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novembro 20, 2005

A Viragem Profética

Luís Carmelo é Professor de Semiótica e Teoria da Cultura na Holandesa Universidade de Utreque e é um pensador raramente abordado nas discussões sobre o presuntivo choque de civilizações. Editou recentemente pela Europa-América um excelente ensaio: "A Viragem Profética" (já anteriormente havia editado "Islão e Mundo Cristão" pela Hugin). No campo dos ensaios orientalistas, esta obra, na minha modesta opinião, supera as já cansativas considerações do clássico Bernard Lewis. Destaco as palavras iniciais do autor para explicar o título deste seu ensaio (mas igualmente imperdível é a segunda parte do livro e a reflexão sobre os mouriscos e cristãos-novos no mundo ibérico de quinhentos), pedindo paciência para o facto de ser uma citação longa, mas imprescindível:

Nas várias culturas que se organizaram sob o pano de fundo da civilização do "Livro" (o mundo judaico, cristão e islâmico), a chamada civilização axial ou escatológica, foi sendo instituída uma espécie de ordem dicotómica que tendia claramente a separar a normalidade das coisas daquilo que, devido às mais variadas razões, se evadia dessa normalidade. Aliás, a palavra "segno" (não confundir com signo, nas suas várias acepções correntes), em finais do quattrocento e no século seguinte, traduzia precisamente a ideia do conjunto de alterações que se processava escapando-se ao "curso natural das coisas". (...) as metamorfoses inexplicáveis, (...) os animais fabulosos que respiravam nos relatos de Preste João ou do imaginário trágico-marítimo integravam, cada um a seu modo, esse desmedido mundo do segno. No entanto, para que o segno pudesse existir e tornar-se reconhecível, independentemente da significação que lhe fosse atribuída, era necessária a existência de uma ordem muito bem ancorada que, por contraste, separasse o seu mundo do mundo definido como normal.(...) (...) Curiosamente, o mundo utópico e o mundo ideológico, que desaguaram um e outro, com idades e naturezas diversas, no séc. XIX, acabaram por trazer consigo, no Ocidente cristão, a antiga marca das civilizações axiais e escatológicas. Só que, em vez de paraíso, convocaram a ideia de um igualitarismo terreno, do mesmo modo que a natureza racional do dogma substituiu o "Livro" divino e a luta "por um mundo melhor" passou a encarnar os exigentes preceitos da antiga fé. (...) Mas em todas estas naturezas, em todos estes palcos subitamente libertos (ou deliberadamente ausentes) de uma tutela divina, a racionalidade moderna teve sempre tendência a instituir contrastes férreos entre a normalidade e a não-normalidade. Pode mesmo dizer-se que o segno acabou por persistir sendo o que sempre havia sido, mas agora luzindo de um modo lógico e tornando-se, por isso mesmo, peça de arremesso e móbil para a iniciativa. (...) os contrários passam a digladiar-se ferozmente definindo mutuamente o campo do segno (nos sistemas políticos, nas modalidades jurídicas, na sucessão vertiginosa de vanguardas artísticas, no debate científico, etc.)(...) Quer no mundo cristão pré-moderno, quer no mundo cristão moderno, verifica-se, ainda que com uma topografia claramente diversa, uma necessária separação entre segno e não segno. (...) Ora o que muda abruptamente no Ocidente no final do século XX e no início do século XXI é precisamente este aspecto (...) diluição e perda de eficácia das grandes referências pesadas e doutrinais de carácter ideológico e similares (...) entrada em cena de uma globalização hipertecnológica associada a um novo tipo de espaço público aberto.(...) de um momento para o outro, em muito poucos anos, a verdade é que a relativação quase absoluta tende a incluir, na horizontalidade social pós-moderna, quer o que precede do segno quer o que precederia do não-segno.(...)
A consequência mais importante desta grande mudança ainda em curso (...) consiste na banalização daquilo que, secularmente, no Ocidente, sempre foi encarnado sob o manto do "mal" ou, numa perspectiva menos simplista, do segno. A primeira vez que esta mudança efectiva nos entrou em casa - através do fluxo globalizado das imagens - foi no dia 11 de Setembro de 2001. O carácter extraordinário desse evento, para além das suas implicações políticas, foi o facto de, ele mesmo, ter conduzido ao pasmo, à ambiguidade ou à tentação relativadora (houve mesmo, numa perspectiva neo-conceptual, quem lhe atribuísse conotações artísticas). Ainda hoje existe, em certos meios ocidentais, a ideia de que o 11 de Setembro é aqui e ali "justificável", ou é, "bem vistas as coisas", uma deriva do "sistema": ou é uma "vingança", ou ainda uma "inevitável resposta" face aos factos A ou B produzidos no Ocidente (esta última é a explicação autofágica). É este apagamento das barreiras que sempre separaram segno e não segno que eu designo por viragem profética (...) diluição das ideias-força que separam dever e não-dever, tolerância e não tolerância, democracia e não-democracia, etc.(...) O aspecto mais terrível do actual terrorismo é a ideia, no Ocidente, de que ele não existe, porque conviveria no mesmo horizonte aparente com outros factos cuja textura não seria afinal diversa. O terrorismo converter-se-ía, desta maneira, numa ocorrência entre as muitas outras ocorrências do quotidiano para o mais puro deleite e para a mais fatal das gargalhadas do cidadão ocidental, esse novíssimo guardador e curador global de imagens. Daí também a propensão europeia para a imagem de uma grande Suíça neutral, pacífica, no seio da qual o terror e o não-terror seriam uma espécie de irmãos-gémeos federados, sem problemas, sem ambições e sem olhos para obervar as mais perversas ausências de fronteiras que se criaram na sua própria casa. É a esta indiferença indigente, é a esta cegueira involuntária - e, em última análise, auto-flageladora - que eu chamo a viragem profética (...) O texto profético de hoje, ou seja a notícia simulada por imagens fragmentadas que se desdobram em imagens globais e imediatistas, assemelha-se ao simulacro sem matriz cuja margem de propagação e impacto apenas podia, há uns séculos atrás, ser comparada ao poder exuberante dos textos apocalípticos de Daniel ou de Baruque. Só que essas imagens resguardavam-se nas escrituras e assumiam foros de uma transcendência imaculada e poderosa, enquanto as imagens de hoje constituem uma voragem imparável que vive na frente dos nossos olhos sob a forma de uma imanência que parece gerar, a cada segundo, uma presença esmagadora e transbordante. Daí que a nova violência se desdobre nos efeitos que calculadamente produz: por um lado, visa sem piedade uma dada materialidade física e simbólica; por outro lado, visa transformar-se em ficcionalidade mundializada durante o tempo que o fluxo de imagens mundializadas o permitir ( veja-se como Nova Iorque 2001 e Madrid 2004 ainda hoje perduram nos nossos ecrãs domésticos, sob a forma de uma simulação do directo ou de permanente tempo real).

