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novembro 07, 2005
Acudam que é taxista!
O título desta posta pode induzir em erro. Não quero, de forma alguma, generalizar aquilo que aqui vou escrever para o conjunto da classe profissional dos condutores de táxi. Profissão nobre essa a do taxista, que pode e deve ser exercida com orgulho e dignidade, e cujo trabalho é infelizmente manchado tantas vezes por maus profissionais.
O que vou contar de seguida não merece ser catalogado na categoria de "Mito Urbano: o Taxista agressivo", uma vez que não se trata de um mito, mas sim da mais pura das realidades. Que a cidade é uma selva, já se sabe. Que nessa selva há animais ferozes, também é sabido. Contudo, não consigo equiparar a ferocidade de um leão com a ferocidade de um taxista agressivo. Porque não encontro animal em todo o reino, não consigo escolher uma só espécie, que mereça ser comparada ao taxista agressivo. Por isso, a partir de agora, para o efeito desta história, vou chamá-lo de ogre. Usando um termo do mundo da fantasia, não ofendo ninguém (salvo o taxista ogre) e consigo passar bem a ideia que quero passar.
Esta história trata, então, de um animal feroz, mas ao qual falta toda a sofisticação e aristocracia do leão. Melhor, falta-lhe toda e qualquer sofisticação ou aristocracia.
Estava eu no meu carrito, metido na minha vida, a deambular por Lisboa num Sábado ao final da tarde. Ruas desertas, nem vivalma. Uma tarde simpática, com sol, sem chuva, sem vento nem frio.
Distraído, eu entrei num cruzamento sem me acautelar em dar prioridade a quem poderia vir da direita. Erro óbvio da minha parte, de alguma gravidade, que se deveu ao facto de eu assumir que a calma geral era tal que não havia mesmo ninguém por perto.
Mas havia!
Pela direita, descia vertiginosamente um taxista. Vinha a uma velocidade digna de um rally, de um apuramento para a Fórmula 1. Todos conhecemos bem a confiança com que guiam muitos taxistas, usando pouco ou nada do travão quando sabem que têm prioridade.
Era esse o caso: ele sabia que vinha da direita, e não via qualquer razão para abrandar à chegada ao cruzamento. Ora sucedeu que eu vinha distraído, e estando eu já a meio do cruzamento, este ogre não teve hipótese senão reagir. Primeiro, vendo-me entrar no cruzamento, o seu instinto de animal levou-o a acelerar ainda mais. Percebendo que eu não o estava a ver, foi obrigado a travar a vinte centímetros do meu carro.
Aí eu vi o ogre! E assustei-me...
Quando ele parou o carro e eu olhei para as suas narinas, todo ele era vapor!
O táxi parecia uma árvore de natal. Ele acendera todas as luzes, e agora dava todo o gás às suas quinze buzinas.
O dito ogre, em tom ameaçador, avançou o carro mais dez centímetros, fazendo questão de, embraiagem a fundo, acelerar a todo o gás. Tudo aquilo tremia!
Mais cinco centímetros... Já lhe sentia o bafo!
Então, tendo recuperado alguma confiança, e atrevido e gingão como todos os tugas, eu convidei-o, em tom desafiador, a avançar os cinco centímetros que ainda separavam a sua caranguejola do meu carrito. Afinal, já só faltavam cinco centímetros, tinhamos ambos seguro contra todos, e eu queria ver até onde é que aquilo ia...
O ogre, na sua linguagem e vocabulário rudimentares, interpretou o meu convite como um desafio para que passássemos à agressão física, da pura e da dura, como todos nós não gostamos.
Abre-se a porta da carroça do ogre... O tipo vinha fulo. Começa a ferver palavrão, como numa cena de teatro do Pinter, e o tipo em três tempos já está à beira do meu "roditas" a preparar-se para me moer. Felizmente, os vidros estavam fechados, mas apressei-me a carregar no trinco, último reduto que me separava da fera, do seu hálito ácido e corrosivo, e da sua massa de sebo vociferante e ameaçador.
Ele queria mesmo que eu saísse do carro para me desferir umas murraças valentes.
Era esse o meu castigo por não lhe ter dado prioridade, e por o ter desafiado a avançar os últimos cinco centímetros para cima do meu móbil. Era um castigo merecido, convenhamos...
