e o lugar. Mesmo no cristianismo, a revelação tem vários tempos, algumas formas surgem através da Antiga Aliança, outras através da Nova Aliança. Algumas exclusivamente ao povo hebreu, outras a toda a Humanidade. Cuidado com as palavras, amiga Zuja. Este terreno é complexo e convém meditar séria e honestamente nele. Se a minha amiga partilha de uma vontade indómita pelo fim das religiões, não me parece estar em serenidade intelectual para poder ajuizar e debater com seriedade e profunidade tão complexa questão.
Deixe-me dizer-lhe que já lá vão largos anos que me deparei com esse seu paradoxo e que penso nele com frequência. É talvez o maior paradoxo da espiritualidade, esse da pluralidade das revelações. Teria muito gosto em debater isso, mas teria que ser noutro post. Foi o tema da vida inteira de um autor que muito aprecio, René Guénon. Toda a obra de Guénon, obra que me fascina, gira em torno desse mesmo paradoxo que a amiga Zuja se lembrou de referir.
Não pense que levo isto de forma leviana...
Sei bem as tampas que levanto, e as janelas que abro!
«Se o Bernardo é católico então é porque acredita que todas as outras grandes religiões são “gigantes com pés de barro”»
Não o disse e nunca o disse.
A Zuja já leu o que diz o Catecismo da Igreja Católica sobre a Salvação e sobre as outras religiões? Experimente, que vai ficar surpreendida!
Há uma diferença teológica subtil, mas fulcral, entre as expressões Igreja Católica e Igreja de Cristo. São expressões com amplitudes e significados bem diferentes: experimente ir um pouco mais a fundo e verá onde quero chegar...
«No entanto parece afirmar que mais vale o Islão do que religião nenhuma - Mais vale a mentira do que a incerteza.»
Porque é que o Islão é "a mentira"?
«O progresso não foi inventado para desculpabilizar nada – é uma realidade e faz parte do ser humano olhar para o futuro com esperança.»
É bem razoável olhar para o futuro com esperança. Tento fazê-lo todos os dias. O cristianismo é uma religião de esperança. Contudo, o progresso é uma utopia. A amiga Zuja diz que o progresso é uma realidade. Em que áreas? Em todas? Se não é em todas, porquê generalizar? É por estas e por outras que eu digo que hoje em dia as pessoas estão a desistir de pensar com clareza...
Siga-me um pouco, tenha paciência...
Você diz: "o progresso é uma realidade".
Fala em quê?
Se você diz que há progresso em todos os domínios da humanidade nem sequer é utópica, você simplesmente não vê com clareza. São inúmeras as áreas onde se notam claros retrocessos. A segurança é um deles, a poluição é outro, a riqueza natural é outra, a disponibilidade de água, de espaço, enfim... tanta e tanta coisa onde há retrocessos.
Mas se diz que há progressos numas áreas e retrocessos noutras, então estamos no mesmo barco! Então, não podemos falar em "O PROGRESSO", mas sim em progressos e retrocessos.
Falemos com clareza, COM CLAREZA!
Deixemos "O PROGRESSO" para as utopias socialistas do século XIX!
«No entanto, tenho de concordar consigo que realmente há (e sempre houve) muita gente que molda os seus princípios em nome dos seus desejos. O que varia normalmente são as desculpas.»
Mas é certo que as há!
São pessoas com uma concepção de si mesmas e do mundo profundamente pervertida e invertida. Colocam a carroça à frente dos bois.
«Permita-me por fim corrigir-lhe uma incorrecção:
“Vejamos o exemplo das Idades no mundo clássico: a Idade de Ouro está no início e a do Ferro no final!”
No “Mundo Clássico” não há uma idade inicial nem uma idade final. O tempo é um ciclo, quando uma idade acaba, logo outra começa. Terminando a Idade do Ferro… começa a Idade de Ouro.»
Zuja, não estou a dizer que eu nunca cometa incorrecções... Todos as cometemos, e eu cometo imensas diariamente. Mas não me subestime a um nível tão primário num terreno que me fascina há muitos anos. É evidente que as teorias clássicas sobre as idades do mundo são cíclicas, como aliás muitas outras teorias cosmogónicas. Depois da Idade última de um dado ciclo, tudo é regenerado (normalmente graças a uma figura que se pode dizer "messiânica"), e recomeça tudo de novo.
