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novembro 15, 2005
As filhas e os filhos da República

Foi esta a expressão usada por Jacques Chirac ontem no seu primeiro comunicado ao país desde o início dos tumultos. Curiosa, a expressão, porque há uns dias que eu ando a fazer uma leitura parecida dos acontecimentos. Eu também acho que estes revoltosos são mesmo os "filhos" da República, mas num sentido um pouco diferente do do senhor Chirac.
Vejamos...
A França trouxe-nos a inovação moderna da Revolução Francesa.
Inaugurou, portanto, a "era moderna" na Europa. Foi o raiar da aurora dessa senhora simpática de mamocas ao léu, que no entanto, gostava no início de ver rolar umas cabeças na guilhotina.
Será coincidência que a França seja, precisamente, o primeiro país da "velha Europa" a recolher os frutos da pós-modernidade? Uma pós-modernidade que é consequência directa da "modernidade" inaugurada com a Revolução Francesa?
Isto de jogar às causas e consequências é jogo perigoso, porque não podemos cair em generalizações ou falsas causalidades, mas dá que pensar...
Mudando um bocado de ponto de vista, fala-se muito hoje em dia do controlo dos fluxos migratórios, dos chamados "problemas das etnias" e da integração dos estrangeiros.
Ou seja, faz-se cada vez mais o jogo das ideias imbecis da extrema direita e dos adeptos da "higiene racial"!
O que mais me pasma é que bastaria olhar (e é só um exemplo) para o vizinho Reino Unido, país que pulula de indianos que no entanto estão perfeitamente integrados e prosperam, para nos apercebermos que o problema não está nas etnias nem nas comunidades estrangeiras. E não se confunda a heterogeneidade cultural com a formação de "ghettos"!
As comunidades estrangeiras podem coexistir em grupos relativamente fechados, como forma de preservação da sua cultura, e no entanto estarem economica e laboralmente integrados no seu país de acolhimento!
O problema, a meu ver, está na própria França e nos frutos que está a colher de três séculos de opções ideológicas desastrosas...
Apesar de as causas para estes fenómenos serem muitas e variadas, também estamos a assistir a uma das consequências da campanha do "tira o véu" lançada recentemente em França pelos extremistas da laicização forçada. Juntem a fome e o desemprego à proibição dos símbolos religiosos (intolerância pura e dura) e depois queixem-se da falta de "francesismo" dos imigrantes!
Afixado por Bernardo Motta em 15 de novembro de 2005, às 10:26
Afixadelas
Bernardo, anda distraído quanto ao Reino Unido. Nem sequer me refiro ao fundamentalismo que alastra na sua comunidade islâmica, um problema tão ou mais sério do que em França, mas aos riots que ciclicamente afectam cidades como Birmingham, Bradford e Leeds. É coisa antiga.
Afixado por caramelo em 15 de novembro de 2005, às 12:24
Caro "caramelo",
O meu post pode dar a ideia enganadora de que tudo vai bem no Reino Unido no que toca aos imigrantes.
Falei no caso específico da comunidade indiana, que me parece ser cooperante e bem integrada. Admito não estar estar bem informado, porque não sabia de desacatos envolvendo esta comunidade. Quando vou ao Reino Unido (o que não é assim muito frequente, confesso), costumo ver muitos indianos aparentemente integrados, a trabalhar com dedicação e a falar um inglês correcto. Transmitiram-me a ideia de uma comunidade integrada.
O caso islâmico é mais bicudo. A Al-Qaeda sabe exactamente onde recrutar, e tem uma influência considerável no Reino Unido, como em quase todos os grandes países europeus, como é o caso da Alemanha, por exemplo.
Penso que o uso da palavra "fundamentalismo" é sempre enganador e inadequado. Por fundamentalismo deveriamos entender "adesão a fundamentos", ou por outras palavras, uma forma rigorosa de ver a religião como ela está definida, ou seja, no caso das religiões abraãmicas, com base na tradição e nos textos sagrados. Talvez a palavra ideal seja "fanatismo", mas convenhamos que a influência nefasta da Al-Qaeda nos países da Europa Ocidental não serve para provar a inadequação das comunidades islâmicas à vida profissional integrada nos países ocidentais. A Al-Qaeda é um fenómeno recente. O que sucede, infelizmente, é que o circo mediático tende a aproveitar a boleia do terrorismo fanático para rotular de instável e perigosa toda e qualquer comunidade islâmica.
