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novembro 29, 2005
Cruxi Afixações - Cruzes e Quadros

Estudei em escolas públicas. Com e sem crucifixos. (doravante cruzes, por razões de economia tecleira)
Para os que não viveram a primeira das experiências, informo que as tais representações de Cristo se localiza(va)m invariavelmente por cima do Quadro. Quando falo em Quadro, não me refiro obviamente ao dos fusíveis, mas ao outro, aquele onde o Mestre transmite o saber, ou a vontade de aprender aos instruendos.
Quadro! Assim com maiúscula! O símbolo das escolas. Tudo o resto varia de um estabelecimento para o outro. Uns têm carteiras, outros mesas, outros devem ter coisas mais modernas, que eu desconheço, Uns têm bancos, outros cadeiras, mas Quadro todas têm.
Não sendo versado em ciências psicológicas, presumo que se isto não tivesse alguma importância, eu nem me lembraria tão nitidamente de tal imagem.
Imagino que o pensamento mais elaborado que, na altura, tive sobre tal simbologia, tenha sido do tipo...
Em baixo, no Quadro, o que é certo, aquilo que temos que saber, o que os nossos paizinhos esperam que aprendamos, a Verdade. Acima dele, a cruz.
De certeza que não tinha sido nenhum aluno a pô-la ali, e a professora também não, coitada. Ela mal chegava aos cantos superiores do Quadro. Aquela cruz fazia parte da escola. E estava por cima do Quadro. Não era por acaso. Acima do saber só Ele.
Esta lengalenga toda, para tentar situar a minha posição relativamente à polémica.
Não.
As escolas não devem ter símbolos religiosos que sejam parte integrante da escola. Não devem, por uma razão de igualdade. Conquistar liberdades à custa da igualdade é esforço inglório e de resultados ruinosos.
Segundo a minha concepção, que salvo melhor opinião é a que está subjacente na Constituição, todos têm que ter as mesmas liberdades, e os mesmos direitos, independemente da Crença (ou falta dela). Não faz sentido falar em liberdade religiosa, se ela não existir para todas as religiões.
Apliquemos ao caso concreto. A opção a não ter símbolos religiosos nas escolas, seria ter símbolos de características dimensionais idênticas, colocados paritariamente, representativos de todas as fés que se encontrassem representadas no universo de alunos (e porque não de professores e corpo auxiliar) desse estabelecimento. Não me parece grande solução. Qualquer outra limitaria necessariamente a igualdade de direitos dos religiosamente minoritários.
Nada do que disse até agora invalida obviamente que as criancinhas expressem das formas que tiverem por convenientes as suas crenças, ou as que lhes foram incutidas. Seja através da indumentária, ou das suas criações artísticas. Tão elementar é o direito de desenhar Pais Natal, ou Budas ou seja o que for, como o de poder recusar fazê-lo.
Também não acho que defender que os tais símbolos sejam retirados da mobília escolar das escolas públicas colida de alguma forma com o direito de cada indivíduo a poder usar cruzes, burkhas, turbantes, de fazer peças de natal, ou do festejar o Hannukah. Basta que não se imponha nada, não se obrigue a nada, e se permita a cada um expressar-se da forma que prefere. E isto serve, obviamente para outros campos que não o religioso.
Isto tudo para dizer que as escolas deviam aprender com os pais do Gibel e limitar-se a proporcionar aos alunos, aquilo de que eles realmente precisam "uma boa biblioteca, autonomia nas decisões, liberdade de espírito".
À escola não cabe direccionar, apenas mostrar os caminhos. E não é isso que acontece quando o Crucifixo está acima do Quadro.
Afixado por Jon em 29 de novembro de 2005, às 00:03
Afixadelas
Quadro não, Jon. Ardósia!!!
E o crucifixo estava lá, como muito bem escreveste, para relembrar quem "mandava", não fosse algum mortal ter veleidades de ambicionar a sabedoria e a perfeição. Além disso, recordava os penitentes miúdos que se sofre na Terra para alcançar o Céu, como Ele.
Ainda há dias, numa primeira comunhão, ouvi as crianças todas a "pedir perdão" pelas suas falhas, erros e "oportunidades perdidas". Perdão, imagina. Só se foi por falharem um penalty na futebolinca do recreio escolar. Ou por serem do Sporting, por exemplo - assim justifica-se, como é o triste caso do Rogério.
O medo... sempre o medo...
Afixado por Mário Cordeiro em 29 de novembro de 2005, às 00:43
Aqui há cerca de 60 e tal anos houve um governo, na Europa, que também tinha cruzes em cima dos quadros das salas de aulas. Não me recordo era do nome, nem do país, nem das cruzes...
Não era Portugal. em Portugal o que havia era o S do cinto dos calções, na farda da Mocidade Portuguesa, que não queria dizer Salazar, mas sim Servir, como pressurosamente os chefes de (es) quina nos recordavam na primeira sessão (a primeira e a única que tive, porque um grande Reitor, chamado Jaime Leote, decidiu acabar com aquela palhaçada no Liceu Pedro nunes, no ano da graça de 1966 e correr com os chefes de quina, de castelo e todos essas aventesmas).
Acho que as ditas cruzes do tal país também começavam por S... e não eram muito tolerantes com as religiões, designadamente uma certa...
Afixado por Mário Cordeiro em 29 de novembro de 2005, às 00:50
Mário, quando eu era colega (embora mais nova) da tua colaboradora do blogue da criançada, não me lembro de alguma vez ver crucifixos nas salas de aula. E o colégio estava inserido num convento católico! Mas não era português, claro. É a mentalidadezinha: orgulhosamente pequeninos de espírito, casmurros, mas felizes. Não dá para mais...
Afixado por bluegift em 29 de novembro de 2005, às 09:29
O norte da Europa sempre foi diferente. Puritanos, especialmente quando protestantes, mas púdicos. E há uma diferença substantiva entre as duas coisas.
E, curiosamente, nesses países é a "comunidade" quem mais ordena - quando o PP fala da "comunidade", arroga-se de uma voz que duvido que seja a sua.
Só espero, no entanto, que esta história dos crucifixos não sirva para se fingir que se fez alguma coisa e para levnatar poeira em relação aos verdadeiros problemas da escola.
Sugiro a leitura de um artigo do Eduardo Sá, precisamente no Blog Sindicato das Crianças, sobre a Escola.
Afixado por Mário Cordeiro em 29 de novembro de 2005, às 10:02
Exacto. Quem queira o símbolo, pode sempre usá-lo pendurado num fio ao pescoço, ou noutra forma qualquer, de acordo com as liberdades individuais.
Afixado por susana em 29 de novembro de 2005, às 19:34
Susana, é um problema de respeito pela liberdade individual. Já agora, para bem fingir que se respeita a liberdade individual, podem acrescentar um zé povinho a fazer manguito bem ao lado do crucifixo, fica assim respeitada a diversidade do grupo...
Afixado por bluegift em 30 de novembro de 2005, às 09:25