Metaforicamente, e sublinho METAFORICAMENTE, no domínio da metafísica, poderíamos conceber essa dinâmica cosmológica como "movimentos" de "expansão" para longe do Princípio e de "contracção" de regresso ao Princípio.
No Hinduísmo, a divisão de cada ciclo em quatro idades é perfeitamente igual à que era feita pelos gregos. A mesma marcha degenerativa! A quarta e última fase do ciclo (em sânscrito, o ciclo chama-se "manvantara") é a derradeira e a mais negra. Os hindus chamam à presente fase do ciclo, que segundo eles é a última, o nome bem ilustrativo de "Kali Yuga", a "Idade Escura". Porque é que será? Ah, não conhecem eles a evidência demonstrada do Progresso universal e ilimitado?
Ora bem, após o Kali Yuga, o Manvantara está concluído. Dá-se a regeneração e recomeça um novo Manvantara. O conceito cíclico da cosmologia hindu é tão complexo que concebe ainda ciclos maiores, macrociclos, que englobam vários manvantaras. São os "kalpas".
Como se torna agora evidente, eu quis apenas simplificar quando falei nas quatro idades.
A síntese é esta: na história da humanidade, eu vejo sempre retrocessos a partir de um período áureo (concebendo ou não tudo como um processo cíclico). Apenas uma disrupção "exterior" ao próprio cosmos (uma acção divina) permite repor uma nova "idade de ouro".
Penso, neste aspecto, e salvando evidentemente dúvidas naturais que ainda me assolam o espírito, como pensavam os antigos gregos, como pensam os hindus, como pensavam os católicos na Idade Média, enfim, como pensava e pensa uma catrefada de gente cuja intelectualidade e sabedoria eu não coloco em causa.
Em vez de uma particula sub-atómica promovida a molécula, promovida a amiba, promovida a macaco, promovido a homem, e a caminho do Super-Homem, eu vejo a história da humanidade toda a contrário. De um homem "perfeito" criado por Deus, eu vejo uma degeneração sempre vincada, e cada vez mais rápida, em direcção ao "final dos tempos". Este "final dos tempos" não é, certamente, o "Fim do Mundo". É apenas o "fim deste mundo".
Como compatibilizo isto com o progresso tecnológico? Ora, essa é fácil. O progresso em áreas materiais é uma das características das fases finais como é esta fase que os hindus chamam de "Kali Yuga". A paixão quase exclusiva do homem moderno pela matéria e pelo sensorial é a marca de uma intelectualidade cada vez mais ausente, da amputação do transcendente, e de uma cada vez maior dependência das coisas materiais. O mundo está a "endurecer", metaforica e literalmente... Para mim, é um dos sinais dos tempos, e veja quem tem olhos para ver!
Cumprimentos,
Bernardo
PS: Tudo o que eu escrevo pode parecer escandaloso e inaceitável para o leitor moderno. É normal! Demorei muito tempo a dar-me conta da gigantesca lavagem cerebral, da avalanche de ideias que agora vejo serem erradas, e que nos inculcam desde novos e todos os dias. A fazer a minha própria depuração de ideias. Não deixarei de o fazer enquanto viver nesta Terra, e certamente, ainda mudarei umas quantas vezes de ideias. Sei bem onde me situo e sei que estou em total desacordo com uma grande quantidade de opiniões ditas "correctas" nestes tempos de intelectualidade pré-formatada e autómata. Contudo, no exercício livre da minha intelectualidade, posso (e devo) afirmar o que penso. Não posso trair o que penso: tendo chegado a uma conclusão que se me afigura óbvia, não posso calá-la só porque ela fere o "status quo" moderno ou só porque ela nega os dogmas modernistas.
Afixado por Bernardo em 21 de outubro de 2005, às 17:49
Apenas um "caveat"!!
Quando falei em ciclos cósmicos, há que ter bem presente que em nenhum sistema cosmológico verdadeiramente tradicional se dá qualquer tipo de repetição em absoluto.
A repetição em absoluto, ou seja, uma coisa voltar a ser, na sua totalidade, igual a algo que já foi, é uma impossibilidade metafísica.