Há que separar bem as águas.
O caso francês, a meu ver, não é facilmente equiparável a outros casos. Este fenómeno não é indissociável de uma desagregação e de uma erosão do próprio tecido social francês a todos os níveis. E isso faz com que as pressões sociais rebentem precisamente no ponto mais frágil: o dos menos integrados.
Outra coisa totalmente diferente é a influência de uma rede terrorista como a Al-Qaeda, que motiva desacatos entre culturas diferentes como forma de manter um estado de instabilidade política e insegurança generalizada.
Repito o que me parece essencial: não podemos deixar este debate descambar para a defesa do controlo apertado dos fluxos migratórios, porque a meu ver o problema não está nas pessoas que vão trabalhar para fora dos seus países de origem! Em França, os desacatos não surgiram de gangs que vieram de fora apenas para participar nos desacatos. Não se trata de agitadores financiados pela Al-Qaeda, sequer! Falamos, sobretudo, de pessoas jovens, descontentes, cujos pais trabalham em França há largos anos.
Se a paz foi possível na geração anterior, é significativo que tenha deixado de ser possível com a geração actual.
Fico na minha: esta crise tem a ver com o próprio tecido social francês, e pode ter como causas, entre outras, as políticas de "zelo laicista" extremo seguidas pelo governo Francês.
Mas não pode, contudo, ser equiparada aos desacatos motivados por influências do terrorismo (erradamente) dito "islâmico".
O terrorismo não é islâmico porque o Islão não promove o terrorismo. Da mesma forma que seria errado falar em "terrorismo católico" no caso dos atentados do IRA, por exemplo, apenas porque eram perpetrados por católicos.
Afixado por Bernardo em 15 de novembro de 2005, às 15:03
Eu escrevi:
"O terrorismo não é islâmico porque o Islão não promove o terrorismo."
Antes que venham os anti-muçulmanos da praxe, convém esclarecer o que eu quis dizer com isto. O conceito de Islão está bem definido, e está apoiado em fortes princípios doutrinários e morais. Se um qualquer líder de um país islâmico decide financiar grupelhos terroristas e atentados suicidas, ele não está a apoiar nem a representar o Islão, está a apoiar o terrorismo. Por outras palavras, quem financia qualquer tipo de terrorismo não está em sintonia com o Islão. A "jihad" significa literalmente "esforço". Há dois contextos para a palavra: a "grande guerra santa" ("jihâdil-akbar"), que é a luta travada no interior o ser humano contra aquilo que o prejudica e desvia do bom caminho. Este primeiro contexto é plenamente espiritual. O segundo contexto, esse sim, é temporal. No contexto da "pequena guerra santa" ("jihâdil-açghar"), é justificável a acção violenta como forma de defesa face a agressores externos. É evidente que um conceito como "defesa face a agressores externos" presta-se a todo o tipo de interpretações abusivas preconizadoras da violência terrorista, mas quem as faz está em total incompatibilidade com o Islão e com o espírito dos ensinamentos do Profeta.
Afixado por Bernardo em 15 de novembro de 2005, às 15:15
Bernardo, apenas lhe quis dizer que a Inglaterra não é exemplo em termos de integração de emigrantes, ou das suas comunidades étnicas. Pareceu-me, talvez erradamente, que era esse o seu ponto principal. O Bernardo deu o caso dos Indianos na Inglaterra. Em contrapartida, poderia eu dar o exemplo da comunidade portuguesa em França. Ambas estão bem integradas, por diversas razões. Eu nunca fui a Inglaterra, mas tenho lá família há longos anos. A propósito, o problema do racismo em Inglaterra é bem real. Um racismo mais ostensivo nas classes baixas, e um racismo mais subtil, ao nível da discriminação social, nas classes altas. Familiares meus, ingleses, por afinidade, dizem-me muito naturalmente que os indianos não são ingleses, mesmo aqueles que lá nasceram, e ponto final. Não me parece que a desagregação social seja maior em França que em Inglaterra. Nisto, acho que não tem razão. No resto, dou-lhe razão.
Afixado por caramelo em 15 de novembro de 2005, às 15:27
Pois a vossa discussão é interessante e cuidadosa. Coisa rara nestes tempos de grandes convencimentos e poucas convicções.
Não posso concordar com o Bernardo quando diz que a situação na Inglaterra é melhor do que em França. Porquê? Porque ainda não explodiu?