Afinal, eu atrevera-me a entrar no seu território, o território da selva urbana, que é propriedade do ogre taxista.
Intuitivamente, com toda a confessa cobardia do mundo, pisei o acelerador e pus-me a milhas.
Aquilo iria acabar mal, compreendam-me... Já estavam espectadores na rua! É incrível, mas segundos antes era o deserto texano naquelas ruelas de Lisboa. Assim que cheirou a molho, era vê-los a chegar aos quilates!
E eu pensei para mim mesmo: "Testemunhas!? Massacre ao vivo com plateia!? Nada disso!". E pus-me ao fresco.
Sou cobarde. Pronto. Não se discute mais isso...
Momentos mais tarde, já mais refeito do episódio, tive que reconhecer que, de facto, eu violara uma regra de trânsito e agira sem prudência. E ponderei uns momentos sobre a eficácia punitiva deste ogre: eu, condutor incauto e criminoso, aprendera a minha lição. Para quê desperdiçar recursos em polícia de trânsito quando poderíamos ter apenas ogres destes?
E imaginei uma acção deste tipo em França. O que seriam capazes de fazer uns trezentos destes ogres largados à solta nos suburbios parisienses? Aqui fica a sugestão...
Afixado por Bernardo Motta em 7 de novembro de 2005, às 14:38
Afixadelas
Alô piquinitos...e a adivinha para hoje é: "Como se chama um conjunto organizado de fogareiros dessa estirpe ???"
Uma Ogremiação. :PPP
Afixado por jon em 7 de novembro de 2005, às 16:43
Jon,
Deus nos livre de, nalgum dia amaldiçoado da nossa vida, nos depararmos com uma "ogremiação" dessas!
Afixado por Bernardo em 7 de novembro de 2005, às 17:49
Bernardo,
Bastava que tivesses, à imagem do pretendido pelo ilustre motivo de inspiração do teu post, abandonado a viatura, com o objectivo de com ele trocares breves impressões sobre, por exemplo, o ordenamento urbano, ou as alterações recentemente introduzidas à disciplina estradal, e seguramente terias assistido àquilo que no rugby (rêibi em português contemporâneo) se apelida de formação espontânea, neste caso, ogremiação espontânea.
Com efeito, a esmagadora maioria dos estudos comportamentais efectuados sobre os hábitos do homo fogareirus, revelam que, a total inabilidade manifestada pela espécie, no que concerne a conceitos apreensíveis sem dificuldades de maior, por parte das restantes corporações profissionais, tal como sejam a cortesia ou a educação, coabitam sem qualquer dificuldade com um elevado instinto grupal, o qual aliado à invulgar capacidade de imediata mobilização dos seus membros, os tornam temidos pelas demais espécies que povoam a selva urbana, e que em função dessa característica, optam geralmente pela opção que tu doutamente seguiste. Cagar nos gaijos e seguir a marcha.
Afixado por jon em 7 de novembro de 2005, às 19:02
Tens razão, Jon, mas não deixou de ser assustador. Tudo aquilo aconteceu muito depressa, depressa demais. E o tipo não estava para grandes palavras (até porque não as saberia).
O que me parece óbvio é que uma pessoa normal não consegue construir um ímpeto de ódio assim tão depressa, em poucos segundos. Ou seja, não se tratava de uma pessoa normal, mas sim de um ogre.
Repara: o tipo, às 15h00m00 segundos ainda não me tinha sequer visto (suponhamos uma hora aproximada), e às 15h00m20s já cá estava fora do carro pronto para me sovar. Livra, que o tipo deve ter chegado às 200 batidas cardíacas em menos de 20 segundos!
No entanto, este factor não parece provocar uma redução na dimensão desta espécie. O Homo fogareirus deveria apresentar inúmeros casos de problemas cardíacos, mas não apresenta... Eles são cada vez mais, e cada vez mais furiosos!
É caso para dizer: cidadão, acautele-se. Ande sempre com o trinco do carro bem fechado. E não provoque o Homo fogareirus!
Afixado por Bernardo em 7 de novembro de 2005, às 19:33
Esta história fez-me lembrar uma aventura que também vivi com um «Fogareiro».
Não resisti a escrevê-la e a postá-la aqui:
Chama-se «O Fogareiro»:
http://rprecision.blogspot.com
Afixado por Luís G. Rodrigues em 8 de novembro de 2005, às 00:52
