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novembro 23, 2005
A direcção do Progresso
Alguns comentários a uma notícia no Público (mas que saiu um pouco por toda a comunicação social) que tem entusiasmado muita gente hoje, apesar de não trazer practicamente nada de novo...
A associação de "gays" e lésbicas ILGA Portugal lamenta a proibição da ordenação religiosa de homossexuais imposta pelo Vaticano e classifica esta decisão, que será oficializada na próxima semana, como "mais um erro histórico" da Igreja Católica e um retrocesso em relação às orientações de outras igrejas.
Por muito que me espante o interesse da ILGA Portugal em proteger os interesses dos gays (e porque não das lésbicas) no que toca ao acesso ao sacerdócio, devo dizer que o facto de a Igreja Católica marcar a diferença em relação "às orientações de outras igrejas" é, para mim, um óptimo sinal.
De facto, há duas formas de ver o problema:
1. A usada pela ILGA: ou seja, a Igreja Católica está em "retrocesso", enquanto que as "outras igrejas" estão em "progresso"; mais uma vez, um óptimo exemplo da preferência do pensar moderno pelo conceito enganador do Progresso, e pelo uso criterioso desta palavra mágica;
2. A oposta à usada pela ILGA: ou seja, a Igreja Católica seria a única que não estaria em retrocesso.
São formas exclusivas. Se uma está certa, a outra está errada.
Dá que pensar, não dá?
Veja-se a quantidade de coisas que cabem dentro da caixa do Progresso: o aborto livre é "progresso", o sacerdócio para os gays e lésbicas é "progresso", a manipulação genética de embriões humanos é "progresso", o abandono de uma religião é "progresso". Admirável mundo novo, este que se aproxima, hã?
Vejamos o resto da notícia...
"Julgamos que se trata de mais um erro histórico, numa longa história com bastantes erros da Igreja Católica Apostólica Romana, num momento em que, precisamente, as outras igrejas, mostram uma boa filosofia de inclusão, nomeadamente, a Igreja Anglicana e recentemente na Igreja Sueca, que, inclusivamente põe a hipótese de abençoar as uniões entre as pessoas do mesmo sexo".
Vou descodificar. Paulo Côrte-Real, o dirigente da ILGA Portugal, diz julgar que se trata de "mais um erro histórico". Caro leitor, eu ajudo. Ele quer dizer que a recusa do acesso dos homossexuais ao sacerdócio é um erro histórico. Olhe, assim como foi a Inquisição, por exemplo! A mente moderna conhece bem este erro histórico da Igreja Católica, e assim, a negação do sacerdócio aos gays é um pouco como uma Inquisição outra vez, mas agora contra os gays! Tudo erros históricos!
Ah, o poder das palavras...
Continuemos. Segundo Paulo Côrte-Real, as "outras igrejas" mostram uma boa "filosofia de inclusão" (sic)! Numa total ignorância (intencional) dos requisitos da ordenação sacerdotal, este senhor defende a "filosofia de inclusão" das "outras igrejas". Sim, as "outras igrejas" são as "igrejas boas", ou se quisermos ser mais intelectuais, são as "igrejas progressistas".
Agora o leitor está mesmo confuso! Mas então os activistas gays não costumam, pelo menos aqueles que vemos mais nas televisões e nos jornais, demonstrar um desprezo pela atitude religiosa? Então como é que existiriam igrejas boas?
Pois é. Grande confusão!
Mas parece que, para a ILGA Portugal, são boas as Igrejas protestantes que querem dar o passo em frente para o aval ao matrimónio gay, e que gostam da diversidade colorida que os gays e as lésbicas trazem ao seu já misto e animado sacerdócio.
Agora mais a sério, todas estas questões, como a da ordenação das mulheres, a da validação do matrimónio religioso homossexual, ou como a do acesso dos homossexuais à ordenação, são tudo questões mais intimamente ligadas do que poderíamos supor. São todas questões que nos mostram claramente os "sinais dos tempos".
A Reforma protestante marcou na História o ponto de viragem e o nascimento da já complexa árvore protestante. São precisos anos de experiência para dominar, mesmo superficialmente, o complexo mundo matizado do protestantismo. Eles são luteranos, adventistas, calvinistas, baptistas, metodistas, evangélicos, e infinitas outras variantes. Consciente do risco que corro ao escrever isto, a árvore do protestantismo representa para mim a realidade do cristianismo fragmentado.
É na direcção da fragmentação do cristianismo que corre o rio do protestantismo. É esta, segundo os "novos pensadores", a direcção do futuro!
A direcção do PROGRESSO!