Talvez só por isso.
No Reino Unido o número de residentes muçulmanos é de 1,6 milhões que corresponde a 2,7 % da população.
Em França, é de 5 milhões e de 8,3% do total!
No RU a integração pura e simplesmente não foi feita. Os muçulmanos e outros imigrantes continuam completamente afastados da sociedade inglesa. Podem ter muito dinheiro, isso podem, mas continuam afastados de qualquer integração.
Depois, a origem desses imigrantes, o seu nível cultural e económico é em muitos casos incomparável com os magrebinos que chegavam a França e que em muitos casos não falavam sequer um francês aceitável. A imigração para Inglaterra foi feita a partir, maioritariamente de países anglófonos e com algum poder económico.
São dois casos incomparáveis.
Julgo até que a França foi a que tentou de facto integrar os imigrantes e os franceses de 2ª e 3ª geração. Tentou e pelos vistos falhou redondamente.
O que me pergunto é se esta integração é compatível com uma economia em queda e com os primeiros desempregados - os que primeiro perdem o emprego ?
Nada disto tem a ver com terrorismos ou Al-Qualquer-Coisas.
Isto é economia pura e dura.
Não se trata de nehuma guerra santa e nada tem a ver com véus.
Pode ser agravado pela intolerância religiosa, isso pode. Mas a base , a razão primeira, são as condições materiais em que vive essa população segregada e abandonada à sua sorte!
Abraço
Afixado por Manuel Ferrer em 15 de novembro de 2005, às 18:20
Bom Dia Bernardo. O extremismo "islâmico" está, sem dúvida, a alimentar a violência e a desadaptação quase ancestral dos magrebinos. Mas está longe de constituir o único motivo. Outro dia, ouvi um conceituado economista francês a afirmar algo de fantástico, que me fez olhar para o problema de uma forma radicalmente diferente: "Se a Europa quer realmente travar o desvio do investimento económico para o Leste e a China, terá de baixar significativamente os salários dos operários e os impostos sobre as empresas". Meu caro, um destes dias não são só os magrebinos a incendiar carros...
Leste a "Globolândia"? Já faltou mais para lá chegarmos...
A Europa tem que arranjar uma solução económica e política para os imigrantes que contratou como mão de obra barata. Isto de ser escravo num país de ricos não agrada durante muito tempo, mesmo quando se é "convidado".
Afixado por bluegift em 16 de novembro de 2005, às 09:22
Bom dia Bernardo Motta!
Não sei porque os dirigentes do mundo querem passar para a República os seus fracassos? De repente ninguém responde por nada mais.
Talvez Jacques Chirc esteja dizendo: "Olhe quanto fui bonzinho mantendo um governo do povo, pelo povo e para o povo, tanto é que todos estão podendo se expressar livremente como fruto de uma verdadeira república democrática". O vergonhoso, meu caro amigo, é que muita gente acredita, pois ninguém vai questionar as falhas do governo ou quem realmente se beneficia com toda essa situação.
Temos que acordar para o mundo que nos rodeia. A globalização está permitindo aos habitantes do planeta terra presenciarem a derrocada do modelo perfeito de avanço e modernidade, só que, esse modelo é excludente e cruel, não sabemos mais quem governa o mundo ou onde irá explodir a próxima rebelião e, isso está acontecendo em todos os meios sociais do mundo inteiro. Não temos garantia de mais nada, só o pensamento do homem resiste as violações e ainda mantém sua dignidade mesmo assim a muito custo e dores porque há sempre alguém querendo matá-lo.
O mundo tem que acordar para esses pequenos conflitos que estão povoando a humanidade e vai se instalando sem pedir licença, atiçando a imaginação dos ignorantes de todas as formas; não é só ignorância de um conhecimento elaborado, mas, de falta de conhecimento de si mesmo e da sua capacidade de transformar qualquer coisa no mundo.
