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novembro 19, 2005
Ás vezes, sinto-me a viver a vida de um saltimbanco.
Mas sinto, só. Como um facto. Não sou capaz de fazer julgamentos sobre ele. Ou melhor, os julgamentos que faço mudam a cada dia, não consigo perceber aquilo que realmente sinto. Por um lado, anseio pela mudança, por outro lado temo-a.
Esta semana já passei pelos dois extremos de me sentir finalmente em casa em Colónia, pela primeira vez, e de odiar a cidade e a minha vida aqui. Porque é tão difícil. Tão difícil abrir a caixa do correio e encontra-la cheia de cartas que não consigo ler (a maior parte são contas, qualquer dia vou presa), um esforço tão grande tentar comunicar, tão difícil ter uma vida normal. Não devia ser assim tão difícil. Depois há um vizinho que me diz bom dia, saio de casa num dia gelado de sol e o rio está mesmo ali, a noite chega com uma lua vermelha e tiro fotografias do reflexo na água, o transito na ponte embala-me com a sua tonalidade aquática, e sinto-me em casa.
Já tenho saudades para quando partir, e já penso no alívio que vai ser. Não sei.
Esta semana estive em Bruxelas, e passei pelo meu velho apartamento. Foi uma sensação estranha, como reencontrar o meu velho eu. Como voltar a casa. Como se todos estes lugares de alguma forma fizessem parte de mim, como se me ficassem gravados, e eu, ou uma impressão minha, gravada neles. Como se a minha memória de mim tivesse uma dimensão espacial.
Olho para trás, e parece-me que é assim. Todos estes sítios são ainda parte de mim. E sinto-me dividida, espalhada por todos eles. Dentro e breve não saberei onde ir para encontrar-me.
Quantas casas se pode ter? Quão perdida estou de mim se me encontro em todo o lado?
Afixado por M. Butterfly em 19 de novembro de 2005, às 23:36
Afixadelas
Olá M. !
Mas a vida de saltimbanco tem muitos encantos… Bom, quando a barraca do saltimbanco é de pedra e cal com aquecimento, tá bom de ver. A tua vida não se pode queixar de marasmo, monotonia, conformismo, rotina, todas essas coisinhas chatas das pessoas que picam ponto das 9 às 5.
E voltar a Bruxelas deve ser realmente”voltar a casa”. É bom, não é? Re-encontrar os velhos hábitos ( se é que alguma vez foram “hábitos”) mas com mais experiência. Tenho uma amiga “pior do que tu” que nunca poisou muito tempo no mesmo sítio, e costumo brincar com ela dizendo que é como as plantes que têm raízes aéreas. Mas não acho nada que seja o teu caso – as tuas raízes estão bem na terra.
Um abraço.
Afixado por ML em 20 de novembro de 2005, às 12:31
Butterfly, todas essas terras passaram a ser também tuas. Um dia o teu coração vai sentir em qual delas poisar durante mais tempo.
Eu só sei que não quero ficar aqui toda a vida, mas até voltar a Portugal outros terras, outras casas, vão fazer parte da minha história. Se assim não fosse, que estórias interessantes terias tu para contar aos teus netinhos? ;).
(continuo a achar que a "paisagem" é melhor em Colónia :D mas aqui também não se está mal...)
Afixado por bluegift em 20 de novembro de 2005, às 12:45
Obrigada, ML e Blue.
Eu sei todas essas coisas, nao me queixo da falta de rotina, etc, mas... Ha dias estranhos.
Um beijo para voces.
Blue, a "paisagem" aqui é gira, tens razao. Mas é tudo uma miragem...
Afixado por M. em 20 de novembro de 2005, às 13:34
A mim acontece-me o mesmo. Tenho apenas um lugar que permanece sempre meu: o sítio onde sempre passei férias grandes (e onde vivi durante algum tempo). A paisagem não permanece igual, nem tampouco as casas saõ as mesmas, mas tenho a sensação de que pertenço àquele lugar geográfico. Mas aos poucos vou sentindo que alguns locais que habitei voltam a ser, um pouquinho, a minha casa.
Afixado por susana em 20 de novembro de 2005, às 16:51
Ouça lá, então a menina anda a tirar fotos ao reflexo do Reno ao entardecer e não posta aqui nenhuma?!
Afixado por gibel em 20 de novembro de 2005, às 17:03
Bruxo, Gibel, tens toda a razão.
Afixado por susana em 20 de novembro de 2005, às 18:21