Afixado por Bernardo Motta em 23 de novembro de 2005, às 19:02
Afixadelas
eu, por esta igreja, e já fui católica, sinto-me descriminada. ainda me sinto a eva, culpada de todos os males do mundo. e tens razão: todas estas questões, desde a ordenação de mulheres até ao admitir da homossexualidade, são questões intimamente ligadas. trata-se da recusa da igreja acompanhar os tempos, com medo de que, sem a fineza do seu conservadorismo, os crentes julguem já não haver convicção. se a igreja dissesse que talvez vá para o inferno se fizer isto, ao invés de o garantir, também os fieis pecavam em talvez; deixavam de ter medo do deus grandalhão que mora naquela casa enorme. mas as regras são as deles.
Afixado por maggae em 24 de novembro de 2005, às 13:25
Maggae,
Se se sente descriminada, certamente que as razões se prendem com a sua experiência pessoal de vida. Conheço muitas mulheres católicas que não se sentem culpadas pelos "pecados" de Eva, nem pensam dessa forma infantil. Conheço muitas mulheres orgulhosas por serem mulheres e por serem católicas. Muitas mulheres orgulhosas pelo papel importante e fundamental que a mulher desempenha no plano salvífico de Deus.
A Igreja não tem que "acompanhar os tempos" se os tempos são negros. Se os "novos tempos" são aborto livre, selecção genética das crianças mais aptas (com eliminação dos deficientes), eutanásia para os "incómodos" idosos e doentes, mulheres padres, padres gays ou lésbicas, casamentos entre padres gays e mulheres-padres lésbicas, casais gays de padres, padres "trans-gender" que adoptam crianças, ou outra parvoíces que o espírito humano ainda há-de inventar, então eu não quero fazer parte desses novos tempos. Nunca se assistiu a uma tão grande confusão intelectual e ética. Misture-se avanços tecnológicos com retrocessos éticos e intelectuais e o que é que temos!?
O Admirável Mundo Novo.
A Igreja não vai entrar nessa viagem, e ainda bem. Eu como crente pensante que ainda sou, apesar das minhas imperfeições, sei bem para onde vai o barco da Igreja Católica e para onde vai o barco do Mundo Moderno.
Há muito que comprei o meu bilhete. Não vou acompanhar os "tempos modernos" à laia de carneiro, junto com toda a carneirada que já desistiu de pensar e que só se preocupa com falsas "tolerâncias" ou com falsas "liberdades"...
O Mundo Moderno não está, ao contrário do que possa julgar, a produzir o "homem livre". Está a produzir uma versão "sensorial" do homem-máquina. Escravo do consumo, intensificado por uma vida exclusivamente sensorial com esvaziamento do intelectual. É o futuro que nos espera...
O vazio dos valores.
Afixado por Bernardo em 24 de novembro de 2005, às 13:47
Bolas Bernardo! Agora que eu estava mesmo com vontade de escrever um post sobre a falácia do argumento do "progresso" vens tu e tiras-me o osso da boca!
Muito bem dito e melhor do que eu poderia ter escrito... vou ter de esperar para me ocorrer novo tema!
Afixado por Luis em 24 de novembro de 2005, às 14:00
Luís,
Nem pensar nisso!
Faz o teu post!
Faz centenas de posts sobre esta falácia do Progresso! É incrível a quantidade de neurónios espalhados por esse mundo fora que vivem curto-circuitados com a ideia de "Progresso".
Não existe tal coisa!
O "Progresso", com "P" grande, é uma ilusão inventada pelos "novos pensadores" para conduzir a humanidade ao niilismo, ao relativismo e ao indiferentismo.
Há progressos e retrocessos em todas as áreas, como é natural. Uma simples noção de equilíbrio deveria fazer-nos pensar nisto:
1. Se o Homem concentra mais esforço intelectual em certas áreas, consegue mais progressos nessas áreas: o exemplo mais flagrante nos tempos modernos é o da Tecnologia;
2. O tempo humano, concebido como o somatório, dentro de um período de tempo, das horas despendidas a pensar por toda a Humanidade, é um número finito, então, chamemos-lhe "T";
3. Se, desse "T", retiramos todos os anos mais e mais horas para as áreas da ciência moderna e da tecnologia, torna-se evidente que as vamos subtrair a outras áreas (por exemplo, à filosofia, à sociologia, à teologia, e assim por diante); o tempo disponível para áreas científicas não materialistas vai-se reduzindo; isto leva-nos ao relativismo aplicado, ao desprezo pela Ética, que passa a ser vista como incómoda, como um "entrave ao progresso" (é incrível, mas já ouvi senhores "cientistas" dizerem-no);
Por isso, para compensar os progressos tecnológicos, há retrocessos noutras áreas!
A "manta" do tempo despendido intelectualmente não se estica! Se progredimos em tecnologia, é porque regredimos nalguma outra coisa. Eu aposto nisto: regredimos na filosofia, na teologia, e nos seus ramos afins e derivados, como a sociologia e a psicologia.