Afixado por Elvira em 16 de novembro de 2005, às 11:47
Olá Bernardo,
Concordo mais ou menos consigo, quando fala que França nunca teve políticas de integração. Digo mais: França nunca foi um país aberto. A mentalidade francesa é, na sua génese, profundamente xenófoba e racista. No outro dia, alguém lembrou-me da recusa do de Gaulle em diferenciar crimes de guerra, de crimes cometidos por motivos racistas, aquando do julgamento de nazis. Lembrou, também, da completa submissão de Vichy ao Nazismo, no que tocava à limpeza étnica. É profundamente demonstrativo do pensar francês (aliás, a campanha de “tira o véu”, como chama, não é tanto uma medida de laicização, mas uma tentativa – mais uma – de destruição cultural. França não sabe lidar com a multiculturalidade, pois sempre esteve encerrada em si própria e as únicas espreitadelas que deu ao Mundo, foi na tentativa de o conquistar). No que toca à comunidade portuguesa que, alegadamente está bem integrada, existem algumas diferenças: antes de mais, a tez dos portugueses não difere muito dos franceses, depois, não houve integração, houve assimilação. Os portugueses “desapareceram” no meio da sociedade. Saíram dos bairros pobres (à custa do seu trabalho) e quando deixaram de apenas fazer os trabalhos que os franceses não queriam, foram assimilados. Veja-se que até grande parte da dita 2ª geração não sabe falar português. E digo mais, foi forçada a isso (lembremo-nos das piadas xenófobas e ofensivas com que brindavam os portugueses).
Mas França tem outros problemas. Efectivamente o modelo social francês está a falir, o que significa que a protecção social começa a dar sinais de fracasso. Os jovens, que hoje recebem subsídios, receiam pelo futuro. Em contraposição com a Inglaterra, cujo modelo social (porque existe, convenhamos), está pujante, firme e recomenda-se.
Mas não concordo consigo, sobre o querer dizer que este fenómeno “ficará” em França. Este país é o laboratório europeu da política. Tudo o que ali aconteceu foi sempre transposto para a restante Europa. Por isso, acho que devemos ficar vigilantes.
Por outro lado e apenas para finalizar, eu, ao contrário de todos os intelectuais de esquerda, tento não ser estruturalista, pois acredito na autonomia do indivíduo. Por isso, acho que muitos dos jovens que por ali andavam, mais não eram do que simples vândalos, criminosos, delinquentes. E os outros, na sua maioria, foram arrastados para aquelas práticas (psicose de massa?). Porque convenhamos: que posição queremos marcar enviando um carro contra um jardim-de-infância? Que a Branca de Neve é a culpada pelo racismo francês? Convenhamos...
Afixado por Sancho em 17 de novembro de 2005, às 10:13
Caro "caramelo",
As minhas desculpas pelo atraso, mas tenho tido uma vida muito complicada nos últimos dias. Cá vai uma resposta atrasada:
«Bernardo, apenas lhe quis dizer que a Inglaterra não é exemplo em termos de integração de emigrantes, ou das suas comunidades étnicas. Pareceu-me, talvez erradamente, que era esse o seu ponto principal.»
Bom, considere o que eu escrevi mais como uma "boca opinativa", do que uma opinião fundamentada. O que disse foi apenas baseado naquilo que me pareceu ver nas poucas vezes que fui a Londres (o que é muito pouco significativo, convenhamos).
«Ambas estão bem integradas, por diversas razões.»
Bom, aqui discordamos, mas eu passo a palavra ao amigo Sancho, que aqui em cima respondeu bem melhor a essa questão do que eu poderia responder. Eu partilho o ponto de vista do Sancho.
«Não me parece que a desagregação social seja maior em França que em Inglaterra. Nisto, acho que não tem razão. No resto, dou-lhe razão.»
Bom, eu percebo o seu ponto de vista.
Mas refiro-me, novamente, ao comentário do Sancho. A França é, de facto, o "laboratório europeu da política". Eu, aliás, não acrescentaria nada ao que disse o Sancho, de tal forma me revejo na sua opinião.
É nesse sentido, o explicitado pelo comentador Sancho, que eu vejo a França como um caso particular. Em suma, o que vimos nas televisões só poderia ter acontecido primeiro em França...
Cumprimentos,
Afixado por Bernardo em 17 de novembro de 2005, às 14:30
Caro Manuel Ferrer,
Reitero os mesmos pedidos de desculpas pelo atraso na resposta.
«Pois a vossa discussão é interessante e cuidadosa. Coisa rara nestes tempos de grandes convencimentos e poucas convicções.»
Pelo menos tentamos! ;)
«Não posso concordar com o Bernardo quando diz que a situação na Inglaterra é melhor do que em França. Porquê? Porque ainda não explodiu?
Talvez só por isso.
No Reino Unido o número de residentes muçulmanos é de 1,6 milhões que corresponde a 2,7 % da população.