Assim, a cosmologia hindu, ou a cosmologia grega, concebendo a história como cíclica, nem por isso a via como repetindo-se sempre em absoluto. Repetem-se condições análogas, mas nunca iguais. É tudo uma questão de proximidade analógica! E nunca de identidade na repetição!
Nada passa exactamente por onde já passou.
Por esta razão, estão equivocados aqueles que acreditam na reencarnação, ou seja, que a alma daqueles que partiram irá voltar, um dia, a ocupar um corpo humano como o nosso. A reencarnação é uma ideia que nasce deste equívoco metafísico. Uma repetição absoluta, se existisse, seria uma limitação da Possibilidade Universal. Ora esta, em si mesma, não pode ser limitada de qualquer forma que seja.
Afixado por Bernardo em 21 de outubro de 2005, às 18:04
"O conceito de uma religião "interior" é falso e não faz grande sentido! O homem religioso nasce neste mundo e pertence a ele!"
A religião deve-se manifestar na acção individual de cada devido à sua própria essência: é uma crença baseada na fé e, por isso, não tem qualquer sustentação prática ou racional para guiar a vida dos outros através da política.
"a sharia, sendo uma lei religiosa, invalida "ipso facto" a secularidade de um Estado. Por outro lado, uma comunidade islâmica não sujeita a uma sharia pode, e deve, combater esse lado mau do secularismo que visa esconder os crentes em casa como se fossem fósseis de uma forma velha de estar na vida! Isso é intolerável!"
Os países islâmicos não seculares são uma catástrofe de direitos humanos. É inútil argumentar acerca disto: os factos, as notícias e as estatísticas são bastante claros.
Problemas muito concretos como o estatuto das mulheres, dos homossexuais e das minorias apenas se conseguem resolver plenamente nos países muçulmanos através do secularismo puro - é escusado pensar que eles se resolvem através de um "islão moderado" ou de um "meio secularismo", isso não passa de uma bela fantasia espiritual, visto que essa é uma solução que apenas remedeia os problemas, não indo à sua raíz.
"Não vamos buscar anti-semitismo ao Corão que ele não está lá."
Há anti-semitismo e anti-cristianismo no Corão. Isto não é novidade para ninguém e muito menos para os muçulmanos fanáticos. Na Bíblia encontramos alguma violência, mas nada que se assemelhe a isto:
http://www.faithfreedom.org/Quran.htm
http://www.skepticsannotatedbible.com/quran/
Quando me referi à extrema direita cristã e ao fascismo islâmico, referia-me aos casos em que ambas as religiões se misturam com a política. A promiscuidade entre ambas poderá resultar na teocracia, regime totalitário por natureza.
A citação do papa li-a há algum tempo e não consigo localizar a fonte. O mais parecido que consegui encontrar foi um artigo que refere o respeito que o papa sentia pela acção do ayatollah (3ºparágrafo) http://regimechangeiran.blogspot.com/2005/04/iranian-leaders-give-mixed-responses.html
Cumprimentos
Afixado por Ana A. em 21 de outubro de 2005, às 23:04
Cara Ana,
«A religião deve-se manifestar na acção individual de cada devido à sua própria essência: é uma crença baseada na fé e, por isso, não tem qualquer sustentação prática ou racional para guiar a vida dos outros através da política.»
Essa é boa!
A Ana já se deu conta de que a grande parte do pensar político que usamos, e que herdamos dos gregos e dos romanos, foi pensado por pessoas religiosas?
É essa a grande asneira dos actuais ideólogos da União Europeia, que quiseram cirurgicamente riscar o cristianismo da herança cultural do nosso continente. Gigantesco tiro nos pés!
O político que seja cristão não pode eliminar a matriz cristã do seu agir e do seu pensar. Isso seria uma suprema incongruência.
«Há anti-semitismo e anti-cristianismo no Corão. Isto não é novidade para ninguém e muito menos para os muçulmanos fanáticos.»
Ana, há que ter imenso cuidado com a linguagem que se usa. Dizer que há anti-semitismo no Corão é um tremendo erro. Por favor, leia o meu mais recente post sobre erros deste tipo. Os primeiros muçulmanos eram árabes, ou seja, semitas. Jesus (Isha) é um dos mais importantes profetas do Islão.
«Na Bíblia encontramos alguma violência, mas nada que se assemelhe a isto:
http://www.faithfreedom.org/Quran.htm
http://www.skepticsannotatedbible.com/quran/»
Oh, não, só cá faltava outra vez a Skeptics Annotated Bible, o compêndio dos imbecis!