Não me interpretem mal: eu trabalho numa área 100% tecnológica e nada tenho contra a tecnologia em si mesma, nem contra os progressos nesta área. O que me aflige é assistir a este tremendo desequilíbrio: uma tecnologia a progredir de forma "autónoma", totalmente à deriva, sem ninguém consciente e equilibrado a controlá-la, é como uma bomba-relógio!
Um abraço, Luís, e não deixes de escrever o post que tinhas em mente!
Afixado por Bernardo em 24 de novembro de 2005, às 14:25
"Se os "novos tempos" são aborto livre, selecção genética das crianças mais aptas (com eliminação dos deficientes), eutanásia para os "incómodos" idosos e doentes, mulheres padres, padres gays ou lésbicas, casamentos entre padres gays e mulheres-padres lésbicas, casais gays de padres, padres "trans-gender" que adoptam crianças, ou outra parvoíces que o espírito humano ainda há-de inventar, então eu não quero fazer parte desses novos tempos."
A isso se chama uma extraordinária atenção selectiva. Os tempos que correm NÃO são caracterizados pelos casamentos homossexuais, pela eutanásia ou o aborto, todos estes fazem parte destes novos tempos mas são claramente assuntos secundários e com efeitos sociais diminutos.
Na verdade, os tempos que correm na Europa, comparativamente aos séculos anteriores, são os tempos em que melhor se viveu, tanto material como eticamente. Eticamente porque nos séculos anteriores não havia igualdade nem liberdade e muito menos fraternidade (havia uma caridade hipócrita quanto muito), as crianças não tinham quaisquer direitos (a pedofilia nem era crime), as mulheres idem, os negros idem, os judeus idem, os operários idem, os miseráveis camponeses idem, etc. O aborto sempre existiu e a somar a este, o infanticídio. O problema da eutanásia não fazia sentido porque os doentes morriam naturalmente.
"Escravo do consumo, intensificado por uma vida exclusivamente sensorial com esvaziamento do intelectual."
A escolaridade obrigatória é uma conquista do mundo moderno. Não há menos esvaziamento intelectual do que outrora, em que os livres pensadores não eram mais do que meia dúzia.
"É incrível a quantidade de neurónios espalhados por esse mundo fora que vivem curto-circuitados com a ideia de "Progresso".
Não existe tal coisa!"
O progresso não é uma ideologia. Ele existe porque, ao invés de pairarmos na eternidade, nos movimentamos em direcção ao futuro. O progresso não é linear durante a nossa curta existência (nada nos garante que daqui a 2 décadas estejemos melhor que hoje) mas se olharmos a história sob uma perspectiva de séculos ou milénios, tal como fazemos com a evolução do universo e da terra, é evidente que constatamos um "progresso". A inteligência humana ao longo de milhões de anos foi-se tornando mais complexa e é possível que as suas transformações ainda não tenham terminado.
"isto leva-nos ao relativismo aplicado, ao desprezo pela Ética, que passa a ser vista como incómoda, como um "entrave ao progresso" (é incrível, mas já ouvi senhores "cientistas"
dizerem-no)"
Não é a ética em si que é um entrave à ciência, mas sim a moral submetida a certos princípios culturais ou religiosos.
"Eu aposto nisto: regredimos na filosofia, na teologia, e nos seus ramos afins e derivados, como a sociologia e a psicologia."
A sociologia e a psicologia são ciências que têm pouco mais de um século. Antes disso a "psicologia" dividia o homem em corpo e na alma e no bem e no mal. E pode acreditar que actualmente a psicologia compreende muito melhor o funcionamento e os processos psicológicos do que há umas décadas. Aqui houve mesmo um "progresso".
Afixado por Ana em 24 de novembro de 2005, às 19:59
Bernardo
Não partilho de todo a visão catastrofista e agradeço à Ana a desmontagem que faz do seu discurso.
"aborto livre, selecção genética das crianças mais aptas (com eliminação dos deficientes), eutanásia para os "incómodos" idosos e doentes, mulheres padres, padres gays ou lésbicas, casamentos entre padres gays e mulheres-padres lésbicas, casais gays de padres, padres "trans-gender" que adoptam crianças"
Misturar tudo desta forma só serve para aumentar a confusão e obscurecer os assuntos.
Quanto à tendência de fragmentação do protestantismo penso que tem alguma razão. Só que infelizmente no mundo católico a unidade tem sido mantida à custa do afastamento de todos aqueles que não se identificam com os extremismos oficiais.
Quanto à ordenação das mulheres, tenho estado à espera da resposta que prometeu à MC e a mim no Espectadores.
Afixado por CA em 24 de novembro de 2005, às 23:18
Só uma pequena achega: a questão do ordenamento de mulheres tem uma natureza bem diferente da ordenação de homossexuais (ou dos que praticam tais actos).
Afixado por João Pedro em 27 de novembro de 2005, às 17:30