Em França, é de 5 milhões e de 8,3% do total!»
Veja, eu não tenho certezas nem digo que o Reino Unido é o paraíso da integração. Se deixei passar essa ideia, retiro-a agora. Há uma nítida diferença, complicada de definir, com o caso francês, conforme comentei atrás.
«No RU a integração pura e simplesmente não foi feita. Os muçulmanos e outros imigrantes continuam completamente afastados da sociedade inglesa. Podem ter muito dinheiro, isso podem, mas continuam afastados de qualquer integração.»
Mas o que entende por integração?
Eu sou da opinião que um imigrante, que entra num país à procura de subsistência material, pode e deve manter a sua cultura. Inevitavelmente, surgem "bairros étnicos", onde as pessoas se juntam como forma de preservar a sua cultura. Quando há sucesso profissional e financeiro, isso é bom. Eu não acho interessante, por exemplo, que os indianos no Reino Unido abandonem as suas crenças. Eu já os considero integrados se trabalharem, receberem os seus ordenados e pagarem os seus impostos. Isso para mim, sem desacatos nem atritos culturais, é que é integração. E se eles quiserem fazer as suas escolas hindus (privadas, bem entendido), melhor ainda!
Em França, "integração", é laicização. Perda de identidade religiosa, que no caso muçulmano ainda significa perda de identidade cultural, e tudo o que isso acarreta de preconceito e de rejeição.
«Depois, a origem desses imigrantes, o seu nível cultural e económico é em muitos casos incomparável com os magrebinos que chegavam a França e que em muitos casos não falavam sequer um francês aceitável.»
Sem dúvida que o imigrante deve falar a língua do país que o acolhe. Mas deve ser protegido o seu direito a manter a sua língua mãe. Como se disse atrás, é triste que os emigrantes portugueses em França vão perdendo o hábito de falar português.
«São dois casos incomparáveis.»
A comparação é difícil mas não impossível.
Repito: o Reino Unido não é um caso perfeito. O meu ponto de vista era apenas o de tentar discutir o que é ou não integração. Em França, não há vontade de verdadeira integração. Há vontade de ver os imigrantes a alienarem-se da sua cultura, para se tornarem "franceses" inócuos, "peças de trabalho" caladas e subservientes, de preferência sem qualquer manifestação exterior da sua cultura, língua e/ou religião. Isso é intolerável.
«O que me pergunto é se esta integração é compatível com uma economia em queda e com os primeiros desempregados - os que primeiro perdem o emprego ?»
Não me pergunte a mim! Não percebo grande coisa de economia...
«Nada disto tem a ver com terrorismos ou Al-Qualquer-Coisas.»
Estamos de acordo. Mas os "media" aproveitam para misturar as coisas, porque convém arranjar um bode espiatório. Fazer dos "maometanos" os maus da fita...
«Isto é economia pura e dura.»
Também não iria tão longe.
É um problema complexo e matizado.
Cumprimentos,
Afixado por Bernardo em 17 de novembro de 2005, às 14:39
Blue,
«Bom Dia Bernardo. O extremismo "islâmico" está, sem dúvida, a alimentar a violência e a desadaptação quase ancestral dos magrebinos.»
Mas, minha amiga, reconheces que a culpa não está no Islão, mas sim no aproveitamento que dele é feito por grupos facínoras como a Al-Qaeda?
«Mas está longe de constituir o único motivo. Outro dia, ouvi um conceituado economista francês a afirmar algo de fantástico, que me fez olhar para o problema de uma forma radicalmente diferente: "Se a Europa quer realmente travar o desvio do investimento económico para o Leste e a China, terá de baixar significativamente os salários dos operários e os impostos sobre as empresas". Meu caro, um destes dias não são só os magrebinos a incendiar carros...»
É verdade, Blue. Por isso dizia eu atrás que o problema é complexo. Não é apenas religioso, nem apenas cultural, nem apenas linguístico ou étnico, nem apenas económico. É isto tudo junto!
«Leste a "Globolândia"? Já faltou mais para lá chegarmos...»
Não, não li. O que é?
(desculpa a minha ignorância)
Abraço,
Afixado por Bernardo em 17 de novembro de 2005, às 14:46
Cara Elvira,
«O vergonhoso, meu caro amigo, é que muita gente acredita, pois ninguém vai questionar as falhas do governo ou quem realmente se beneficia com toda essa situação.»