Ana, por favor, não brinque comigo.
Acha que esses links são sérios?
Feitos por pessoas cultas?
«Quando me referi à extrema direita cristã e ao fascismo islâmico, referia-me aos casos em que ambas as religiões se misturam com a política.»
Ah, bom... Menos mal...
É que convém ser claro nessas coisas. Parecia, pelas suas palavras, que a religião nascera para servir a política.
«A citação do papa li-a há algum tempo e não consigo localizar a fonte. O mais parecido que consegui encontrar foi um artigo que refere o respeito que o papa sentia pela acção do ayatollah (3ºparágrafo) http://regimechangeiran.blogspot.com/2005/04/iranian-leaders-give-mixed-responses.html»
Ok, obrigado.
Vou ler...
Cumprimentos,
Afixado por Bernardo em 24 de outubro de 2005, às 10:37
"A Ana já se deu conta de que a grande parte do pensar político que usamos, e que herdamos dos gregos e dos romanos, foi pensado por pessoas religiosas?"
Há de me dizer o que é que a democracia e a filosofia têm a ver com os deuses do Olimpo. Sócrates e Platão podiam ou não acreditar nos deuses mas a sua filosofia é completamente separada da religião.
"Os primeiros muçulmanos eram árabes, ou seja, semitas. Jesus (Isha) é um dos mais importantes profetas do Islão."
Toda a gente sabe que o anti-semitismo é ódio ao judeus. Que os árabes sejam semitas é irrelevante, são meras precisões históricas.
Se acha que os links que eu lhe dei são para imbecis, vá à FNAC e compre o Corão. Depois venha falar comigo.
Afixado por Ana A. em 24 de outubro de 2005, às 14:18
"Há de me dizer o que é que a democracia e a filosofia têm a ver com os deuses do Olimpo. Sócrates e Platão podiam ou não acreditar nos deuses mas a sua filosofia é completamente separada da religião."
Gosto da segurança que a Ana usa nestas frases. Conheceu-os? A sua afirmação é precipitada, e diria mesmo, arrogante. Sócrates era, do pouco que se consegue retirar do seu pensamento, um indivíduo altamente espiritual. A leitura do Fédon, escrito por Platão, relativo à conversa tida por Sócrates com os seus discípulos na véspera da sua morte, sobre a sobrevivência da alma após a morte humana, é bem indicativo do que estou a dizer e do que pensava Sócrates.
Nos dias que correm, os ateus e agnósticos bem podem tentar riscar a espiritualidade e a religiosidade das mais elevadas criações da racionalidade humana, mas tentar fazê-lo é um engano. Para os que pensam assim e para os que os seguem...
«Toda a gente sabe que o anti-semitismo é ódio ao judeus.»
O que é "toda a gente"? A massa de ignorantes?
Anti-semitismo é uma expressão de exclusivo âmbito RACIAL. Por isso, quando fala em "ódio aos judeus", na sua definição de anti-semitismo, deveria escrever "ódio RACIAL aos judeus". "Semita" é um adjectivo que conota raça. A sua origem vem dos nomes dos filhos de Noé. Miticamente, os judeus eram tidos como descendentes de Noé por via do seu filho Sem. As outras raças proviriam de Cam e de Japeto. Assim, claramente, "semita" é um termo a usar em contextos de raça e não em contextos de religião.
«Que os árabes sejam semitas é irrelevante, são meras precisões históricas.»
MERAS?
Não acha importante falar-se com cuidado?
Veja, Ana, não estou a ser mesquinho. Se uma pessoa tiver algo contra o sionismo (é o meu caso), essa pessoa tem que ter algo contra a raça hebraica? Ou contra a religião judaica? É evidente que não! Acho perigosíssimo que se confundam conceitos. Nos tempos que correm, em que as pessoas se estão nas tintas para as palavras e para a correcta terminologia, eu encontro facilmente pessoas que apelidariam algumas das minhas ideias como anti-semitas, ou antijudaicas quando elas são apenas anti-sionistas. Nada tenho contra a raça ou a religião judaica, mas posso ter algo contra a política de Israel.