Afixado por Gibel em 20 de novembro de 2005, às 15:39

Afixadelas

Gibel,

O texto é muito interessante, mas é preciso algum tempo (e algumas releituras) para ser assimilado como deve ser. Há, aqui e ali, algumas coisas que me lembram o Jean Delumeau, especialmente no livro "Mil Anos de Felicidade" (Terramar):

"Só que, em vez de paraíso, convocaram a ideia de um igualitarismo terreno"

É inegável que o milenarismo e outras formas apocalípticas, que no Ocidente europeu têm raízes judaico-cristãs, influenciaram de forma decisiva as utopias, mesmo as socialistas e ateias, dos séculos XIX e XX.
Gostei e vou comprar!
Era bom que fizesses mais posts destes, e que te deixasses de tretas. Estes posts podem não ser os campeões dos comentários, mas interessam a muita gente, acredita.

Afixado por Bernardo em 21 de novembro de 2005, às 11:37

Bernardo,

eu salientei sobretudo o início do livro, mas quando o leres vais ver que a segunda parte ainda tem outro sumo mais interessante, quando analisa os profetismos mouriscos a partir da queda de Granada, designadamente as raízes islâmicas do mito ibérico do Encoberto.

Afixado por gibel em 21 de novembro de 2005, às 20:18

Muito obrigado pela vossa generosidade.
Só um ponto: doutorei-me há uma década em Utreque e morei na Ho~landa na década de oitenta, mas vivo em Portugal desde 1990.
Grande abraço, LC.

Afixado por Luís Carmelo em 16 de dezembro de 2005, às 16:33

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