Bom, eu acho que já quase ninguém acredita nestes discursos bonitos e ocos com o de Chirac.
Na minha opinião, o modelo democrático é um modelo teórico (válido ou não, eu acho que a sua validade é discutível) de difícil aplicação prática.
Há quem diga que a democracia é o ideal, mas é mal aplicada. Sem dúvida que eu acho que ela é mal aplicada, mas eu vou mais longe. Sou extremamente crítico do modelo democrático, e não o acho o melhor modelo possível. Porque tem muitos erros, mesmo teóricos, quanto mais na sua aplicação prática. Isto é polémico. Eu não tenho soluções, tenho apenas críticas.
Acho que é tempo de se olhar a sério para o mundo que se globalizou, e pensarmos se o modelo dito "democrático" que está em uso, juntamente com uma economia relativamente liberalizada, é mesmo o melhor para todos.
Concordo plenamente com as suas palavras finais!
Cumprimentos,
Afixado por Bernardo em 17 de novembro de 2005, às 14:51
Caro Sancho,
O seu comentário reflecte exactamente o que eu penso. Sobre a sua objecção à ideia de que isto ficará em França, você tem razão. A França exportou a "revolução" para vários países, e em consequência disso, monarquias milenares caíram que nem castelos de cartas, numa reacção em cadeia.
Pode acontecer o mesmo outra vez.
O meu texto inicial é equívoco. Queria dizer que, se tivesse que adivinhar isto antes de acontecer, se me perguntassem em que país ocidental europeu é que poderiam começar desacatos com imigrantes, eu responderia provavelmente: "a França".
Não é difícil ser-se profeta de uma coisa destas. Como foi em França que se iniciou a desconstrução do modelo social herdado da medievalidade (que por sua vez já fora profundamente alterado durante o Renascimento, em torno fundamentalmente da questão da disputa de autoridade entre o Papado e as Coroas), teria que ser França o país a liderar a "nova era", e automaticamente o país a recolher os frutos destas opções ideológicas, que eu vejo como desconstrutivistas e estéreis a longo prazo.
Se calhar, aqui já não partilha da minha opinião, Sancho, mas eu vou um bocadinho mais longe. Foi em França que pela primeira vez o poder real desafiou de forma perigosa e revolucionária o poder papal. No século XIV, o monarca Filipe IV, o Belo, tomou medidas contra o Papado que envergonhariam o monarca britânico Henrique VIII! ;)
Filipe IV atreveu-se a maltratar fisicamente um papa, Bonifácio VIII. Neste século recuado, deu-se o primeiro passo contra o tradicional modelo da sociedade medieval (não falo necessariamente em feudalismo, mas sim num modelo estratificado da sociedade, em que a espiritualidade ocuparia o lugar mais alto na hierarquia).
Por isso, se virmos bem a História, a França esteve sempre "à frente" (pela negativa, na minha opinião) desde o século XIV. Se recuarmos ainda mais, curiosamente a França esteve também na liderança quando foi o primeiro reino bárbaro europeu a aliar-se fortemente com o cristianismo romano, com o monarca franco Clóvis.
Não é que a História se repita em absoluto, porque eu acredito que a realidade nunca se repete. Mas seguramente que existem cadeias de causalidade, mais ou menos fortes, no tecido histórico. Temos a tendência para considerar que a História começa sempre do zero a partir mais ou menos da nossa contemporaneidade. Isso é um erro. Há sempre "balanço" histórico que vem de trás.
Cumprimentos,
Afixado por Bernardo em 17 de novembro de 2005, às 15:02
Não, Bernardo, concordo que a culpa não é propriamente do Islão, como não era dos cristãos durante os anos negros da inquisição. A culpa é do Homem que passa a vida a entreter-se com guerras de poder.
O livro fala de um mundo onde os países desenvolvidos (europa, américa do norte, japão)vivem em cúpulas de vidro, com todas as comodidades e super-protecção (clima controlado etc, o "paraíso"), e os países pobres vivem no exterior, num ambiente poluído, sendo treinados para a guerra e para trabalhar para os ricos. Será esse o caminho da Humanidade?
Afixado por bluegift em 20 de novembro de 2005, às 13:52
"Será esse o caminho da Humanidade?"
Seguramente que não, Blue, seguramente que não...
Afixado por Bernardo em 21 de novembro de 2005, às 09:57