Pela última vez:
1. Anti-semita: oposição RACIAL
2. Antijudaico: oposição RELIGIOSA
3. Anti-sionista: oposição POLÍTICA
"Se acha que os links que eu lhe dei são para imbecis"
São profundamente imbecis! E, sim, devem ser para imbecis... Não devido ao texto-alvo, que espero que seja uma boa tradução (eles dizem seguir a King James Version para a Bíblia), mas nos comentários que roçam a boçalidade! Já leu aqueles comentários?
Basta pegar no SAK (como eles gostam de siglas, estes tipos, o "Skeptic's Annotated Koran"), logo no início...
Eles dizem que há uma contradição logo na abertura do Corão, onde se lê o célebre versículo de entrada, o "Bismillah", ou seja, "Em nome de Alá".
Eles dizem que a contradição está no facto dos islâmicos dizerem que o Corão é escrito por Alá, enquanto que o livro começa logo com uma interpelação ao próprio Alá!
Isto é de atrasados mentais!!
É evidente que se trata de um caso clássico de escrita profética: segundo a tradição islâmica, Maomé é o Profeta, e por isso, o Livro é escrito fisicamente por Maomé, mas ditado e revelado, por Alá através do Arcanjo Gabriel. Por isso, quando se diz que Alá escreveu o Corão é como autor espiritual, transcendente, do livro. E não como autor físico! Nenhuma criança muçulmana faria semelhante confusão nem veria contradições onde elas não existem!
Como é que é possível levar a sério um site com comentários deste calibre?
Até lhe digo mais, eu teria vergonha em fazer sites assim! Com que atrevimento é que um bando de ignaros internéticos se lança numa crítica a textos que obrigam a anos de estudo, de conhecimento e de investigação?
E se eu fizesse um site meu, usando algumas contas da tabuada e da prova dos nove, a insinuar que Einstein tinha feito mal os seus cálculos da Teoria da Relatividade? O que me chamariam? Imbecil, não?
"vá à FNAC e compre o Corão. Depois venha falar comigo."
Não preciso. Tenho em casa a versão original, em árabe, com os comentários ortodoxos, com transliteração e tradução para francês.
Cumprimentos,
Afixado por Bernardo em 24 de outubro de 2005, às 14:40
Nunca é demais sublinhar isto, Ana. Por favor, leia o meu último post. Não há nada no Corão de anti-semita. As raças são as mesmas. Eu poderia ir ainda mais longe e dizer que não há nada de explicitamente antijudaico no Corão, visto que se tratam de tradições religosas idênticas. O que poderá afirmar, Ana, é que há enormes tensões políticas anti-sionistas entre muçulmanos e o estado de Israel. O primeiro de todos os ódios é o político, o ódio ao invasor e agressor. Os restantes ódios poderão surgir como consequência do primeiro, mas são sempre contraditórios. É evidente que podemos encontrar muçulmanos com ódios raciais ou religiosos, mas não vão buscar isso ao Corão. Vão buscar esse ódio (contraditório com o próprio Islão) a ódios políticos, misturados com complexos sentimentos e emoções.
Afixado por Bernardo em 24 de outubro de 2005, às 14:46
"A leitura do Fédon, escrito por Platão, relativo à conversa tida por Sócrates com os seus discípulos na véspera da sua morte, sobre a sobrevivência da alma após a morte humana, é bem indicativo do que estou a dizer e do que pensava Sócrates."
Mas eu nunca afirmei que não se encontrava espiritualidade nas obras desses filósofos, o que eu disse é que eles não basearam as suas teorias na religião. Eles não usam argumentos do foro religioso para provarem as suas afirmações, mesmo que recorram a conceitos de transcendência. Mas estamos aqui no domínio da metafísica, não da teologia. O mundo das ideias proposto por Platão é espiritual na sua essência, mas é criado unicamente por si, não é uma interpretação resultante de uma análise religiosa.
"Não devido ao texto-alvo, que espero que seja uma boa tradução (eles dizem seguir a King James Version para a Bíblia), mas nos comentários que roçam a boçalidade! Já leu aqueles comentários?"
Não li os comentários, sei que não são escritos por estudiosos no assunto. A mim o que me interessa é o texto-alvo...
"E se eu fizesse um site meu, usando algumas contas da tabuada e da prova dos nove, a insinuar que Einstein tinha feito mal os seus cálculos da Teoria da Relatividade?"
Não compare a teoria da relatividade com a teoria maometana do universo...
Afixado por Ana A. em 25 de outubro de 2005, às 10:12
Ana,
"Mas eu nunca afirmei que não se encontrava espiritualidade nas obras desses filósofos, o que eu disse é que eles não basearam as suas teorias na religião."
Como é que tem tanta certeza?
"Eles não usam argumentos do foro religioso para provarem as suas afirmações, mesmo que recorram a conceitos de transcendência. Mas estamos aqui no domínio da metafísica, não da teologia."
Sim, aqui estamos plenamente de acordo, cara Ana. Contudo, a própria razão de ser de uma posição metafísica é sempre espiritualista, mesmo que se tenha horror a usar o termo religiosa. Sem ligação, ou tentativa de ligação, (nem que seja puramente intelectual) ao transcendente, não há necessidade de metafísica. "Religio" vem de "ligar". Pode existir metafísica sem um Deus explícito, no sentido "teológico" do termo (veja-se o caso do budismo). De modo semelhante, Sócrates, Platão e Aristóteles pensam metafisicamente sem terem que fazer uma referência explícita a divindades. Contudo, Ana, recorde-se como esta conversa começou. A metafísica dos filósofos gregos, e a bem dizer qualquer metafísica, é uma tentativa de ponte para o transcendente, e por isso mesmo, é totalmente estranha a posturas secularistas. Eu critiquei um secularismo de tendência ateizante, ou seja, uma tão drástica (e absurda) tentantiva de erradicação do espiritual que tentasse, agora, justificar milénios de civilização humana sem esse espiritual, sem essa sede pelo transcendente que verificamos em Aristóteles, Platão e Sócrates. Os nossos antepassados eram espirituais, e muitos de nós, hoje em dia, ainda o são. Pasme-se!
Fazer história ao contrário, procurando fantasiar em torno das figuras grandes do passado, supondo que a sua evidente religiosidade ou espiritualidade não influenciava de forma decisiva o seu trabalho intelectual, é um absurdo.
O caso paradigmático é o de Einstein, um homem cuja intensa religiosidade estava por detrás de todo o seu trabalho intelectual.
Contudo, hoje em dia, é vê-lo a ser usado como marioneta por desonestos ateus, sendo apresentado às massas como um adversário da "religião obscurantista".
"O mundo das ideias proposto por Platão é espiritual na sua essência, mas é criado unicamente por si, não é uma interpretação resultante de uma análise religiosa."
Penso que a nossa divergência está em que temos conceitos diferentes do que é o religioso. A Ana parece-me ter um conceito muito mais estrito do que é o religioso. O idealismo platónico, como modelo metafísico, é uma tentativa de estabelecer uma ligação cognitiva ao transcendente, logo, a minha acepção de atitude religiosa jaz numa tentativa de "ligar" o que aparentemente está separado, ou seja, o mundo físico ao mundo metafísico.
"Não li os comentários, sei que não são escritos por estudiosos no assunto. A mim o que me interessa é o texto-alvo..."
Mas, Ana, pode ler o "texto-alvo" onde quiser! Há centenas de boas versões da Bíblia ou do Corão. Mesmo que eles tenham sido rigorosos no "texto-alvo", eu não arriscava basear a minha leitura da Bíblia e do Corão nesses senhores, nem que fosse a última versão disponível!
Era o mesmo que estudar a Torah numa "versão de estudo" impressa e editada no Terceiro Reich para ensinar à juventude hitleriana as perversões da raça judaica!
"Não compare a teoria da relatividade com a teoria maometana do universo..."
Ana, quem o faz?
Não estou a comparar as teorias de Einstein com a revelação corânica!
Acho que não percebeu bem a minha analogia... Estou apenas a dizer que há um abismo entre a minha capacidade de refutação da teoria de Einstein e a própria capacidade teórica do seu autor. Do mesmo modo, há um abismo entre a capacidade que esses energúmenos têm para refutar os textos revelados, e o próprio conhecimento que esses textos contêm.
É água a mais para o moinho deles! A ignorância, lá diz o povo, é mesmo muito atrevida! Só o título do site diz tudo sobre a craveira intelectual dos calhaus com olhos que o escreveram...
Afixado por Bernardo em 26 de outubro de 2005, às 10:05
